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SECURA VERDE E OUTROS POEMAS (1950-1953)


Passei toda a manhã à tua espera :
nenhuma hora te trouxe.
Mas, como o inverno traz a primavera,
a tarde iluminou-se.

*

Rasgou-se o lençol da bruma.
Um arrepio de luz
abriu as flores molhadas
e transformou-as em espuma.

E um grito feito de sangue
toldou a manhã inteira.

Atiro às asas do vento
minha amargura ligeira.

*

Há em teus olhos, dados ao momento,
uma tristeza de água reprimida,
que é como o pressentimento
duma próxima despedida.

Tristeza que faz lembrar
dias perdidos de outono
com luz pálida a incidir
nas folhas, mortas de sono.

Deixa que a esperança os molhe,
os inunde de alegria.
Cada noite passa e colhe
o gosto dum novo dia.


SECURA VERDE

É verde esta secura, como é verde
a raiz duma planta que secou.
Posso ter o corpo aberto
e não mostrar o que sou.

Meus versos podem ser tristes
e eu ter profunda alegria.
Aves nocturnas que buscam,
inquietas, a luz do dia.

*

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?
Como o calarei?


ACONTECIMENTO

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti :
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.


GRAMÁTICA DA NOITE E DO TEU CORPO

A noite é uma página escrita onde há uma vírgula depois de cada
letra, um ponto depois de cada palavra, uma exclamação no fim de cada
frase. Ao fim de cada período está o teu corpo, aberto num parêntese
longo, que explica a súbita eclosão de auroras nocturnas.
No fim de tudo estão os teus olhos, redondos como duas afirmações,
loiros e despenteados.


PERFIL

Gosto de ti como duma fotografia.
Amo as paisagens porque são
o foco onde o teu corpo se ilumina.

És a manhã deitada de perfil.
Perspectiva onde a minha vida
ganha forma e se fixa, de repente.

*


Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,

para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem

e eu não saiba

e eu não sinta.



CORAÇÃO DE BÚSSOLA (1967)


ROTEIRO

Desenho no mapa o teu perfil
de caravela cósmica. Viajo
por hemisférios tácteis ao encontro
do lastro puro, do contraste
que me revele

e justifique

e baste.


MOMENTO QUASE GRATUITO

Prazer
de estar
a olhar,
a ver
a vida
a tremer
madura
nas mãos
duma mulher.


NASCIMENTO

A noite espreguiçou-se largamente
quando sentiu os passos firmes do dia.
Depois atirou ao chão
o lençol das estrelas
e montou na primeira cotovia.

Nos teus olhos, assustada,
uma criança morria.


DOMINGO

Nos teus lábios civis de domingo
coube todo o açúcar dissolvente dos beijos
e a espuma das palavras convulsas
encalhadas entre os meus dentes e os teus.


MAR DE VERÃO

No verão cinzento,
cinzenta era a alegria,
azul a cor
da melancolia.

Quem me prometia o mar,
se dar-mo não podia?


COMO UM LIVRO

Folheei o teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.


COMO UM LÁPIS

A vida quebrou-se como um lápis
nas mãos dum menino da primeira classe.

Lágrimas rolam na minha face.

*

A vida
– essa invenção magnífica
da morte.



COMPASSO PARA ELEGIA

Não me venham dizer que há remédio :
nada substitui a presença das coisas,
a presença material das coisas.

Os dias da morte
gravitam no escuro,
enquanto acendo fósforos de sombra
à tua procura nas gavetas,
nos armários, nas cabines,
em todos os lugares
onde fatalmente
tu não estás.

Nenhum prodígio pode reconstituir
a tua voz, sorriso interior da tua boca,
voz humana, acesa no peito,
cujas palavras eram como labaredas.

Só o silêncio comemora o facto
de teres vivido como o álcool,
possuindo possuída,
com as artérias cheias de vinho doce
corpo de vaso e sangue de licor.

CIRCUITO

Eis a nossa vida de enterro,
a nossa vida de operários fúnebres
conduzindo a morte como um veículo
através de labirintos de gestos
e precipícios de palavras.


