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RODOMEL RODODENDRO
A
António Ramos Rosa
David Mourão-Ferreira
e Eduardo Lourenço
meus Amigos
Vêm os violinos
de muito longe
ouvir a neve.
Cruzeiro Seixas
1.
Íamos pela Ribeira, pátio de escamas, desperdícios, sol deposto. Do outro lado do rio, incendiando a margem, velas de sombra, um vento inchado, apodrecido, varrendo as casas, os telhados. Um vento de giestas salgadas, de caruma. De guitarras ciganas. De aquáticas lucilações.
Íamos ao encontro da foz. Ruas altas, trilhos de velhos carros de hortaliça e rododendros. Um perfume de cal estagnada.
Íamos soltos, nus, desprevenidos. À luz sonâmbula das colinas, os passos adensados, calcando as ervas moles do silêncio, o ralo e raro sopro das violetas da mulher da esquina. Das esquinas lavradas na sombra vertical do desespero, da dor estancada no rosto e nas rugas. Da água lavrada do rio.
(Canta, se podes, diz a mágoa, a recalcada melodia do aconchego e do espanto. Diz a flor sacralizada da alegria).
Um papagaio de papel e de cinza. As mãos duma criança perfiladas na raiva e no fervor do vento. A sedução do azul, tão pálido, agora, como as maçãs de Outubro. Um anzol dependurado na concha do dia. Maré de algas, torrente extravasada na lembrança dos tomilhos. Um sino, alto, percutindo vagares e desoras. Manhã de cúpulas sonoras.
Íamos na onda dos ciprestes, na fuligem das casas, corações de telha ao rés da neblina sobre dunas de lixo amarfanhado, o peito aberto ao corredor das gaivotas. Secreções de brancura, o Cabedelo como um lagarto de areia ao sol. O verão molhado aos nossos pés como uma nuvem grávida de sementes. Uma nuvem de espuma. Da cor da febre.
Rentes ao frio, íamos por cascatas e rolos de cinza. Dizias que nada é deste mundo o amor, a morte, a solidão. Que há pregos de gelo atravessados no sono, entre o delírio e a fome, cardos ardendo nos tapetes que nos calçam e magoam os pés. Dizias.
Íamos de braço dado, recuperando ecos, lantejoulas. Na crina dos cavalos ensopados de humidade. A humidade que tolhe os pulsos e os deixa exaustos cavalos cansados ao peso da tarde.
Íamos de pé, entre ardências furtivas, na rota das camélias brancas, vermelhas, da cor do salitre e das safiras. Íamos soltos, nus, repito, como vão os náufragos adormecidos na cama indesejada dos peixes. Varrendo a tarde, a oblíqua tarde de sombrios caracóis, como a cabeça das velhas. Aloendro. Rododendro. Árvores filtradas, floridas nos invernos como cactos de sombra e frio.
Dizes que a noite vai cair sobre nós, vermelha e táctil. Derramada como o leite submarino das algas. Ei-las, aí estão elas, vermelhas, as algas. São as mesmas que António Nobre um dia recolheu na praia e levou para casa. Adormeceu com elas e morreu.
Dizes que tudo é irreal e não há espelhos que nos revelem a face verdadeira, ou o perfil, sequer, aquele onde outrora os rododendros floresciam como espigas ao vento. E também o vento é vão, dizias. Que só o crepúsculo é verdadeiro, o crepúsculo dos deuses. Esse, repetes, repetes, pulsa na música de Wagner, nos metais espalmados e nas vozes mortíferas de sopranos e barítonos. De Callas morta, viva na sombra fulminada que respira nos interstícios da percussão sanguínea.
E recebes, como dádiva, a noite. Um berço para adormecer a angústia e a solenidade ritual do fogo há pouco extinto.
2.
Que também a noite é solene, dizes.
E repetes que todos nós trazemos escondido na algibeira do lado esquerdo um gato preto, outro no forro do casaco, miando no lugar do coração. Que a morte chega ao pôr-do-sol, agarrada aos pulsos, aos joelhos. Como um estorninho que risca o céu da nossa pele e roça o halo que dela se desprende. Sem sobressalto. Sem regresso. Como um dardo esquecido no peito. Uma aranha que desperdiçou a teia, suspensa a respiração, e mudou de nome. Como um cachão de água empedernida, vencida a resistência dos diques que suportam a canícula. Como um hálito de pétalas cansadas. Esvaído rumor.
