Projecto Vercial

Alexandre Herculano


Alexandre Herculano

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa no dia 28 de Março de 1810 e faleceu na sua Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém, a 13 de Setembro de 1877. Devido ao seu envolvimento na «Revolta do 4 de Infantaria», foi obrigado a emigrar para Inglaterra, onde lê Walter Scott. Inicia a sua colaboração no Repositório Literário. Integra-se no exército liberal de D. Pedro IV, desembarca no Mindelo e participa no cerco do Porto. Ajuda a organizar a Biblioteca Pública do Porto. Em 1839 é nomeado diretor das bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda. Entretanto vai publicando algumas obras: A Harpa do Crente (1837), Lendas e Narrativas (1839-1844), Eurico, o Presbítero (1844), o primeiro volume da História de Portugal (1846), O Monge de Cister (1848), etc. As suas obras são de cunho romântico e vão desde a poesia ao drama e ao romance. Foi, além de um dos mais importantes escritores portugueses do século XIX, o renovador do estudo da História de Portugal.

Obras: Poesia – A Voz do Profeta (1836); A Harpa do Crente (1838); Poesias (1850). Teatro – O Fronteiro de África ou três noites aziagas (drama histórico português em 3 atos, representou-se em Lisboa, em 1838, no teatro do Salitre, Rio de Janeiro em 1862); Os Infantes em Ceuta (1842). Ficção: O Bobo (romance, 1843); Eurico, o Presbítero (romance, 1844); O Monge de Cister (2 vols., 1848); Lendas e narrativas (2 vols., 1851). História – História de Portugal: 1. época, desde a origem da monarquia até D. Afonso III (1846-1853); História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859); Portugaliae Monumenta Historica (1856-1873). Outras obras: Estudos sobre o casamento civil: por ocasião do opúsculo do sr. Visconde de Seabra sobre este assunto (1866); Opúsculos (10 vols.).

Obras disponíveis em formato electrónico:

  • A Harpa do Crente
  • Eurico, o Presbítero
  • História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal - I
  • História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal - II
  • História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal - III
  • História de Portugal - I
  • História de Portugal - II
  • História de Portugal - III
  • História de Portugal - IV
  • Lendas e Narrativas - I
  • Lendas e Narrativas - II
  • O Bobo
  • O Monge de Cister - I
  • O Monge de Cister - II
  • O Pároco da Aldeia
  • Opúsculos




  • A HARPA DO CRENTE (extracto)

    (um poema)



    A ARRÁBIDA

    I

    Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
    Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
    Onde não ruge a grande voz das turbas!
    Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
    O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
    Qual ao freixo robusto a frágil hera,
    E a romagem do túmulo cumprindo,
    Só conhecer, ao despertar na morte,
    Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
    Que íntima voz contínuo nos promete
    No trânsito chamado o viver do homem.

    II

    Suspira o vento no álamo frondoso;
    As aves soltam matutino canto;
    Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
    Dos alcantis na base carcomida:
    Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
    Insondado oceano, e o céu cerúleo
    Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
    Da eternidade e do infinito, salve!

    III

    Oh, como surge majestosa e bela,
    Com viço da criação, a natureza
    No solitário vale! E o leve insecto
    E a relva e os matos e a fragrância pura
    Das boninas da encosta estão contando
    Mil saudades de Deus, que os há lançado,
    Com mão profusa, no regaço ameno
    Da solidão, onde se esconde o justo.

    E lá campeiam no alto das montanhas
    Os escalvados píncaros, severos,
    Quais guardadores de um lugar que é santo;
    Atalaias que ao longe o mundo observam,
    Cerrando até o mar o último abrigo
    Da crença viva, da oração piedosa,
    Que se ergue a Deus de lábios inocentes.

    Sobre esta cena o sol verte em torrentes
    Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
    Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
    Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
    Desses tronos de fragas sobrepostas,
    Que alpestres matas de medronhos vestem;
    O rocio da noite à branca rosa
    No seio derramou frescor suave,
    E inda existência lhe dará um dia.

    Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

    IV

    Negro, estéril rochedo, que contrastas,
    Na mudez tua, o plácido sussurro
    Das árvores do vale, que vicejam
    Ricas d'encantos, coa estação propícia;
    Suavíssimo aroma, que, manando
    Das variegadas flores, derramadas
    Na sinuosa encosta da montanha,
    Do altar da solidão subindo aos ores,
    És digno incenso ao Criador erguido;
    Livres aves, filhas da espessura,
    Que só teceis da natureza as hinos,
    O que crê, o cantor, que foi lançado,
    Estranho no mundo, no bulício dele,
    Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
    Dus homens esquecer paixões e opróbio,
    E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
    O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.

