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Obras integrais de autores portugueses

Gonçalves Crespo

António Cândido Gonçalves Crespo (1846-1883) nasceu nos arredores do Rio de Janeiro, Brasil, vindo para Portugal com dez anos de idade. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, sendo colaborador da Folha, jornal de que era director João Penha, poeta a introduzir em Portugal o Parnasianismo. Gonçalves Crespo foi influenciado pela escola parnasiana, notando-se nas suas obras poéticas o abandono da estética romântica. As suas poesias foram reunidas nas colectâneas Miniaturas (1870) e Nocturnos (1882). Tendo casado com a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, escreveu em colaboração com ela o livro Contos para os Nossos Filhos, publicado em 1886.

Outras páginas sobre o autor:

  • António Gonçalves Crespo segundo Bolhão Pato


    MINIATURAS



    ALGUÉM

    Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
    E tenho as formas ideais de Cristo;
    Para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
    E, se na Terra existe, é porque existo.

    Esse alguém, que prefere ao namorado
    Cantar das aves minha rude voz,
    Não és tu, anjo meu idolatrado!
    Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

    Quando, alta noite, me reclino e deito,
    Melancólico, triste e fatigado,
    Esse alguém abre as asas no meu leito,
    E o meu sono desliza perfumado.

    Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
    Por mim além dos mares! esse alguém
    É de meus olhos a esplendente aurora;
    És tu, doce velhinha, ó minha mãe!

    Miniaturas



    O ROSÁRIO

    Quando à noite contemplo taciturno
    estas contas antigas, o rosário
    das minhas orações,
    vejo em minh'alma o poema legendário
    dos velhos tempos das longínquas eras
    de santas devoções.

    A cruz ebúrnea, onde agoniza o Cristo,
    é de um lavor subtil que nos revela
    um génio magistral,
    obra de monge em merencória cela,
    piedoso artista há muito adormecido
    em velha catedral.

    Tem séculos; talvez que nestes contas
    passasse outrora suas mãos esguias
    a castelã senil,
    pensando triste nos saudosos dias
    em que a seus pés um menestrel vibrava
    o mimoso arrabil.

    Talvez que este rosário minorasse
    as saudades da noiva lacrimante
    que debalde esperou
    em cada nau, que vinha do Levante,
    o seu donzel amado que partira
    e nunca mais voltou.

    Sobre a cota de um jovem cavaleiro,
    que o beijava por noite estreladas
    pensando em sua mãe,
    ele assistiu às guerras das cruzadas,
    atravessou talvez a Terra Santa
    e viu Jerusalém.

    Talvez alguma freira, em triste claustro,
    de seus anos na doce primavera
    só dele confiou
    seus loucos sonhos de falaz quimera,
    e, apertando o rosário ao peito ansioso,
    consolada expirou.

    Isto o que leio no rosário antigo;
    e, quando melancólico lhe beijo
    as contas de marfim,
    no ar escuto indefinido arpejo,
    e então a crença, a mística toada,
    murmura dentro em mim.

    Miniaturas



    A SESTA

    Na rede, que um negro moroso balança,
    qual berço de espumas,
    formosa crioula repousa e dormita,
    enquanto a mucamba nos ares agita
    um leque de plumas.

    Na rede perpassam as trémulas sombras
    dos altos bambus;
    e dorme a crioula, de manso embalada,
    pendidos os braços da rede nevada
    mimosos e nus.

    Na rede, suspensa dos ramos erguidos,
    suspira e sorri
    a lânguida moça, cercada de flores;
    aos guinchos dá saltos na esteira de cores
    felpudo sagui.

    Na rede, por vezes, agita-se a bela,
    talvez murmurando
    em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
    que triste colono por noites formosas
    descanta chorando.

    A rede nos ares do novo flutua,
    e a bela a sonhar!
    Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
    de negros cativos os cantos magoados
    soluçam no ar.

    Na rede olorosa... Silêncio! Deixai-a
    dormir em descanso!...
    Escravo, balança-lhe a rede serena;
    mestiça, teu leque de plumas acena
    de manso, de manso...

    O vento que passe tranquilo, de leve,
    nas folhas do ingá;
    as aves que abafem seu canto sentido;
    as rodas do «engenho» não façam ruído,
    que dorme a sinhá!


    Miniaturas



    UM NÚMERO DE INTERMEZZO

    Ria tomando o chá em torno à mesa
    Da Sociedade a flor;
    E no campo de estéticas opostas
    Discutia-se o Amor.

    «O amor deve ser etéreo e puro»,
    O conselheiro diz:
    Sorrindo a conselheira um ai! abafa
    Com gestos de infeliz.

    Diz o cónego: «o amor destrói, mas quando
    Sensual, já se vê!»
    A donzela pergunta ingenuamente:
    «Reverendo, porquê?»

    A condessa murmura em voz dolente:
    « O amor é uma paixão.»
    E lânguida uma chávena oferece
    Ao pálido barão.

    Era vago um lugar em torno à mesa
    Era o teu, minha flor!
    Tu, só tu, poderias, se quisesses.
    Dizer o que era Amor!

    Miniaturas


    NOCTURNOS


    ESTA PALAVRA SAUDADE

    Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
    por uma noite de luar saudoso,
    Camões, pendida a fronte sobre o seio,
    cisma, embebido num pesar lutuoso...

    Eis que na rua um cântico amoroso
    subitâneo se ouviu da noite em meio:
    Já se abrem as adufas com receio...
    Noites de amores! Que trovar mimoso!

    Camões acorda e à gelosia assoma;
    e aquele canto, como um antigo aroma,
    ressuscita-lhe os risos do passado.

    Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
    no azul viu perpassar, claro e distante,
    de Natércia gentil o vulto amado...

    Nocturnos


    Quando canta a Maldonado
    E os quadris saracoteia,
    Não é mulher, é sereia,
    Não é mulher, é o pecado.

    Ao vê-la, pois, enleado
    Perco o siso, o verbo, a ideia,
    E um desejo audaz se enleia
    Neste peito meu bronzeado.

    Chamei-te sereia! engano!
    Nunca tolice maior
    Borbotou do lábio humano.

    Que toda a sereia, flor,
    Finda em peixe... e ou eu me engano,
    Ou tu acabas... melhor.


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