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A QUINTA DAS VIRTUDES

Desenho da capa do livro

UM CAPITÃO BARROCO

Com a Casa por aprontar, ainda, mas habitável, presa a seu escabroso alcantil, apreciava José Pinto de Meirelles exibir, à vista, nem sempre excitada, de visitantes de passagem ou de hóspedes de raiz, a planta do que fora o projecto inicial. Representava ela, no que à fachada norte respeitava, um corpo de linhas neoclássicas, de duas águas bem desenvolvidas, com uma projecção central, que um frontão encimava, no qual as armas da família se inscreviam. E, muito pormenorizadamente, a gestos bastante largos, que faziam com que, sobre o desenho desdobrado, se espalhasse uma pouca de rapé, da caixinha que sustentava, entre os dedos, justificava-se José Pinto de não haver cristalizado sua vontade primeira, em tão grandiosa construção. Perante o exame daquela rejeitada amplitude arquitectónica, dir-se-ia ter perpassado, porventura, em seu espírito, o sonho de uma certa opulência, que o Porto, de resto, não toleraria, de coches estacionados, em longuíssima fileira, diante do lanço de oito degraus, de que emergiam os convidados, para um onírico baile, nos salões comunicantes do plano nobre. Coisa insólita, porém, era a de jamais atribuir ele a impugnação de tanta, nunca vista prodigalidade, ao demasiado custo do empreendimento, senão a conveniências, que não lograva explicar, calma e satisfatoriamente, da perspectiva panorâmica e da higiene dos filhos. Repontavam-lhe os interlocutores, com a esperança de que, num remoto futuro, talvez, se possibilitasse, a um qualquer Meirelles, de gosto perfeito, a concretização do sonho de seu antepassado. Mas já nem reparava José Pinto, ao certo, em tais palavras, no imenso e descontrolado calor, com que promovia a defesa da edificação presente, em seu corrido frontispício, de aparência quase arábica, sobrepujado por aquele brasão esquartelado, de desconforme vistosidade. Era este em granito muito rude, sob o lintel do telhado, figurando um escudo, de composição partida, com os cinco crescentes dos Pintos e, na parte onde se mostrava cortado, a águia, imponente e lateral, dos Azevedos e a cruz, florida e vazia, dos Meirelles. Por diferença, inseria uma brica, com um trifólio, e eis que revelava, ainda, um coronel de nobreza, além de mui interessantes motivos vegetais, a ladear o dito escudo. Parecia estranho, no entanto, que se erigisse tal pedra, orgulhosa e seráfica, ao fim de contas, ao termo da ladeira de acesso à Cordoaria. Por aí, de facto, nos tempestuosos dias invernais, borbulhavam as torrentes desarvoradas, até formarem um charco de imundície mesmo defronte da entrada da residência. E espelhava-se a jóia heráldica, ondulante como um pendão de batalha, à superfície das linfas lamacentas, o que era, a bem dizer, uma forma de insulto para quem conhecia a profunda consciência, com que o senhor daquela Casa se esgotava, num vasto e febricitante corropio mercantil. Mas reflectia a robustez da traça da Quinta das Virtudes, isso ninguém, ninguém, se atreveria a negar, essa como que soberba de fidalgo antigo, do tipo que nunca se coíbe de ingressar, com os canos altos da caça, numa quadra onde as mulheres pregam flores de Melines, a reclamar, intempestivo e naturalíssimo, o caldo de unto da manhã e o estribo que o alfageme terminou. Não se adoptara, portanto, a galante mansão do princípio, ou não a quisera José Pinto, por qualquer privada e honrosa superstição, receber e abraçar. Verdade era que, a intervalos, lhe surgia, a meio do dormir, a estupenda moradia, de arestas patrícias, com seus lustres de muitos braços, donde soltavam as velas, então, um pingo redondo e escaldante. E, se na cama se voltava, a afugentar o pesadelo, logo ele se lhe reimpunha, com sua música desconcertante, a qual se garantiria promanar, e disso mesmo é que se envergonhava, de uma orquestra, estridente e dementada, de macacos rabequistas.

