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Diário de navegação de Pero Lopes de Sousa: A representação do real e os filtros da representação

As viagens relacionadas com os Descobrimentos portugueses e a subsequente constituição de um vasto império, entre o final da Idade Média e do Antigo Regime, deixaram inúmeros reflexos num espólio literário que constitui, simultaneamente, um dos meios privilegiados de realizar a História de todo este processo.

O conceito de "literatura de viagens" é complexo e divide opiniões1; trata-se de uma expressão moderna, surgida nas últimas décadas deste século, a identificar como literatura autónoma, como subgénero, um espólio literário (e também cartográfico e iconográfico) constituído por um corpus de textos, cujas balizas cronológicas se situam entre o século XV e o XIX e cuja natureza é em si compósita e interdisciplinar, compartindo a sua actividade entre a antropologia, a geografia e a história. Ao analisarem-se estes textos, logo à partida, o uso da palavra "literatura" pode levantar algumas questões – o uso de critérios demasiado redutores tornaria controversa a integração nesta categoria de muitos dos documentos existentes.

Em linhas muito gerais, pode considerar-se que este corpus é integrado por obras redigidas, não por escritores (na moderna acepção da palavra), mas por participantes ou testemunhas presenciais dos acontecimentos narrados e que se identificam por uma temática comum- a descrição da alteridade geográfica e humana que a experiência ultramarina proporcionou, a revelação pela escrita de uma paisagem exótica (oriental e tropical) e da imagem do Outro, de uma humanidade diferente, com culturas, crenças, governos e costumes próprios. Situam-se, assim, num cruzamento interdisciplinar e constituem um dos patrimónios culturais mais ricos que o Renascimento legou à Humanidade. Há, pois, que ter em conta estas especificidades na abordagem deste vasto leque documental, cujo tratamento deve ser encarado em função de uma conexão histórico-literária que permita formular modelos.

Serão os critérios de recepção destes textos a desenvolver o sistema: o sentido genérico de "literatura de viagens" vai constituir-se a partir de um público que os recebeu em parte como históricos e em parte como entretenimento2, acabando em última análise por ser definida como aquilo que os leitores e os escritores entenderam como tal. É um corpo de textos promovido por editores e leitores e não pode ser ignorado que esta selecção obedeceu a móbeis, conceitos e preconceitos dos seus promotores, pelo que na sua análise há que ter atenção às condicionantes externas e internas que lhes estão subjacentes – existem estereótipos políticos, religiosos e culturais que enformam as descrições feitas pelos seus autores. Quando chegavam a um mundo novo, interpretavam-nos em função de ideias feitas que tinham- mas, obviamente, este não é um problema exclusivo da literatura de viagens, dado que o literário aparece inevitavelmente ligado ao espaço, ao tempo e ao modo e ao longo da história sempre existiram problemas com a edição de textos, a censura e auto-censura.

O texto objecto deste estudo, o Diário de Navegação de Pero Lopes de Sousa3, é um relato que, em termos da tipologia de viagens4 (estabelecida por agrupamento temático) se enquadra nas chamadas "viagens de expansão", ao nível da expansão territorial e do Império. Com efeito, esta viagem realizada entre 1530 e 1532 constitui uma missão de soberania- trata-se da viagem da armada que levou para o Brasil o seu primeiro Vice-Governador, Tomé de Sousa, assim como alguns dos primeiros missionários Jesuítas. Não é, portanto, uma viagem inaugural. Esta abordagem procurará contextualizar o relato de Pero Lopes de Sousa, considerado roteiro por uns, diário e relação de viagem por outros, referindo os seus antecedentes históricos e literários- outras viagens e outros textos com o mesmo referente espacio-temporal, que possam contribuir para uma leitura mais abrangente do mesmo (por exemplo, o Diário de Colombo e a Carta de Pero Vaz de Caminha, para citar os paradigmas do género e a sua filiação); será igualmente analisada a questão da representação e da auto-representação no texto que, pertencente ao género diarístico, justifica uma análise aturada das relações entre o autor, o narrador e o objecto narrado, pois este é simultaneamente produtor e objecto do texto. Ainda nesta óptica serão analisadas as categorias de tempo e a deixis- a mostração linguística- por se considerar que se tratam de aspectos fundamentais na construção (e "veridição", segundo o termo usado por Leyla Perrone-Moisés5) do objecto do relato.

Desta análise procurar-se-á fazer ressaltar como a viagem se institui como um operador cognitivo, capaz de levar à ruptura epistemológica que permite a passagem de uma geografia fantástica, mítica e maravilhosa, típica da Idade Média e dos primeiros relatos de viagem, a uma geografia do "real", empírica e moderna- e como o alargamento do espaço geográfico acarretou o alargamento do espaço literário e subverteu o conceito de literatura ao pôr em causa, então como actualmente, os modelos literários clássicos.

Será um diário de navegação, um roteiro ou uma relação de viagem6, o documento escrito por Pero Lopes de Sousa?

