Projecto Vercial

Manuel Carvalho


Manuel Carvalho nasceu em Cicouro, Miranda do Douro, em 1946. Iniciou-se nas letras em Leiria, no semanário A Voz do Domingo e no suplemento literário Arrancada. Em Lisboa, colaborou na revista Europeu. Em 1979, alcançou o 2 prémio num concurso de contos do Diário Popular. Em 1980, radicou-se no Canadá onde exerce a profissão de desenhador industrial. Desde então, desenvolveu intensa actividade social e cultural no seio da comunidade portuguesa de Montreal onde colabora nos jornais Lusitano, A Voz de Portugal e LusoPresse. Em 1983 e 1986 organizou os Jogos Florais Luso-Canadianos. Foi colaborador da extinta revista Peregrinação, publicada na Suíça. Em Portugal é colaborador do Semanário Transmontano. É autor dos livros Saga (1989), Gesta (1992), Um Poeta no Paraíso (1994) e Parc du Portugal (1996).




SAGA


O CANTO DA SEREIA

Na tarde mansa, moído de trabalho, o Luís Negro sobe a St-Laurent. Lá no alto, na zona dos portugueses, a rua explode em festa: bandeirolas, música, bancas de rouparia, petiscos, quinquilharia, carripanas de pop-corn, profusão de feira das "mil e uma noites".

Foi quando o altifalante lhe berrou na cara a cantiga. Cantilena esganiçada que falava dum amor qualquer, ao luar...na praia...lá em baixo...em Portugal.

Engoliu em seco, as pernas cheias de tremuras. E aquilo que não lhe acontecia há anos, desde a morte da mãe, aconteceu: duas gordas lágrimas saltaram-lhe aos olhos. Envergonhado, raivoso, enxugou-as às costas da mão encordoada.

"Porra, Luís, és algum garoto?"

A cantiga, endiabrada, sibilante, continuava e verrumar-lhe os miolos.

"Raio de cantiga".

Pensamentos durante anos adormecidos, acordavam indomáveis: a sua Vieira, o mar e a praia, os copos de tinto emborcados na tasca do Palaurdo, os barcos e as pescarias, e sobretudo os camaradas de campanha, o Tonho, o Rijo, o Coxo, tantos, tantos.

"E a miséria que passavas, Luís, e a miséria?- rebatia os engodos. "Aqui podes juntar umas dólas e lá? Lá roías a ponta dum corno. E olha que não trabalhavas menos. Na pesca, na lavoura, puxavas pelo canastro como um moiro."

E os pensamentos com o freio nos dentes: nos entardeceres ensanguentados de verão, qual deus de bronze a puxar as redes, os músculos quase a rebentar, trespassado pelo olhar admirativo da turistada toda, os pulmões esbraseavam-se: ôoh...ôoh...ôoh...e as sardinhas a saltar como prata! E o mar manso como um rafeiro. E...e...e...!

Mal chegou a casa, disparou:

– Este ano vamos de férias a Portugal.

A mulher levantou o nariz do tacho a ferver no fogão.

– Tás maluco?!

Ele queria falar da cantiga, de tudo o que lhe ia em tropel na cabeça, mas ela não lhe deu azo.

– Tás maluco, homem? Íamos gastar um dinheirão. E o campo, e a casa nova? Atão não combinámos que só lá iam para o próximo ano?

O Luís sentiu-se envergonhado por ser o mais fraco. Mais fraco do que ela. Ela que chorara baba e ranho ao deixar a terra.

"Mas, porra, ela não ouviu a cantiga".

Saiu porta fora. Para a rua. Para a multidão.

Mesmo assim andou oito dias sem quase falar à mulher. Depois passou-lhe e continuou a amealhar dólares, para o campo e para a casa nova.


PARC DU PORTUGAL


MAR

Agora, quando aos domingos de manhã vai à missa, o Luís já não mendiga favores a Deus. Os seus lábios, quando se abrem, é para agradecer todas as bênçãos com que a vida, no seu entender, o tem cumulado.

Repassado duma serenidade rente à natureza, às tardes, depois do trabalho, refugia-se no quintal, a horta é a minha taberna, já torna a dizer como nos tempos da Vieira quando, enxada ao ombro, rilhava os dentes para resistir aos apelos madraços e enleantes que os compinchas dos copos lhe lançavam do umbral das tabernas.

Encontra sempre qualquer tarefa para cumprir, a horta para regar, algum arbusto para podar, um buxo para aparar, o quintal é um ser vivo e sensível carenciado de carinhos que só mãos tocadas pela graça telúrica sabem prodigalizar.

Mas desde há uns tempos, anda qualquer indecifrável enguiço a perturbar-lhe a paz, torna a apoquentá-lo aquele frenesim que lhe remexe as entranhas quando alguma lhe começa a moer a cabeça. E, coisa estranha, desta vez, por mais que esprema os miolos, não consegue atinar com as raízes desta angústia crescente.