Organizara-se uma companha, de artistas e de artífices, sob a tutela de um certo Manuel das Botas, que labutara, antes, em grandes empreendimentos, nos Clérigos e em São Bento, em Santa Clara e em palácios vários da aristocracia. Era um sujeito carrancudo, de mau vinho, que arregimentava seus homens, sempre, na base do senso da habilidade que possuíam, colocando o brio de suas obras em exclusivo motivo existencial. E circulava ele, pelo meio dessas hostes, tal e qual um pegureiro serrano, que guardasse o rebanho, considerado e temido, em especial, quando se achava com álcool. Nem precisava de levantar a voz, a fim de se ver obedecido, procedendo por imperceptíveis sinalizações, no impor de seus intentos ou na correcção de qualquer falta, através do uso da veneranda bengala de Gestaçô, que manipulava, como símbolo do poder e referência à área de sua naturalidade. De Seixezelo e de Crestuma, de Ermesinde e de Custóias, afluía o pessoal daquele pequeno batalhão, oficiais e aprendizes, ajudantes e moços, lutando contra o gelo matinal, com um assobio dobrado, tratando as frieiras e os cravos, mm pomadas complexas, na observância das receitas autóctones. E falavam, pelo caminho, da prisão de um larápio, a que tinham assistido, do pai do noivo de uma irmã, que era senhor de sete campos, dos truques que aplicavam, na taberna, os que jogavam os dados. No lugar do trabalho, acarretando baldes de cimento ou lapidando a cantaria, lá se punham a exalçar, perante a diversa origem dos companheiros, primores e vantagens de suas parvónias. E, à hora da janta, com a pratada, sobre os joelhos, de feijão branco e de arroz, esperando o trânsito do canjirão do verdasco, entretinham-se a gritar, às raparigas, que vinham à fonte, lá em baixo, encher o cântaro ou lavar uns cueiros, a apodá-las de tirana e de botão-de-rosa, de marmanjona e de outras coisas assim. Em toda essa efervescência, de fundamentos que se enterravam, de blocos que se sobrepunham, de fios-de-prumo que se suspendiam, iam eles perdendo algo, pobre gente, de sua genica. E topavam consigo mesmo, de quando em quando, assombrados pelo surto de um veleiro, que saía para o Brasil, com uma breve e negra multidão, à amurada, de seres que haviam sido iguais a eles, e que emigravam, nesse momento, com um esboço de patacas e de mulatas, na cabeça sonhadora, atravancada de todos os prodígios. Deitavam contas a seu fado, aí, os operários que José Pinto assalariara, ao quase-nada que tinham e ao que podiam empochar, reflectiam nas esposas e nos filhos, embrulhados numa miséria, de chão de terra batida, que o borralho iluminava. E revertiam a suas artes interrompidas, cantarolando uma moda, dolente e repetitiva, que falava de amor e de morte, de ais insofridos e de felicidades que se não configuravam. Fiscalizava-os Manuel das Botas, entretanto, com o olhar vítreo dos quartilhos ingurgitados, intimava-os a que teimassem na perfeição de uma cornija ou no acabamento de uma viga, citando maneiras da fábrica dos Italianos, castigos que haviam merecido trabalhadores bargantaços, recompensas que tinham galardoado a sua própria destreza, que ninguém mais emularia. Quanto àquele material esculpido, concitava ele particular atenção, no que ao tom e ao granulado concernia, à proveniência de recentes ou de vetustas pedreiras, à fortaleza que opunha às intempéries banais. E procuravam, além disso, toros de pinho que secasse bem, com nós que não prejudicassem a coerência global, suficientemente longos, para dispensarem as emendas, não rijos em excesso, para que a flexibilidade não ficasse comprometida. Por essa estação invernosa, em que a construção começara, realizavam um bom fogo, ao entardecer, a aquecer-se daquele frio cortante, transportado por um ventinho que zunia. A butes, retornavam a suas aldeias, mastigavam a sopa de couves, do hortejo que, ao domingo, costumavam amanhar, abatiam sobre o catre, com a filharada ensonada, a toda a volta, roncavam e gemiam. Apresentava-se José Pinto de Meirelles, pelas onze horas, a fiscalizar as obras, com esse misto de sóbria bonomia, que sabia estimular o feitio dos artífices, e de firmeza de mando, que reputava de indestrinçável de sua categoria de dono e de senhor. Insistia nos esquemas genéricos e na qualidade dos materiais, sem se demorar em detalhes de praticabilidade ou decoração. No risco da capela, que seria da invocação de Nossa Senhora da Conceição e de Jesus, Maria e José, e que se postaria, saliente sobre a rua, à esquerda do ingresso principal, concentrava ele um empenho tamanho e tamanho carinho que se concluiria, sem margem de engano, andar descarregando, por qualquer motivo, uma consciência pesada. Aos mesteirais sobremaneira valiosos, indagava José Pinto, com bastante distracção, de aspectos de sua privacidade, donde eram originários e quantos meninos é que tinham, acenando a cabeça, em concordância com o que lhe comunicavam, ou no apreço das provações que da resposta intuía. Passava a outro, e mais a outro, procurando inculcar, numa como que confidência ocasional, o quanto, também ele, mourejava e combatia, e que não iam os tempos para ociosos, e que, se todos se afadigassem, haveriam de arrecadar, sem falta, bons e bastos frutos, nesta existência, porque na futura, é claro, só Deus é quem julgava o mérito e as misérias de cada qual. Viam-no desaparecer os artistas, de barrete, na mão, e logo voltavam a suas canseiras, com duplicado vigor, quase sempre, e com alguma vaidade até mesmo, desfechando mais fortes pancadas da picareta, ou robustecendo a toada de puxar um imenso paralelepípedo. E, das profundas de muitos anos de homilias, ouvidas na igrejita de suas aldeias, lembravam-se daqueles versículos, perdidos nas Escrituras, em que se falava do Templo de Jerusalém. Também esse não havia que duvidar, fora levantado para a glória e, em suas pedras, se engastara a vida dos que o construíram, um pouco de suor e um pouco de sangue, um pouco de amor e um pouco de desespero, talvez. Certa tarde, porém, desceu José Pinto, de uma liteira, acompanhado de sua senhora, e foi esta avançando através do arraial todo, de homens e de objectos, alçando a sombrinha, com bastante donaire, porque o sol atestava. Observou aquela espécie de acampamento, com seriedade, e solicitou indicações especiais, a Manuel das Botas, sobre a traça que o arquitecto, personalidade que nunca se tornava presente, entendia imprimir, afinal, ao jardim. Falou-lhe o mestre de fontes, de colunatas, de muretes e de adornos, e de um acesso, que se praticaria, directa e convenientemente, para o fontanário das Virtudes. Parecia Francisca Clara aplaudir quanto se achava previsto, coibindo-se de adiantar essas sugestões que, às mulheres, se antolham, quase, como pontos de honra e certificado de sua capacidade técnica, tiragem da chaminé e escoamento dos tanques, alçado das janelas e largueza dos sótãos. Pelo contrário, remetia-se ela, nesse instante, à competência de um vero superintendente, desses que vigiam, apenas, o modo como as coisas se rematam. «Creio que está tudo, realmente, a preceito, senhor Manuel das Botas», resumiu Francisca Clara, fechando a sombrinha, pois que estavam abrigados, agora, e acomodando as saias, após o diálogo em que condescendera. E, de supetão, apercebendo-se da paixão profissional daquele capataz, atirou esta adenda, que era um prémio e uma ironia, «Deixe lá, que hei-de ordenar algum vinho de Campos, para o presentear, de um que é espirituoso, sem que o seja de mais, e refresca a gente, a contento, no tempo dos calores, acredite em mim, que vai dar no goto de vossemecê».

