José Leon Machado: Pontapés do Canto
O meu vizinho Sebastião
Ouvi falar pela primeira vez no Sebastião Alba nas aulas de Literatura Africana de Expressão Portuguesa, quando, na universidade, estudava para doutor de letras & tretas. O professor, muito academicamente, referiu-se ao branco com alma de negro e recomendou-nos a leitura de O Ritmo do Presságio e de A Noite Dividida. Não me preocupei a procurar os livros na biblioteca da instituição e muito menos numa livraria - na altura o dinheiro mal dava para a cerveja diária que um estudante tinha de consumir para não ser mal visto pelos colegas. Mas realmente os livros não me interessavam. Primeiro porque eu andava a ler o Castro Soromenho e o Luandino Vieira e depois porque eram de poesia, coisa que pouco me atraía.
Ficou-me pois o nome na cabeça juntamente com muitos outros que nunca li nem estava nos meus horizontes ler. Mas sempre era cultural saber-lhes os nomes e um ou dois títulos das obras que escreveram e que têm feito a volúpia de alguns, para, numa tertúlia, não ficar mal visto diante daqueles que leram e consideram os não ledores pouco acima da gentalha que adormece à frente da televisão e vai à bola.
Algum tempo depois, conheci o José Vieira e o Vergílio Alberto Vieira, e a minha aversão à poesia foi mudando a ponto de até eu próprio começar a alinhar uns versos de rima toante. Nas conversas que íamos tendo, vinha de vez em quando à baila o Sebastião Alba, que eu julgava a viver nalguma senzala africana. Afinal estava bem enganado. O Sebastião Alba era quase meu vizinho. Aliás, em certas tardes de calor, poderia dizer que era mesmo meu vizinho. À frente do prédio dos meus pais há um relvado com a sombra apetitosa de um choupo e não imaginava eu que o desgraçado que ali se deitava a dormir a sesta com uma garrafa de vinho tinto ao lado era o autor de A Noite Dividida.
Acabei por ler o livro e por me deixar encantar. Foi por essa altura que começou a aparecer no meu diário o nome do meu vizinho. A primeira referência é de 26 de Março de 1993. Escrevi eu: «Fui com o Zé Vieira a uma cervejaria onde nos esperavam o Vergílio Alberto Vieira e o Miguel Queirós. Aí estivemos os quatro a cervejar e a trincar moelas numa conversa amena e sacra. Porque um gesto sagrado é a poesia e falar-se dela. Citaram-se poetas, alguns por mim conhecidos apenas de nome, contaram-se proezas do Sebastião Alba, de Eugénio de Andrade, do Ramos Rosa, tão doente e tão cósmico, da Natália e da sua poesia mamária. E ainda de poesia alemã, com mais de seiscentos novos livros editados por ano.
Daí a dois meses, no dia 21 de Maio, escrevo o seguinte: «Eu e o Zé Vieira fomos a casa do Vergílio. Encontrámo-lo na sala-de-estar com o Sebastião Alba a ouvir Rossini e Bach em CD. Tivemos um serão agradável, com música clássica e as recordações do Sebastião Alba. Imaginei-o de aspecto miserável por causa do álcool e da vida de vagabundo. É, pelo contrário, um homem bem parecido, de longa pêra cinzenta e olhar azul. Martirizou o Vergílio a noite toda para que este lhe oferecesse o seu último livro. O Vergílio não quis dá-lho, pois sabia que no dia seguinte iria trocá-lo num alfarrabista por dinheiro para vinho. Falou-se de África, leu-se poesia. Recordaram-se alguns episódios de que o Sebastião Alba foi protagonista. Conto alguns:
«Certo dia, o Sebastião subiu à Faculdade de Filosofia a pedir emprego aos jesuítas. Atenderam-no mal e então o poeta foi ao rubro; sacou duma fotocópia do bolso e disse: «Então metem-me na Enciclopédia e agora não me querem dar emprego?»
«Uma doutora de Lisboa, numa das suas aulas de Literaturas Africanas, explicou: "Sebastião Alba encarna a luta contra o colonialismo e a exploração dos brancos sobre o povo negro. O próprio nome o revela: Alba lido ao contrário é Bala." O que a senhora com certeza não sabia era que ele é branco.