Face à diversidade de obras que integram o corpus da "literatura de viagens", Luís Filipe Barreto7 propôs a verificação prévia de três ordens de questões essenciais, a fim de estabelecer um modelo geral: o estatuto social do autor e a sua função; a determinação o mais exacta possível da data de elaboração do escrito e da sua publicação (ou não). Finalmente, a área temática e geográfica de cada obra. Tendo em conta estes três vectores, estabelece agrupamentos temáticos que, com ampla abertura, podem enquadrar a globalidade das obras conhecidas- "técnica-prática de marinharia"; "da sabedoria do mar"; "da antropologia-geográfica colonial" e uma zona periférica, que constitui um quarto campo da "doutrina" (ideologia). É no primeiro agrupamento que se inserem os escritos relacionados com o carácter prático da navegação (guias náuticos, livros de marinharia, de armação etc.) e em conexão directa com ele, os diários de bordo e os roteiros- de carácter técnico menos restritivo, utilizando um discurso mais elaborado e aberto, muitas vezes de classificação difícil, por se aproximarem das relações e descrições de viagens. De acordo com esta proposta, procurar-se-á dar conta da questão anteriormente exposta relativa à genologia e filiação literária do Diário8 de Pero Lopes de Sousa.

Foi Francisco Adolfo de Varnhagen, visconde de Porto Seguro, o responsável pela sua primeira edição. A obra encontrava-se conservada em três cópias que, embora deterioradas, lhe serviram de base para o estabelecimento do texto9, ao qual acrescentou várias notas. Posteriormente descobriu, entre os manuscritos da Biblioteca da Ajuda, um códice relativo à viagem de Martim Afonso de Sousa ao Brasil, atribuído a seu irmão, Pero Lopes de Sousa. À luz deste manuscrito reviu o texto que estabelecera e assim se editou, em 1839, o Diário pela primeira vez.

O texto, escrito entre 3 de Dezembro de 1530 e 23 de Novembro de 1532, surge na sequência de uma viagem efectuada 30 anos após Pero Vaz de Caminha, em de Maio de 1500, escrever a D. Manuel, traçando um primeiro retrato da Terra de Vera Cruz. Nessa época, pensava-se que o Brasil pouco tinha para oferecer, além da possibilidade de evangelização e de apoio às naus que iam para a Índia. Com efeito, o comércio da Índias constituía, então, a grande atracção dos portugueses do tempo. Durante esses trinta anos, o interesse em relação àquela região residiu quase exclusivamente no pau-brasil (que atraiu igualmente mercadores estrangeiros, para além dos nacionais). Só em 1530 D. João III decide aplicar uma política inteiramente nova na zona, consciente de que tal era indispensável para a manutenção da mesma, sujeita à penetração da concorrência, sobretudo francesa.

Foi nesta perspectiva que legislou, a 20 de Novembro, ciente de que o Brasil necessitava de portugueses que ali se fixassem e permanecessem. As três cartas de D. João III a Martim Afonso de Sousa10, de Novembro de 1530, evidenciam bem esta mudança de atitude e contêm as primeiras determinações de uma política de ocupação do espaço. É neste sentido que substitui o regime de capitanias pelo governo-geral e que Tomé de Sousa parte na armada foi ao Brasil em 1530, comandada por Martim Afonso de Sousa, na sequência das expectativas e determinações do rei anteriormente referidas.

Investido desta missão de soberania pelo monarca, da acção do capitão-mor tem-se conhecimento pelo Diário. O autor era seu irmão; embora as informações biográficas sobre Pero Lopes de Sousa sejam reduzidas11, interessa salientar que a sua vida esteve sempre ligada ao ofício marítimo e militar, quer como capitão de naus, quer como membro da esquadra que protegia, nas costas nacionais, as naus que vinham dos diferentes pontos do Império.