*

Estão José Pinto de Meirelles e Francisca Clara de Azevedo Pinto Aranha e Fonseca, a partir deste momento, entronizados nessa Casa das Virtudes, como no centro de um reino, indistinto de sua pessoa e de sua realização. Procriarão herdeiros vários, António Manuel, Ana Felícia, Joaquim, João e José Pedro, caboucos que serão daquele solar, encravado na vertente, demoradamente remirando o Douro. Uma fase outra, de costumes e de tiques, se franqueará, por isso, daqui por diante, nutrida mais pelos ideários da abastança que pelos circuitos do dinheiro, a pontos de se identificar, para o futuro, com os moradores da velha estirpe. E deparava, assim, quem transpusesse aquela larga soleira, que dava para a Rua dos Fogueteiros, com um homem aprazível, de poupada meia-idade, em cujo semblante acobreado, de rígidas linhas, se detectaria, porém, o princípio de certa vivência mistica. Desprendido de modas fúteis, e desses lugares-comuns que, no entendimento colectivo, desenhavam o retrato do cavalheiro melhor, numa idêntica irritação, rejeitava o pó-de-frança ou a semente de espinafre, com que o barbeiro insistia em branquear-lhe a barbela, e a pertinácia insuportável, com que a mulher, mais por imperativo de limpeza que por manutenção das aparências, o atenazava, a cada passo, para que cortasse as unhas duríssimas. Tendo posto de parte, por espírito de comodidade, o traje de capitão, do qual, durante bastantes anos, fizera fato de ver ao Senhor e veste de trabucar, pouco se esmerava José Pinto, de facto, em sua encadernação. Envergava ele, as mais das vezes, calça e casaca, de chamalote, as duas, de uma tonalidade vinosa e apagada, com um colete da cor do grão-de-bico, sobre a camisa de bofés, a qual representava, essa sim, o único luxo que se permitia. Sentado à cabeceira da mesa patriarcal, tendo a bengala deposta, ali, a seu alcance, não constituía José Pinto presença alegre, nem triste, nem esperta, nem bronca, com uma dessas suas duas perucas colocada, sem qualquer sofisticação, sobre a cabeçorra possante. Recortada e erecta, à sua frente, na outra extremidade, compunha Francisca Clara, como seria de esperar, biótipo inteiramente contrastante. Era uma calma dona setentrional, cuja expressão se especializara em não exteriorizar qualquer espanto, tão detentora de sua gesticulação como da gesticulação dos outros, da raça dessas esposas, em suma, que não concedem uma tirinha, sequer, à amásia transitória. Ataviavam-na as criadas, por mais do que uma vez, ao longo do dia, coisa que não constava do usual, e que conferia pretexto, por isso, a disperso falatório. Enfiavam-na num vestido de veludo, de que preferia, sempre, os tons mais em voga, de amor-perfeito ou de alecrim, com a preocupação de lhe situarem as ancas na postura razoável. «Dama esgalgada é dama enfadada», costumava citar Francisca Clara, num como que provérbio, que se desconfiaria ter nela, e só nela, a sua fonte, a escusar-se, assim, desse gosto, corrente e passageiro, por certa forma de esbelteza, não enamorada, de resto, da necessária feminilidade. Abafava-lhe o pescoço, tão delgado que lho haviam equiparado, já, ao da velha e infelicíssima marquesa de Távora, um lenço de cetim listrado, que parecia adereço das Arábias. E, cuidadosa dos sapatos forrados e das meias espigadas a oiro, muito haveria a aguardar, desta mulher, que ousava o arreganho, já entradona, quando havia convivas, de patentear, no toucado, sob um penante, uma gema enorme, como um olho de boi, nada menos que uma cornalina do Brasil, cintilante e escarlate.

Na dita mesa, em ciclos imutáveis, houvesse ou não houvesse hóspedes a servir, uma severa gastronomia campeava, de iguarias várias, fabricadas sem muita elaboração, susceptíveis de trazer algum júbilo, todavia, a uma alma descoroçoada, por efeito dos soros e dos nevoeiros do clima. Com um parco número de garfos, de ferro, todos eles, e não poucos visivelmente oxidados, consumia aquela família requintes diversos de cozinha centenária, que o teor citadino não bastava para alterar. Era a canja aconchegante, logo de início, descerrando um cortejo de produtos, da caça e da horta, do rio e do oceano e do pomar, a que uma exposição, nem sequer voluptuária, de farta e de riquíssima doçaria, impunha a coroa final. E controlava Francisca Clara, com uma ou outra indicação, lançada ao criado, a arbitrária compostura de António Manuel, seu mais velho varão, demente irremediável, o qual, de quando em quando, com um furor de meter medo, desatava numa birra, infantil e atormentada partindo os pratos, diante de si, derramando a potagem de coelho ou a tigelada mourisca, sobre o branco da toalha. Pelos altos janelões, virados a sul, irrompiam fortes revérberos do sol primaveril, nessa altura, a atravessar o cristal facetado dos licoreiros, de creme de medronho e de essência de cacau, decompondo e distribuindo, em derredor de sua base, um jogo sequencial de cromáticos fragmentos. Mui paulatinamente, em ritmo incansável e consciencioso, então, deglutiam as peças do repasto, um lombo de barbo ou um peito de pombo, atirando a um dos cães o que sobrava. Numa pausa, em goladas de prazer, ingurgitavam a bela água das Virtudes, tão gabada que acorriam forasteiros, a prová-la, levando-a para suas casas, em garrafinhas de toda a conformação. E comentavam os Meirelles, enquanto digeriam, o preço a que ascendera, nas últimas cotações, a jarda do tafetá, e a recente, mas já tão saudosa, visita do Senhor Dom Gaspar, arcebispo de Braga e primaz das Espanhas. No cálido conforto, em que, ali mesmo, se compraziam, com as vidraças escancaradas, para o odor das trepadeiras, era como se o ontem e o amanhã se anulassem, nesse termo de Setecentos, em que um negro turbilhão espreitava a Europa. Iam ter àquela sala, de porcelanas e de ourivesarias, ecos de ambas as ribas do Douro, verde e incessante, como se andassem buscando o tempo que lhes competia. E começava a criadagem a retirar os pratos sujos, despejando numa gamela os restos que tinham crescido, dos comeres da refeição. Ao fundo, por uma fina nebulosa, avistavam os comensais o vulto, quadrado e áspero, do autoritário José Pinto. Entalara um palito, entre os molares, enquanto punha a girar, numa aguda e plangente chiadeira, a manivela do moinho do café. Analisavam-no os seus, no desempenho da operação, como se fosse ele um sacerdote sumo, que executasse um rito salvador, de liturgia arriscada e fatal. E levantava-se António Manuel, com todo o vagar, sorrindo para este e para aqueloutro, no orgulho e no temor, que não conseguia esconder, de se desincumbir da missão sacralíssima. Com jeito medido, assim, despejava quatro colherinhas de açúcar, na xícara de seu pai, quedando-se a seu lado, à medida que sorvia ele a bebida fumegante, sob a mira tranquilizada dos membros do clã.

