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Um voo cego a nada

Reinaldo Ferreira



Livro I - Um voo cego a nada


Nota explicativa

Reinaldo Ferreira projectara publicar um livro, pouco antes de ser atingido pela doença que lhe trouxe a morte. Tal livro teria o título, já escolhido, de «Um voo cego a nada» e incluiria os poemas aqui reunidos que o autor separara em índices, alguns até já com subtítulos.

A designação de «Um voo cego a nada» foi o autor buscar a um verso do poema que começa por «Eu, Rosie, ...» e que chegou a ser publicado com o título de Dancing with Rosie (a taxi-girl).

Obedece, pois, esta primeira parte da obra de Reinaldo Ferreira, inteiramente, às suas determinações, com excepção da exclusão de três poemas, na série «Algumas breves poesias de amores fictícios»: o poema que começa por «Frio, tão frio tudo» - que não se conseguiu encontrar - e dois outros que o autor deixou sem indicação alguma e apenas se sabe que se localizavam a seguir ao poema que começa por «Não ponho esperança em mais nada».


1) As poesias da tarde


Desde quando alguma vez anoiteceu

Desde quando alguma vez anoiteceu E à angústia de que a terra se cobriu Só pasmo nas esferas respondeu; Desde quando alguma flor emurcheceu E a criança que válida se ria De repente calada apodreceu; Desde quando a algum estio sucedeu Um outro outono e a árvore se despiu E a primeira cabeça encaneceu; Desde quando alguma coisa que nasceu Sem que o pedisse, sem remédio se degrada E acaba, sob a terra que a comeu, Dispersa entre os átomos dispersos, Se acumula a tristeza deste dia E a razão destes versos.

Na tarde morna

Na tarde morna Passeio a culpa e quem sou, Ai quem sou! diz que não torna Ao pecado que pecou... Para o sossego na meiga tarde, e quem sou, Ai quem sou! quer o aconchego Que para sempre emigrou. A noite cai, Venenosa, e quem sou, Ai quem sou! esboroa e esvai A certa voz que o chamou. E eis cumprindo Os dois destinos, quem sou, E quem sou?... A morte vindo Com qual dos dois é que vou?

Que domingo solene, ocioso e lasso

Que domingo solene, ocioso e lasso! Tão triste; o sol inunda a tarde toda, Festivo como um guizo numa boda Onde a noiva morreu, desfeita em espaço... Medeia a eternidade, em cada passo Que, sem intuito, dá quem passa; à roda Parece dormir tudo; e incomoda, Ponderável, no ar, um embaraço... Toda a tristeza do domingo à tarde. Sobe dos homens para o céu, que arde, O apego à vida dum olhar que morre. Sombras sugerem aflições incertas... E das janelas sôfregas, abertas, Morno, o silêncio como num pranto escorre...

É pela tarde, quando a luz esmorece

É pela tarde, quando a luz esmorece E as ruas lembram singulares colmeias, Que a alegria dos outros me entristece E aguço o faro para as dores alheias. Um que, impaciente, para o lar regresse, As viaturas que se cruzam cheias Dos que fazem da vida uma quermesse, São para mim, faminto, odor de ceias. Sentimento cruel de quem se afasta, Por orgulho repele, e se desgasta No esforço de fugir à multidão. Mas castigo de quem, por imprudente, Já não pode deter-se na vertente Que vai da liberdade à solidão.

Oh! tarde de sábado britânica

Oh! tarde de sábado britânica, Poema da rotina, Prodígio do bem-estar... Eu, que donde vou, latino e desgrenhado, Intenso, irregular, Apenas sei a vibração e o desânimo (O sol excessivo e a sombra opaca), Olho-te no deslumbramento De quem se banha E se deslumbra Em penumbra.

2) Algumas breves poesias de amores fictícios


Marta

Marta, Protagonista da tragédia ideada E que eu não fiz, De esperara que eu a criasse, No meu intuito adormeceu feliz. Dormiam lá também o sono antigo Ilda, Miguel, A lírica Raquel, E todos quantos Acham não ser comigo. Aromas só E pó antes do pó. Agora chamo-a em vão, Como quem vê levar, E não entende, Um filho no caixão. E absurdo, alta noite, Invoco a que se esconde: Marta! Marta! Onde estás? Não sei se me ouve ou não. Mas não responde.