O Diário descreve a expedição de Martim Afonso de Sousa, enviada para as costas do Brasil para restabelecer a supremacia portuguesa, ameaçada pelos espanhóis e franceses. Constituída por cinco navios e cerca de 400 homens, alcançou o Cabo Agostinho a 1 de Fevereiro de 1531. Até este momento, o autor vai anotando informações que se limitam a assinalar a navegação feita: rumos, desvios, milhas andadas, o estado do mar e do céu, a força e a direcção do vento. A partir daí, exploram-se vários pontos da costa até ao Rio da Prata, com o objectivo de fixar as fronteiras do Brasil ao Sul. Estas páginas do Diário são mais desenvolvidas- a proximidade das margens intensificava a visão. A informação torna-se então mais variada- para além da descrição da terra, dos pontos notáveis, da natureza dos fundos e das correntes marítimas, há referência aos peixes, aves e outros animais, assim como ao clima, vegetação e às pessoas encontradas: "tomavamos peixes d'altura de hum homem, amarelos e outros pretos com pintas vermelhas ()" (D. 291); "() nesta ilha achei muitas aves as mais fermosas que nunca vi." (D., 292); "Nam se póde escrever a fermosura desta terra: os veados e as gazelas sam tantos, e emas, e outras alimarias, tamanhas como potros novos e do parecer delles ()" (D., 318); "() nos deu por riba da ilha um pé de vento tam quente, que nam parecia senam fogo;" (D., 201); "Já aqui começava a achar as ilhas, com muitos arboredos e frechos e outras mui fermosas arbores; muitas ervas e flores como as de Portugal, e outra diferentes;" (D., 296-297); "A gente desta terra sam homês mui nervudos e grandes; de rosto sam mui feos; trazem o cabelo comprido; alguns delles furam os narizes, e nos buracos trazem pedaços de cobre mui lucente; todos andam cobertos com pelles;" (D., 327-328). Referem-se os acidentes inerentes à navegação e ao corso: "() que pusesse a artelharia em ordem, e se fizesse a gente prestes porque se a nao que estava na ilha surta fosse de França avia de pelejar com ella." (D., 386 a 388), o estilo de vida de alguns degredados encontrados em locais costeiros (que desempenhariam papéis importantes como intermediários entre os portugueses e os índios, durante o primeiro povoamento do Brasil): "Este bacharel havia 30 annos que estava degradado nesta terra, e o Francisco de Chaves era mui grande lingua desta terra." (D., 210)

Depois de referir a actividade de Martim Afonso de Sousa para estabelecer a primeira vila do Brasil, S. Vicente: "Aqui neste porto de Sam Vicente varámos uma nao em terra. A todos nos pareceu tam bem esta terra, que o capitam I. determinou de a povoar, e deu a todolos homês terras para fazerem fazendas: e fez hûa villa na ilha de sam Vicente e outra 9 leguas dentro pelo sartam ()" (D., 349-350) assim como para explorar o interior, Pero Lopes relata que em Maio de 1532 foi decidido que voltaria para Portugal com os navios, enquanto o irmão permaneceria no território para concluir a fundação da colónia: "E assentaram que o capitam I. devia de mandar as naos para Portugal, com a gente do mar; e ficasse o capitam I. com mais gente em suas 2 villas () até ver recado de gente que tinha mandado a descubrir pela terra dentro, e logo me mandaram fazer prestes para que eu fosse a Portugal () a dar conta a elrei do que tinhamos feito." (D., 355-356). No regresso, constata que a feitoria de Itamaracá fora novamente tomada pelos franceses. Depois retomada e reconstruída, Pero Lopes de Sousa e a sua frota regressaram a Portugal. O texto interrompe-se bruscamente a 23 de Novembro de 153212, sabendo-se que chegaram a Faro em Janeiro de 1533.

A informação contida neste documento é, portanto, um válido testemunho do ponto de vista técnico-prático da marinharia, mas também histórico, geográfico e antropológico. Justifica-se assim a questão colocada inicialmente, relativa ao enquadramento do texto no género diarístico ou roteirístico. De acordo com a definição de Luís de Albuquerque de "roteiro"13, os vestígios desses textos normativos que foram sendo feitos a partir da viagem inaugural de Cabral, para guia dos navegantes, revelam-se na leitura do Diário: "Nesta paragem correm as águas a loesnoroeste: em certos tempos correm mais; sc. desde Março a Outubro correm com mais fúria (); "Para saber se estais de barlavento ou de julavento da ilha de Fernão de Loronha, quando estaes de barlavento, vereis muitas aves, às mais rabiforcadas e alcatrazes pretos ()"(D., 104-105)14 são apenas alguns exemplos do pendor roteirístico da obra. Ainda segundo o mesmo autor, e de acordo com a sua definição de "diário de bordo"15 (que, aliás, perfilha alguns pontos com a de "roteiro"), o texto apresenta igualmente inúmeros aspectos que permitem enquadrá-lo no género diarístico: a estrutura discursiva (a divisão em dias), o estilo seco e isento, as anotações minuciosas do que era observável no (muitas vezes monótono) quotidiano marítimo.

Tendo em conta que "relação de viagem" é um termo que se aplica a textos em que existe uma menor preocupação com a cronologia e maior com a visão global do espaço que é objecto da descrição16, do que foi exposto ressalta que se trata de um texto misto, cuja hibridez se poderá justificar pelo facto significativo de, em relação ao percurso já conhecido, Pero Lopes de Sousa se limitar às informações sobre todas as circunstâncias da navegação que efectuava aliás, à semelhança do Diário de Colombo, onde se diz explicitamente: "O Almirante avisou aqueles que deverão ir à cidade da Natividade reconhecer em primeiro lugar o monte de Cristo, que se situassem no mar a duas léguas dele, etc.; mas, dado que se conhece esta terra, nada mais se dirá dela aqui."17. No entanto, ao aproximar-se da costa brasileira, passa a referir as mais variadas informações sobre a terra, os novos povos, plantas e animais encontrados- note-se que nesta época, a extensão territorial da colónia era ainda um mito e a qualidade, as condições físicas da terra e o clima, quase desconhecidos. Trata-se da primeira exploração do Rio da Prata e da sua mais antiga, detalhada e exacta descrição. Portanto, este "diário", de acordo com o espírito do seu tempo, não pode ignorar as novas experiências vividas e alargou a sua informação a pormenores que observou e julgou importante anotar.

