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Pêro de Andrade Caminha (152?-1589) nasceu no Porto e faleceu em Vila Viçosa. Foi fidalgo da Casa de D. João III. Terá acompanhado D. Sebastião na expedição a África e em 1578 desempenhou funções de diplomacia. Foi provedor da Misericórdia de Vila Viçosa nos últimos anos de vida. Como poeta, foi amigo de Sá de Miranda e António Ferreira, partilhando com eles a estética clássica. A sua obra poética manteve-se inédita até 1791, data em que a Academia das Ciências de Lisboa publicou parte dela. Em 1898, J. Priebsch publica em Halle um volume com uma grande quantidade de composições inéditas. Soneto I De Amor escrevo, de Amor falo e canto; E se minha voz fosse igual ao que amo, Esperara eu sentir na que em vão chamo Piedade, e na gente dor e espanto. Mas não há pena, ou língua, ou voz, ou canto Que mostre o amor por que eu tudo desamo, Nem o vivo fogo em que me sempre inflamo, Nem de meus olhos o contino pranto. Assi me vou morrendo, sem ser crida A causa por que em vão mouro contente, Nem sei se isto que passo é vida ou morte. Mas inda da que eu amo fosse ouvida E crida minha voz, e da vã gente Nunca entendida fosse minha sorte! Soneto II Quanto cuido, senhora, quanto escrevo, Tudo em vossos fermosos olhos leio, Neles, ante quem tudo é escuro e feio, Aprendo e vejo como amar-vos devo. Vejo que ao vosso amor todo me devo, Mas não vos sei amar, e assi me enleio Que não sei se vos amo ou se o receio, E a julgar em mim isto não me atrevo. Em vós cuido, em vós falo o dia e ora, Mouro por ver-vos, ir-vos ver não ouso, Por não ver quanto mais devo do que amo; Ó sol e ó. sombra o vosso nome chamo, Fora destes cuidados não repouso; Se isto é amor, vós o julgai, senhora! Soneto III Rosto que a branca rosa tem vencida, E ante quem a vermelha é descorada, Olhos, claras estrelas, que espantada Têm a alma, aceso o peito, presa a vida; Cabelos, puros raios, que abatida Deixam da manhã clara a luz dourada, Divina fermosura, acompanhada De üa virtude a poucas concedida; Palavras cheias de alto entendimento Raro riso, alto assento, casto peito, Santos costumes, vivo e grave esprito; Divino e repousado movimento, E muito mais, que está em minha alma escrito, Me tem num puro amor todo desfeito. Soneto IV Sobre mu cuidado triste me desfaço, Como ó sol neve, como névoa ó vento, E como cera ao fogo; e assi em vão tento Quanto cuido e ordeno, e quanto faço. Nele mil vezes mouro e mil renaço, E ando de pensamento em pensamento Provando se acharei contentamento Que me erga das tristezas em que faço. Mas em vão o desejo, em vão o espero! Que vós, senhora, tendes já tomado Todo remédio que alegrar-me possa. Mas não me tirareis este cuidado, Que inda que é triste, é vosso, e assi o quero; Mas ai, que desta pena a culpa é vossa! Soneto V Eu cantarei de amor tão novamente, Se me ouve aquela de quem sempre canto, Que de mim dor e magoa, e dela espanto Terá a mais fera, inculta e dura gente. E ela que assi tão crua e indinamente Dura aos meus choros é, surda ao meu canto, Algüa parte crerá (se não for tanto Como eu desejo) do que esta alma sente. Mas como esperarei achar piedade De mim nem em mim mesmo, se ela nega (Não peço brandos já) duros ouvidos? Se nega um volver de olhos com que cega A luz e dá só escuro claridade, Como serão meus danos nunca cridos? Soneto VI Ora alegre, ora triste, ou rindo, ou grave, Ou queda, ou dando passos concertados Ou tomeis com silêncio altos cuidados, Ora ouça vossa voz branda e suave; Ora abertos os olhos (onde a chave Tem amor do que pode) ora cerrados, Ou estêm de asperezas descuidados, Ora sua aspereza tudo agrave; Ou do crespo ouro que toda alma prende Vossa cabeça rodeada seja, Ou dele solto a luz estê invejosa: Agora assi, agora assi vos veja, Igualmente a meus olhos sois fermosa, Igualmente em meu peito o amor se acende! Epigrama XLVIII Em todas as sortes de versos cantada Deves de ser sempre, Fílis, com razão Deves de todo engenho ser louvada, Mas ah! quando a louvar-te chegarão? Nem os versos dirão nada, Nem engenhos bastarão; Mas estás tanto acima De quanto na terra há Que teu nome à rima Que te cantará Grande estima Lhe dará. Epigrama XLIX Nunca vi Fermosura, Fílis, como a ti Tem dado a ventura; E todo tempo assi Tão firme e tão segura. Em ti o Amor nos mostrou Tudo o que pode na terra, Nosso bem, nosso mal em ti juntou, E nos pôs em teus olhos paz e guerra; Mas sempre a paz neles, Fílis, nos negou, Vê bem quanto nisto Amor contra nós erra. Pêro de Andrade Caminha, Poesias Inéditas, Halle, Max Niemeyer, 1898. Publicação de J. Priebsch. |
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