É isto que vês. O resto é silêncio, como alguém disse e tu repetes. Em silêncio. O silêncio.
E vamos pela noite dentro, acordados, na estria das luzes, as pálpebras adornadas, insectos de bruma, ao encontro das lâmpadas. Há um molhe, algures artifício e claridade. A das trevas insepultas. Rente ao cansaço. Luz poluída e breve como um tango indeciso tocado pelos lábios. Apressado e rouco. Como um trovão. Como um relâmpago.
Como se para nós começasse agora, ao mesmo tempo, o princípio e o fim. Que também a noite é salgada e abre o ventre largo à fecundação dos ritos calados na epiderme. Tambor e odre. Anunciação da guerra e da paz, na fertilidade e na abundância das aves migradoras que transportam nas asas uma primavera sem tempo e sem limites. O pólen das searas verdes recolhidas, meditando um verão de sementes escarlates. Um chão de pedras fecundadas ao amanhecer.
3.
Praça da liberdade, confirmas. Dizes e confirmas. E livres nós, descalços, outra vez descalços, como no princípio. Quando o zero era um número oblíquo e uno. Antes do musgo secular e incolor, da hera indecifrável que pende, em madeixas, dos tectos altos e dos troncos. Como as raízes de esmalte que minam o chão das hortas e cavam, em surdina, os seus próprios túmulos.
Visitação das estátuas. As de sal, as de bíblicos metais preciosos, densas e aladas. Ocas como os frutos longo tempo abandonados nas árvores. As de barro, de fumo e de sílica, moldáveis a todos os apetites, pulsações e vagares do torpor e da aragem. Irresgatáveis, como todos os suplícios.
Rodomel. Mel rosado de antigas e árduas colmeias. De Rodes e Tirinto. De Lesbos e de Creta. Da Babilónia e da Assíria. O mel das rosas que enfloram a cabeça dos enigmas. Da rosa dos ventos.
E dizes que há para tudo um lado invisível, secreto como o interior das conchas bivalves, uma oculta e primordial razão, uma ordem na desordem, um rio onde estiver o mar. Que nada é decifrável a esta luz e a vida é uma torre sem ameias virada há séculos, ou desde sempre, para o mesmo precipício. Que todos os indícios, e os oráculos, e os ventos, sopram nessa direcção. Como perdizes acossadas. Como laranjas podres atiradas duma janela alta para um cesto sem fundo e vazio.
E recebes num postal o anúncio de que te esperam, algures, as corolas, o vinho generoso das colheitas recentes, a altura insuspeitada dos capitéis e dos girassóis coroados. Mas não há, embora digas o contrário, reservas para os voos nocturnos. Cai o tempo das abóbadas, os arcos, maduros, inclinam-se ao peso da sofreguidão, o céu desce do alto e tomba sobre as pistas. Fica só o horizonte uma linha de estuque, uma aresta de azul, uma orla de vidro inesperado e opaco.
4.
Trazíamos ainda nos ouvidos o canto acre e fausto das cigarras. Vinham com ele, amarrados, os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros. Porque é deles que falas onde quer que te dispas, te desnudes, desprevenido e inteiro. Da moldura partida e do retrato caído no degrau mais fundo das escadas. Sim, por mais que digas, falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria. Da alegria perdida, reencontrada, perdida entre os escombros e as abjecções do real, mais falso e verdadeiro que todas as verdades aprendidas, que todos os dogmas e doutrinas acumuladas nos compêndios por onde te ensinaram a vida.
Conheces o esplendor das viagens, a ferida amável que deixam as lembranças esquecidas nos porões da memória. E conheces os dédalos do terreno, os labirintos do sonho, a ciência exacta dos mitos, a cadência dos martelos interessados na construção duma harmonia de que apenas recolhes por inteiro a evidência e uma premência imposta sem restrições, constrangimentos ou limites.
