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O MESMO NOME
AS PALAVRAS EM TRÂNSITO
OS AROS DE SATURNO
É meu o horóscopo, são meus
os signos constelados, esta âncora suspensa
dos lábios divididos.
Deixo
esta herança apenas
estas asas implumes e um painel
com os aros de Saturno.
Sob a dura
pedra do sol medram os eclipses.
GEOGRAFIA
Pertenço a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho.
O PERCURSO E O PÉRIPLO
Também eu
naveguei, fiz o percurso
e o périplo das índias
naufragadas.
Das essências,
a parte que me coube a dissipei
em lume de esmeraldas
e de escamas.
Toda
a aventura humana
é gume de água, lâmpada febril.
O BERÇO, A CAMA
Num tempo o berço
fazes, noutro
a cama. Sem
tempo dormes.
AS PALAVRAS EM TRÂNSITO
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
COMO UM ECO
Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento.
OFÍCIO
O que aos dedos
emprestas
à mão
subtrais. Nocturno
ofício o teu: transbordas
para a luz como a polpa
macerada das maçãs.
A LÂMINA, O PUNHAL
Não haverá futuro e haverá
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.
PERFUME
Nomearás
a abelha. Do mel
só conheces
o perfume, a pálida
rosa dos favos
em botão. O gesto
suspenso à espera
da mão esquiva
que o sustente.
PALAVRAS
Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.
COMO UM ARCHOTE
Vem tudo à superfície.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma ; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.
TOCATA E FUGA
Tocata
e fuga. A harpa
do tempo, o seu
compasso exausto.
O seu
bolor.
TIMBRES E ALEGORIAS
TRAPÉZIO
Volúvel foi o nome escolhido para a entronização da festa. Para seu ornamento, a máscara.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
UNHAS
Também as unhas são um lugar inóspito de intranquilidade. Como punhos inflamados, rasgam às vezes a crosta em ferida do silêncio e extraem dele o pus acumulado durante a noite. Então as unhas sangram. Então as unhas vibram como estiletes em brasa, queimando o próprio magma de cuja substância se alimentam.
OS VÉUS DA SOMBRA
Tomba-me sobre a mesa este corpo, de uma vibração ao mesmo tempo sensível e secreta. Das suas pálpebras, como se um rasgão as ferisse, uma luz molhada pende, acessível. Inacessível, o timbre dos rumores que a sustentam.
O clarão, se inesperado, cega. Os olhos, às vezes, para ver, precisam dos véus da sombra.
CÍRCULO
E então o círculo começa a desenhar-se obliquamente, na fosforescência da sua nudez. Nos interstícios, uma luz rugosa deixa rolar as escamas sem brilho dos peixes mortos.
A tarde é um relâmpago apagado, sem fulgor. São as vésperas da noite , dizem, mas o espaço volatilizou-se, as estrelas, móveis, tombaram em cascata no fundo do poço.
É o vazio do círculo, a sua face excêntrica.
FLORES
De pálpebras abertas para a luz vivem as flores, fechadas na sua colorida redoma de silêncio.
Quando, ao anoitecer, madura, a espiga do sol se inclina, também elas, entorpecidas, correm a cortina das suas pétalas e adormecem ao relento a sua sonolência perfumada, no leito de algas que a noite oceânica traz consigo.
ÍDOLOS
São de barro, de fibra sintética e de barro, e de barro se diz também que alguns homens têm os pés. Aí reside, por isso, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fragilidade. E são, como igualmente se diz, objectos profanos.
Não há diferença entre o profano e o sagrado, nomes inventados, como tantos outros, pelo homem, para iludir a sua ignorância e preencher o intervalo, a que alguns chamam vazio, que há entre a vida e a morte. Por isso os próprios ídolos, que apenas valem como imagens artificiais projectadas no espelho da arte e da vida, aí encontram, umas vezes, a sua força, outras, a sua fragilidade. São como deuses sentados à entrada da morte e velando o seu próprio cadáver.
