José Leon Machado


Capa do livro 'Fluviais'

Capa do livro 'Fluviais'


Fluviais

de José Leon Machado

O idealismo nunca se deu bem com a razão prática que, vivendo a errância do dia-a-dia, faz de aventura uma coisa que basta a si própria.

Convém ler este livro como se iniciássemos um percurso circular em que o ponto de partida vai ter alguma semelhança com o de chegada: a fantasia e o erotismo. Uma espécie de ilha dos amores fluviais. Pelo meio fica um mundo em convulsão, de contradições e desencontros, frustrações e os insondáveis da natureza humana, uma vida cujas vivências desapareceram já ou estão em vias disso. Uma vida, isto é, um modo de viver ou uma cultura que aqui se reparte em duas, a minhota e a transmontano, apenas diferenciadas pelas nomeações, pois a casuística e seus conflitos mantêm-se. Há um perfume de tragédia ao longo destes contos, como iremos ver.

Comecemos pelo princípio e pelo fim. O princípio é o conto "A máscara da Ninfa", um conto aliás bem urdido, na linha do fantástico que eu propendo a interpretar segundo motivação alucinatória. Mantenho o que já escrevi sobre ele. "O fantástico, entendido no sentido restrito, como uma certa forma de desenvolver imaginativamente uma história não volta a aparecer, mas põe um sinal inapagável na escrita do autor, o qual deriva para uma visão do mundo marcada pela decepção". "Um achado, com o ti Né, feito barqueiro por necessidade da população, a experimentar uma situação extraordinária. Na outra margem do rio estava uma rapariga apenas, luminosa, de "perna fresca e madura", a desprender um cheiro estranhíssimo: "qualquer coisa entre a fragrância dos lírios de rio e o aroma de fruta frita". Conversaram, sem que o mistério da rapariga ficasse desvendado. A ele ocorria-lhe que, talvez há mais de cinquenta anos, desembarcara ali com um grupo de rapazes, todos mascarados, deparando-se-lhes um grupo semelhante, nem mais do que "um grupo de raparigas mascaradas de demónios". Uma delas tocou ao ti Né. Nunca mais a voltou a ver, desde esse dia, apesar de incessantes buscas. Agora estava ali aquela, de sorriso enigmático, já embarcada, a caminho da margem oposta. Quando a barcaça encosta à terra, o ti Né procura a rapariga com os olhos "e vê apenas uma marulhar como se alguém tivesse mergulhado"; só "águas calmas e quase limpas". Reparou mesmo que os cães que o haviam acompanhado não estavam ali, pois tinham ficado em casa".

O último conto tem o título de "A professora nova". A atracção entre Flora, a professora, bonita, elegante, e Tino, um rapagão moreno e rijo que trabalhava como camionista, é puramente sexual. Flora foge de uma desilusão de sete anos e refugia-se numa aldeia serrana onde a vida, mais primitiva, menos artificial, lhe traz novos ímpetos ao sangue. A beleza do fundo mítico que irradiava do conto "A máscara da Ninfa" dá agora lugar ao instinto, ao prazer pelo prazer. Mas o constrangimento social, pela diferença de formação intelectual e de profissões, encaminha o encontro para o desencontro. Ele emigra para fora do país e ela para outras experiências sexuais. Um dia, o Tino regressa e Flora encontra-o numa visita à aldeia. Há de facto um abraço cujo significado não é outra coisa do que pôr um ramo florido na decepção. O idealismo nunca se deu bem com a razão prática que, vivendo a errância do dia-a-dia, faz de aventura uma coisa que basta a si própria.

(Excerto da apresentação, publicada no Semanário Transmontano)

António Cabral, Abril de 2002


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