E regressas ao ponto de partida. Conheces a urgência e a aspereza do aguilhão, a enlaçada vertigem dos cumes. A disciplina que há em todos os visíveis e invisíveis maremotos, terramotos e tufões. Sem que o saibas ou pressintas.
Vamos na órbita dos ciclos que geram a inocência. Ciclopes amarrados à visão desprendida. Nítida, das origens. Como quando, outra vez descalços, colhíamos as amoras e os morangos silvestres nas tapadas onde o vento era azul, azul o sangue. Quando eram verdes os lençóis e a noite crescia dentro da manhã. Como crescem as crianças.
E olhas em redor. Este é o círculo perfeito onde o olhar dorido se demora e descansa. A planície contornada por uma vegetação rasteira e incólume. Distante mora o fósforo dos incêndios. Em sua cabeça exangue ardem ameaças e terrores que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil. Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito, sem pisar o coração, que vela de olhos fechados, mas acesos. Como um clarão, uma medalha de ouro iluminada, um punho inflamado erguido sem revolta. Ou dorme, sim, como dormem os aloendros, vertical e secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
E desciam então dos eucaliptos as rolas atreladas ao carro do canto. E suplantavas em agilidade, na corrida desordenada, os galgos e as lebres. E bebias a água do açude com teu bico de cegonha, o coração de azevinho. Pastor de ovelhas tresmalhadas, dum rebanho de cabras silvestres. Essa a tua escola verdadeira. Na cartilha maternal das borboletas aprendeste a voar, e ali escreveste, na ardósia do vento, os primeiros poemas.
Campo das urtigas. O voo raso dos melros ao fundo do quintal. Ali experimentaste as tuas asas, ali aprendeste a voar sem elas e sem medo, na reclusão dos dias altos, sem medida. E, se aprendeste, esqueceste-o, ou não mediste a distância rigorosa, a rigorosa altura, no cálculo da vertigem. Não sabias ainda que, como o arado, nasceste para lavrar a terra, o chão que pisas, na irreparável certeza de que só provisoriamente te pertence. Como o ar que bebes, a água que respiras, o fogo que te alimenta e devora.
Tempo das castanhas glaucas, dos ouriços espiando o chão devastado, corações de barro envilecido. Do milho loiro como os cabelos e as mãos de Afrodite. Ou de Ceres, mãe da terra, mãe dos homens. Tempo da fecundidade infecunda.
E olhas distraidamente o relógio. Distraidamente o retiras da algibeira. Do pulso não, que o envolveste em seda e algodão, com receio das combustões, da faísca luminosa, incendiária, causada pelo atrito do tempo. E o mudas de lugar, e estás preso à corrente a do relógio, a do círculo movente que à tua volta rodopia, do rodomel, dos rododendros, que te afloram aos lábios para derretê-los na doçura com que bebes os minutos e o vento.
E desces outra vez. Conheces o lugar onde as cobras se aninham, se aninham as codornizes. O fundo do poço onde jaz, afogado, o corpo do verão. Os alcatruzes por onde a custo retiras, em delicadas, esdrúxulas parcelas, o hausto e o simulacro de ardidas vivências, violências antigas.
Da resina conheces, conheces do pinheiro bravo o cheiro tosco e torpe, vidrado como os cachos das videiras de enxofre, mordidos pelos sapos e as raposas suicidas, no susto da noite acautelada. Aí, no hálito da poeira cósmica contaminada de subtis narcóticos e outras pressurosas e maternas sulfamidas, curavas as feridas deixadas pelos assombros que entravam, em torrente, pela janela aberta do rés-do-chão.
Percorrias, sem cansaço, os átrios suportados por colunas de arbustos breves e silêncio, até ao limite das figueiras bravas, no limiar dos campos onde o estrume apodrecia, fecundando a árvore das estrelas. Ali onde se erguia de repente uma surda alcateia de morcegos açulados e uivantes, um cardume de sombras cautelosas e retrácteis, na orgia oceânica do espaço esventrado.