POEMA PARA HABITAR


A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.

Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.

Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.


ELEGIA EM FORMA DE EPÍSTOLA


A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.

Nascemos sem passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.

O rio da história corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.

Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.

O silêncio é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.

Marinheiros duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.

*

É preciso arrancar as árvores,
impedir que a noite suba,
descalça,
pelos seus ramos.
É preciso, e já.
Antes que a sombra se farte
e nos vomite nos olhos.



INÉDITOS E DISPERSOS (1968-1973)



A ausência é presença,
é palavra grave
e grávida o silêncio
que nos compete, nos cabe.

Reduto ou gruta
marítima onde
a voz que se oculta
contudo não se esconde.


CENTRO

Dei-te o nome da abelha,
mas tu és favo e mel,
substância vermelha
feita de sangue e pele.

Maiúsculo amor
com o sol por dentro.
Flor dentro da flor.
Centro do próprio centro.


PARA SABERES

Para saberes, ergue
um monumento, deixa
que as rolas façam
seu ninho no topo.

Canta, se puderes,
como faz a rola
– bico percutindo
as paredes do tempo,

roendo a madeira
áspera das palavras,
com elas tecendo
um verão tranquilo

de loiras cigarras
nascidas no feto
fecundo da alegria,
com elas erguendo

a cúpula, o arco,
a dinâmica flecha
apontada ao centro
do teu coração.


EM TEMPO E MEMÓRIA (1974)



Algas
para cobrir
a nudez
opulenta
do desejo.

*

Um peito
de água
oferecido
à lânguida
frustração
da espuma.

*

Teus ombros de iodo :
germinação carnívora
de água e fogo.

*

Há um instante em que a memória é estreita
para conter o mar, o sal, os navios,
a penumbra branca das gaivotas.

Um instante de nudez perfeita.

*

Sinais reflexos
no percurso
da pele.

Lentos
camelos
minúsculos

– os dedos.

*

Entre cardos maduros, entre esporas
e espigas loiras duma seara azul,
no bafo sedoso, sincrónico das horas

passam rápidos, sonâmbulos cavalos
ao encontro da música. Perplexas
guitarras acordam e suspendem
a opressa respiração do tempo,
o hálito nocturno, o ritmo
do universo fundido em nossas mãos.


MODULAÇÕES

1.
Ultramarinos olhos chamo eu
ao teu corpo e ao meu.

2.
Pálpebras são as mãos
caídas no chão.

3.
Salgado é o tempo
que nos recebe e habita.


ESPAÇO DISPONÍVEL

Deito-me no teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.

Deito-me e velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.

Ali onde o tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.

*

O ritmo
do universo
cabe,
inteiro,
na pupila
dum verso.

*

De lágrimas se molha
o tempo e a memória.

*

Onde
com minúcia
a morte
preparas

uma arma
contra
ti
disparas.

*

Há folhas
no tempo
ainda verdes
ainda
à espera
dum
fictício
verão.


RETRATO

Os passos
sobre a erva.
A imagem
dum tempo
de pequenas
e graves
inflexões.

Memória
de eucaliptos
florindo
flacidamente
ao vento.

Retrato
dum menino
brincando
com os dias.


REQUIEM

Eis que para ti não floriram as rosas.
Crisálida no tempo, a tua vida
perfumou-se de sombra e de silêncio.
Com suas crinas verdes, seus
frutos ácidos, com suas
esporas de vento, a primavera
cobriu de borboletas o teu corpo,
e no teu sangue, pálidas,
as espigas da morte amadureceram.

*

Este é o lugar, o tempo.
Aqui se cumprem
os signos dos zodíacos
humanos e perplexos. Esta
é a morada, a única
definitiva residência
dos gestos perdidos
no espaço da memória.


TEORIA DO CONHECIMENTO

De bicicleta vou
no encalço das
íntimas, súbitas
relações. Mas

o que se prende na
fluida retina
da circular cadência
como gelatina

se dissolve na
visceral tensão
que lhe trava ou anula
a respiração.