A questão da representação e da auto-representação será precisamente a que neste texto permitirá avaliar a funcionalidade da questão precedente- o estabelecimento duma filiação literária para o texto, enquadrando-o num paradigma- na medida em que nem a forma, nem o contexto são inocentes e acarretam, de imediato, instruções e filtros de leitura. Como se representa, quem e o que se representa e para quem se representa?

Um diário de navegação obedece a um rígido esquema do modelo compositivo e implica, mais do que qualquer outra narrativa de viagem, as categorias de tempo e sujeito- é o tempo o elemento que divide o que se narra: num primeiro nível, a divisão por dias no Diário procura sugerir a dinâmica da viagem e uma adesão ao tempo da narração: "Na era de 1530, sabado 3 dias do mes de dezembro, parti desta cidade de Lisboa ()" (D.,174; os itálicos são meus); o segundo nível é determinado por expressões temporais que dividem a jornada: "Domingo pela menhãa nos deu hûa trovoada ()""() e à tarde fomos surgir antre a ilha e a terra ()"(D., 253; os itálicos são meus) e que conferem ao discurso um carácter de autenticidade; o terceiro nível desta evolução temporal é ainda mais preciso e é dado pela minuciosa indicação das horas: "() ao meio dia tomei o sol em 25 graos escaços ()", "() no quarto d'alva nos fizemos no bordo da terra ()" (D., 341; os itálicos são meus). Por outro lado, os tempos verbais escolhidos- sobretudo o pretérito perfeito e o presente do indicativo- dão conta, na narração, do que é visto e observado pelo autor, assim como a abundância de deícticos como "aqui", "este", deste" etc. Este aspecto é particularmente importante, na medida em que se na narrativa de viagem já é evidente o estatuto multifacetado do narrador, no diário mais se acentua a sua condição simultânea de produtor e objecto do texto- autor, narrador, actor, experimentador e objecto da experiência. Estas relações e formas são transmitidos por um discurso que, inevitavelmente, insere a sua subjectividade na objectividade do real, do histórico, do social e do político

Embora aparentemente não seja explícita a figura do receptor, encontram-se no texto diversas referências que permitem caracterizá-lo, assim como à relação que com ele é estabelecida: "Para saber se estais a barlavento () quando estais de barlavento () vereis (); () e as que virdes ()" (D., 104; os itálicos são meus), ou seja, a suposição do destinatário- Portugal, o Rei, outros marinheiros- é evidente nas tiradas pedagógicas, bem como nas descrições minuciosas do que é observado: "Esta ilha tem de redondo hûa legua; faz no meo hûa sellada; está de terra firme 1 quarto de legua; he desabrigada do vento sulsudoeste e do nordeste, que quando venta mete mui gram mar. Desta ilha ao norte duas leguas se faz um rio mui grande na terra firme; na barra de preamar tem tres braças, e dentro 8, 9 braças." (D., 207-209). Assenta num "contrato de leitura" em que a garantia de verdade é de imediato instaurada pelo uso da primeira pessoa, que vê e experimenta, sendo essa experiência o garante de autenticidade do relato, assim como meio privilegiado de apreensão do real- abundam expressões do tipo "por experiencia verdadeira" (D., 105), "fazerem experiencia" (D., 159; D., 267)) e verbos como "ver", "reconhecer", "haver vista", "divisar", "descobrir" ou então, "como nunca tinha visto", "que eu até então tinha visto" (D.,143), "que nunca vi" (D., 283).