Os insectos e as larvas seleccionavam cuidadosamente, nos excrementos e na urina dos animais recolhidos nos estábulos, o seu cáustico alimento. Vertiginosos, inventavam e cumpriam ali, sem descanso, a sua dança efémera das horas. Tuas eram as ácidas maçãs colhidas nos translúcidos retábulos de seda dos pomares, regadas dum vinho esfuziante e espesso, bebido entre esgares e soluços, imitando o nojo e a alegria dolorosa das mulheres grávidas que, no excesso do desespero, da náusea ou da dor acumulada, devoram a placenta e o húmus das suas próprias entranhas.
Hora dos morcegos e dos mochos, aves crepusculares, nocturnas. Descias à fonte, o cântaro aos ombros erguido sem fadiga, como quem transporta sem saber, dentro de si, o cofre dourado da sabedoria e das delícias.
Tempo das roseiras bravas e dos figos lampos colhidos à hora de inverno, quando os dias eram só uma ligeira impressão digital deixada no horizonte das casas e dos rios.
5.
E assistirás à explosão do século. Estão longe os redondéis, as eiras de trigo vermelho destinado a um envelhecimento prematuro. Longe o trilo dos pardais que em voo curto atravessavam o sono e dormiam contigo sob a almofada do feno. Os tordos que adormeciam sob as folhas sangrentas dos castanheiros ou percorriam, ébrios, a ponte de água doce suspensa sobre as oliveiras, as hortas e os pomares. Os grilos e os ralos, com sua flauta de sombra escondida nos lameiros. E tudo caberá na mesma explosão, sob um céu sem nuvens, surdo e fulgurante como um relâmpago.
Dirás que foi assim desde a primeira aurora boreal. E enxugarás o rosto numa toalha nem branca nem preta descolorida como o fumo dos incêndios acesos durante a noite e extintos à luz dos holofotes, regados com o sangue do orvalho. E, se há um perdão para todos os crimes, estás perdoado de ter vivido às escuras, num quarto sem janelas e varandas voltadas para o mar.
E, com a ponta da lâmina da lua, matarás o irmão, que havia de morrer depois Segunda vez, tão prematuramente como da primeira, fulminado nos escombros dum carnaval sanguinário e putrefacto. E honrarás o pai no dia do seu nascimento e morte. E subirás à montanha para olhar deslumbrada e demoradamente os vales e o mar, as serôdias primícias do verão, os matinais e deslumbrantes cenários de Van Gogh. E assumirás então, uma vez ainda, por inteiro, os desastres de Goya, a Appassionata e a Pastoral de Beethoven, os inumeráveis prodígios do céu e da terra. Os desta, sobretudo. E à cabeceira terás, como único livro de todas as horas, o livro da vida. E uma aguarela de Júlio o pintor e o poeta -, imagem transfigurada do real e do sonho, sem a qual, como disse outro poeta, nada do que é mortal tem garantido o futuro.
E voltarás ao sótão para colher o fruto proibido ali guardado e que não soubeste alcançar então. O fruto da embriaguez que assim te era oferecido sem outra contrapartida que não fosse a sua dádiva exclusiva e recíproca, colocada ao alcance dos lábios e da mão. Dirás que era cedo; o fruto, verde e impuro; que o galo não cantara ainda. Era aí, porém, que em verdade tu nascias. Porque é preciso, às vezes, morrer antecipadamente, para renascer inteiro. Tarde aprendeste que a esperança é o lugar reservado e inseguro das mutilações, o cancro insanável que mortalmente devora as ausências e os exílios.
E cortarás, com tuas mãos libertas cortarás o cordão umbilical não o dourado cordão materno que um dia ardilosamente te implantaram. Dirás o inominável, o caroço do tempo roído pelo tempo, o sol aprisionado em suas malhas finíssimas, através das quais te acenavam com uma terra prometida onde, soberana, a morte roubava à vida todos os direitos.
E aos que detêm a verdade ensinarás a definitiva subversão, a mentira absoluta e comprovada pelas leis da ciência do espírito; aos iluminados, a modéstia do lume crepitando, cego, nas pedras vivas da lareira. Ao zénite oporás o nadir, e ao nadir a infinita extensão, a profundidade infinita do fosso onde apodrecem, acumulados, os detritos do tempo universal e sublunar.