Na intimidade do agregado, quando era a noite, lá fora, uma poalha cinzenta, de chuva imparável e suja, encetavam os irmãos, com as afilhadas e as sobrinhas, uma rápida jogatina. Montavam uma távola, no salão, de pano verde, em torno da qual se entregavam a uma partida de truque ou de banca francesa, com os omnipresentes serviçais, que se arrastavam, pelos cantos, ansiosos de descobrir a quem a sorte favorecia. E uma empolgada tentação de se arriscarem palpitava, então, nessa quadra, apinhada de adolescentes que, por tudo e por nada, berravam e riam, na excitação dos meandros da partida. Era o estadão de uma pequena corte barroca que se encenava, na Quinta das Virtudes, com seus festins e suas tolices, suas tácticas labirínticas e suas traições teatrais. Um ar de amplíssima liberdade percorria a Casa, assim, initando os dois corvos amestrados, até mesmo, os quais se evadiam, quase impunemente, de sua gaiola doirada, que possuía ramos fingidos, de cobre esmaltado, para virem empoleirar-se, no tampo da espineta, quando se trocavam as cartas pela música, e alguém se sentava, a arranhar uma modinha. Jamais se esquecia José Pinto, em tais instantes, de esclarecer, com voz estentórea, «Foi Pierre Antoine Quillard, em mil setecentos e trinta e um, quem decorou este instrumento, e podem crer todos, meus senhores, que dei bom dinheiro, por ele». Representava a pintura um embarque para Cítara, notoriamente tocado, no que à inspiração respeitava, por certa merenda, fora de portas, dessas em que se consomem comestíveis e virgindades, e que se lembram, depois, por toda uma existência. Mas transformava-se a palestra musical, entrementes, num exercício de harmonias, em que entravam os desmandados sentimentos dos Meirelles, tão cônscios de sua temperamental e sanguínea coerência, na antepenúltima década da era de Setecentos, como da inegável fugacidade de todos os privilégios. Quem se atrasasse, portanto, a esquadrinhar-lhes os traços, dessa brancura invulgar, amaciada e cintilante, que era um dom da mesologia portuense, só a custo mascararia seu sobressalto. Numa desequilibrada preocupação, em verdade, soçobravam eles, incapazes de apreender os considerandos políticos, reprimindo-se de intervir na vida pública, ainda que no simples terreno da prática da opinião, por lhes parecer isso irrelevante e anódina aventura. Serões deste jaez, que os poetas não publicitavam e o povo não invejava, conduziriam a um estancamento de seiva, como se anunciassem o leilão terminal de todas as qualidades de uma cadeia de gerações. Não cessava a chuva, no Porto, uma das teclas emperrara, sem solução, só os corvos crocitavam, em desespero, com sua fome de revolta. «Senhor Pai, a sua bênção», reclamava um dos rapazes, muito conecto, de repente, como que contrito dessa contemporização, embaraçante e pecaminosa, com um jogo proibido ou inapropriado. «Deus o abençoe, menino», respondia José Pinto, retirando a manápula, de modo furtivo, com a qual ia agarrar, como por obrigação, um dos corvos, a fim de o introduzir na gaiola. Entravam dois moços, desarmavam a távola e fechavam a espineta, empreendendo a circum-navegação daquele recinto, onde vagueava um cheiro de cotão, que a contínua pluviosidade exaltava, tomando sentido de que nenhuma chama ficasse por apagar. «Há quanto tempo isto foi, ai, ai, há quanto tempo!», exclamariam os descendentes daqueles que mencionámos, um século mais tarde, a relembrar o sentido dos sucessos extraordinários, que acabámos de reportar.

Com a outra nobreza portuense, mantinha José Pinto a relação distanciada, sempre veneradora, porém, que implica a cordialidade e isenta de maiores deveres. Suscitava-a entabulando, com o burgo, uma bravata tácita, no repto, em que seus elementos muito folgavam, à empoeirada carta de Dom Fernando, de vinte e dois de Junho de mil trezentos e oitenta e seis, que Dom Afonso V referendara, a qual vedava, aos fidalgos do Reino, o residir ou o pousar na cidade. Em suas câmaras grandíssimas, como furnas mal aquecidas, da Torre da Marca e do Poço das Patas, da Feira das Caixas e de Santo António do Penedo, acoitavam-se os Brandões e os Cirnes, os Pintos de Sousa e os Leites Pereira. Constituíam eles uma população raramente detectável, a menos que estadia régia de arromba ou excepcional efeméride sacra lhes exigisse, sob pena de notório escândalo, o esclerótico testemunho presencial. Se alguns se inclinavam, já, à indústria e à mercancia, como os Carrancas, a quem o governo autorizara a fundação de uma fábrica de galões de oiro, não era sem reprovativa surpresa, vinda do sector dos ortodoxos da honra, que a tal se afoitavam aqueles, pagando e repagando, no seleccionamento de alguns convívios, o temerário passo em falso, a que se haviam abalançado. Bem certo que, a breve trecho, o dramático acréscimo, fulminante e escorado, do capital dessa aristocracia trabalhadora, deduzível das melhoradas condições de habitabilidade e da bondade das funções que ia oferecendo, lhes retrazia a estima dos desavindos, os quais, apesar disso, em face do inegável progresso de seus congéneres, se entrincheiravam, ainda mais, no reclame da genuinidade e do lustre das cepas a que pertenciam. Mas debicavam, sem novas reservas, no passadio dos abastados, cobiçando-lhes as filhas, que se pretendiam desentendidas, para seus próprios filhos descomprometidos. Não significará isto, contudo, que não sobrevivessem os refractários à mudança, irremovíveis em seu preconceito, o qual convertiam, amiúde, numa ocupação do tempo vazio. Eram eles, em regra, uma prima, solteirona e inteligente, ou um tio, torturado de contumaz pederastia, os quais, no gabinete de seus torreões, após folhearem alfarrábios, dissertavam com as amas, exclusivos seres de paciência, no acto de os aturar, confabulando sobre ramos e rancos e cartas de nobilitação, armas assumidas, bastardos e colaterais. Para a festa do Senhor dos Aflitos, porém, patrono outro da Quinta das Virtudes, convidava José Pinto de Meirelles, por princípio, esses que estava ciente lhe não desdenhariam o trato, Vieiras de Mello e Noronhas Cernache, Pamplonas e Pimentéis e tutti quanti. E examinava-os, com muita precaução, mas com um tal comedimento que o conceituavam de pudico, quando assestavam a luneta, para melhor decifrar a assinatura de um quadro, ou ponderavam o valor de um tecido, com um movimento frenético do polegar e do indicador. «Consta-me que uma sua tia-trisavó teria desposado um sobrinho de meu bisavô Portocarreiro», adiantava um deles, por fim, «daí que sejamos, meu querido capitão-mor, o que muito me regozija, parentes bastante chegados». Sorria José Pinto, perante isto, e ofertava rapé, da abertura secreta da caixinha, onde inseria o de consumo vulgar. «Creio que tem toda a razão, meu ilustríssimo vizinho», replicava ele, «a avaliar, de resto, pelo que me assevera o mestre de meus rapazes, o qual, além de bom mancebo, se interessa por idênticas curiosidades». Fora disto, não intercedendo data especial, no diário viver da Quinta das Virtudes, pouco curavam seus habitantes da biografia e da actividade daquela aristocracia friorenta, de quem se bisbilhotava que costumava gelar, nas tardes de Janeiro, o fio de ranho que, do nariz, lhes manava. Destacava-se dela José Pinto, assim, através de espaçadas celebrações, como quem se liberta de um afazer, não muito entusiasmante, conceda-se, mas ao qual é necessário assegurar determinada periodicidade. E, em sua quotidiana deslocação, entre o armazém e o cais, a Rua dos Mercadores e a Alfândega, que se ia construindo, nem se recordava de quejandas ridicularias ou, se o fazia, era porque lhe sobrevinha, apenas, uma ressonância, distante e quase inaudível, dessa estranha e solitária pandilha. Com os outros comerciantes, recrutados para o âmbito de seu novo mister, é que concretizaria José Pinto a relação mais facilitada e mais eficaz, já que, à troca de vantagens, entre ambas as partes, se somava esse grão de realismo, nos factos e nos sentimentos, ao qual, desde sempre, se mostrara muito afecto. Nos portos de Gaia onde, quase diariamente, inspeccionava as embarcações, que encostavam, com as fazendas que lhe dilatavam o património, aprendera as consuetudinárias regras da convivência e um suculento léxico da especialidade, coisas que animavam os velhos negociantes tripeiros, não menos ciosos do que os titulares, no que ao peso dos pergaminhos concernia, a reputá-lo de seu igual. Naquela desesperada tensão, em que se batiam e se debatiam, por entre cargas e descargas, embargos e concorrências, pleitos e sociedades, era uma ebulição palpitantíssima que se intuía, o que, a José Pinto de Meirelles, apesar de haver dobrado, já, a cinquentena, preenchia de uma leve e fresca disposição. Punha-se ele a pé, de madrugada, bebendo um dedal de lacrima-christi, antes mesmo do mata-bicho, com uma fogosidade tal de se lançar ao trabalho que incomodava os próprios filhos, naquela curva da descompassada puberdade, em que é inclemente o sono, cheio de contumácia e de espessura. Chamava o criado de quarto, solicitando-lhe esse porta-fólio, verde e de latão, com o J e o P e o M, de suas iniciais, pintados a tinta branca, onde atascava documentos de convénios e de fretes, os quais transaccionava, com outros mercantes, à frente, não raro, de solenes tabeliões. E decifrar-se-iam, em suas linhas, detalhadas menções de côvados e de direitos e de avaliações, de cré e de sebo, de aguardente de cana e de pau-de-jacarandá, de caxemira e de gorgorão, de laranja azeda e de goma-arábica. Esquadrinhava ele, na beira-rio, o tráfego das barcas de passagem, as quais, a meio do Douro, quando a corrente era grossa, pareciam desaustinadas, de azáfama tão vertiginosa que o toque dos sinos, de uma margem e da outra, ainda mais ansioso se ia tornando. E, com a comunidade britânica, por ter, além do certeiro dedo para a contratação essa aura de rico-homem, a que se rende, sempre, o snobismo dos saxões, era incontestavelmente muitíssimo dado. Abrira a Casa das Virtudes, aliás, ao egrégio barão de Forrester, que lhe revelara preciosos mapas, base das primordiais demarcações da Companhia Geral das Vinhas. Industriara-o o inglês, até, no fumar um cachimbo comprido, prazer a que se entregava José Pinto, agora, com surpreendente assiduidade, porque o ajudava esse hábito, garantia ele, a juntar ideias e a repensar. E, na alucinada vis do deve-e-haver, do cálculo e da programação, fora ao cúmulo de, nas manhãs domingueiras, se arvorar em guarda-livros de seu próprio lar. Apresentavam-lhe a nota das receitas e das despesas, notificando as testemunhas, ao mesmo tempo, que poderiam depor, diante dele, sobre sua legitimidade e justificação. E rezingava José Pinto, sempre, porque fora de mais isto ou aquilo, ou porque se não procurara preço menos elevado, ou porque auferia excessivo salário, e muito desperdiçava, o lote de seu pessoal doméstico. Ainda assim, não se esquecia de toscar, pela janela entreaberta, a movimentação daquela barra que, de ano para ano, se ia assoreando. E, quando algum conhecido encaminhava, até ele, um certo jovem acanhado, candidato à praça, postava-se José Pinto, de mão apoiada no exemplar da Imitação de Cristo, decidido a um sermão morigerador. «Não desconhecerá, meu amigo», principiava ele, «que é esta uma arte ruim, muito perigosa, repleta de tentações do Mafarrico». E aconselhava, deste modo «Procurarei intervir, prometo-lhe eu, a seu favor, mas rogo-lhe desde já, que se afaste de rameiras e de díscolos e de usurários, de companheiros bardinos, enfim, a quem importa, somente, esteja seguro, a sua perdição». «Olhe, agarre-se o meu amigo, sobretudo», segredava José Pinto, «a nosso milagroso Santo António de Lisboa, o qual, como nenhum, é inclinado a estes interesses». E sumariava, «Não despreze, para lhe dizer tudo, o que refere o abade daqui, homem letrado, como todos os sacerdotes, que cita um poeta italiano, esqueci-me do nome, o qual compara esta nossa peregrinação a uma selva escura». Demitia o peticionário, por fim, com a seguinte solicitude impaciente, «Boas-noites, meu filho, até mais ver, e que o Senhor o proteja».