Na tarde erramos

Na tarde erramos, Nós, tu e eu, Mas três. Tão sós que vamos E não sou eu Quem vês. Discreto calo, P'ra que o meu senso Louves; Em vão não falo, Tanto o que eu penso Ouves. Melhor me fora Que a outro assim Levasses E, longe embora, Sòmente em mim Pensasses.

Se eu nunca disse que os teus dentes

Se eu nunca disse que os teus dentes São pérolas, É porque são dentes. Se eu nunca disse que os teus lábios São corais, É porque são lábios. Se eu nunca disse que os teus olhos São d'ónix, ou esmeralda, ou safira, É porque são olhos. Pérolas e ónix e corais são coisas, E coisas não sublimam coisas. Eu, se algum dia com lugares-comuns Houvesse de louvar-te, Decerto que buscava na poesia, Na paisagem, na música, Imagens transcendentes Dos olhos e dos lábios e dos dentes. Mas crê, sinceramente crê, Que todas as metáforas são pouco Para dizer o que eu vejo. E vejo lábios, olhos, dentes.

Nota: A.P.Braga tem uma canção (não publicada) com este poema


Que de nós dois

Que de nós dois O mais sensato sou eu, - É uma forma delicada De dizeres que sou mais velho. Ora é verdade Ser eu quem tem mais idade. Mas daí a ter juízo Vai um abismo tão grande Que é preciso, Com certeza, Que o digas com ironia E nenhuma simpatia Pelo engano em que vivo. O engano de ter rugas E nunca fitar um espelho... Vê lá tu que eu não sabia Que sou dos dois o mais velho.

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto Que hás-de fazer. Gesto, claro, é maneira de dizer, Pois o que importa é o resto Que esse gesto tem de ter. Tem que ter sinceridade Sem parecer premeditado; E tem que ser convincente, Mas de maneira diferente Do discurso preparado. Sem me alargar, não resisto À tentação de dizer Que o gesto não é só isto... Quando tu, em confusão, Sabendo que estou à espera, Me mostras que só hesitas Por não saber começar, Que tentações de falar! Porque enfim, como adivinhas, Esse gesto eu sei qual é, Mas se o disser, já não é...

Não ponho esperança em mais nada

Não ponho esperança em mais nada. E se puser Há-de ser ambição tão desmedida Que não me caiba sequer No que me resta de vida. Ambição tão irreal, Tão paranóica, tamanha Como a grandeza de Espanha Com Granada e o Escurial. Porque esta esperança que ponho Em ver-te sair um dia Da verdade para o sonho, É como ser-se feitor Dalguma herdade cansada: À terra, dá-se o melhor, A terra não nos dá nada.

De Copélia guardo três cartas melancólicas

De Copélia guardo três cartas melancólicas, Um laço e, de uma rosa Que o perfume aprendeu nos seus cabelos, Um esvaído botão. Evade-se do todo um halo a antigo, triste. Claro que Copélia não existe E as cartas também não. Só é real porque me falta. Porque a não tive creio nela e creio Na memória de quem foi no meu passado; Nos passeios furtivos que tivemos; Nos astros que pusemos Nalgum beijo trocado; Na exaltação de certa dança, alada Na sensação de que uma nuvem me enlaçasse; E na suave e pura e filtrada emoção De alguma vez que a sua mão Entre as minhas tardasse. Esta é Copélia a quem, se acaso dado fosse Nascer ou ter vivido, Rígido pai ma recusasse, Lírico mal ma arrebatasse Sem a ter possuído, Para que doutro ou morta virgem Ilesa e viva dentro de mim permanecesse.

Do campo dos mortos

Do campo dos mortos Em terra estrangeira Por onde passámos Absortos os dois, Saímos ilesos de melancolia, Por irmos tão vivos, tão livres E juntos os dois. Em vão sobre as campas Dos mortos estrangeiros Visível olvido Na terra sem rosas votivas Chamava por nós. Nós íamos indo, Felizes, felizes, E o ventre da terra Sonhava raízes À volta de nós. Nós íamos indo Na hora que, breve, passava, Vivendo-a sòmente. E a nossa presença encarnava No campo dos mortos em terra estrangeira - Passado, passado - O presente.