CIÊNCIA
O crescimento do homem pôde algumas vezes medir-se pelo comprimento ou altura das túnicas. O das mulheres sempre se mede pela roda das saias e dos seios. Ou pela altura das árvores e a fundura dos lagos que habitam no seu corpo.
ECLIPSE
Quando escurece, é preciso acender rapidamente todas as luzes da casa. Nunca se sabe quando o eclipse do sol é total. E a morte precisa de luz para ver na escuridão.
HOJE, ÀS VEZES ERA ASSIM
Às vezes era assim: adormecias com um pássaro nos ombros e na garganta. Eras, então, a árvore e o ninho, o canto do pássaro. E eras também, por isso, uma dessas aves a que chamam canoras e trazias acordada no ouvido. E eras, também por isso, um búzio, um búzio com asas.
Agora, desta varanda recuada onde te despes para colher o sol da tarde, já não se ouve o mar, e o vento que nele se deitava e agora se dilata já não encrespa as águas nem faz vibrar os tímpanos do sono. O pássaro que trazias nos ouvidos cedeu a garganta a outras vozes. Do ninho, restam apenas algumas penas envergonhadas abandonadas pela ave de silêncio que ali morou por um tempo. Que só por um tempo é madrugada, só por um tempo é primavera, só por um tempo as aves cantam. E a árvore, agora, só pede às raízes que por um tempo a sustentem ainda. Mas ninguém sabe quando um raio explode e transforma o tronco e as raízes em estátuas ou em bolas de sabão. Quer dizer: nas tábuas envernizadas dum colchão que alguém por nós encomendou e onde uma noite nos deitamos vestidos, preparados para a cerimónia a que preside um deus qualquer a que arrancaram os olhos e selaram a boca. Cerimónia a que, sem remorso, apenas uma vez assistiremos. Um deus sem olhos e sem boca, disseste. Acrescentarás: e sem nome. Que as máscaras são o rosto do vazio, e o vazio não se diz, a ausência não se nomeia.
RELÓGIO SEM PONTEIROS
Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projectado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do teu próprio corpo.
ROSA-DOS-VENTOS
Passam lá ao fundo, na estrada, os animais tardios. Vão sem destino e sem direcção.
Lembrarás que foi assim a tua infância: um lugar onde cabiam todos os lugares e a direcção eram todas as direcções. Vivias montado na garupa dum cavalo sem crinas e sem freio, cujas patas não pisavam o chão. E era o fogo, que por ali andava à solta, que o impelia em todas as direcções da rosa-dos-ventos.
CIPRESTES
Ciprestes, que me lembre, havia apenas um. Ainda lá está, mas devorado pela sede, como Tântalo. Que ninguém medra ou gera abundância no cascalho e na areia. O seu corpo era um leque fechado e virado ao contrário. O seu coração, como o dum velho motor arrefecido e sem préstimo, tem os êmbolos feridos, gastos.
Flores não dá, nunca as deu, que delas não fora dotado, à nascença. Ou não as quis. Ou as recusou, porventura, como se faz aos trapos.
Há seres assim, austeros, duma austeridade consentida, que só dão sombra, que na sombra nascem, vivem e morrem. E passam os dias e as noites recolhidos no seu casulo de silêncio. No casulo do silêncio, dirias melhor. Conformados talvez, não sei. Mas tu, que para ela, a sombra, também nasceste destinado, sempre fizeste das flores e da luz a tua moeda preferida a única de que sempre te serviste, afinal, nos comércios da vida.
Tu não nasceste para cipreste, mas virás talvez um dia a repousar, sob a sua sombra, a cabeça cansada e também gasta, como os êmbolos de que falaste. E talvez, então, ele se desentranhe em flores e deixe cair sobre ela, a tua cabeça, algumas pétalas vermelhas, a cor do luto e das lágrimas. Ou, quando não, te deixe sobre o corpo um ramo de flores ali colhidas e crescidas no chão áspero, dessas, silvestres, que às vezes explodem, insuspeitadas e humildes, como ele, à beira da estrada por onde apenas sempre se vai e nunca se regressa.
