José Leon Machado: Pontapés do Canto
Sorriso de crocodilo
De um colega de trabalho, o Luís, ouvi há dias dois casos que, pela sua particularidade saloia, não deixam de ser dignos de contar aqui. Talvez os mesmos sirvam para definir o carácter sui generis do homem transmontano e, mais especificamente, do flaviense, auto-denominado transmontano por excelência.
Contou-me ele que um dia a mulher foi no carro apanhá-lo à escola e, antes de irem para casa, decidiram fazer algumas compras no Pingo Doce. A esposa fez a rotunda, desceu a rua e guiou a viatura pela rampa que dá acesso ao estacionamento subterrâneo do prédio onde o Pingo Doce se encontra. A rampa só permite a passagem de um carro de cada vez, coisa de si nada insólita, se pensarmos nos arquitectos que por cá pululam e nos empenhos camarários para que os seus projectos sejam aprovados, mesmo contrariando a lei.
Nesse mesmo instante, outro condutor, do lado de dentro, dirigiu o carro para a rampa e ambos se encontraram a meio da dita. Como era muito mais fácil para este a manobra de marcha-atrás, a Dona Marisa, esposa do meu colega, fez com a mão um gesto a pedir que o outro se chegasse atrás. O homem repetiu-lhe o gesto. Levava, ao que parecia, a igualdade dos sexos muito a peito. Para que haveria ele de puxar o carro atrás? Que o puxasse ela.
Entrara entretanto outro carro e, mesmo que quisesse, a Dona Marisa não conseguiria sair dali. O Luís abriu o vidro e gritou ao velhote:
Importava-se de chegar o carro atrás? Deste jeito, passamos aqui o resto da tarde.
O homem, contrariado, acabou por engatar a marcha-atrás. A Dona Marisa desceu a rampa, entrou no parque e, ao passarem pelo velhote, ambos ouviram o seguinte cumprimento:
Seu maricas! Onde é que se viu ser conduzido por uma mulher!
O meu colega, que não gostou que lhe pusessem em causa a masculinidade e quem gosta? , ter-lhe-á respondido em termos semelhantes, o que irritou de sobremaneira o homem, que travou o carro, saiu disparado e foi procurar na mala um pé de cabra.
O meu colega saiu com a esposa e viu aproximar-se o tipo, não com o pé de cabra, que certamente não encontrou, mas com a caixa de plástico onde guardava o triângulo. Queria ajustar contas, mostrar ao valdevinos quem era ali o macho e quem era o maricas.
A cerca de três metros, o velhote reconheceu o meu colega (tinham trabalhado na mesma escola, o outro como auxiliar de acção educativa) e hesitou no avanço. Em vez de ir a vias de facto, o velhote lá se lembrou da educação, decidiu-se por umas vénias ao senhor professor e foi à vida resmungando entre dentes.
Um mês depois, descia o Luís sozinho a mesma rampa e aparece-lhe pela frente, vindo da direita, onde se situa o parque dos inquilinos do prédio, um carro de luzes apagadas. Era um velhote, um outro, que ficou à espera que o meu colega puxasse o carro atrás. Para evitar chatices, o Luís saiu do carro e pediu-lhe com paninhos quentes se ele fazia o favor de dar um jeitinho atrás, eram só dois metros. O velho disse que dali não saía. Morava ali e tinha mais direito de passar do que ele, que era de fora. Além do mais, era o administrador do condomínio. O meu colega argumentou que o parque era do supermercado e que tinha todo o direito de pôr ali o carro. Afinal custava-lhe muito menos a ele puxar o carro dois metros atrás e deixar passar do que ele, Luís, ter de andar dez numa subida. Lembrou-lhe até a regra de trânsito que obrigava à manobra a quem estava em melhor situação no terreno. O velhote teimou que dali não saía e cruzou os braços no volante.
Confessou-me o Luís que teve vontade de abandonar o carro na rampa e ir fazer as compras. Talvez o velho arranjasse maneira de passar por cima. Ou pelos lados. Mas como havia outras pessoas à espera de sair e não tinham culpa da camelice do administrador do condomínio, fez o esforço de puxar o carro atrás, bloqueou a rua, àquela hora cheia de carros, para deixar sua excelência passar.
Ambos os casos, a terem-se passado comigo, não ficavam por aqui. Não sou paciente como o meu colega Luís e a caturrice transmontano-flaviense tira-me do sério. Ou dava-me para distribuir umas hóstias a esta gente a cair no paganismo, ou dava-me para rir. Como a coisa, felizmente, não se passou comigo, fico-me por um sorriso de crocodilo.
José Leon Machado, Março de 2006
