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Crónicas


Ana Gabriela Fernandes: As Iniciações Filosóficas



Viver com todos os sentidos despertos

Todos os textos de Luiz Cancello me sugerem a nostalgia de uma liberdade perdida por uma cultura que tudo faz para limitar o pensamento autónomo, o sentir genuíno. A luta diária de homens e mulheres para se libertarem dos "limites culturais e sociais" que os tentam reduzir a condição de autómatos desvitalizados. A necessidade de viver com todos os sentidos despertos, o prazer de pensar e sentir, sem que um anule o outro, com todo o corpo, de forma liberta. A espontaneidade e a autenticidade, a proximidade entre o que se faz e o que se sente.

Já estivemos próximos disto tudo, do nosso próprio corpo e dos nossos próprios sentimentos, mas calámo-nos ou deixámo-nos calar por vozes que pregam o conformismo e a adaptação. Arranjamos substitutos para esses "vazios" que só podem ser preenchidos por nós próprios, numa tentativa de nos aproximarmos da nossa condição essencial: criaturas carentes de liberdade, com um corpo e necessidades vitais de que nos estamos a afastar irremediavelmente. Já nos vemos de forma alucinada, como nos dão a imagem de "pessoas". E qual é essa imagem que nos dão? Nada mais contrário ao que somos. Nada mais redutor. Apenas partes de nós, ou acessórios, postiços, que não somos nós mas que aprendemos a utilizar para "sobreviver".

No poema "A Quebra e a Cara" a personagem, o João, somos todos nós. Que desde a "quebra", todos os inícios e rupturas, procuramos descobrir a nossa cara, um vir-a-ser. Passamos por essas identificações familiares e sociais a que nos colam desde muito cedo, pois apesar do seu quarto "ter a sua cara", / e ele ter o "jeitão do avô",/ e seu irmão ter "um andar igualzinho ao seu", / e ele ser "um bancário típico", / João às vezes desconfia que não é nenhuma dessas coisas, //... POIS A FACE É VAZIA, / apenas contém todas as expressões possíveis. /

A nossa cultura desvaloriza as descobertas que vamos fazendo ao longo da nossa vida. Como se já estivesse tudo programado à partida e não houvesse desvios possíveis (ou aconselháveis) nesse percurso. João assimilou a ordem das coisas / e a ordem dos homens/ dados pela tradição. / Assimilou o engano chamado realidade: / esta é a Ordem Natural, aquela é a Natureza Humana. / subvertê-las é pecado mortal. //

A nossa cultura também nos ensina a duvidar das nossas percepções pessoais (o que é um desperdício de energias e de criatividades), para aceitar a percepção oficial da realidade. Os eixos de referência do mundo/ ele os escutou de outros homens/ (...) / O conjunto de sons significativos/ distribuídos linearmente/ ... / colocou ordem na somatória confusa/ de suas sensações, / e onde havia Caos fez-se Cosmos.//

Que condição é esta que nos limita desde 1ogo a um papel já escrito que só temos de representar, nesse palco e nesse cenário, em que pouco ou nada podemos improvisar? Assim, aprendeu uma linguagem,/ e com as palavras,/ a partir da cara que lhe deram os outros,/... /por não confiar na mesmidade de sua face vazia,/ (aquela anterior à sua cara), ... // DEFINIU-SE, // enquanto ainda era tempo – / na ilusão eterna/ de não ser devorado pela morte.

Ana Gabriela Fernandes, Maio de 1998

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