Por outro lado, a figura do receptor pode ainda ser materializada na imagem que o narrador nos transmite dele. A descrição de acontecimentos, paisagens e povos encontrados obedece aos topoi usuais das narrativas de viagem da época, que correspondem certamente às suas expectativas e torna-se o ponto de referência em função do qual é observada a novidade e a diferença: por exemplo, no que respeita à descrição dos povos com que se cruza- "A gente desta terra é toda alva; os homês mui bem dispostos, e as molheres mui fermosas, que nam ham nehûa inveja às da Rua Nova de Lixboa". (D., 157; os itálicos são meus); "() que lhe parecia que eram 600 homês; e que aquillo, que pareciam tendas que eram 4 esteiras, que faziam uma casa em quadra, e em riba eram descobertas; e fato lhe nam víra; senam reides da feição das nossas." (D. 311-312; o itálico é meu); "O falar delles he do papo como mouros." (D., 329; os itálicos são meus). É evidente ao longo do texto que a caracterização do desconhecido é feita em função de um referente comum entre o emissor e o receptor. Os povos encontrados são descritos de acordo com os valores europeus e o discurso que os refere obedece quase sempre à mesma estrutura- aspecto físico (feios, bonitos, cor da pele, vestuário ou ausência dele), comportamento e capacidade guerreira, a sua força naval (elementos importantes para um futuro domínio): "() achei a gente que á ída topára nas tendas; e saíram-me 6 almadias, e todos sem armas, senam vinham com muito prazer abraçar-nos;" (D., 311; os itálicos são meus) e alguns aspectos culturais e religiosos. É ainda evidente a suposição de superioridade dos europeus, face aos novos povos e terras: é ela que legitima a exploração oficial do litoral brasileiro, a instalação de gente em locais favorecidos para alcançar as minas de ouro e prata, em suma, a colonização das terras e o domínio dos indígenas dessa parte da América, a fim de facilmente se proceder à defesa e posse das costas do pau-brasil e do ouro, para consequente engrandecimento do património da coroa lusitana: São frequentes as referências do tipo: "() puz dous padrões das armas d'elrei nosso senhor, e tomei posse da terra para me tornar d'aqui;" (D., 302). É, portanto, a viagem que condiciona as relações e as formas que se interpõem entre o viajante-narrador, o espaço e o tempo e os filtros através dos quais os narrador revela a alteridade geográfica, climatérica e humana de um mundo que desvenda a dois níveis- na viagem e no relato que a acompanha, traduz e divulga.

É em neste sentido que Leyla Perrone-Moisés18 refere a presença de marcas linguísticas nos textos da literatura de viagens- de "veridição"- na medida em que se a descoberta da América produziu um alargamento do espaço conhecido, levou simultaneamente a uma transformação total dos meios de aquisição do saber (e da sua hierarquia). A verdade era mais espantosa do que nunca, mas já não era procurada nos escritos dos antigos e sim nos textos dos que tinham experiência directa do Novo Mundo. No entanto, continuava a ser um número restrito a ter acesso a essa experiência e, consequentemente, a sua divulgação em massa processava-se como até então: pela escrita. Conscientes de que as suas verdades poderiam parecer tão inverosímeis como as mentiras dos antigos relatos de viagem, os autores destes textos recorriam a várias estratégias para provar a veracidade das suas afirmações. Já foram referidas as frequentes menções a "experiência", o uso de expressões deícticas e a selecção vocabular patente nos verbos mais usados no Diário- todos eles do campo semântico da visão e da apreensão do real pelos sentidos. Atente-se agora no estilo seco e desprovido quer de ornamentos, quer de subjectividade: "e trouxeram muitos dos outros captivos, e os matavam com grandes cerimonias, presos por cordas, e depois de mortos os assavam e comiam ()" (D., 158-159). Perante o espectáculo, certamente incompreensível e repugnante aos olhos de uma cultura diferente, de um ritual canibal19, o narrador não se pronuncia, não valoriza ou emite qualquer opinião- limita-se à sua descrição objectiva e neutral, através de um olhar interessado, mas que raras vezes se perturba com o que vê. O que perpassa as descrições do texto é aquilo a que Luís Filipe Barreto chama uma "etnologia prática"20: "Sendo a par das ilhas dos corvos, d'antre um arboredo ouvimos grandes brados: e saío a nós hum homem () e fallou-nos 2 ou 3 palavras guaranís, e entenderam-nos os linguas, que levava; () disse-nos que era beguoaa chanaa e que se chamava ynhandú." (D., 305).

Do que foi exposto ressalta que o Diário apresenta este espaço- imenso, fértil, com bons ares e águas, habitado por gente diferente, mas geralmente acolhedora e pacífica: "he a mais gentil gente" (D., 191)- de uma forma realista e sóbria (embora condicionada, claro, por uma retórica da presença, que projecta sobre a paisagem e o espaço, a ideologia do narrador), não revelando grande admiração, nem visando suscitar admiração no receptor; trata-se de uma enunciação tranquila, num estilo directo e sem artifícios retóricos. O lugar deste olhar sobre a alteridade é uma posição cognitiva que lhe permite o seu conhecimento exterior, através de invariantes da Humanidade e do Mundo, que se traduzem na descrição de aspectos relacionados com a geografia física e humana do Novo Mundo. Este traço dos primeiros testemunhos portugueses sobre o Brasil (o que não aconteceu, por exemplo, com os seus congéneres espanhóis ou italianos), é talvez explicável em função da longa experiência dos navegadores portugueses em África e no Oriente. Seja como for, tais características consubstanciam já uma ruptura de ordem ideológica em relação aos antigos relatos de viagem, quase sempre inseparáveis do apelo ao maravilhoso, ao mistério e ao exotismo.