No conceito do dono das Virtudes, além de quanto fica dito e redito, uma dedicada cautela repousava, diante da população indigente ou mais modesta, do Porto, que dele fazia conhecido e incansável esmoler. Sempre se detectavam, em rebanho, às portas da Casa e da Quinta, enxovalhados grupelhos de pustulentos, mães prolíficas e desgrenhadas, ululantes inocentitos, os quais impeliam a pesada barriga, sobre os membros inferiores, deformados e fragilíssimos. E corriam notícias, amiúde, das campanhas filantrópicas de José Pinto, assessorado por dois ou três galegos, escalando a uma açoteia da Viela do Anjo, onde uma velhota apodrecia, numa tarimba de excrementos, vociferando contra o marido, que desandara, praguejando contra a filha, que dera em meretriz, ou descendo a uma dessas catacumbas dos Guindais, onde um rapaz, na escuridão, ruivo e tossicante, atestava vasilhas de hemorragias e de pus. Recebiam-no os necessitados, sem falhar, com louvores exuberantes, apodando-o de «bom senhor» e de «apóstolo» quando não de «escolhido de Deus», propondo-se presenteá-lo, logo ali, com o que tinham de melhor, uma qualquer malga de sopas de leite, a esboroarem-se na nata, ou um resíduo de turvado bagaço, ao fundo de uma botelha embaciada. Ia José Pinto agradecendo e declinando, sem os desfeitear, recomendando sossego e juízo, temor do Todo-Poderoso e aceitação de Seus ditames. E, à saída, alquebrado e melancólico, nem por isso derrotado, todavia, acabava por subtrair, daquilo a que assistira, uma certa e breve sinopse paradigmática, que a seus acompanhantes transmitia. «Haveremos de os ter connosco, até o fim dos tempos, porque foi Jesus quem o afirmou», advertia ele, «sendo preferível, em consequência, acarinhá-los e conduzi-los, como irmãos nossos, que são, pois que, assim mesmo, de nossas próprias faltas nos redimiremos». Voltava às Virtudes, com as alvas meias esparrinhadas de lama, daquelas quelhas e daquelas pocilgas, que calcorreara, achegando às narinas um lenço, onde alguém vertera umas gotas de vinho da Madeira, e encontrava Francisca Clara ocupada em traçar, a papel e à pena, os limites de uma bouça a vender. Reportava ele o que fizera, em moldes esquemáticos, requerendo uma bacia de água quente, onde mergulhava os pés doloridos. E prontamente lhe obedeciam, com panelões de vapor e panos de linho, mais um sabão amarelo, que nunca utilizava. Pelo São José, seu onomástico, costumava o capitão -mor escancarar o portão de passagem ao fontanário público, admitindo uma turba de indigentes, à seroada organizada, nos jardins, adequadamente ornamentados, com luminárias e galhardetes, e onde decorriam descantes de cavaquinho e de flautim. Era uma soberba ocasião de armistício de classes, com as carnes a rodar e rodar, no espeto, os serviçais a distribuir, por todo aquele faminto poviléu, quilos e quilos de pão de trigo em canastras revestidas de atoalhados de estopa. E, pelo meio do chinfrim onde a sofreguidão se mesclava ao enervamento da festa, cirandava o proprietário da hospitaleira morada, patrocinador do lauto bodo, a compenetrar-se de que estaria tudo bem, a informar-se do estado deste e daqueloutro, a introduzir um ralhete, de quando em quando, que corrigisse uns quantos que, pela posse de um pernil, se haviam envolvido em bordoada. Em mil setecentos e sessenta e nove, aguando do sexagésimo aniversário de José Pinto de Meirelles, fora mais opíparo e mais falado, ainda, o bródio proverbial. Como nunca, então, dormiria aquele benemérito, em absoluto assegurado, na sua consciência, de que santos e beatos, arcanjos e querubins, tronos e potestades e dominações, com o subentendido beneplácito da Trindade Santíssima, lhe haviam concedido, finalmente, a tão ambicionada, dificílima cartinha de alforria, para os parques do deleite celestial.

