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UMA COLINA PARA OS LÁBIOS



Eu disse: faça-se
um rosto à minha
imagem e semelhança, um corpo
à semelhança e imagem
do desejo. E dei
vertentes ao mar, afluentes
aos rios, crateras
ao sangue. E uni
as minhas têmporas às têmporas
do lume.


Modelo agora as pálpebras, corrijo
o itinerário das árvores que sobram
da cabeça para os ombros. Afeiçoo
o anel dos lábios, fixo
as palpitações do fogo.


E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas vermelhas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.


Há uma orquídea
florindo – teu
sorriso. Alegre
emanação da terra, folha
do vento, súplice
auréola do sangue, doce
colina e anémona
do mar.


Agora sei: nascemos
do mesmo ventre
de espuma.
Agora
sei teu nome
verdadeiro, ó maresia.


Pelos teus olhos
vejo, em ti
me vejo, te vejo
em mim.


Beber
a pupila breve
e lábil. Soletrar
as sílabas dos lábios.


Na minha boca vives,
imponderável,
ó pérola.


Dormes
no meu sono
de pálpebras abertas
– nuas.


Semáforo
o teu corpo.

Uma só luz:
vermelho.

A lâmpada
do sangue
ininterrupta
mente
acesa.


Como um punho cravado na medula,
uma lua no sangue,
um girassol nos rins.

Como um votivo
pirilampo aceso
à flor da pele, ao rés
da fala.


Não sei medir-te de outro modo:
te dispo e visto o tempo todo.


Se te despes, um deus
contempla, fulminado,
a própria criação.


Apenas um dos dedos
conhece a luva. Só uma pétala
convém à rosa.


Descalços, os teus pés
calçam as minhas mãos.


Indivisas, as mãos dividem
entre si o que sobra
da mesa dos lábios.


Despir a água.

Morrer de sede.


A polpa, a pálpebra
dos lábios entreaberta.

Há uma ânfora
partida
na tua boca, uma pupila
de álcool
nos teus dentes, um fio
de vinho espesso
na tua língua.


Num cálice me ofereces
todo o teu vinho, ó ânfora.


Há uma linha de terra
e mar na tua boca.


Deixa que eu seja a âncora. Sê tu
porcelana das águas.


A face contra a face. O pulso
contra o pulso. A pérgola
do leme a pino e a prumo.


A cúpula, a cópula.
O nome
da rosa.


Abismo ou sorvedouro.
Na líquida arena
desembolado morre o touro.


Folheamos agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.


Há um rio que é foz
e fonte de outro rio.
Oblíqua
ponte – o mar.


Inclina-te: cede
ao poder
do orvalho.


Para morrer não era
necessária a morte. Bastava
o teu corpo.


A ti eu dei tudo.
A minha vida.
A minha morte.


Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo – trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.

(reprodução autorizada pelo autor)

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