3) Epigramas


Ela, a Poesia de hoje

Ela, a Poesia de hoje, Como que foge De si mesma e se dói De ter sido algum dia Meramente poesia. Erra, Solitária e solene, Nos caminhos da terra, E vitupera o céu E o que ele encerra: - Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu! Canta a grilheta, a enxada E a madrugada Dos dias que hão-de-vir, E como frutos, cair Em nossas mãos... Fala no imperativo, E tem por vocativo - Irmão! Irmãos! Mas longe, E perto, porque em nós, Onde uma fonte canta Uma toada clara, Um fauno sabe e ri, Na pedra gasta e escura, Um fim de riso De ironia rara...

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendão E toque-se um clarim. Serve-se morto.

Nota: existe uma versão musicada pelos Ira! - grupo rock brasileiro


O futuro

Aos domingos, iremos ao jardim. Entediados, em grupos familiares, Aos pares, Dando-nos ares De pessoas invulgares, Aos domingos iremos ao jardim. Diremos, nos encontros casuais Com outros clãs iguais, Banalidades rituais, Fundamentais. Autómatos afins, Misto de serafins Sociais E de standardizados mandarins, Teremos preconceitos e pruridos, Produtos recebidos Na herança De certos caracteres adquiridos. Falaremos do tempo, Do que foi, do que já houve... E sendo já então Por tradição E formação Antiburgueses - Solidamente antiburgueses -, Inquietos falaremos Da tormenta que passa E seus desvarios. Seremos aos domingos, no jardim, Reaccionários.

Nota: Luciano Amaral tem uma canção (não editada) com este poema.


O essencial é ter o vento

O essencial é ter o vento. Compra-o; compra-o depressa, A qualquer preço. Dá por ele um princípio, uma ideia, Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia Dos teus melhores amigos, mas compra-o. Outros, menos sagazes E mais convencionais, Te dirão que o preciso, o urgente, É ser o jogador mais influente Dum trust de petróleo ou de carvão. Eu não: O essencial é ter o vento. E agora que o Outono se insinua No cadáver das folhas Que atapeta a rua E o grande vento afina a voz Para requiem do Verão, A baixa é certa. Compra-o; mas compra-o todo, De modo Que não fique sopro ou brisa Nas mãos de um concorrente Incompetente.

4)


Volver às rimas suaves

Volver às rimas suaves, Aos metros embaladores, Cantar o canto das aves, A aurora, a brisa e as flores... Vibrar na deposta lira Dos trovadores sepulcrais Delidas queixas d'Elvira, Zelos de bardo, fatais... Para que nessa ficção, De outras apenas diferente, Ao fogo do coração Arda a razão descontente.

Tu, Baby, ao leres um dia

Tu, Baby, ao leres um dia Meus versos - e hás-de lê-los Se durar esta poesia Mais que o sol nos teus cabelos - Mal saberás quanto neste Morto momento que passa, Porque sorrias, me encheste, Sorrindo, da tua graça. Pudesses pura ficar! Nem que, criança também, Houvesses sempre que andar Ao colo de tua mãe!

Duma outra infância, inventada

Duma outra infância, inventada, Guardo memórias que são Reais reversos do nada Que as verdadeiras me dão. Estas, se acaso regressam, Em tropel e confusão Ao limiar-me, tropeçam No corpo das que lá estão. Assim, mentindo as raízes Do meu confuso começo, Segrego imagens felizes Com que as funestas esqueço.

Regresso de parte alguma

Regresso de parte alguma Rico mais do que partira, Pois trago coisa nenhuma Sem desespero e sem ira. Agora vivo contente No meu exílio sereno; Tomei tamanho de gente E não me dói ser pequeno. Pedra parada na calma Tranquilidade dos charcos, Deixem dormir minha alma, Como apodrecem os barcos

No amplo e ermo degredo

No amplo e ermo degredo Da Noite enorme incriada, Acesso ao átrio do medo, Reverso a negro do Nada. Erra uma asa, partida, Dum qualquer pássaro morto, Que só porque erra tem vida No mar do nada sem porto. É quando passa e projecta Na Sombra sombra erradia Que nasce a mãe dum poeta E se concebe a poesia.