E assistirás aos animais, aos quais darás, como alimento e bebedouro, o pão colhido e amassado sob a canga do seu próprio esforço, a água inquinada do seu suor. E renunciarás à sedução e ao poder de vampiros e duendes, que te oferecem numa taça o dia e na outra a cicuta do sangue bebido durante a noite no cálice das tuas veias.
E às aves também assistirás. Na concha e leito das tuas mãos virão elas beber, dormir, beber a água de framboesas da tarde, colher o sono da noite redonda e fechada como a saia cerzida das maçãs camoesas. E lhes curarás as feridas abertas em seu voo rasgado pelas arestas do vento. E as receberás em tua casa, não como hóspedes, antes como irmãs. Como irmãs gémeas. Gémeas no canto. Bem sabes que, se respiras, foi com elas que aprendeste a organizada melodia que sopra e tremula nos teus versos. A melodia do tempo e do espaço liberto. A do azul. Do azul que de dia te serve de sonora grinalda e à noite é o repousado diadema de estrelas que te orna a cabeça e coroa os teus sonhos.
Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário, cegos pela luz que irradia, com seus holofotes de sombra, dos sóis submarinos. Não te iludas : o que é aparente é que é real. A verdade da vida não é a própria vida, mas o que nela se vela ou se esconde. Um espelho de duas faces. A imagem verdadeira projectada é sempre a da face oposta ou oculta. O seu negativo.
E outra vez nascerás, e soltarás a voz emudecida, encarcerada, à hora em que os sinos dobram, não a finados, mas à serena libertação das espécies. E no teu peito farão ninho as cotovias. E o mel, o mel abundante, jorrará das tulhas, trigueiro e loiro e brando como o trigo das colinas.
Tempo da ceifa. Recolherás o fruto das sementes adubadas com o suor do teu sangue. É a voz dos oráculos, da pitonisa anunciando um verão cantante, uma aurora de espumas. É a voz dos silêncio amordaçado, fechado à chave nos armários onde se escondem os rituais sombrios, com seus gansos de morte, suas envenenadas vitualhas. Tempo de sementeira. Das colheitas. Do pão e do vinho. Da fartura. Presente e futura.
E furtivamente puxarás, até se identificar contigo, a linha do equador. No vértice mais audacioso disporás uma nau de velas pandas como um sorriso amadurecido, desfraldado há muito. E colherás os frutos do solstício, as amêndoas agridoces do seu bojo estival. E aprenderás o caminho das estrelas, as que brilham a nossos pés, as que trazemos escondidas e apagadas nas mãos desde a criação, à cabeceira do leito onde enfim diremos, sem querer, a palavra virgem, a sílaba mortal, exacta e redonda como um gume ou um substantivo epiceno.
E colherás a flor do hibisco, flor desamparada, vibrante e rubra como uma campainha ou uma catedral iluminada. E descansarás no terreno lavrado por tuas mãos, no gesto sapiente e nobre de quem dorme, enfim, sobre o seu próprio corpo.
E estarás junto de mim, sobre mim debruçada ao jeito e ao peso fugaz da melancolia. Tu, meu óleo e minha chama, minha unção derradeira, meu lar primeiro e único e último, minha dor extrema. E no meu peito deixarás cair, límpida, uma lágrima, uma lágrima só. Quente e húmida. Salgada e doce. E com as mãos cobrirás meus olhos, lençol puríssimo, e bálsamo, e turíbulo, como nenhum outro sagrado, como nenhum outro essencial. E deixarás crescer, no chão que me couber, sobre o lugar do coração, para sempre arrependido, uma planta, uma só também, de raízes escaldantes como a sua florescência, o seu deslumbrado esplendor. Seu nome de fogo : hidrângea.
E nada mais dirás. Que tudo, como ouviste, é silêncio. Escuta. Dorme.
Dorme. Sobre ti vela um dossel tecido de flores de rododendro. Descem ainda das colinas repara as abelhas. Há um cortiço em cada gesto, em cada palavra. Poeira de abelhas, os teus olhos, os teus gestos. A boca. Dorme.
Rodomel. Rododendro.
Quetzal Editores, Lisboa 1989 (reprodução autorizada pelo autor)
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