UM NOME
Com os anos, perderas talvez o rumo. Ou era apenas medo, o receio de te medires com os lugares que foram teus e também perdeste. Um dia voltaste. Insanável, o tempo esvaíra-se. Porque tu e o tempo trabalham, bem sabes, em sentidos opostos.
Da casa, hasteada frente ao vento, restavam os pesados alicerces, as paredes ancoradas entre cal e musgo, a pálida face exterior gangrenada. Ruína foi o nome que melhor te serviu, então, para definir com rigor o cenário construído. Para lá da estrada, do outro lado do muro, buscavas as árvores que contigo cresceram e emolduravam a cintura larga do terreno. Da acácia e da figueira, mortas, subsistia a memória crispada das flores de sabão com que lavavas os ócios da infância vivida a tempo inteiro. O velho carvalho, plantado à beira do caminho, projectava sobre as horas a sombra lenta da ausência. Quando o fotografaste, o passado ressurgiu, compacto, no rectângulo da moldura verde.
Era outra vez dezembro. Viajavas de novo, sem sustos, ao coração do bosque, lá onde, uma noite, te serviram longamente uma rosa de sol embriagada, tinta do sangue espesso das amoras. Sabes hoje que nesse gesto festejavas o sentido e a afirmação da vida, a sua plenitude. Por isso o elegeste como emblema.
Sob a poeira e a cinza do cepo ardido apenas afloravam agora as raízes do cedro castigado pelo aríete do tempo. Morreu o souto, os eucaliptos foram sacrificados, a água da fonte apodreceu. A imagem que ali colhes é um tecido esgarçado de limos e girinos, uma toalha encrespada a que só magoadamente podes limpar o rosto.
Ruína, disseste. Sobre ela colocas uma lápide. Sobre a lápide, um nome.
O teu.
O MESMO NOME
INVICTA E SOLENE
Dormes agora. Sem sono e sem repouso,
que o não há, possível, para quem
em vida o não quis. Nem a pedra
nem o mármore foram
alguma vez escrínio ou almofada
para cabeças onde o fogo
cintila. Dormes
encostada
aos seios da mandrágora
perfeita, oblíqua, fria, envenenada
pelo fermento escuro
das raízes, os cabelos
lácteos cingindo a morte. Dormes
sobre as colinas
fundas
da terra, o coração
pesado, parado e solto nos caudais
subterrâneos da memória.
A minha.
A nossa.
Invicta
e solene.
ALFABETO
Escolhe, é tempo ainda. Entre um corpo
desenhado na relva e a roda
da nora passam
os ventos, as cegonhas, o rumor
de outras naves. Buganvílias
em brasa crepitam
à flor da pele, inclinam
suas pétalas trirremes.
Novembro
é um dedal de fogo, uma dália
de sangue ancorada
na chuva, março,
uma estrela azul
de cinco pontas.
Túmidas
vogais soletram
o alfabeto da tarde. Indeclinável,
a pompa austera dos relógios.
PARA O MUSEU DO HOMEM
1.
O tempo é uma pedra
amadurecida ao sol
das mãos, uma raiz
de gengibre germinando
no escuro.
Omnipresente,
a noite vela
o sono das sementes
e das larvas.
2.
E o homem, então,
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.
O MESMO NOME
Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreverás sempre
o mesmo nome.
AS PALAVRAS EM TRÂNSITO
Os aros de Saturno
Geografia
O percurso e o périplo
O berço, a cama
As palavras em trânsito
Como um eco
Ofício
A lâmina, o punhal
Perfume
Palavras
Como um archote
Tocata e fuga
TIMBRES E ALEGORIAS
Trapézio
Unhas
Os véus da sombra
Círculo
Flores
Ídolos
Ciência
Eclipse
Hoje, às vezes era assim
Relógio sem ponteiros
Rosa-dos-ventos
Ciprestes
Um nome
O MESMO NOME
Invicta e solene
Alfabeto
Para o museu do homem
O mesmo nome
PALAVRAS
Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.
© Albano Martins, O Mesmo Nome, Porto, Campo das Letras (reprodução autorizada pelo autor)
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