A passagem da geografia do fantástico à geografia do real, ou seja, de um modelo medieval de que o Livro de Jean de Mandeville é exemplo, para um modelo renascentista e empírico, deve-se essencialmente ao papel de "operador cognitivo" que a viagem assumiu no século XVI. O desenvolvimento das navegações, a partir do século XV exigiu, por um lado, a adopção de novas maneiras de navegar e impôs, por outro, a necessidade se serem referenciadas todas as condições em que se faziam as viagens marítimas. A ciência ia ser construída através desses meios mais férteis para o conhecimento da realidade e não pela repetição de afirmações axiomáticas de autoridades- para o que contribuíram decisivamente os navegantes que visitavam todas as partes do mundo.

No Diário abundam referências que mostram, inequivocamente, que uma nova mentalidade se delineava: por três vezes Pero Lopes assinala os "lugares do sol" e os "lugares da lua"- a 23 de Novembro de 1531, a 22 de Maio e a 4 de Agosto de 1532, tendo em mente o cálculo das latitudes e das longitudes; faz referência ao uso de agulhas de marear, aos contornos da costa brasileira e sua toponímia, ao reconhecimento, reconquista ou descoberta de ilhas, cabos, portos, angras, baías, rios, serras, cordilheiras, correntes marítimas, ventos- uma quantidade imensa de detalhes técnicos que revelam o alvorecer de uma mentalidade pré-científica; se, por um lado, a técnica de navegar implicava a utilização de ciências tradicionais, como a Astronomia e a Geometria, por outro, a observação, a prática e a experiência passaram a ser os meios privilegiados que relacionaram estas viagens com o desenvolvimento da Ciência.

Esta necessidade de uma observação cuidada dos fenómenos da Geografia Física foi transposta para a observação dos usos e costumes dos povos até então desconhecidos, com quem se estabelecia contacto, à nova fauna e flora e até às novas estrelas do hemisfério Sul. São abundantes os exemplos desta atitude no Diário; a explicação de realidades desconhecidas já não se faz recorrendo ao fantástico ou maravilhosos e sim à descrição objectiva: "indo ao longo da terra, demos n'hum pexe com o bargantim, que parecia que dava em seco, e virou o rabo, e quebrou metade da postiça: foi tam grande pancada que ficámos todos como pasmados: nam lhe vimos mais que o rabo: mas à soma, que despois fez na agua, parecia mui gram pexe." (D., 319-320; os itálicos são meus). Neste episódio em que descreve o contacto com um peixe de espécie desconhecida, o narrador não fala em "monstro marinho", por exemplo, e tem o cuidado de objectivar o que é dito através do uso do verbo "parecer", assim como de referir um dado da experiência sensorial- a visão do rasto deixado na água- para justificar a sua afirmação. Começa igualmente a delinear-se uma certa consciência da alteridade social e cultural: "E andando pela terra em busca de lenha para nos aquentarmos fomos dar n'hum campo com muitos páos tanchados e reides, que fazia um cerco, que me pareceu à primeira que era armadilha para caçar veados; e despois vi muitas covas fuscas, que estavam dentro do dito cerco das reides: entam vi que eram sepulturas dos que morriam; () e quizera mandar abrir as covas: despois houve medo que acudisse gente da terra, que o houvesse por mal." (D., 325 a 327; os itálicos são meus)- ou seja, a consciência (ainda que vaga) da existência de ritos culturais por parte destes povos que, embora diferentes, havia que respeitar. Aliás, toda a descrição feita dos habitantes da margem esquerda do Rio da Prata (D., 325 a 331) prima pela atenção aos seus aspectos culturais e religiosos mas, mais uma vez, o narrador se mostra neutral em relação ao que observa, recorrendo a fórmulas de prudência do tipo "parece que". Saliente-se ainda a atenção dada à comunicação, promovendo-se o uso de intérpretes21: "e a Pedre Annes Piloto, que era lingua da terra, que fosse haver fala dos Indios." (D., 209) e a reconstituição fónica de topónimos e antropónimos indígenas: "() e fallou-nos 2 ou 3 palavras guaranís, e entenderam-nos os linguas, que levava; () disse-nos que era beguoaa chanaa e que se chamava ynhandú." (D., 305).

Destes exemplos ressalta que face à alteridade, os viajantes-narradores mais não podiam fazer do que conjecturar o saber, marcar as clivagens múltiplas que separavam os seus modelos de ser e pensar daqueles com que se deparavam e que se propunham relatar. Por outro lado, também a terra não era o que a tradição livresca proclamara e surge assim a ideia de que os simples marinheiros conhecem através da "verdadeira experiência", invalidando a opinião dos filósofos. É neste contexto que se pode falar do papel de operador cognitivo que a viagem assumiu, conduzindo a uma ruptura dos esquemas tradicionais de pensar e conceber o mundo- no fundo, uma ruptura epistemológica para a qual este relatos de viagem que corriam a Europa, onde eram avidamente lidos, contribuíram.