Uma torturante teologia, porém, dominava o pensamento e a acção do magnate, nos termos da qual, entre outros pontos, a cada falta cometida, a infalível penalidade se seguia, numa engrenagem, oleada e celeríssima, que funcionava sem contemplações. A própria e triste toleima de seu primogénito a atribuía José Pinto em alturas em que mais o roía a implacável culpa, a forte e imunda tentação, que experimentara, e que se narra, aqui, em pouquíssimas palavras. Sucedera que, descendo ele, em certa maré, as Escadas da Esnoga, ia Francisca Clara no sétimo e pujante mês de seu estado interessante, avistara uma fornida mulata, como jamais vira igual, a escalar os degrauzinhos, num requebro sabido, que lhe punha a remexer as saias, nos jarretes. Olhou-o ela, fixa e persistentemente, ao cruzarem-se, e logo um baque anulou, num ápice, o colorido das faces do capitão. Nos dias seguintes, quer nos negócios, quer na Casa, não se lhe despegava, da retina e dos sentidos, a imagem da tentadora, e só com formas arredondadas sonhava e sonhava, de ombros e de ancas e de coxas, que desocultavam, por fim, entenebrados tufos, de um pêlo crespo e abundante. Desde então, alertado por uma dessas premonições, de que se admitia tivessem os Meirelles como que o dom especial, sentiu que alguma coisa, desta latejante lubricidade, inspiração de Lúcifer, sem dúvida, ou de qualquer alma que penasse, se reflectiria na acarinhada gestação. E viveu as semanas sobejantes da gravidez, infeliz progenitor, na expectativa de que se confirmassem seus sinistros receios, multiplicando as promessas, à Senhora da Assunção e à Virgem do Ó, a Santa Ana e aos Santos Mártires de Marrocos. De nada lhe viria a aproveitar, ao fim de contas, tanto afã, pois que, logo à nascença, por um esgar da boquinha e uma desfigurante convulsão, se apercebia a gente de que seria desatinado o menino. Desdobrava-se José Pinto de Meirelles, a partir dai, em rigorosa penitência, à qual se associava a esposa e a criadagem, abolindo as bebidas alcoólicas e as carnes sanguinolentas, a doçaria e o chocolate. E, ao bater das ave-marias, colocava-se de joelhos a turma das Virtudes, com um relógio que não cessava de mover o pêndulo, no intervalo das rezas sussurradas. Ao altar deste ou daquele canonizado, neste templo ou num outro, ia oferecer, por vezes, um par de tocheiros de bronze ou quatro jarras da Índia, a despesa da pintura do retábulo ou um frontal bordado lindamente, de cuja confecção encarregava uma mulherzinha, já célebre, dos lados da Lixa. E medrava António, entretanto, com acessos de raiva tempestuosa, a preceder períodos, em que se quedava, sentadinho numa almofada, falando com um tordo empalhado, que era seu brinquedo de maior estimação. Mas não acusava a doideira mostras de se debelar, muito menos, e desafortunadamente, de desaparecer. Por isso, fora-se José Pinto, progressiva e docilmente, reconciliando com a adversidade, com a justiça, até mesmo, do castigo imposto, por tão lamentável episódio, na pior das oportunidades em que poderia ter ocorrido. Retomou com o Eterno, pois, uma intimidade, já não eivada de medo e de transacção, na qual a ideia de se render ao imperscrutável, enfim, quase ia cedendo o passo ao júbilo de haver sido escolhido para tamanha provação. E, de novo, nesses minutos que

lhe antecediam o sono, presenciava uma paisagem, que era a do Paraíso, com acácias de rubríssimas flores, buganvílias de corolas muito azuis, lagoas de flamingos, recessos de erva mansa e perfumada, onde os anjos, de artelhos nus, andavam deambulando. De tempos a tempos, por entre as folhas, ou surgindo, talvez, por detrás de uma gruta, onde um cachão se precipitava, poder-se-ia distinguir a santidade maior, com certo custo, porquanto sempre se resguardava esta, da impertinente curiosidade dos recém-chegados. E flanava São Lourenço, de branco e de negro, com sua grelha, Santa Catarina de Alexandria, de belíssimo damasco, levando aquela roda desconforme, Santa Bárbara, não menos formosa, em panejamentos de azul e de verde, suportando a torre, em que consistia seu emblema, São Roque, de perna ao léu e de chapéu de romeiro, com o travesso cãozito, que nunca o largava. E declaravam-se reconciliados, individualmente e em conjunto, com José Pinto de Meirelles, imperioso se tornando, a partir de agora, que jamais voltasse a ofender a Jesus, o qual, por ele, em Seu sagrado coração, muito e muito e muito sofrera.

