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COM AS FLORES DO SALGUEIRO
HOMENAGEM A BASHÔ
Um mar azul
pintou de branco
o voo das gaivotas.
*
No inverno, a árvore
pede à neve:
Agasalha-me!
*
Nem sempre a neve
cai do céu: às vezes,
explode numa flor.
*
No bico do melro
a natureza celebra
o triunfo do verão.
*
O verão deixa,
como herança, ao outono
um leque de folhas secas.
*
Castanha é a cor
do sorriso
do ouriço.
*
Pelos corredores
do outono passam
as folhas, nuas.
*
O mocho traz nos olhos,
escondido, um sol. Com ele,
incendeia a noite.
*
A andorinha faz
a sua casa
no vento
*
O papagaio sabe
que o silêncio deixa
um nó na garganta.
*
No voo raso
da calhandra mede
a sua altura o sol.
*
Do sangue e dos músculos
da árvore faz
o pica-pau um templo.
*
O rouxinol não sabe
que o seu canto
é verde.
*
Um pássaro
no ninho: uma gaiola
perfeita.
*
Com a lâmpada das suas
asas acesas, a libélula
ignora a noite
*
Despida, à tona
da água, a rã
vê-se ao espelho.
*
Nas asas do grilo
improvisa o vento
as suas árias e sonatas.
*
Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.
*
Efémero
é o relâmpago, mas faz
da noite uma aurora.
*
No pico mais alto
da montanha a neve
é azul.
*
O dia lega
à noite, em testamento,
a lua.
*
Com flores
de espuma
é que o mar se perfuma.
*
Com as flores
do salgueiro
fez a água uma grinalda.
*
Para receber o orvalho
as flores abriram
as suas portas ao dia.
*
Amor-perfeito
lhe chamam, e imperfeito
é até no perfume.
*
A tarde
diz ao dia:
Boa noite!
*
Crepúsculo. Gaivotas
em repouso velam
o cadáver do sol.
*
Quando o verão
morre, as amoras
vestem-se de luto.
*
Uma concha bivalve:
borboleta do mar,
de asas fechadas.
*
Jogo de sedução
entre o vento e as folhas.
Prazer volátil.
*
Eclipse: a lua
joga às escondidas
com o sol.
*
Dança de amor
sobre as telhas: pardais
no cio.
*
Juncos em movimento.
Os cabelos da água
penteados pelo vento.
*
Num fruto
sazonado é o tempo
que amadurece.
*
Romãs: as últimas
brasas do incêndio
do verão.
*
Maçã disse a criança.
E era apenas o sol
dependurado nos ramos.
*
Morango. O frágil
coração da terra
levado à boca.
*
O mel no frasco:
exposto, para consumo,
o suor da abelha.
*
O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.
*
Afluentes
dum rio: conúbio
da água com a água.
*
O insecto
pede à lâmpada
que lhe empreste os seus olhos.
*
Noite aberta: a flor
do sono inclina
as suas pálpebras cansadas.
*
Imagem da morte
é o sono, dizem. Não:
que a morte não dorme.
*
Das estrelas só
conhecemos o nome.
A sua luz.
*
No termo
do caminho sempre
outro caminho começa.
*
Mais cedo ou mais tarde
o silêncio virá
perguntar por ti.
*
Palavra: insone
borboleta
sonora.
*
Borrão azul
na brancura da página:
o poema.
(reprodução autorizada pelo autor)
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