Sobre rodas é que
se movem meus passos.
De cera compacta
são os trilhos, os traços

que as rodas, volvidas
espelho e imagem
giratória desenham
à sua passagem

sobre esferas que,
cindidas, já
não permitem o
caminho para lá.

Pêndulo ou agulha
magnética por
onde se regula
o próprio motor,

que recebe as leis
do seu movimento
revertendo na
órbita do centro,

essa a verdadeira
dimensão de quem
de bicicleta vai
nas rodas que tem.

Diário exercício
de quem procura
resolver a sua
equação futura,

conhecer a sua
razão de estar
voltado a ocidente,
no mesmo lugar

em que por razões
idênticas ou
alheias viveram
outros onde estou

debruçado sobre
o parapeito que
soltas me devolve
as imagens de

tudo quanto é
simples mola reflexa,
girândola ou
cúpula circunflexa.

Ali me divido,
me concentro, inscrevo
a sumária legenda
do que sou e devo

ao meu próprio e
natural tamanho.

De bicicleta vou
nas rodas que tenho.






PARALELO AO VENTO (1979)


OUTRA VEZ

Outra vez a surda
respiração dos lábios,
os pulmões
da terra quente. Aqui,
a magnólia dos símbolos,
a florida,
incandescente metáfora.


PALMEIRA AGRESTE

Palmeira agreste, aveludado
perfume
de índias ocidentais. De que
falam as sombras
azuis, a lentidão
reconvertida, a súplice
inclinação das horas?


ACASO FOSSE ACASO

Acaso seja ou força ou convergência
a forma inconsistente, a diluída,
disfarçada nódoa sob a pele – acaso
a fonte,
a corrupção
da água, os limos,
a secura – digo
o gesto involuntário,
a distraída
erosão dos lábios

acaso
fosse acaso.


LIMIAR

Somos ainda o limiar – espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida das ondas.
Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.


LEGENDA

Tarde
regressam
as manhãs
ou seu
imprevisto azul.

Cedo
se colhe
o cintilante
e frágil
perfume das laranjas.


BASTA UMA FLOR

Basta uma flor,
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.


ALEGORIA

Desliza
devagar,

sobre
a morte
constrói

sua
fácil,
inútil
circunstância.


ALEGORIA SEGUNDA

De poetas e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.

Dizias ontem que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.

E tudo permanece. E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.



INCONCRETOS DOMÍNIOS (1980)


AGUARELAS DE JÚLIO

De súbito, o papel,
de súbito, o pincel
transformados
em arco-íris,
em dicionários
de cor e mel.


LUÍS DEMÉE

Uma lâmpada acende-se
em pleno dia. A luz
é verde, casualmente
azul, às vezes
amarela, vermelha.
Às vezes, não : sobretudo
vermelha.

A cor dos miosótis
e do sangue.


"CALIGRAFIAS" DE RAUL DE CARVALHO

1.
E o verbo se fez cor, aurora
boreal, multímodo
girassol.

Com pétalas desenhas.
Caligraficamente.

2.
Onde vão desaguar
estes rios de lama
vegetal, inconcreta?

Que lúbricas centopeias
devoram teus
olhos lúcidos, poeta?


RESENDE OU O NASCIMENTO DO FOGO

O fogo nasce ali – das patas
dos cavalos, seus
flancos hirtos, suas
húmidas crinas, – dos
besoiros que
vertiginosamente invadem
a tela, o seu percurso. Tré
mulas, no
interior da chama,
ardem as sombras, vivos
estão os homens,
os animais. Rú
tila, queimando o olhar
e o cérebro, a
fecunda labareda.



APROXIMAÇÕES AO REAL


Altas
e solitárias voam
as montanhas e as águias.

*

À laranja não
se lhe tira a casca,
mas o coração.


PORTO-2

Coração que do rio
o sangue e a música retira.
Gaivota de pedra,
navio
e lira.

*

Buganvília :
coágulo
de sangue
e maravilha.



SOB OS LIMOS (1981-1982)


MEDITERRÂNEO – 2

Um ponto azul
no branco
desta rota.

Nasceu agora
do ovo
do sol

uma gaivota.