«Nas suas visitas à casa de Vergílio que, pelo que descobri, são bastante frequentes, o Sebastião costuma abandalhar um pouco a casa, largando lixo por qualquer canto. Uma altura, divertidamente ofendido, atirou ao seu anfitrião: «Está aqui uma teia de aranha. Não me digas que também fui eu que a teci!»
Alguns dias depois, a 5 de Junho, explico que passei na casa do Vergílio Alberto Vieira e ele contou-me que a Secretaria de Estado da Cultura disponibilizou uma verba para a reforma de Sebastião Alba. O meu comentário soa a inconfidência: «O homem agora anda em festa. Mexeram os pauzinhos o António Ramos Rosa e o Herberto Hélder. Era necessário arrancá-lo da miséria, porque os Camões não têm razão de existir hoje.»
No dia 28 de Janeiro de 1994 escrevi: «Encosto-me à cadeira e penso na minha visita ao Zé Vieira ontem à noite. Procurei-o na oficina, mas a porta estava fechada. Subi umas escadinhas escuras e fui encontrá-lo no gabinete a ler o Carlos de Oliveira.
«Falou-me do Sebastião Alba e da sua crítica a uma pose do Vergílio Ferreira na Fotobiografia: a mão esquerda a segurar a cabeça com um dedo a apontar o cérebro. "Uma imitação de Rimbaud e de Puccini, que também armaram a mesma pose perante a câmara o primeiro, perante o pintor o segundo". Eu acrescentei que essa pose vem já dos Gregos.»
Em 25 de Agosto do mesmo ano falo de mais uma visita à casa do Zé Vieira: «Falámos do Sebastião Alba e leu-me alguns poemas que ele lhe confiara. Parece que o Egito Gonçalves recusara publicar-lhos, não por questões de qualidade, pois são bons, mas pela aparência lastimável do poeta. Aparecera na editora bêbado e muito mal apresentado. O Egito não teria gostado.»
Em 27 de Janeiro de 1996 escrevi: «Passei a manhã na casa do Zé Vieira. Falou-me do diário que lhe enviei pelo correio. Parece que o Alba surripiou o exemplar do diário e escondeu-o na braguilha. Depois lá deu pelo assalto. Terei de lhe enviar um exemplar. Neste Inverno frio e chuvoso, o Alba continua a dormir no alpendre da capela de Santo Adrião.
«Contou-me o Vieira que o Sebastião Alba foi às Jornadas de Literatura Africana que se estão a realizar na Universidade Católica. O José Craveirinha, vendo-o entre a assistência, pediu-lhe para se sentar na mesa, entre o Luandino Vieira, o Mia Couto e outros, ou não fosse ele um dos mais significativos poetas da negritude. O Sebastião Alba cruzou a perna, coçou a barbicha com uma mão e recusou com a outra num gesto de enfado: "Sujo a cadeira".»
No dia 4 de Maio volto a estar com o Vieira: «Falámos do Alba: uma rapariga nossa conhecida pediu-lhe que casasse com ela. O Alba não aceitou. Deu-lhe uma recusa de artista. Mas eu cá por mim talvez não me fizesse de tão caro: é que a rapariga é um bom pedaço e não tem mais de vinte e poucos anos. Mas eu não tenho costela de artista. Sou um prosaico, um oportunista.»
A última referência ao Sebastião Alba é do dia 8 de Fevereiro de 1997: «passei o resto da tarde na casa do José Vieira. Fui encontrá-lo a ler. Largou a leitura e levou-me para a oficina de talha onde ele, num tosco pedaço de madeira, andava a talhar estranhas figuras de homens entre um bosque. A conversa espraiou-se por múltiplos temas: pintura, escultura, poesia, mulheres. Falámos do Alba, agora com um novo livro publicado pela Assírio & Alvim. O Zé contou-me que o dinheiro que recebeu da editora deu-o às filhas. E ele continua a dormir ao relento.»
Aquando da sua morte, já eu não rabiscava o diário, por andar com outras escritas mais suculentas e menos fragmentárias. Não significa porém, que a dita me tenha passado despercebida. Lembro-me de ter sentido uma espécie de perda, quando o Vieira me telefonou a dar a notícia. Alguns dias depois fui a casa dos meus pais. À sombra do choupo estava uma garrafa vazia e sem rolha.
José Leon Machado, Agosto de 2002
