ANTÓNIO GONÇALVES CRESPO
António Crespo!... Também já não existe o meu pobre Gonçalves Crespo! Vou passando o resto dos anos da minha vida a fazer sátiras e elegias! Os idílios acabaram.
Era um homem de bem, António Crespo; uma alma arejada e sadia; um elevado e primoroso talento! Disse e escrevi isto mesmo, quando ele vivia; repito-o agora que é morto.
Na Folha, jornal literário de Coimbra, foi que li os primeiros versos do poeta das Miniaturas e dos Nocturnos.
O Alguém, por exemplo, ainda hoje me lembra:
Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideais de Cristo;
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
E se na terra existe, é porque existo.
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Crespo cultivava com extremo a língua nativa, esta língua portuguesa maleável e graciosa, pujante e delicada, com músculos vigorosos para brandir o cutelo da sátira, e femininamente nervosa para todas as cambiantes da elegia e do idílio.
Língua severa no didactismo da ciência e própria a todos os efeitos da arte, ainda a vemos, uma vez que outra, na sua vigorosa e gentil elegância, afastando os gaguejadores de francês, que lhe fazem assuada com trejeitos de garoto.
Gonçalves Crespo pertencia à geração moderna, onde há inteligências ocultas e de ordem superior, a par de um enxame de vaidosos, que se dizem filiados nela, ignorantes crassos, chilros de miolo e moralmente leprosos de muitas vergonhas.
Em todos os tempos tem havido um pouco disto; mas, francamente, tanto gatuno e pilhante científico tão, às soltas, desaforado e procaz, como agora, nunca se viu!
António Crespo nascera no Brasil e, em um soneto das Miniaturas, pinta ele numa paisagem digna de Virgílio um cair da tarde, naquela natureza exuberante, de modo que rivaliza com os maiores mestres!
O poeta dos Nocturnos prestava à forma todos os desvelos do verdadeiro artista. Não era requintado, como às vezes são os parnascanos, nem se embelecava em face de uma rima desusada e extravagante: todo o verso na elegância e correcção da estrutura lhe merecia igual cuidado.
Português e actual na linguagem; nada de arcaísmos de frases e palavras obsoletas nada, que é uma peste ; e o seu bom gosto sabia evitá-las, conservando sempre à locução o genuíno sabor nacional.
Fazia muito bem alexandrinos, verso que, ainda agora, insisto em que é preciso usar dele com toda a cautela. Parece-me que se deve empregar principalmente na sátira e na descrição.
O alexandrino, bem no fundo, é sempre forasteiro em Portugal, em Espanha e em Itália, onde há o ritmo sonoro e masculino do decassílabo, ainda desataviado da rima.
Nem em espanhol nem em italiano conheço este metro, a não ser como espécime e raridade; se existe, ainda assim.
Os alexandrinos, que nestes últimos tempos se estão fazendo, caíram numa monotonia intragável: são todos o mesmo; os mesmos epítetos, as mesmas frases cortadas, as mesmas rimas e, quando tenham exacto número de sílabas, raro é o infeliz, que não manqueja, com as juntas em deplorável estado!
As composições de maior fôlego de Gonçalves Crespo foram a Resposta do Inquisidor e a Morte de D. Quixote.
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Era excepcional a fisionomia de Gonçalves Crespo; tinha o que quer que fosse de selvático; escapava à análise; não havia leis na estética para julgar aquela anarquia de feições. Pois este homem era uma simpatia viva e irresistível!
A luz forte e cristalina dos olhos; a voz máscula, redonda, sonora com umas notas veladas, deliciosas tinham poder singular!
Quando recitava versos, sempre comovido e sempre inspirado, todo aquele absurdo de linhas fisionómicas se harmonizava e era admirável!
Cismador e ingénuo! Tinha a imaginação viva do infante e a alma da criança. Entre os seus idílios há um soneto de sensualidade tão delicada que nenhum outro poeta, de quantos conheço, nacionais e estrangeiros, se lhe avantajou, a meu ver. Não me lembra o título; escrevendo estas notas não tenho nenhum volume de Gonçalves Crespo, mas tenho a ideia: eram duas borboletas, que palpitavam amorosamente sobre o leito alvíssimo de uma jovem noviça!
A clausurada, desviando os olhos daqueles noivos alados e coloridos, cravava-os no céu azulino da Primavera, comprimindo com a mão o seio ondulante e descerrando, num sôfrego suspiro, os lábios ardentes e purpurinos!
Tinha horas de profunda melancolia. Todo absorto e concentrado em si próprio, a solidão e a contemplação da natureza, em tais horas, eram-lhe impreteríveis.
Talvez nessa contenção de espírito seria que, porventura, firmava na imaginação as linhas vigorosas, as cores próprias e a distribuição da luz para os seus quadrinhos perfeitíssimos, este Meissonier das letras!
Os homens de talento aplaudiram-no; amou, e foi amado por uma mulher superior. Sorriam-lhe os dois únicos clarões deste mundo: a glória e o amor! Vingou-se da miséria da vida!
Amado por uma mulher superior, sim: cega e perdidamente amado, até ao último suspiro! Quem não conhece o gentilíssimo nome de Valentina de Lucena ou antes, o nome duas vezes patrício pelo berço, e pelo talento de Maria Amália Vaz de Carvalho!
O poeta estudava em Coimbra; Maria Amália, na sua apartada vivenda de Pintéus escrevia as últimas estâncias de Uma primavera de mulher, ramilhete, brilhante de cores, rescendente de aromas, orvalhado de lágrimas!
