(...) Com
efeito, ouve-se na arte poética de Delete.me ora ecos de mestria simbolista,
ora uma heteronímia difusa numa passagem bem pessoana, ora explicitamente um
roteiro de influências (Carlos de Oliveira, Neruda, Eugénio de Andrade, entre
outros...). Opondo-se ao "jogo subtil das palavras" há "um silêncio
no outro lado da palavra não escrita", ou seja, o poema pode viver bem
alto, até acompanhado por outras manifestações artísticas (música,
escultura...) ou remeter-se à expressão sigética suprema, quer dizer expressão
do silêncio, por mais audível que este seja.
(...) A
presença de temas muito exóticos (como a huri, beldade muçulmana paradisíaca)
pode justificar-se por Silves, a velha Xelb, outrora grande metrópole ibérica.
Enfim, a poesia como ascese pode, finalmente, fecundar prosas poéticas, e até
literatura infantil, para terminar num registo em que a memória se torna
constitutiva.»
POEMA
deliberada
mente
olho o
vagabundo do outro lado da rua
tenho
pena
não
dele
mas de
mim
sentado
no chão tem o absoluto do nada e
eu?
reservo.me
na serventia de tudo
olho a
cigana do outro lado do passeio
invejo
as palavras com que tece
nas
mãos
ilusões
e
eu?
presa
ao presente em que o nada se compraz
no
absurdo das intenções
a
cabeça reserva.me a dúvida
o
cansaço das estórias recriadas
repisadas
ninguém
tem o direito de ser
um
mísero ímpio feito em deus
senhora
o
vinho corre!
deixá.lo
correr
alguém
pergunta
porquê?
o
bêbado bebe
na
solidão de si
se for
o caso
ou
talvez não e
porque
não?
o
vagabundo olha.me
estendo
a mão a que a cigana revestiu de cacos
deixo.lhe
um sorriso
preso
à imensidão de um olhar
profundo
que
não ouso
não
sei colar os cacos que a cigana
forjou
o não
é a palavra proscrita
no sim
de uma vida
sem
desígnio
perseguem.me
os fantasmas da escrita
a
maledicência transfere o golpe mortal
choro
o animal ferido
rio.me
do pontapé dado a um irmão
de
raça
alimento.me
de ossos e
peles
como
uma predadora imersa
em
ladainhas de bem querer
não
ouso
prefiro
o salto do vagabundo que
me
estende a mão para segui.lo
ao
encontro oculto da cigana
sou
sapato
gato
rato
a
ínfima parcela de um choro
que
não choro
de uma
gargalhada
que
não dou
coloco
a cabeça entre as mãos
aperto.a
não me
detenho em nada
não
ouço nada
prefiro
a algazarra do demónio
onde
encontro o absurdo do não ser
em
perfeição
não
magoa
matei
a alegria
matei
a cigana
matei
o vagabundo e
não
percebi que ao fazê.lo
matava.me
fiquei
reduzida ao nada
feliz
no
espaço que circunda
o
estar no meio do conflito
deixem.me
entregue às minhas loucas
fantasias
onde bebo
(e
porque não?)
os
néctares que me aprouver
deixem.me
ser
a
ausência
a
verdade
falsa
do trio que desenhei
o
vagabundo
a
cigana e eu
três
marginais no destino
estou
tão cansada de ser
valorizo
hoje
amanhã
destruo
a
sobreposição de comportamentos e
de
atitudes
como
manda a santa madre igreja
os anjos
os
arcanjos
os
santos
os
demónios
el.rei
e
senhor
sou
muito bem comportada
respeito
a cor
o
grito
o
silêncio
o
absurdo
a
redundância
tudo
começa a fazer sentido
ausento.me
em cansaço
olho o
outro lado da rua
não
vejo o vagabundo
terei
sonhado?
a cigana
sumiu
terei
efabulado?
não me
revejo
estarei
acordada?
é
necessário que alguém vigie
os
extra.terrestres acabam de ocupar
o
centro da avenida
têm
olhos redondos
nariz
redondo
orelhas
redondas
barriga
redonda
a boca
é
afiada
ah!
têm duas línguas
bífidas
como
as serpentes que procuram a estrada
cabeças
erguidas na morte
as
cadeiras
aprumadas
continuam
à espera que o espectáculo comece
os
actores não comparecem
[alguém
inverteu os papéis]
apagam.se
os projectores
deliberada
mente.