Na vida somos iguais

Na vida somos iguais Às peças que no xadrez Valem o menos e o mais, Segundo o acaso que a fez. Do mesmo cepo nascer Para as batalhas pensadas, Aos mais, peões de perder, A raros, ficções coroadas. Mas, findo o jogo, receio Que, extintas as convenções, Durma a rainha no meio Dos mal nascidos peões.

Nota: A.P.Braga tem uma canção (não publicada) com este poema.


Que estranha, a nossa verdade

Que estranha, a nossa verdade! Às vezes, partida a meio, Minha ilusória unidade, Pensando, sinto, pensei-o. Mas quando penso o que penso Estou-o pensando também. Na vertigem, não me venço E recuo e vou além Daquilo p'ra que há defesa. Feliz quem pode parar Onde a certeza é certeza E pensar é só pensar!

Nasci poeta abstruso

Nasci poeta abstruso. Amo as palavras que estão Entre o arcaico e o difuso No cerne da indecisão. Prefiro adrede e gomil. Digo delíquo e fanal. E só descrevo um funil Em termos-vaso-de-graal. Mas nesta minha importância, Neste sol que me irradia, Nem Deus preenche a distância Que vai de mim à Poesia.

Deus que me fez e fizera

Deus que me fez e fizera O pecado antes de mim, Junto de Si não me espera, Sabe o destino a que vim. Pode tudo; e não altera O pecador que há em mim, Nem nunca tanto pudera: Pecarei até ao fim. Pois que tudo em mim venera O pecador que há em mim. Deus já não pode nem espera: Fez o destino a que vim.

Olhos iguais, outro olhar

Olhos iguais, outro olhar, Silêncios da mesma voz, Memória vaga e lunar Do sol que fôssemos nós... Assim erramos incertos, Juntos, distantes, cansados, Mordendo o pó nos desertos Onde houve relvas e prados. E a Vida escoa-se, enquanto O tempo, alheio à vontade, Deslisa, remoto pranto Duma tranquila orfandade.

Meu quase sexto sentido

Por detrás da névoa incerta, Da bruma desconcertante, Há uma verdade encoberta, Que é, por trás da névoa incerta, Intemporal e constante. Oh névoa! Oh tempo sem horas! Oh baça visão instável! Que mal meus olhos afloras, Em vão transmutas, descoras... Meu olhar é infatigável. Quero saber-me quem sou Para além do que pareço Enquanto não sei e sou! Nuvem que a mim me ocultou, Ai! Meramente aconteço. Com menos finalidade De que uma folha caída Na boca da tempestade, Porque ele é, na verdade, Morte a caminho da Vida; E eu não sei donde venho Nem sei, sequer, p'ra aonde vou. Rompa-se a névoa encoberta! Quero saber-me quem sou!

Ânfora fui

Ânfora fui; O seu cadáver sou. Emparedada neste museu, Pasto do pó e dos olhares Que não perscrutam a minha mágoa, Eu sou quem fui, Menos o fim que alguém me deu, De conter vinho e mel e água... Enfim, eu não sou nada, Que há muito já se não propaga a mim O calor de uma anca, E o meu fresco conteúdo Não encontra uma boca E uma sede não estanca. Do oleiro que me fez - A poeira, talvez Dispersa e reunida, A contenha outra vida Ou outra ânfora... - Nem memória persiste do seu nome.

5) Noturnos


Café de cais

Café de cais, Onde se juntam, Anónimos de iguais, Os ratos dos porões, Babel de todos os calões, Rio de fumo e de incontido cio, Sexuado rio Que busca, único mar, Mulheres de pernoitar, Unge-te a nojo, não Anfritite, Fina ficção marinha, Mas nauseabundo E tutelar, O vulto familiar Da Virgem Vício Nossa Senhora do Baixo Mundo.

Eu Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia Que partout, everywhere, em toda a parte, A vida égale, idêntica, the same, É sempre um esforço inútil, Um voo cego a nada. Mas dancemos; dancemos Já que temos A valsa começada E o Nada Deve acabar-se também, Como todas as coisas. Tu pensas Nas vantagens imensas De um par Que paga sem falar; Eu, nauseado e grogue, Eu penso, vê lá bem, Em Arles e na orelha de Van Gogh... E assim entre o que eu penso e o que tu sentes A ponte que nos une - é estar ausentes.