    Convosco eu sou maior; mais longe a mente
    dos céus se imerge livre,
    E se desprende de mortais memórias
    Na solidão solene, onde, incessante,
    Em cada pedra, em cada flor se escuta
    Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
    A dextra sua em multiforme quadro.

    V

    Escalvado penedo, que repousas
    Lá no cimo do monte, ameaçando
    Ruína ao roble secular da encosta,
    Que sonolento move a coma estiva
    Ante a aragem do mar, foste formoso;
    Já te cobriram cespedes virentes;
    Mus o tempo voou, e nele envolta
    A formosura tua. Despedidos
    Das negras nuvens o chuveiro espesso
    E o granizo, que o solo fustigando
    Tritura u tenra lanceolada relva,
    Durante largos séculos, no Inverno,
    Dos vendavais no dorso a ti desceram.
    Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
    Que, maculando virginal pureza.
    Do pudor varre a auréola celeste,
    E deixa, em vez de um serafim m Terra,
    Queimada flor que devorou o raio.

    VI

    Caveira da montanha, ossada imensa,
    É tua campa o Céu: sepulcro o vale
    Um dia te será. Quando sentires
    Rugir com som medonho a Terra ao longe,
    Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
    Lançar à praia vagalhões cruzados;
    Tremer-te a larga base, e sacudir-te
    De sobre si, o fundo deste vale
    Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
    Do mundo primogénitos, e os sobros,
    Arrastados por ti lá da colina,
    Contigo hão-de jazer. De novo a terra
    Te cobrirá o dorso sinuoso:
    Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
    Do seu puro candor hão-de adornar-te;
    E tu, ora medonho e nu e triste,
    Ainda belo serás, vestido e alegre.

    VII

    Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
    Dos túmulos cair; quando uma pedra
    Os ossos me esconder, se me for dada,
    Não mais reviverei; não mais meus olhos
    Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
    Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
    Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
    Vai provar que um Deus há o estranhos povos
    E além das ondas trémulo sumir-se;
    Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
    Com torrentes de luz inunda as veigas:
    Não mais verei o refulgir da Lua
    No irrequieto mar, na paz da noite,
    Por horas em que vela o criminoso,
    A quem íntima voz rouba o sossego.
    E em que o justo descansa, ou, solitário,
    Ergue ao Senhor um hino harmonioso.

    VIII

    Ontem, sentado num penhasco, e perto
    Dos águas, então quedas, do oceano,
    Eu também o louvei sem ser um justo:
    E meditei, e a mente extasiada
    Deixei correr pela amplidão das ondas.

    Como abraço materno era suave
    A aragem fresca do cair das trevas.
    Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
    Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.

    Tudo calado estava: o mar somente
    As harmonias da criação soltava,
    Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
    Se agitava, gemendo e murmurando.
    Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
    O pranto me correu, sem que o sentisse.
    E aos pés de Deus se derramou minha alma.

    IX

    Oh, que viesse o que não crê, comigo,
    À vicejante Arrábida de noite,
    E se assentasse aqui sobre estas fragas,
    Escutando o sussurro incerto e triste
    Das movediças ramas, que povoa
    De saudade e de amor nocturna brisa;
    Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
    E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
    Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
    E, adorando o Senhor, detestaria
    De uma ciência vã seu vão orgulho.

    X

    É aqui neste vale, ao qual não chega
    Humana voz e o tumultuar das turbas,
    Onde o nada da vida sonda livre
    O coração, que busca ir abrigar-se
    No futuro, e debaixo do amplo manto
    Da piedade de Deus: aqui serena
    Vem a imagem da campa, como a imagem
    Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
    Brada a montanha, memorando a morte.

    Essas penhas, que, lá no alto das serras
    Nuas, crestadas, solitárias dormem,
    Parecem imitar da sepultura
    O aspecto melancólico e o repouso
    Tão desejado do que em Deus confia.
    Bem semelhante à paz. que se há sentado
    Por séculos, ali, nas cordilheiras
    É o silêncio do adro, onde reúnem
    Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.

    Como tu vens cercado de esperança,
    Para o inocente, ó plácido sepulcro!
    Junto das tuas bordas pavorosas
    O perverso recua horrorizado:
    Após si volve os olhos; na existência
    Deserto árido só descobre ao longe.
    Onde a virtude não deixou um trilho.

    Mas o justo, chegando à meta extrema,
    Que separa de nós a eternidade,
    Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
    O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
    Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
    Que peregrino vagueou na Terra,
    Sem encontrar um coração ardente
    Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
    Ignota, por lá busca; e quando as eras
    Vierem junto às cinzas colocar-lhe
    Tardios louros, que escondera a inveja,
    Ele não erguerá a mão mirrada,
    Para os cingir na regelada fronte.
    Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
    An pé da sepultura, é som perdido
    De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
    O despertar um pai, que saboreia
    Entre os bruços da morte o extremo sono,
    Já não é dado ao filial suspiro;
    Em vão o amante, ali, da amada sua
    De rosas sobre a c'roa debruçado,
    Rega de amargo pranto as murchas flores
    E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
    E para sempre as flores se murcharam.


