de José Saramago
Após a leitura do Memorial do Convento e da Jangada de Pedra de José Saramago, achei oportunidade de iniciar a História do Cerco de Lisboa. Sobre o conteúdo das duas obras anteriores não me pronunciarei, por a leitura se encontrar já em estado latente. Recordo apenas que, sendo chamado a Mafra para o serviço militar, me ofereceram o Memorial do Convento para fruição nos reduzidos espaços entre o descanso e os exercícios de recruta. Baltazar e Blimunda foram lenitivo na agressividade do ambiente bélico. Podia levantar o olhar para as vistas daqueles oficiais atulhados de orgulho: sabia mais sobre o convento, o Calhau, como lhe chamavam recrutas e cadetes, do que toda a hierarquia de tão ilustre escola.
A tropa acabou, Scarlatti partira. Terminando o curso universitário no passado mês de Junho, e como corolário de tão grande feito cada vez mais difícil nos nossos dias , tendo adquirido a História do Cerco há alguns meses, mas sem oportunidade para lhe pegar em definitivo, abocanhei-a agora de uma só dentada.
Inquietou-me o capítulo inicial com a apresentação de um revisor de provas e o problema do deleatur. Pensei: O José Saramago vai malhar por ali abaixo no revisor, agora, que essa arte vai cada vez sendo mais uma trivialidade. Receio fundado em experiências anteriores. Também eu, nas férias, fora revisor num jornaleco minhoto e sei o quanto custa a responsabilidade de trocar um b por um f em palavras como boda.
Mas não. O Sr. Raimundo Silva é uma simpatia, malgrado a sua queda pelos mouros, apesar de o narrador dizer que não. Uma costelazita pró-Sadam, talvez. O nosso rei sim, foi muito maltratado, e o bispo do Porto, o arcebispo de Braga, os cruzados e demais galegos. Raimundo Silva manifestou-se de patrioteiro pouco. A coragem de contrariar a história, deixar de pintar o cabelo, dizer sim ao amor de Maria Sara, contraria o fatalismo tão peculiar aos lisboetas, herdado de Mafoma. O sangue galego suplantou, parece, o mourisco, como os portugueses a moirama no cerco. Fervendo-lhe no sangue o ímpeto dos de Ibne Henrique, identificando-se com Mogueime, a ele se mistura a paciência, a visão e a calma do almuadem.
Quantas vezes Lisboa caíra? Domínio de Fenícios e Iberos, arrasaram-na os Celtas no século IV a.C., aqueles bárbaros vindos da Gallaecia vestidos com pele de rato e carneiro, olho azul e duro. Dela restou o nome: Olissipo.
Vieram os Romanos e tiraram-na aos Celtas, mais conhecidos na zona por Lusitanos. Aí exploraram largos anos, contendo revoltas e guerrilhas, melhorando, construindo, até à razia dos Vândalos e toda a barbárie da Germânia, corridos pelos Hunos. Reconstruíram-na os Visigodos para, duzentos anos mais tarde, os berberes e as tropas de Tarique a incendiarem e pilharem. Reconstruíram-na, preservaram o topónimo: Lixbuna. Exigindo direitos antigos, saquearam-na os Portugueses recém-nascidos, expulsando ou matando as réstias árabes.
A cidade, no entanto, não teria paz por muito tempo. Sitiada pelos castelhanos em 1385, de fome e de peste quase vencida, perderam os castelhanos que se foram sem lhe transtornar uma pedra. Novas pestes, outras fomes, terramotos, perda de soberania, lutas internas, invasões francesas, revoluções, a tudo tem resistido.
O cerco agora é outro: empresários japoneses, senhores da droga, «burlíticos», CEE, todos a cercam, a chupam, a trincam. «Quando, Senhor, libertarás a tua cidade? Lisboa não submete; Lisboa não é Portugal e o resto paisagem. Lisboa é a única nesga de rocha que não é portuguesa, porque de todos e ninguém.
O soldado Mogueime e Ouroana, símbolos de um povo em gestação, reflectem a época pela relação senhor-criado, nobre-plebeu, homem-mulher. Analogia com a vida de revisor, também ele um soldado cujas batalhas são travadas nas páginas contra gralhas e erros tipográficos dos livros que revê, às turras com directores, patrões, autor.
O estilo «ramalhudo (1)» tão peculiar de José Saramago, rebuscando em textos barrocos e neoclássicos, com sintaxe subordinativa, há pouco caída em desuso porque demasiado obtusa para espíritos «modernos», dá ao leitor uma preocupação dupla: além de tentar compreender o texto no seu conteúdo, terá de, por uma ginástica visual, procurar o sujeito do verbo num mar de complementos.
A tensão é grande, o voltar linhas atrás para buscar o fio à meada é constante. O leitor vê-se cercado numa guerrilha de selva, com uma saída possível: o volver atrás e avançar de novo, num perigo de sair furado por seta ou pilo. Chamarei «renovar» a esse estilo. Qualquer leitor mediano cansou já das formas de escrever herdadas dos românticos e realistas. As coisas são ditas, há quase dois séculos, sempre no mesmo ritmo e cadência. Caiu-se na vulgaridade e no tédio dos leitores.
Cozeriu olha os escritores como os renovadores e actualizadores da língua. Eles reinventam-na, insuflam-lhe energia nova transformando-a em prazer e necessidade. José Saramago, linguagem difícil mas densa, é um desses renovadores.
A História do Cerco de Lisboa termina com uma sombra debaixo do alpendre da varanda onde Raimundo vivia. Espectro de cão faminto, de mouro fugido ao massacre... talvez Mogueime debruçado, com Mem Ramires em cima, prontos a abalroar a casa num grito de guerra. Ou o autor apenas, na capa de narrador a afastar-se depois da missão cumprida. Como nunca chegaremos a descobrir e o narrador, se fosse imprescindível, teria dado mais informação, ficamo-nos com o que não sabemos.
(1) Cfr. Camilo Castelo Branco, Vinte Horas de Liteira, Cap. I.
José Leon Machado, 1991