Nota: Fausto e A.P.Braga têm uma canção com este poema


Quando as fachadas, tumulares, de pardas

Quando as fachadas, tumulares, de pardas, Defendem sonolências impassíveis, Sou livre p'ra as boémias intangíveis - E a noite intui-me cúmplices mansardas... Franzino e ruivo, o céu todo tem sardas E atraente nudez de impossíveis... Eu sou talvez pintor de nus horríveis, Zombo dos mestres e odeio as fardas! Mas mal, estéril, assoma o brilho frio - Que sempre a madrugada me frustrou O contacto iminente ao fugidio - Tenho medo de quem nocturno sou, Da minha afinidade a um desvario Que o outro mais casto em mim repudiou!

6)


Aquele senhor que desde a infância me conhece

Aquele senhor que desde a infância me conhece, Com que direito se enternece Quando me vê? Que mal lhe fiz, que me quer bem? Porque motivo me diz só Coisas que, se as soubesse, esqueceria, Hirtas, mortas, Coisas cheias de pó E de melancolia?

Acordes gastos

Acordes gastos De velhos cantos Doutras deidades, Riem, nefastos Das novidades. Zombam?... Quem sabe Qual o sentido, Oculto ou expresso, Que tem a Esfinge? Ai quantas vezes O riso rido É dor que finge Ter-se sorrido; Ou azedume De ser excedido. Talvez apenas Serenidade; Olhos que fitem, Desnecessários, A eternidade. Nós é que, toscos De ter sentido Sua atentatória Supremacia, Nos esquecemos Que os Deuses mortos Não têm memória Nem simpatia.

Quero um cavalo de várias cores

Quero um cavalo de várias cores, Quero-o depressa que vou partir. Esperam-me prados com tantas flores, Que só cavalos de várias cores Podem servir. Quero uma sela feita de restos Dalguma nuvem que ande no céu. Quero-a evasiva - nimbos e cerros - Sobre os valados, sobre os aterros, Que o mundo é meu. Quero que as rédeas façam prodígios: Voa, cavalo, galopa mais, Trepa às camadas do céu sem fundo, Rumo àquele ponto, exterior ao mundo, Para onde tendem as catedrais. Deixem que eu parta, agora, já, Antes que murchem todas as flores. Tenho a loucura, sei o caminho, Mas como posso partir sózinho Sem um cavalo de várias cores?

Nota: A.P.Braga tem uma canção com este poema


Há que morrer no convés

Há que morrer no convés Do seu previsto naufrágio. Tremem-lhe as tábuas aos pés, Cheira a presságio. Negros augúrios com asas Cruzam agoiros nos mastros. Os ventos sabem a brasas. Recusam-se astros. Já o Piloto que ruma A proa dos embaraços, Pressentiu que além da bruma Esperam sargaços. A agulha mentiu o norte, Mas o Piloto sabia. Quem busca as rotas da Morte Não de desvia! Não de desvia!

A que morreu às portas de Madrid

A que morreu às portas de Madrid, Com uma praga na boca E a espingarda na mão, Teve a sorte que quis, Teve o fim que escolheu. Nunca, passiva e aterrada, ela rezou. E antes de flor, foi, como tantas, pomo. Ninguém a virgindade lhe roubou Depois de um saque - antes a deu A quem lha desejou, Na lama dum reduto, Sem náusea mas sem cio, Sob a manta comum, A pretexto do frio. Não quis na retaguarda aligeirar, Entre «champagne», aos generais senis, As horas de lazer. Não quis, activa e boa, tricotar Agasalhos pueris, No sossego dum lar. Não sonhou minorar, Num heroísmo branco, De bicho de hospital, A aflição dos aflitos. Uma noite, às portas de Madrid, Com uma praga na boca E a espingarda na mão, À hora tal, atacou e morreu. Teve a sorte que quis. Teve o fim que escolheu.

Nota: A.P.Braga tem uma canção (não publicada) com este poema.