OCRE E CINZENTO

Diríamos
talvez
o vento.
O ocre.
O cinzento.

A penumbra
do vento.

Diríamos
talvez
o vagar
do tempo
acre.

Sono
lento.


SEIS PROPOSIÇÕES IMPERATIVAS
(IM)PESSOAIS E INADIÁVEIS

Reabilitar o pintassilgo, o pinta
roxo : abrir
as portas à claridade.

2.
Retirar da fonte o veio – a veia
de sangue mais límpido
e escaldante.

3.
Não permitir que a voz
corrompa os lábios : aderir
somente ao desejo.

4.
Chegar pé ante pé : não despertar
as acácias floridas.

5.
Roer,
até doer,
a polpa,
a pompa
da verdade.

6.
Rever Bergman, O Sétimo Selo :
aprender
a jogar o xadrez.

*

Asas que fossem, tuas
mãos podiam
tocar a íntima
nervura do silêncio.


MICROSCÓPIO

Oásis na penumbra
do rosto. A solidão
mais próxima

e distante.

*

Onde as vozes
são pequenos cristais,
translúcidos perfis.

*

De ciprestes
o templo,

o tempo,

o cálcio,

a cinza.

*

Certifico o silêncio,
a podridão do vidro.


*

Das casas
a ruína
sem ruído.

*

De que intranquilo
percurso voltas
ao lugar da sombra
inamovível? Que

peso é este? Ainda
as mãos te doem quando
tocas a fímbria
da penumbra? Que

macieira vela
teus recolhidos olhos
infantis? É já

manhã e dormes
ainda sob a tenda
alveolar do sonho?

*

E,
se um dia
voltares, acharás
somente o míldio, a baba
azul dos sapos
corroendo os estames.
E
verás os minu
ciosos lagartos
do fogo consumindo
as ásperas têmporas
do sono e da memória.



A MARGEM DO AZUL (1982)


Um leopardo
azul me conduz
pelo dorso da noite.


*

Assim
de seu
ocluso
e lânguido
casulo
expulsas
o verão.

Borboletas
sonâmbulas
do desejo
– as minhas

tuas mãos.


*


No centro da volúpia, como essência
e forma, como adorno,
contorno e cerne, é que o voo
se fixa, é que a ave
reside e o canto mora

e morre.

*

Eu te baptizo : hidrângea
é teu nome – cesto
de água, idioma
e intriga do perfuma.

*

Morangos
eram
tuas pupilas
brancas.

*

A tua boca :

uma andorinha.

*

Para nenúfar
sobrava-te a água.

*

Em teus dedos pus
um anel de crisântemos.

*

Tu estás do outro lado.
Há pêssegos, laranjas sobre a mesa.

Presenças tangentes ao desejo.

*

Toco-te.

E todo o oiro se dissolve.

*

Liames, tentáculos, a
circunferência onde
acessíveis
navegam
os mitos. O rio
oval. Em suas
margens a carnuda
floração dos corpos, a
plácida,
incorrupta
nudez.

*


Abelhas circulam, circundam
a pele, o ventre. Em seus
cortiços de água e maresia
se faz doce o mel.

*

E te pressinto
o bafo. Vens
com teus pólipos de águia
submarina, teu
cinto de agudos
sobressaltos. Alga
de sangue e magma, tu
cresces redonda, coroada
de arquipélagos de escamas
e de espuma.

*

Ínvios
são os caminhos
da posse. Invio
láveis.

*

Dos artelhos
à coxa,
táctil
a noite roxa.

*

De ti fiz a harpa e a lira,
a guitarra.

Outra música não sei.

*

Esta é a margem
do azul. Nenhum
outro limite
reconheço ao sangue.




OS REMOS ESCALDANTES (1983)



OFÍCIO E MORADA

Im
puro sou. Escavo
com minhas mãos a lama
do silêncio. Não
conheço outro ofício.

*

Cubro-te a face
de sombras. Sou
o teu e meu eclipse.

*

Busco
a flor do cálcio
na
luz da madrepérola.

*

Moro
na orla
marítima do sangue.

