José Leon Machado


Capa do livro 'Fluviais'

Capa do livro 'Fluviais'


Fluviais

de José Leon Machado

Contos de um tempo que (já) não existe

Fernando Gualtieri

José Leon Machado descreve na sua obra Fluviais, apresentada, anteontem na Biblioteca Pública de Braga, um passado que " não vivi e que também não gostaria de ter vivido".

"As experiências que os meus personagens tiveram são experiências de miséria e fome", explica.

José Leon Machado confessa, em conversa com o Correio do Minho, que "o autor está pouco presente".

"Sou um autor da cidade, que não gosta de ir ou estar na aldeia, nem sentir o cheiro a estrume, a bosta", atira.

Leon Machado, nascido em 1965, docente do Departamento de Letras da Universidade do Minho de Trás-os-Montes e Alto Douro, conta nestes Fluviais, agora editados pelo Campo de Letras, histórias que remontam aos anos 40 e 50, com paisagens do Minho e Trás-os-Montes.

O autor repete não estar "muito presente" na obra, cujas histórias são anteriores ao seu nascimento e os personagens, comuns há meio século, "desapareceram ou estão em vias de desaparecer".

"Os personagens já não existem, não porque foram destruídos, mas porque foram ultrapassados pelo presente", um presente que o próprio autor considera "oco e sem alma".

Ao escolher este tempo/espaço histórico (anos 40/50) – onde se encontram simplesmente três referências a Oliveira Salazar e outras duas ao 25 de Abril –, Leon Machado confessa que é culpado de "preferir histórias de um tempo que não existe".

"Não gosto da época em que vivo, sinto-me deslocado; sinto que não pertenço a este momento. É um momento medíocre, oco, em que o futuro está mais ligado ao consumismo e à derrota do interior, da alma".

"Diz-se que o tempo come os homens. Neste livro, os personagens são comidos pelo tempo, por um presente oco e sem alma", frisa o autor.

"Não é uma obra negativista. É realista mas também saudosista", diz, todavia.

Fernando Venâncio, professor da Universidade de Amsterdão, ensaísta e crítico literário, a quem coube apresentar este novo título de José Leon Machado, define-o como "um conjunto de histórias da pré-história do autor".

O crítico reconhece a sua perplexidade perante Fluviais que define como um trabalho literário que tenta reconstituir em 2002 "um Portugal que não existe há quase meio século".

"É um livro que pára num momento da vida portuguesa e que o tenta reconstituir, embora esse momento já não exista há mais de 50 anos", explica Fernando Venâncio, que reconhece nas palavras escritas do autor influências de Miguel Torga, João Araújo Correia e dos grandes contistas da metade do século XX. Considerando Fluviais uma obra "nostálgica", Fernando Venâncio não esconde alguma admiração e perplexidade": "Não compreendo como se pode neste momento alguém se entusiasmar, como José Leon Machado o faz, por um Portugal que está perfeitamente desaparecido".

"Não há nenhum telemóvel nos 39 contos da obra" deste antigo colaborador do Correio do Minho, conclui, com alguma ironia, Fernando Venâncio.

Correio do Minho, 2002-02-07


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