Os astros nascem

Os astros nascem, Crescem e morrem Sem aflição, Por isso correm Sem que perguntem P'ra onde vão. O fácil espaço Foi-lhes materno Ventre fecundo; Nasci num quarto, Nasci dum parto E foi magoando Que vim ao mundo. Nasci rasgando Quem me sonhava Antes que mesmo Me concebesse; Não sei dum astro, Tão impiedoso, Que ao espaço agravos Tamanhos desse! Nasci rompendo Quem me continha No grácil ventre Desfigurado, Como um sacrário Vaso sagrado! Mãos impacientes De me tocarem Logo estendia Quem eu magoava E ensanguentava Quando nascia! Nascença de astros Não tem valor: Que o fácil espaço Pare-os sem dor.

Haja névoa

Haja névoa! Dancem os véus na minha alma (E externos nas luzes próximas, Que se recusam como estrelas na distância). Haja névoa! Paire nela a memória dos maníacos Sonhando na penumbra dos portais Assassínios brutais. Haja, haja névoa! Aqui e além no mar. No mar, nos mares, para que todas as viagens, Para que todos os barcos em todas as paragens, Na iminência dos naufrágios improváveis - Improváveis, possíveis -, Se gastem nos avisos aflitos Das luzes, dos rádios, dos radares, Dos gritos Dos apitos. Haja, haja névoa... Desgastem-se os contornos Das coisas excessivamente conhecidas. Não haja céu sequer. Névoa, só névoa! E eu, nas ruas distorcidas, Livre e tão leve Como se fosse eu próprio a névoa Da noite longa duma existência breve.

Menina dos olhos tristes

Menina dos olhos tristes, O que tanto a faz chorar? - O soldadinho não volta Do outro lado do mar. Senhora de olhos cansados, Porque a fatiga o tear? - O soldadinho não volta Do outro lado do mar. Vamos, senhor pensativo, Olhe o cachimbo a apagar. - O soldadinho não volta Do outro lado do mar. Anda bem triste um amigo, Uma carta o fez chorar. - O soldadinho não volta Do outro lado do mar. A Lua, que é viajante, É que nos pode informar - O soldadinho já volta Do outro lado do mar. O soldadinho já volta, Está quase mesmo a chegar. Vem numa caixa de pinho. Desta vez o soldadinho Nunca mais se faz ao mar.

Nota: existe um versão musicada por Zeca Afonso e cantada por Adriano Correia de Oliveira e uma outra por Luís Cília


A emoção é como um pássaro

A emoção é como um pássaro: Quando se prende já não canta. Mas se a gente a liberta, Qualquer janela aberta Lhe serve para fugir. O poeta é aquele que numa praça S. Marcos de Veneza transcendente, E de todas as praças, praça ainda, Aguarda na manhã que se insinua Ou na tarde que finda O voo que há-de vir. Ele estende a mão, Abre-a espalmada Ao céu, Que à anunciação de tudo ou nada A emoção virá ou não - Sem emoção, toda a poesia é nada - Fiel à Anunciação que está marcada Na sua condição.

Deixai os doidos governar entre comparsas

Deixai os doidos governar entre comparsas! Deixai-os declamar dos seus balcões Sobre as praças desertas! Deixai as frases odiosas que eles disserem, Como morcegos à luz do Sol, Atónitas baterem de parede em parede, Até morrerem no ar Que as não ouviu Nem percutiu À distância da multidão que partiu! Deixai-os gritar pelos salões vazios, Eles, os portentosos mais que os mares, Eles, os caudalosos mais que os rios, O medo de estar sós Entre os milhares De esgares Reflectidos nos colossais Cristais Hílares Que a sua grandeza lhes sonhou!

Nota: Luciano Amaral tem uma canção (não editada) com este poema


A Fernando Pessoa (ele mesmo)

Cada verso é uma esfinge ter falado. Mas quanto mais explícito ela o diz, Mais tudo permanece inexplicado E menos se apreende o que ela quis. Erra um sussurro, tão etéreo e alado Que nem mesmo silêncio o contradiz. E o ouvi-lo, ou ávido ou irado Na busca dum segredo sem raiz, É como se em pensar - um descampado - Passasse fugitiva e intensamente O Tempo todo inteiro projectado E a sombra ali marcasse, na corrente Do nada para o nada, inda passado E já futuro, a ficção do presente.