*

De barro somos, dizem os oráculos,
solícitas vozes do crepúsculo
ou das manhãs solenes, rituais.

De heróis e deuses falam
mitos e salmos, dou
tos compêndios de
subtil doutrina. Assim
de urtigas e de musgo
se alimentam as parábolas,
escreve a ciência
os seus epitáfios.


CREPÚSCULO DE AGOSTO

Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, de ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes ; preparadas,
ermas estão as águas.

*

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.

*

Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.

*

Há um melro que faz
o ninho na minha memória. Ouço-o
agora. Canta
a flor das giestas
e da cerejeira. Traz,
emoldurados no bico,
os meus dezoito anos.

*

Vou atrás
do carro do feno. Vão
ali,
sobre rodas,
cortados rentes,
os
meus dias enxutos.


LÁ EM BAIXO É A FONTE

Muitas vezes é o sono que me tem desperto.
Entram aqui, drenadas pela fadiga, vozes sem rosto, o perfil agudo
de um pífaro esboçando, no ar, avulsas melodias.
Lá em baixo é a fonte, a matriz, o berço onde nascem e morrem os
lúbricos gladíolos.
Hoje, a noite é uma açucena, cheira a trevo e a rosmaninho.
Boca silvestre.
Sorriso adúltero.


DEIXO-TE AS FLORES

Deixo-te as flores que amei e amo ainda – as silvestres em primeiro
lugar.
Por elas muitas vezes me perdi nos montes, namorei os espinhos, cons-
truí pontes e jangadas, competi em altura com as árvores.
E deixo-te as outras, todas as outras. As glicínias e as dálias. Os lírios
e os goivos. As anémonas e os jasmins. Os crisântemos.
Todos os jardins da terra e do mar.
A morada
dos dinossauros
e dos hipocampos.

*

Estão ali, sobre a mesa, as toalhas, o linho maduro, os unguentos e
os óleos.
Instrumentos do árduo e conivente ofício da sobrevivência e da morte.


ERA AQUI, ERA O TEMPO

Era aqui. Chegavam,
com a noite, as serpentes
do frio, o novelo
das carícias : I
rompiam da sombra
os sôfregos lilases, des
folhava-se em nossas
bocas o
malmequer dos beijos.
Era
o tempo das
cerejas e das malvas.


O SINO E A SINA

Percorrerás de novo
estas veredas. Ouvirás
de novo o sino (e a sina)
nas asas
da calhandra. Deixarás
finalmente à sombra
adulta dos salgueiros
teu pálido rebanho.
Então,
podes volver os passos,
subir a escada erma
e plantar
uma flor no vazio.

*

Dizer o fungo, o funcho, a verde
gelosia aberta
sobre os rins, a máxima
luz queimando
as espaldas. Ou dizer
somente o nome
do lugar, a indizível
cicatriz.


ENQUANTO O AMOR, ENQUANTO A MORTE

Enquanto aguardas e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.

*

Recomeçar. Seguir
no lanço equestre
da charrua. Erguer
o sol a pino, a pino
as mãos. Sorver
a polpa ainda
quente dos relâmpagos.


VERTICAL O DESEJO (1985)


Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.

*

Onde é mais surda
a floresta
aí te penso
e escuto.

*

Como teus lábios
colhes
as maçãs mais precoces
do desejo.

*

Ao deserto
dos teus ombros
ofereço
os meus lábios.

*

Um gesto subtil
pode sem querer
pulverizar a pele,
calcinar abril.

*

O verde mais tenro morreria
se agora aflorasse a nossa pele.

*

Ungida
como as corolas
e as serpentes.

Labial
como o desejo.

*

A boca diz o lume. A língua, a chama.

*

Partilhamos o leito onde a noite
se faz lençol e vitral.

*

Lâminas, carnívoras
flores devorando cerce
a polpa aveludada.
As sandálias
digitais do desejo
calçando toda
a extensão da pele.

*

Sabem à flor oclusa da resina
as esporas molhadas dos teus flancos.

*

Tuas húmidas
entranhas
navegáveis.

*

Há um relógio nupcial parado
suspenso entre nós dois.