    XI

    Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
    Aspirando o futuro além da vida
    E um hálito dos Céus, gemer atada
    À coluna do exílio, a que se chama
    Em língua vil e mentirosa o mundo.
    Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
    Dos sonhos meus. A imagem do deserto
    Guardá-la-ei no coração, bem junto
    Com minha fé, meu único tesouro.

    Qual pomposo jardim de verme ilustre,
    Chamado rei ou nobre, há-de contigo
    Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
    Em vaso de alabastro a flor cativa,
    Ou árvore educada por mão de homem,
    Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
    E lhe decepe os troncos. Como é livre
    A vaga do oceano, é livre no ermo
    A bonina rasteira ou freixo altivo!
    Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
    Humana voz. Se baqueou o freixo,
    Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
    É que o rocio não desceu de noite,
    E da vida o Senhor lhe nega a vida.

    Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
    Paz íntima, e saudade, mas saudade
    Que não dói, que não mirra, e que consola,
    São as riquezas do ermo, onde sorriem
    Das procelas do mundo os que o deixaram.

    XII

    Ali naquela encosta, ontem de noite,
    Alvejava por entre os medronheiros
    Do solitário a habitação tranquila:
    E eu vagueei por lá. Patente estava
    O pobre albergue do eremita humilde,
    Onde jazia o filho da esperança
    Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
    Em leito, duro sim, não de remorsos.
    Oh, com quanto sossego o bom do velho
    Dormia! A leve aragem lhe ondeava
    As raras cãs na fronte, onde se lia
    A bela história de passados anos.
    De alto choupo através passava um raio
    Da Lua – astro de paz, astro que chama
    Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
    E em luz pálida as faces !he banhava:
    E talvez neste raio o Pai celeste
    Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
    Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
    Como se um sonho de ventura e glória
    Na Terra de antemão o consolasse.
    E eu comparei o solitário obscuro
    Ao inquieto filho das cidades:
    Comparei o deserto silencioso
    Ao perpétuo ruído que sussurra
    Pelos palácios do abastado e nobre,
    Pelos paços dos reis; e condoí-me
    Do cortesão soberbo, que só cura
    De honras, haveres, glória, que se compram
    Com maldições e perenal remorso.
    Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
    Cobertas de cadáveres, regadas
    De negro sangue, ele segou seus louros;
    Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
    Ao som do choro da viúva e do órfão;
    Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
    Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
    Lá o filho do pó se julga um nume,
    Porque a Terra o adorou; o desgraçado
    Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
    Nunca se há-de chegar para tragá-lo
    Ao banquete da morte, imaginando
    Que uma lájea de mármore, que esconde
    O cadáver do grande, é mais durável
    Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
    Por onde o opresso, o mísero, procura
    O repouso, e se atira aos pés do trono
    Do Omnipotente, a demandar justiça
    Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.

    XIII

    Ó cidade, cidade, que transbordas
    De vícios, de paixões e de amarguras!
    Tu lá estás, na tua pompa envolta,
    Soberba prostituta, alardeando
    Os teatros, e os paços, e o ruído
    Das carroças dos nobres recamadas
    De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
    Tempestuosa, e o tropear contínuo
    Dos férvidos ginetes, que alevantam
    O pó e o lodo cortesão das praças;
    E as gerações corruptas de teus filhos
    Lá se revolvem, qual montão de vermes
    Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
    Branqueado sepulcro, que misturas
    A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
    Honra e infâmia, pudor e impudícia
    Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
    Da humanidade? O que o souber que o diga!

    Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
    A imagem desse povo, que reflui
    Das moradas à rua, à praça, ao templo;
    Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
    Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
    Absurdo misto de baixeza extrema
    E de extrema ousadia; vulto enorme,
    Ora aos pés de um vil déspota estendido,
    Ora surgindo, e arremessando ao nada
    As memórias dos séculos que foram,
    E depois sobre o nada adormecendo.

    Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
    Em joelhos nos átrios dos tiranos.
    Onde, entre o lampejar de armas de servos,
    O servo popular adora um tigre ?
    Esse tigre é o ídolo do povo!
    Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
    O férreo ceptro: ide folgar em roda
    De cadafalsos, povoados sempre
    De vítimas ilustres, cujo arranco
    Seja como harmonia, que adormente
    Em seus terrores o senhor das turbas.
    Passai depois. Se a mão da Providência
    Esmigalhou a fronte à tirania;
    Se o déspota caiu, e está deitado
    No lodaçal da sua infâmia, a turba
    Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
    E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
    E envolta em roto manto. e julga, e reina.
    Se um ímpio, então, na afogueada boca
    De vulcão popular sacode um facho,
    Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
    E referve, e trasborda, e se derrama
    Pelas ruas além: clamor retumba
    De anarquia impudente, e o brilho de armas
    Pelo escuro transluz, como um presságio
    De assolação, e se amontoam vagas
    Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
    Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
    Cava fundo da Pátria a sepultura,
    Onde, abraçando a glória do passado
    E do futuro a última esperança,
    As esmaga consigo, e ri morrendo.

    Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
    Outros louvem teus paços sumptuosos,
    Teu ouro, teu poder: sentina impura
    De corrupções, teus não serão meus hinos!

    XIV

    Cantor da solidão, vim assentar-me
    Junto do verde céspede do vale,
    E a paz de Deus do mundo me consola.

    Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
    Um pobre conventinho. Homem piedoso
    O alevantou há séculos, passando,
    Como orvalho do céu, por este sítio,
    De virtudes depois tão rico e fértil.

    Como um pai de seus filhos rodeado,
    Pelos matos do outeiro o vão cercando
    Os tugúrios de humildes eremitas,
    Onde o cilício e a compunção apagam
    Da lembrança de Deus passados erros
    Do pecador, que reclinou a fronte
    Penitente no pó. O sacerdote
    Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
    E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
    Do que expirando perdoava, o Justo,
    Que entre os humanos não achou piedade.

    XV

    Religião! do mísero conforto,
    Abrigo extremo de alma, que há mirrado
    O longo agonizar de uma saudade.
    Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
    Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
    Que renovou o corrompido mundo,
    E que mil povos pouco a pouco ouviram.
    Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
    O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
    Da desgraça no dia ajoelharam
    No limiar do solitário templo.
    Ao pé desse portal, que veste o musgo,
    Encontrou-os chorando o sacerdote,
    Que da serra descia à meia-noite,
    Pelo sino das preces convocado:
    Aí os viu ao despontar do dia,
    Sob os raios do Sol, ainda chorando,
    Passados meses, o burel grosseiro,
    O leito de cortiça, e a fervorosa
    E contínua oração foram cerrando
    Nos corações dos míseros as chagas,
    Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
    Aqui, depois, qual hálito suave.
    Da Primavera, lhes correu a vida,
    Até sumir-se no adro do convento,
    Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
    Sem nome, nem palavra, que recorde
    O que a terra abrigou no sono extremo.

    Eremitério antigo, oh, se pudesses
    Dos anos que lá vão contar a história;
    Se ora, à voz do cantor, possível fosse
    Transudar desse chão, gelado e mudo,
    O mudo pranto, em noites dolorosas,
    Por náufragos do mundo derramado
    Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
    Broncas pedras, falar, o que diríeis!

    Quantos nomes mimosos da ventura,
    Convertidos em fábula das gentes.
    Despertariam o eco das montanhas,
    Se aos negros troncos do sobreiro antigo
    Mandasse o Eterno sussurrar a história
    Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
    Para um leito formar, onde velassem
    Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
    Aqui veio, talvez, buscar asilo
    Um poderoso, outrora anjo da Terra,
    Despenhado nas trevas do infortúnio;
    Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
    Ou pela morte convertido em cancro
    De infernal desespero; aqui soaram
    Do arrependido os últimos gemidos,
    Depois da vida derramada em gozos,
    Depois do gozo convertido em tédio.
    Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
    Vestidura mortal, deixou vestígios
    De seu breve passar. E isso que importa,
    Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
    Ele contou, para as pagar com glória?

    XVI

    Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
    Que serpeia do monte ao fundo vale,
    Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
    Como um farol de vida em mar de escolhos:
    Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
    E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
    É lá no Céu: abraça-te comigo.»
    Junto dela esses homens, que passaram
    Acurvados na dor, as mãos ergueram
    Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
    Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
    Vêm derramar seu coração aflito:
    É do deserto a história, a cruz e a campa;
    E sobre tudo o mais pousa o silêncio.

    XVII

    Feliz da Terra, os monges não maldigas;
    Do que em Deus confiou não escarneças:
    Folgando segue a trilha, que há juncado,
    Para teus pés, de flores a fortuna.
    E sobre a morta crença em paz descansa.
    Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
    O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
    E sobre a fria pedra encosta a fronte?
    Que mal te faz uma oração erguida,
    Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
    E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
    Oh, não insultes lágrimas alheias,
    E deixa a fé ao que não tem mais nada!...

    E se estes versos te contristam, rasga-os.
    Teus menestréis te venderão seus hinos,
    Nos banquetes opíparos, enquanto
    O negro pão repartirá comigo,
    Seu trovador, o pobre anacoreta,
    Que não te inveja as ditas, como as c'roas
    Do prazer ao cantor eu não invejo;
    Tristes coroas, sob as quais às vezes
    Está gravada uma inscrição d'infâmia.


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