Com todo o fervor, autêntico e perseverante, coisa que poucos demonstravam, incorporou-se José Pinto na luzida procissão de São Sebastião, através da qual pretenderam mandar celebrar os portuenses a auspiciosa notícia, que tinham recebido, de se achar livre do perigo el-rei Dom José I, na sequência dos tiros regicidas, que lhe haviam disparado, em três de Setembro de mil setecentos e cinquenta e oito. Fora excelente ensejo, aquela cerimónia, para se assistir ao fausto de uma Igreja, congratulando-se com o triunfo da fé na divindade de Jesus Cristo, nosso Salvador. Com unção extremada, ordenando que, de par em par, se franqueassem todas as aberturas da Casa, imobilizou-se José Pinto, como que num transe, a escutar o repique dos carrilhões da Catedral, a qual possuía a honra de contar o Mártir São Sebastião, entre seus mais preclaros vizinhos. Dos peitoris e das sacadas, desdobravam-se colchas de bom estofo, e atapetavam-se as ruas, ladeadas por fiéis inúmeros, com palmeira e espadana, e iniciaram um festivo tiroteio os barcos surtos no rio Douro. Não cabia em si, de puro contentamento, o nobre das Virtudes, ora instigando os seus, com exclamativas, a que apreciassem o estrondo e a magnificência das funções, ora a seu íntimo se remetendo, como que a unir-se ao Todo-Poderoso, nos louvores que lhe eram tributados. Cantaram-se as vésperas solenes, e houve uma exibição de pirotecnia e, ao som de uma banda, lá foi desfilando o cortejo infinito, com uma personagem, montada a cavato, a simbolizar a Fama, que empunhava, na mão esquerda, um clarim e, na direita, um estandarte, onde se lia, «Volo in Te, et in semine Tuo imperium mihi stabilire», e outra figura, montada a cavalo, também, a representar o reino de Portugal, que transportava, na mão direita, uma espada nua, com uma coroa, na ponta e, na esquerda, um escudo, onde ia escrito, «Exultarunt in Rege suo», e outro participante, montado numa égua, a significar a Cidade do Porto, que ostentava, na mão direita, uma escultura de Nossa Senhora, entre dois torreões e, na esquerda, a inscrição «Civitas Regis Magni». Sucediam-se-lhes as imagens de São Marcos, de São Marcelino e de Santa Irene, e confrarias e irmandades, e o andor de São Sebastião, e o pálio e o Batalhão de Infantaria de Chaves. E, à passagem do Santo, clamava a populaça, em lágrimas, com a energia daquele amor muitíssimo, que consagrava a seu monarca, «Viva el-rei Dom José I, que Deus nos guarde», «Seja glorificado o Senhor São Sebastião, em quem confiamos a sua saúde». E era José Pinto de Meirelles, cavaleiro da Ordem de Cristo e fidalgo das Virtudes, uma das criaturas mais felizes, naquela concorrência de nortenhos. Uma activa euforia de pertença, que não lograria dilucidar, por muito que o intentasse, tornava-lhe aceitável e digna a condição de quinquagenário, como se diante de suas passadas, um risonho porvir se estendesse, de cidadão probo e próspero, sobre o qual nem o mínimo risco de uma cilada impendia. E, com a generosa urbe, que o adoptara, acobertando-o em suas muralhas, mais a sua honrada progénie e a suas arcas ferradas, modelava José Pinto uma totalidade, a qual nenhum capricho dos fados, agora, que dispunha da Providência a seu favor, seria capaz de abalar. Não resistira o Rei, pela bondade do Altíssimo, ao escandaloso gesto, insensato e torpe, de seus inimigos? Não o proclamava o sábio e poderoso Marquês, até, apesar de o conceituarem de livre-pensador e de mação? Erguia-se Portugal, quem poderia negá-lo, como país virtuoso e eleito, onde era a existência um remanso de cantigas e de sol, premiando aqueles que cumpriam o ditame bíblico de, com o suor de seu rosto, granjear o pão diuturno. Que ribombassem os morteiros, pois, e entoassem os portuenses loas e preces, dirigidas a seus protectores, a fim de que roçasse os céus o eco dos devotos. Benzeu-se José Pinto, então, mui detidamente, com um soluço, a estrangular-lhe a garganta de cristão e de patriota. E, num impulso indetível, que nunca, nunca, o assaltara, antes, buscou o surpreendido pulso de sua mulher, pondo-se a resmonear, só para si, «Francisca Clara de Azevedo Pinto Aranha e Fonseca, esposa minha e mãe daqueles que Deus Pai me concedeu, senhora da Casa que construí».

Mas era na capela doméstica, tão amorosamente aparelhada, provida do que se manifestava muito mais do que requisito do exercício do culto, que a religiosidade do capitão das Virtudes se alojava, cobrando seu vasto e quase insondável significado. À tardinha, aí, com os batentes abertos, sobre a via pública, não fosse algum transeunte sentir-se tocado, ou convertido, mesmo, pela profunda piedade, com que uma inteira família ajoelhava, em adoração ao Criador, recitava-se o rosário, por entre muita fartura de flores fresquíssimas, guardadas por esses dois anjos candelários que, na base do altar, levantavam suas lâmpadas, cada um, de doze chamas bruxuleantes. Atrás dos membros da tribo, reunidos segundo uma hierarquização de lugares, em que intervinham o sexo e a idade, por índices, ficavam os trabalhadores da Casa, machos e fêmeas, assim escalonados, derramando-se para além da própria entrada, não raramente, quando nenhuma inadiável tarefa os solicitava. E a arrastada sucessão dos mistérios, consignado cada qual, em regra, a um sufrágio determinado, da salubridade do físico e da redenção da alma, dos desideratos do Ì Rei e da Pátria, da livração dos horrores consabidos da guerra, lá teimava em efectuar-se, numa inquebrantável rotina. Abençoavam o conjunto Jesus, Maria e José, numa fuga precipitada, vestidos todos de peregrinos, a caminho de Compostela, entronizados em seu nicho. E não se esquecera o bem-aventurado carpinteiro de Nazaré, como seria de antecipar, das alfaias de seu ofício, a serra e o martelo e a régua, nem de levar esse dandismo inocente, que o distinguia, ao extremo de calçar o Filhito santíssimo, que mal caminhava, ainda, com umas botinhas de viandante, exacta e miniatural réplica das suas. Revelavam os três a carita sorridente, apesar da ameaça de Herodes, a pairar sobre eles, e nem a muita roupagem, vermelha e púrpura, constelada de estrelas, embaraçava a despachada marcha da Virgem, Nossa Senhora. «Como antes da refeição temporal, terás de tomar a refeição espiritual, por meio da meditação», recapitulava José Pinto, citando a Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales, seu livro de cabeceira, «assim, antes da ceia, deverás realizar outra ceia ou, ao menos, uma colação devota e espiritual». E insistia, «Procura, pois, um pequeno espaço, antes da hora de cear e, prostrado diante de Deus, recolhendo teu espírito em Cristo crucificado, a que tornarás presente, com um acto de viva fé, volta a acender, em teu coração, o fogo da meditação da manhã, por uma doçura de vivas aspirações, humilhações e jaculatórias amorosas, que dirigirás a este Divino Salvador de tua alma, ou bem repetindo todos aqueles pontos, em que, na meditação matina!, mais gosto tiveres achado, ou exercitando-te, como te parecer melhor, por outros motivos». Mas diga-se que, de certa feita, por alturas do São João, quadra na qual, pelo ascendente do solstício, sói andar desembestada a veneta dos adolescentes, um percalço se produziu, para consternação e desgosto do senhor da Quinta, durante as orações vespertinas, regularmente celebradas, com o maior recolhimento, no templozinho privativo. Fora o caso que Joaquim e José Pedro, rebentos entre os quinze e os dezoito anos, por esse tempo, alumbrados pelo diabo folião que, em quejandos períodos públicos, acontece andar à solta, tiveram a inauspiciosa, por blasfema, ideia de se arranjarem, durante o curso de uma das funções pias, para unirem, por meio de uns alfinetes, as saias das mulheres, em sua prática devocional. E imaginar-se-á o desastroso e escandalizante efeito de tal picardia, ao tentarem elas libertar-se, para retomarem a normalidade da vida, através de uma confusão de lamentosos gemidos e de trapos esgaçados, de risos convulsos e de mofas descomedidas. Que outro patriarca, depois disto, ao fim de contas, censuraria a rispidez do pai daque1es infractores, condenando-os a uma quinzena de clausura, a pão e a água, com um escudeiro de confiança, por sentinela, só interrompida para a reza quotidiana, de oitenta salve-rainhas, em termos bem audíveis e em coro de ambos, perante a face marejadada da Excelsa Mãe Pulcríssima, que haviam ofendido.