*

Indefesos, contra nós investem
os deuses todos do desejo com seus touros
de incontinência e morte.
Estávamos
nus e só a pele
nos cobria e em nós se consagrava.

*

Um deus e a crista
duma onda
crucificados
no teu sexo.

*

O nosso tempo, amor. Tempo
líquido sulcado
de submarinas galeras e corvetas.

*

Um peixe
sobrevive
ao mar
e seu naufrágio.

*

Nenhum excesso
nos contém. Nenhuma
onda nos devolve.

*

O que em nós sobra
à maré pertence.

*

É nossa a vinha, a uva.
Nosso o álcool, o fermento.

*

Em nós o inalterável
esplendor da carne.

*

Horizontal
o mar, a mor
te. Vertical
o desejo.



AS VOGAIS ALITERANTES


As rolas já não ouço e ou
tra pele as cobras
já vestiram.
Sobre
o muro
agora
medram
solícitas
pedras
de musgo.

A cárie, dizem.

O epicentro
da desordem.

*

Onde estiver o lúpulo, estará
a embriaguez possível
do olhar. E onde juntas
flor e folha estiverem
também há-de
estar ali
uma vírgula de sangue
a separá-las.

*

Notícias me darás
da flor do sabugueiro.
Ajuda-me
a erguer este peso
sem lastro e sem remédio
que há nas folhas, a nascer
outra vez sem suplício
e sem mácula.
Notícias
te darei da rosa
impura da tristeza.

*

E digo
amor.
E pirilampo.
E fonte. E digo
só naufrágio, e só nomeio
o incêndio,
a lava,
a lenta
combustão das águas.

*

Iníqua, dizes, é
também a raiva
do cão solteiro, a mordedura
dos lacraus ocultos
no sono. E as vogais
aliterantes – híbridas
sementes
de amor e morte.

*

De meu e teu que resta
entre os ramos e o voo
das andorinhas?
Podes
convocar as palavras, adicionar
à voz o espanto, a ira, esgrimir
com as mais ásperas
vogais. Da morte
e seus juízos imutáveis
não há recurso.

*

Pondero a têmpera, a feição
dos novos, ingénuos
utensílios, avalio
a transparência mineral dos gestos
mais antigos e das lágrimas
defuntas, agora calcinadas.
Cedo
ao mármore a insalubre
vocação do silêncio.

*

Outros
foram os dados, outra
a mesa. O jogo,
não. A mesma
lâmina esgrime
entre e sutura
e o álcool.

*

Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.

Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.

*

Os muros. Todos
os muros. Um
só muro. E toda
a sede. E todo
o sal
do mar

no peito.




OS PATAMARES DA MEMÓRIA (1989)



Vêm do sul os carros
de sal-gema, as marés
de madressilva. Vêm
as fendas e a lama dos sapatos, o sobressalto
das túnicas despidas, o vaivém
dos óleos derramados na soleira.
E tudo
se funde no halo
de uma porta entreaberta
ao rés do muro.

*

Um lápis
de sombra
te escreve
e examina.

*

Aqui começam todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.

*

É dum piano anónimo
que falo, duma colcha
de urtigas dobrada
em duas sobre o ventre, dum
lagarto deslizando
no espaldar dos dedos. Falo
duma lebre ferida
nos patamares da memória.

*

Pertences aos novelos
de pano cru, ao pó
das gavetas, aos álbuns
destruídos. Sabes
de cor a idade
e os transes dos enigmas.

*

Concitas para os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.

*

O trevo, o malmequer, as pétalas
lilases do sarampo. E as mãos
da febre desfolhando, tingindo
de vermelho os lençóis.

*

Os rituais antigos, as legendas
esquecidas na dobra
da página em branco.
Habitavas
então, como hoje,
entre estevas e cardos. Conhecias
as aras obscuras
de obscuros malefícios.

*

Nada responde a nada.
Das librés
vestidas à entrada
de junho te despes
agora, confundido. E vais,
como as alvéolas, de ramo
em ramo, o ouvido
preso ao canto
surdo das cigarras.

(reprodução autorizada pelo autor)

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