Finalmente, veja-se que esta alteridade geográfica e humana contribui igualmente para a introdução de novo temas na literatura e para uma ruptura em relação aos cânones clássicos- ao alargamento do espaço geográfico vai corresponder uma subversão do conceito de literatura tal como era entendida pelos humanistas, á semelhança do que acontecera em relação à Ciência. A revelação pela escrita de uma paisagem humana, geográfica e cultural exótica, não codificada literariamente, é transmitida numa linguagem simples, que não se dirigia ao público letrado e sim ao leitor comum, ávido de notícias sobre as novas terras descobertas. É por esta via que estes textos sobre a vivência do quotidiano no e além-mar são integrados no sistema literário, traduções privilegiadas do saber, representação e sentido do mundo de então.


BILIOGRAFIA

I. Fontes:

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COLOMBO, Cristovão, A Descoberta da América. Diário de Bordo da 1ª. Viagem (1492-1493), Publicações Europa-América, Lisboa, s.d.

"Relação da Navegação de Pêro Lopes de Sousa (1530-32)", Texto modernizado por Luís de Albuquerque e comentário final de Maria do Anjo Ramos in Martim Afonso de Sousa, Alfa, Biblioteca da Expansão Portuguesa, Lisboa, 1989

II. Sobre Viagem e "Literatura de Viagens":

ALBUQUERQUE, Luís de, "Diários de Bordo" in Dicionário de História dos Descobrimentos, vol. I e II, direcção de Luís de Albuquerque, Caminho, Lisboa, 1994

ALBUQUERQUE, Luís de, "Roteiros" in Dicionário de História dos Descobrimentos, vol. I e II, direcção de Luís de Albuquerque, Caminho, Lisboa, 1994

CEARD, Jean; MARGOLIN, Jean- Claude (dir.), Voyager à la Renaissance. Actes du colloque de Tours 1983, Maisonneuve & Larose

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III. De Enquadramento Teórico e Histórico:

ALBUQUERQUE, Luís de; FERRONHA, A. Luís; HORTA, José da Silva; LOUREIRO, Rui, O Confronto do Olhar, Caminho, Lisboa, 1991.

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BARRETO, Luís Filipe, Caminhos do Saber no Renascimento Português. Estudos de história e teoria da cultura, INCM, Lisboa, 1986.

BARRETO, Luís Filipe, Descobrimentos e Renascimento, Formas de Ser e Pensar nos séculos XV e XVI, 2ª Ed., INCM, Lisboa, 1983.

ELIADE, Mircea, Mitos, Sonhos e Mistérios, Edições 70, Lisboa, 1989.

GARCIA, José Manuel, Ao Encontro dos Descobrimentos. Temas de História, Ed. Presença, Lisboa, 1994.

SEIXO, Maria Alzira (dir.), A Viagem na Literatura, Cursos da Arrábida, n.º 01, Publ. Europa-América, Lisboa, 1977.

TODOROV, Tzvetan, A Conquista da América. A Questão do Outro, Ed. Litoral, Lisboa, 1990.


NOTAS:

1 Embora não caiba no âmbito deste trabalho dar conta desta discussão, note-se que o mesmo conceito aparece igualmente sob a designação de "Literatura dos Descobrimentos", "Literatura de Expansão" (Hernâni Cidade), "Literatura das Descobertas" (Borges Coelho e Hernâni Cidade), "Literatura de Viagens e Descobrimentos", "Literatura, Narrativas e Relações de Viagens" (Jaime Cortesão) etc.

2 Jakobson considera que quando um texto tem interesse por si mesmo, como texto, independentemente do seu conteúdo, é literário.

3 Neste trabalho foi utilizada a edição de 1940, referida na Bibliografia (Fontes); todas as referências e citações posteriores do texto se reportarão à mesma.

4 Proposta por Fernando Cristovão, nas aulas do Seminário de Literatura do Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses (Universidade Aberta, Lisboa, 1997).

5 Leyla Perrone-Moisés, "Verité et Fiction Dans Les Premières Descriptions du Brésil", in A Viagem na Literatura, coordenação de Maria Alzira Seixo; A.J. Greimas, "Le Contrat de Véridiction", in Du Sens II, Paris, Seuil, 1983, pág. 103 e seq.

6 No verbete relativo a "Pero Lopes de Sousa", no Dicionário da História dos Descobrimentos, dirigido por Luís de Albuquerque, o texto aparece designado por "diário de navegação" (pág. 1005); no Dicionário de História da Colonização Portuguesa no Brasil, coordenado por Maria Beatriz Nizza da Silva, o mesmo texto aparece designado como "roteiro" (pág. 770); no volume intitulado Martim Afonso de Sousa, da Biblioteca da Expansão Portuguesa, das edições Alfa, coordenada por Luís de Albuquerque, o texto aparece designado "relação da navegação".

7 Luís Filipe Barreto, Os Descobrimentos e a ordem do saber- Uma análise sociocultural, Lisboa, 1987, pp. 27-28.

8 Deste ponto em diante, a obra aparecerá designada sob esta forma abreviada.

9 Para informação mais detalhada sobre esta questão, consultar o Prefácio da 1ª edição, por J. Capristano de Abreu, do Diário de Navegação de Pero Lopes de Sousa, de Eugénio de Castro.

