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João de Lemos Seixas Castelo Branco (1819-1890) nasceu em Peso da Régua. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra onde ajudou a fundar a revista O Trovador. Além de poesias de pendor ultra-romântico, escreveu o livro em prosa Serões da Aldeia, publicado em 1877. Os seus poemas foram reunidos nas colectâneas Cancioneiro (1º volume publicado em 1858, 2º volume em 1859 e 3º volume em 1866) e Canções da Tarde, esta publicada em 1875. O seu lirismo piegas foi criticado pelos escritores realistas. O poema «A Lua de Londres», por exemplo, é ridicularizado numa passagem de Os Maias de Eça de Queirós.

Outras páginas sobre o autor:

  • João de Lemos segundo Bulhão Pato


    CANCIONEIRO


    A LUA DE LONDRES

    É noite. O astro saudoso
    rompe a custo um plúmbeo céu,
    tolda-lhe o rosto formoso
    alvacento, húmido véu,
    traz perdida a cor de prata,
    nas águas não se retrata,
    não beija no campo a flor,
    não traz cortejo de estrelas,
    não fala de amor às belas,
    não fala aos homens de amor.

    Meiga Lua! Os teus segredos
    onde os deixaste ficar?
    Deixaste-os nos arvoredos
    das praias de além do mar?
    Foi na terra tua amada,
    nessa terra tão banhada
    por teu límpido clarão?
    Foi na terra dos verdores,
    na pátria dos meus amores,
    pátria do meu coração!

    Oh! que foi!... Deixaste o brilho
    nos montes de Portugal,
    lá onde nasce o tomilho,
    onde há fontes de cristal;
    lá onde viceja a rosa,
    onde a leve mariposa
    se espaneja à luz do Sol;
    lá onde Deus concedera
    que em noite de Primavera
    se escutasse o rouxinol.

    Tu vens, ó Lua, tu deixas
    talvez há pouco o país
    onde do bosque as madeixas
    já têm um flóreo matiz;
    amaste do ar a doçura,
    do azul e formosura,
    das águas o suspirar.
    Como hás-de agora entre gelos
    dardejar teus raios belos,
    fumo e névoa aqui amar?

    Quem viu as margens do Lima,
    do Mondego os salgueirais;
    quem andou por Tejo acima,
    por cima dos seus cristais;
    quem foi ao meu pátrio Douro
    sobre fina areia de ouro
    raios de prata esparzir
    não pode amar outra terra
    nem sob o céu de Inglaterra
    doces sorrisos sorrir.

    Das cidades a princesa
    tens aqui; mas Deus igual
    não quis dar-lhe essa lindeza
    do teu e meu Portugal.
    Aqui, a indústria e as artes;
    além, de todas as partes,
    a natureza sem véu;
    aqui, ouro e pedrarias,
    ruas mil, mil arcarias;
    além, a terra e o céu!

    Vastas serras de tijolo,
    estátuas, praças sem fim
    retalham, cobrem o solo,
    mas não me encantam a mim.
    Na minha pátria, uma aldeia,
    por noites de lua cheia,
    é tão bela e tão feliz!...
    Amo as casinhas da serra
    coa Lua da minha terra,
    nas terras do meu país.

    Eu e tu, casta deidade,
    padecemos igual dor;
    temos a mesma saudade,
    sentimos o mesmo amor.
    Em Portugal, o teu rosto
    de riso e luz é composto;
    aqui, triste e sem clarão.
    Eu, lá, sinto-me contente;
    aqui, lembrança pungente
    faz-me negro o coração.

    Eia, pois, ó astro amigo,
    voltemos aos puros céus.
    Leva-me, ó Lua, contigo,
    preso num raio dos teus.
    Voltemos ambos, voltemos,
    que nem eu nem tu podemos
    aqui ser quais Deus nos fez;
    terás brilho, eu terei vida,
    eu já livre e tu despida
    das nuvens do céu inglês.

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