Inesperadamente, foi o filho que, ao jantar, lhe abriu as portas da

razão.

– Ó pai, agora que temos uma "cour" é que a gente podia comprar um

cão.

Num transbordo, do fundo dos anos, dum outro tempo, reminiscência dum mundo paralelo, subiu-lhe à tona da memória um quadro familiar: quintal de pescadores pobres com roupa surrada estendida na corda, galinhas a depenicar por aqui e por ali e, lá no canto, junto à coelheira, do fundo da casota de tábuas carcomidas, os olhos infinitamente doces dum cãozito de rabito a abanar.

Desde essa noite, foi uma guerra pegada naquela casa. O Mário, em rompantes de adolescente, exige um pastor alemão, pelo menos um labrador, cão que se veja e que o prestigie perante a garotada da redondeza. A Teresa inclina-se para um caniche, género bibelot, para enfeitar a casa. O Luís, num mutismo alarmante, alheia-se da discussão, rumina sabe Deus o quê, nada de bom pelo certo, desconfia a família que já conhece de ginjeira o significado daqueles silêncios casmurros onde não entram outras vozes para além da que lhe sobe das tripas.

E, mais uma vez, tinham razão para desconfiar. O Mário quase que ia morrendo de raiva quando o Luís chegou a casa com aquele cachorro preto de orelhas caídas, um vara-latas sem pinga de raça. Só a Teresa, ao reparar nos olhos infinitamente doces do bicho, é que teve um baque.

– Mas parece o nosso Mar! Recordas-te, Luís, do nosso Mar, na Vieira? Tive tanta pena de deixá-lo, será que ainda é vivo?

O Luís encarou-a nos olhos.

– Este cachorrito é o Mar.


STAR

– O teu filho é um predestinado. Seria um crime desperdiçar um talento

destes.

Quem assim lhe fala, sem papas na língua, com a experiência de quem já peneirou muita ganga e se ufana de ter descoberto duas ou três boas pepitas que brilham ao sol das multidões por esses ringues fora, é o Serge, o coach da equipa de hóquei dos pee-wees de Laval. Apanhado desprevenido, a princípio custou-lhe a compreender, mas não havia dúvidas, era bem do seu rapaz que se tratava.

Foi como se tivesse apanhado uma bordoada na cabeça. Gago, incapaz de falar, o francês ainda mais embrulhado do que o costume, mal conseguia sorrir, com um ar meio parvo que o enraivecia, o que o homem iria pensar dele.

Depois, foi uma subversão dos sentidos. A bolsa sempre aberta para comprar os melhores equipamentos, trata o filho como um rei, não quero que um dia te queixes de mim, diz-lhe. Negligenciadas as tarefas do quintal, não perde um treino ou um jogo em que o miúdo participa , já é uma presença notada, apontada a dedo, o mais fiel dos adeptos. Grita, gesticula, espuma, disposto a saltar para o ringue e estripar os adversários, capaz de arrancar o coração aos árbitros com as próprias mãos.

Viraste do miolo, refila a Teresa, alarmada com a extensão do desastre.

Mas tal pai, tal filho. Naquelas duas cabeças não paira a mais pequena sombra de dúvida quanto à carreira gloriosa que espreita o Mário. O Canadien, a Liga, esperam de braços abertos que este prodígio cresça e ganhe mais corpo, com um pouco de sorte está ali prestes a sair da forja outro Gratsby, outro Lemieux.

Nas noites de hóquei, um alguidar de pipocas à frente, a televisão de goelas abertas, são uma só alma que morre e revive pelo Canadien, uma só boca que chora, ri, pragueja, implora, em uníssono, enquanto engolem mãos-cheias de pipocas.

Esta noite defrontam-se o Canadien e os Panthers de Miami. A assistência ulula. Os golos sucedem-se. Há bordoada de criar bicho. Os coachs andam para trás e para diante, como cães raivosos. Há cânticos de morte no ar.

Lá para o meio da partida, num desvario, afinal quem ali vai, como um raio, sobre o gelo, já não é o Brisebois, é o Mário Negro esse fabuloso jogador português que acaba de assinar um chorudo contrato de milhões com o Canadien de Montreal. Rápido como um relâmpago, nada nem ninguém o detém, prestes a finalizar mais uma jogada de enciclopédia e a levantar em peso a assistência enlouquecida.

E, como sempre, é a Teresa que precisa de deixar as lides domésticas para descer à cave e pôr um pouco de ordem naquelas cabeças.

– Mário, já fizeste os deveres da escola? - E para o Luís: - Ainda és pior do que a criança.

Atiram-lhe olhares assassinos. Mas lá se resignam e acabam por reconhecer que ela tem mais uma vez razão e que afinal quem ali vai, num turbilhão de fogo, ainda não é o Mário Negro mas sim o Brisebois que acaba de marcar mais um golo para o Canadien.



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