O poeta, discorrendo pelo choupal sussurrante e sombrio, sonhava, arrendando alguns dos seus primorosos sonetos...
Distantes, desconhecidos embora; palpitavam síncronos aqueles corações na aspiração da glória e nos arrebatamentos do amor! Se uma palavra os aproximasse fundiam-se um no outro!
Um dia Maria Amália abrira, pela primeira vez, o livro das Miniaturas. Uma lágrima confundiu-lhe a vista, ao terminar o Alguém.
Com a sua alma e com a sua memória, todo o poema lhe ficou na memória e na alma!
António Crespo tinha lido ao mesmo tempo os versos da privilegiada escritora que, logo nos primeiros passos da sua estreia, venda, na graça, os próprios lirismos de Pauli-na de Flaugergues.
O poeta ficou pensativo!
Dias depois veio-lhe à mão uma página de prosa de Maria Amália; prosa onde, através do cristal esmaltado da superfície, se vê claro no fundo o pensamento, propriedade rara e só dos elevados engenhos.
Que harmonia de sentimento e analogia de forma entre a nóvel escritora e o dulcíssimo poeta, que transportara o calor da paisagem nativa para as amenidades alpestres de Portugal!
António Crespo, depois de uma noite de insónia e sobressaltos, tomou uma resolução extrema; pegou na pena e escreveu àquela mulher, que ele amava já com as visões do seu talento e com os ímpetos do seu nobre coração!
Era uma loucura! Os espíritos vulgares não compreendem que uma loucura inspirada pelo amor é quase sempre uma obra sublime!
Escreveu a carta, ou antes, pôs toda a sua alma no papel misterioso e sibilino! Alvorotado e trémulo, deitou, ele próprio, a carta no correio.
Alea jacta est!
Dali a pouco casavam. António Crespo ainda era estudante.
O passo fora arriscado. Este mundo tem obrigações positivas e impreteríveis. E quando viessem filhos? Encararam tudo e levantando as cabeças, arajedas pelo talento e petulantes de audácia, sorriam, desafiando o futuro!
Começou o labutar constante. Ganhar a vida pela imprensa é trabalho rude em Portugal. Que o digam as melhores espadas!
Maria Amália Vaz de Carvalho era nervosa e débil; mas operava prodígios a sua enérgica vontade.
Houve momentos a mim próprio mo revelou depois em que, ao cabo de largas horas, desatava a Chorar, porque lhe faltavam literalmente forças para traçar as letras sobre o papel!
A luta durou anos! Vieram depois dias mais desafogados.
Finalmente António Crespo teve uma herança avultada.
Finalmente sim! porque muito pouco tempo depois morreu!
Infâmias do destino ou do acaso, que só cabem em sorte a alguns desgraçados!
Em Maio deste ano resolvi sair de Portugal e demorar-me uns meses por fora.
Na véspera da minha partida disseram-me que António Crespo estava com uma pneumonia, porém que o seu estado já não era grave.
Fui vê-lo imediatamente.
Encontrei lá o meu amigo António Xavier Rodrigues Cordeiro que vinha a despedir-se de Maria Amália. Assim que olhei para ela, bateu-me o coração uma pancada ruim!
À saída, Maria Amália, com a sua voz de pérolas voz única! disse-me:
Adeus, meu querido Bulhão Pato. Faça muito bem a sua viagem. Quando voltar...
Nunca me há-de esquecer a inflexão desta frase, que se cortou em lágrimas!
***
Um dia estava eu, em Roma, visitando o nosso ministro e meu velho amigo Matias de Carvalho e Vasconcelos, quando ele, pegando num jornal português, me leu satisfeito a notícia de que António Crespo se achava salvo e em plena convalescença.
Escrevi a Maria Amália, à minha dilecta amiga, que eu trouxe nos braços, quando era menina, e que amei sempre com o mais sincero afecto, uma carta de parabéns,
Ai de mim! que ainda não tive ânimo para lhe dar os pêsames!
Na carta mandava-lhe uma folha de Tusculum, como lembrança ao convalescente, tão amante de Cícero! Impelida pela saudade, essa folha simbólica, chegou ainda a tempo de cair inerte sobre a sepultura de um fraterno amigo!
Quase nos fins de Junho, em Veneza, recebendo cartas de Portugal, tive a nova da morte de António Crespo!
Era ao cair da tarde. O tempo estava magnífico. Veneza começava a acordar com a aproximação da noite.
Fui passear para a Praça de São Marcos. Tocava lá uma banda de primeira ordem.
Jantei muito tarde e pouco.
Meti-me numa gôndola e andei pelos canais até ao romper da madrugada. A imagem do poeta aparecia-me e confundia-se-me com tudo.
No correr desse dia fiz meia dúzia de versos. António Crespo também está nesses versos, talvez nebulosos, que dedico à sua memória.
Desponta a luz no azul imaculado;
Voam as pombas mansas em bandada;
Estremece o canal, como acordado,
Ao primitivo beijo da alvorada!
Rutila o Sol na esplêndida grandeza
Os mármores ducais! Referve o dia;
Mas só, caindo a noite, principia
A despertar a mórbida Veneza!
Pois aqui, onde há lágrimas e há dores,
Renovam-se os clarões das madrugadas,
No firmamento as noites estreladas,
No coração o amor, no campo as flores!
Ó poeta, onde estás, realizaste
A aspiração suprema do ideal?
Seria um sonho quanto tu cantaste?
Será o nada a vida perenal!?
Um nada foi a tua vida no mundo; mas nessa breve passagem deixaste um traço luminoso na história literária do teu país e uma viva saudade no coração dos teus amigos!
Agosto 21, 1883.
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