10 Foram consultadas as reproduções das seguintes cartas, contidas no vol. II, ibidem: Carta de grandes poderes ao Capitão Mór Martim Afonso de Sousa e a quem ficasse em seu lugar, Carta de poder para o Capitão Mór criar tabaliães e mais officiaes de justiça e Carta para o Capitão Mór dar terras de sesmaria.

11 A data do seu nascimento, por exemplo, é situada entre 1501 e 1510, conforme os autores, assim como a da sua morte que, apesar de tudo, é mais consensual- 1539 ou 1540, num naufrágio ao largo de Madagáscar.

12 O que se prende, certamente, com o facto de tantos as cópias, como o códice da Biblioteca da Ajuda terem chegado até incompletos.

13 M.L., "Roteiro", in Dicionário dos Descobrimentos, dir. De Luís de Albuquerque: "() são os textos náuticos que os marinheiros portugueses começaram a escrever no século XV para deles se socorrerem nas viagens; continuadores dos portulanos mediterrânicos, os roteiros deviam indicar os principais portos e os acidentes de uma linha costeira, () linhas de rumo que os ligavam, as distâncias que os separavam; a par disso, forneciam eventuais indicações (cor da água, aparecimento de determinados peixes etc.) que dessem ao piloto uma indicação do lugar aproximado em que se encontravam e eram quase sempre acompanhados de conhecenças terrestres.(), pp. 949-950

14 A obra de Eugénio de Castro, Diário de Navegação de Pero Lopes de Sousa, vol I e II, 2ª Ed., Comissão Brasileira dos Centenários Portugueses, Rio de Janeiro, 1940, passará a ser citada no corpo do texto pela sigla D., seguida de algarismo numérico indicativo de página.

15 L.A., "Diários de Bordo", ibidem: "() textos em que os pilotos de uma nau ou caravela iam dia-a-dia apontando as derrotas seguidas, as alturas do Sol ou das estrelas que tomavam (), as declinações da agulha () e todas as restantes observações que supunham terem interesse para a navegação, como a vista de certas aves, as cores do mar, a observação de cardumes que se consideravam indicadores da área em que o navio se encontrava, etc. Todos estes elementos eram escritos de forma muito sucinta e de modo directo, sendo muito raras as considerações interpretativas ou de crítica.()"

16 Segundo definição do Prof. Luís Krus, no Seminário de História do Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses, da Universidade Aberta, Lisboa, 1997.

17 Cristovão Colombo, A Descoberta da América. Diário de Bordo da 1ª. Viagem (1492-1493), Publicações Europa-América, Lisboa, s.d., pág. 145; os itálicos são meus.

18 Leyla Perrone-Moisés, "Verité et Fiction Dans Les Premières Descriptions du Brésil", in A Viagem na Literatura, coordenação de Maria Alzira Seixo.

19 Segundo Mircea Eliade, em Mitos, Sonhos e Mistérios, págs. 33-34, sobretudo entre os mais antigos cultivadores de tubérculos (não de cereais), as tradições relativas à origem da actual condição humana revestem-se de uma expressão dramática. Segundo os seus mitos, o homem é o que é hoje- moral, sexuado e condenado ao trabalho- em consequência de um assassínio primevo: in illo tempore, um ser divino, muitas vezes um rapazinho ou um Homem, deixou-se imolar para que as árvores frutíferas e os tubérculos pudessem crescer a partir do seu corpo. Esse primeiro assassínio transformou radicalmente a maneira de ser da existência humana. A imolação do Ser Divino inaugurou a necessidade da alimentação e a fatalidade da morte e, assim, a sexualidade, o único meio de assegurar a continuidade da vida.

O autor considera que é nesse estágio da cultura que se encontra o canibalismo ritual, em suma, o comportamento espiritualmente condicionado do Bom Selvagem. A grande preocupação do canibal parece ser de ordem metafísica- não deve esquecer o que se passou in illo tempore. Evidencia assim, e os documentos deixam-no entrever, o sentimento religioso da antropofagia, a responsabilidade assumida. Não é, portanto, um comportamento "natural" do homem primitivo (aliás, não se situa aos níveis mais primitivos da cultura), mas um comportamento cultural, baseado numa visão religiosa da vida. Para que o mundo vegetal possa continuar, o homem deve matar e ser morto. Por outro lado, ao comer partes do corpo do inimigo, ele adquire a sua coragem, valentia e força.

20 Luís Filipe Barreto, Descobrimentos e Renascimento- Formas de ser e de pensar nos séculos XV e XVI, Lisboa, INCM, 1983, pág.178

21 Muitas vezes eram europeus deportados, que acabavam por falar as línguas da região e que desempenharam papéis de relevo no contacto entre ambas as partes, vd. Michel Mollat du Jourdin, "L'alterité, découverte des découvertes", in Voyager à la Renaissance, Tours, 1983.

Ana Paula P. Dias, Maio de 1997

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