![]() |
![]() |
||
|
|
| ||
|
Tomás António Gonzaga (1744-1810) nasceu no Porto, filho de pai brasileiro. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, foi juiz em Beja, ouvidor em Vila Rica, Minas Gerais, e desembargador na Baía. Acusado de participar na revolta de Tiradentes, foi desterrado em 1792 para Moçambique onde veio a falecer. Escreveu várias composições amorosas, a que chamou liras, quase todas dedicadas a Marília, a sua noiva D. Maria Doroteia Joaquina de Seixas, que foram publicadas sob o título Marília de Dirceu. 1 Tu não verás, Marília, cem cativos tirarem o cascalho e a rica terra, ou dos cercos dos rios caudalosos, ou da minada serra; não verás separar ao hábil negro do pesado esmeril a grossa areia, e já brilharem os granetes de ouro no fundo da bateira; não verás derrubar os virgens matos, queimar as capoeiras ainda novas, servir de adubo à terra a fértil cinza, lançar os grãos nas covas; não verás enrolar negros pacotes das secas folhas do cheiroso fumo, nem espremer entre as dentadas rodas da doce cana o sumo: Verás em cima da espaçosa mesa altos volumes de enredados feitos; ver-me-ás folhear os grandes livros e decidir os pleitos. Enquanto resolver os meus consultos, tu me farás gostosa companhia, lendo os fastos da sábia, mestra História e os cantos da poesia. Lerás em alta voz, a imagem bela; eu, vendo que lhe dás o justo apreço, gostoso tornarei a ler de novo o cansado processo. Se encontrares louvada uma beleza, Marília, não lhe invejes a ventura, que tens quem leve à mais remota idade a tua formosura. 2 Nesta triste masmorra de um semivivo corpo sepultura, inda, Marília, adoro a tua formosura. Amor na minha ideia te retrata; busca, extremoso, que eu assim resista à dor imensa que me cerca e mata. Quando em meu mal pondero, então mais vivamente te diviso: vejo o teu rosto e escuto a tua voz e riso. Movo, ligeiro, para o vulto os passos: eu beijo a tíbia luz em vez da face e aperto sobre o peito em vão os braços... Conheço a ilusão minha, a violência da mágoa não suporto; foge-me a vista e caio, não sei se vivo ou morto. Enternece-se Amor de estrago tanto; reclina-me no peito, e com mão terna me limpa os olhos do salgado pranto. Depois que represento por largo espaço a imagem de um defunto, movo os membros, suspiro, e onde estou pergunto. Conheço então que Amor me tem consigo; ergo a cabeça, que inda mal sustento, e com doente voz assim lhe digo: «Se queres ser piedoso, procura o sítio em que Marília mora, pinta-lhe o meu estrago, e vê, Amor, se chora. Se a lágrimas verter a dor a arrasta, uma delas me traze sobre as penas, para alívio meu só isto basta.» LIRA XXVII Alexandre, Marília, qual o rio que engrossando no Inverno tudo arrasa. na frente das coortes cerca, vence, abrasa as cidades mais fortes; foi na glória das armas o primeiro; morreu na flor dos anos e já tinha vencido o mundo inteiro. Mas este bom soldado, cujo nome não há poder algum que não abata, foi, Marília, somente um ditoso pirata, um salteador valente: Se não tem uma fama baixa e escura, foi por se pôr ao lado da injustiça a insolente ventura. O grande César, cujo nome voa, à sua mesma pátria a fé quebranta; na mão a espada toma. oprime-lhe a garganta, Já senhores a Roma. Consegue ser herói por um delito: se acaso não vencesse, então seria um vil traidor proscrito O ser herói, Marília, não consiste em queimar os impérios: move a guerra. espalha o sangue humano e despovoa a terra também o mau tirano. Consiste o ser herói em viver justo: e tanto pode ser herói o pobre. como o maior Augusto. Eu é que sou herói, Marília bela, seguindo da virtude a honrosa estrada: ganhei, ganhei um trono: ah! não manchei a espada, não o roubei ao dono! Ergui-o no teu peito e nos teus braços, e valem muito mais que o mundo inteiro uns tão ditosos laços. Aos bárbaros, injustos vencedores atormentam remorsos e cuidados; nem descansam seguros nos palácios, cercados de tropa e de altos muros. E a quantos nos não mostra a sábia História, a quem mudou o fado em negro opróbio a mal ganhada glória! Eu vivo, minha bela, sim, eu vivo nos braços do descanso e mais do gosto: quando estou acordado. contemplo no teu rosto, de graças adornado; se durmo, logo sonho e ali te vejo. Ah! Nem desperto nem dormindo sobe a mais o meu desejo! LIRA XXVIV Vou-me, ó bela, deitar na dura cama, de que nem sequer sou o pobre dono; estende sobre mim Morfeu as asas, e vem ligeiro o sono. Os sonhos que rodeiam a tarimba mil cousas vão pintar na minha ideia; não pintam cadafalsos; não, não pintam nenhuma imagem feia. Pintam que estou bordando um teu vestido; que um menino com asas, cego e louro, me enfia nas agulhas o delgado. o brando fio de ouro. Pintam que entrando vou na grande igreja; pintam que as mãos nos damos, e aqui vejo subir-te à branca Face a cor mimosa, a viva cor do pejo. Pintam que nos conduz dourada sege à nossa habitação; que mil Amores desfolham sobre o leito as moles folhas das mais cheirosas flores. Pintam que desta terra nos partimos; que os amigos, saudosos e suspensos, apertam nos inchados, roxos olhos os já molhados lenços. Pintam que os mares sulco da Baía, onde passei a flor da minha idade: que descubro as palmeiras, e em dois bairros partida a grão cidade. Pintam leve escaler e que na prancha o braço já te ofereço, reverente; que te aponta co dedo, mal te avista, amontoada gente. Aqui, «alerta»! grita o meu soldado: e o outro, «alerta estou!» lhe diz gritando: acordo com a bulha... Então conheço que estava aqui sonhando. Se o meu crime não fosse só de amores, a ver-me delinquente, réu de morte. não sonhara, Marília, só contigo: sonhara doutra sorte. |
|||