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Recensões

Na morte do poeta Rafael Alberti


Há vidas assim. Vidas que atravessam o século, que aderem ao tempo, que fazem tempo. Vidas que, na sua plenitude, atravessam furiosamente a história pondo nela a sua marca e im-pondo a sua presença face a um acontecer histórico em que a liberdade se ausenta. De 1902 a 1999, Rafael Alberti atravessou o século vivendo-o como escrevia: sem limites, espraiando a sua bela caligrafia por todo o espaço da folha, escrevendo sem respeitar as margens como o mar que tão celebradamente cantou.

De Alberti demoro-me a pensá-lo na Guerra Civil de Espanha (1936/1939) coordenando a célebre evacuação do espólio do Museu do Prado colocando-o a salvo dos bombardeamentos do exército franquista.

O azul que o mar lhe devolvia despertou nele, desde muito novo, o desejo de se tornar pintor. Mas foi pela escrita que se notabilizou. Marinero en Tierra de 1924, distinguido com o Prémio Nacional de Literatura por um júri a que pertencia António Machado, será o seu livro de estreia:

A un Capitán de Navío

Homme libre, toujours tu chériras la mer.

Baudelaire

Sobre tu nave – un plinto verde de algas marinas,
De moluscos, de conchas, de esmeralda estelar,
Capitán de los vientos y de las golondrinas,
Fuiste condecorado por un golpe de mar.

Por tí los litorales de frentes serpentinas
Desenrollan, al paso de tu arado, un cantar:
- Marinero, hombre libre que los mares declinas,
Dinos los radiogramas de tu estrella Polar.
Buen marinero, hijo de los llantos del norte,
Limón del mediodía, bandera de la corte
Espumosa del agua, cazador de sirenas;

Todos los litorales amarrados del mundo
Pedimos que nos lleves en el surco profundo
De tu nave, a la mar, rotas nuestras cadenas.

(Marinero en Tierra)

E depois temos a "Geração de 1927": Garcia Lorca, Dâmaso Alonso, Guillén, Vicente Aleixandre e, claro, Rafael Alberti. Geração literária, mas não só – cultural, no sentido pleno do termo. O acto fundador deste grupo indica desde logo as suas linhas programáticas; reúnem-se em Sevilha para celebrar o tricentenário da morte de Luis Gôngora - a tradição e a vanguarda não são dois mundos distante, antes se complementam.

A vitória do fascismo trará destinos diferentes aos intervenientes do grupo. Lorca, que Salvador Dalí apresentara a Alberti em 1924 na mítica Residência dos Estudantes em Madrid, será assassinado. Alberti, por sua vez, conhecerá o exílio. Paris, Buenos Aires e, finalmente, Roma. Regressará à sua Espanha em 1977. "Sim, sim, Alberti está em Madrid", grita o povo a recebê-lo. Ou ainda: "se vê, se sente, Alberti está presente!". A resposta do poeta a esta aclamação resume, de algum modo, a história de Espanha deste nosso século: "Parti com um punho cerrado, regresso com a mão aberta, como símbolo de paz e fraternidade entre todos os espanhóis". Depois de Abril em Portugal, também a Espanha fazia a sua transição para a democracia. Democracia pela qual Rafael Alberti tanto lutara, primeiro na Guerra Civil ao lado dos Republicanos e depois durante os seus longos 38 anos de exílio.

O poeta-pintor deixou-nos mais de meia centena de obras, de poesia, sobretudo, mas também em prosa. De um certo lirismo romântico em Marinero en Tierra à danação surrealista em Sobre los Ángeles de 1929, da dramaturgia comprometida de Cantata de los Héroes y la Fraternidad de los Pueblos de 1938 ao memorialismo de La Arboleda Perdida (1959, 1987, 1996), Rafael Albertí soube aliar a liberdade da poesia à poesia da liberdade:

Invitación al Aire

Te invito, sombra, al aire.
Sombra de veinte siglos,
a la verdad del aire,
del aire, aire, aire.
Sombra que nunca sales
de tu cueva, y al mundo
no devolviste el silbo
que al nacer te dio el aire,
del aire, aire, aire.
Sombra sin luz, minera
por las profundidades
de veinte tumbas, veinte
siglos huecos sin aire,
del aire, aire, aire.
!Sombra, a los picos, sombra,
de la verdad del aire,
del aire, aire, aire!

(Sobre los Ángeles, 1927/28)

"Não morrer nunca", foi o pacto que um dia Rafael Alberti e Pablo Picasso fizeram. Picasso, sabemo-lo, morreu primeiro. Alberti, "pirata de mar y cielo", queria chegar ao ano 2015. Agora, já o sabemos também, Rafael Alberti não se encontra mais entre nós; no nº7 da Calle Abarizas no Porto de Sta. Maria, em Cádis, já não mora o poeta. Se a morte é o instante que inaugura a eternidade então o "poeta na rua", como ele gostava de se definir, viverá para sempre na eternidade:

Galope

Las tierras, las tierras, las tierras de España,
las grandes, las solas, desiertas llanuras.
Galopa, cabbalo cuatralbo,
jinete del pueblo,
al sol y a la luna.

! A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

A corazón suenan, resuenan, resuenan
las tierras de España, en las herraduras.
Galopa, jinete del pueblo,
caballo cuatralbo,
caballo de espuma.

!A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

Nadie, nadie, nadie, que enfrente no hay nadie;
que es nadie la muerte si va en tu montura.
Galopa, caballo cuatralbo,
jinete del pueblo,
que la tierra es tuya.

!A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

(Capital de la Gloria, 1936/38)

Nota: os poemas transcritos são retirados do livro, Antologia Poética (1924-1972), Editorial Losada S.A., 7ª ed., 1977, Buenos Aires. Em português existe também uma Antologia Poética que a Campo das Letras, do Porto, editou em 1998, com tradução de Albano Martins.

Fernando Martinho Guimarães, 1999.

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