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Quem quer que avistasse José Pinto, em sua fona, proferindo comandos e solvendo questiúnculas, por entre os enxambradores e os calafates, os medianeiros e os carrejões, no Cais de Gaia, não vacilaria em considerá-lo súbdito de muito préstimo, estável bastantemente, pelo que se referisse à assunção de grandes responsabilidades. Fazendo bambolear as abas da casaca de seda, desenvencilhava-se ele, com um à-vontade total, que originava a inveja dos mais moços, pelo meio daquela barafunda de ripas e de tonéis, de cascos e de caixotes, com a firme resolução de cumprir os programas que delineara. Iam topar com José Pinto, indiferente a lazeres, numa ou noutra margem do rio, que cruzava, numa barca puxada por um escravo, como se a paisagem circundante fosse, de facto, inalienável propriedade sua. «Se me não viu nascer o Porto, que contam que foi fundado pelos Helenos, não desejo que desmereça ele, com os diabos, do melhor da minha pessoa e dos favores que lhe posso prestar», usava dizer. E, de seguida, declamando um discurso que, a si mesmo, havia ensinado, perfilava-se e bradava, «Invicta e ilustríssima, como esta, vão por mim, não se apontará, com certeza, outra cidade, em todo o orbe, laboriosa e digna de panegíricos, pacífica e temente à Providência». Ninguém criticou, por isso, a deliberação da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmelo, de o designar seu prior, para o biénio de mil setecentos e sessenta e um e mil setecentos e sessenta e dois, cargo que viria José Pinto de Meirelles a exercer, como seria óbvio, com a proficiência aguardada. Tratava-se de fase de considerável esperança, no progresso da instituição, com as obras do levantamento da igreja, as quais não apenas exteriorizariam o poderio da comunidade, como surgiriam alinhadas, para além disso, com essa contemporânea febre de edificação urbana, que parecia andar pululando. Aprontou-se José Pinto, assim, para dedicar a seu múnus, acolhido com a reticência bastantemente conspícua, que pressupõe a louvável circunspecção, um cuidado de garantidos efeitos, preparando-se para se enobrecer e se vitalizar, no posto para que fora indigitado, enobrecendo e vitalizando, ao mesmo tempo, a causa da caritativa denominação. Começou por traçar, portanto, com conhecimento, tão-só, de alguns irmãos de insuspeitada descrição, um arrazoado das directrizes de sua política, requerendo que lhe tornassem presente, a períodos certos, um documento da situação financeira da Ordem. Instaurou a pontualidade e a assiduidade, nas assembleias, como regra infringível, animando as reuniões, em que suspeitava estar decrescendo o interesse geral, com a descrição de um cenário de empreendimentos, o que sempre resultava numa duplicação do alento. Dispensou a cadeirinha, enfim, apanágio de seu estatuto, o que lhe acarretaria, por um lado, a desconfiança dos fanáticos dos riscos do voltairianismo e, por outro, a desvanecida adesão dos magoados com os excessos dos peraltas. A extensos passos, trepava o quebra-costas que, de sua Casa, ia ter à Cordoaria, galgava esse irregular espaço, arborizado e desconexo, metia pelas modernas artérias, até a Ordem da Trindade, onde entrava, sem perceptível alteração do respirar, ordenando se suprimisse, logo de princípio, o ridículo cerimonial, de vénias e de abraços, com que era consuetudinário acolher o prior. Lá o encontravam, depois, na sua cadeira de espaldar, em cujo couro se gravara um emblema empastado, com o Monte do Carmelo e uma coroa, e eis que, aí, assentando a dextra, na qual apertava os quevedos de tartatuga, sobre um volume de cobertura de pele, se dispunha ele, afinal, a atender quem, com um trimestre de espera, lhe houvesse rogado audiência.

E, em sua reverenda qualidade, que lhe impunha a supervisão dos trabalhos do frontispício do templo, entrevistaria José Pinto de Meirelles, em mais de que uma altura, o arquitecto Nicolau Nasoni. Foram encontros memoráveis, esses, ao longo dos quais, diante dos desenhos imaginosos, a uma tinta-da-china aguada, dialogara com o italiano homem metido consigo, ao invés do comum, nos de sua nacionalidade, sobre detalhes do varandim e do janelão. «Que pássaro esquisito, aquele ser», comentaria o capitão-mor, vezes sem conta, para o caracterizar, «com a fatiota de fustão esverdeado, os meiotes de algodão-do-egipto, os sapatos de tacão altíssimo, nos quais punha, conforme se bichanava, a sua máxima vaidade!». E recordava, «Para a nossa primeira conversação, recordo-me de ter extraído, de uma papeleira, onde sempre a tinha, uma garrafa de vinho fino, daquele que, por então, orçava os vinte mil réis, à pipa, e dois cálices bonitos». Com vaga melancolia, continuava José Pinto, «Aceitou o italiano o meu oferecimento, aproximando o néctar da formidável nariganga, e ergueu-o, contra a luz, depois, a avaliar-lhe a lágrima, até que o despejou, de um trago, como um vindimador, para meu muito embaraço». E particularizava «Acometeu-o um acesso, por isso, daquela tosse catarrosa, a qual consistia num tributo à atmosfera tripeira, imposta a sua natureza de meridional». «Mas discutimos os pormenores quando se desengasgou», concluía o capitão, «do tal varandim e do tal janelão, como se nada, entretanto, houvesse acontecido». Comprazia-se o fidalgo das Virtudes, ao que se vê, no contacto com as personalidades, fossem elas governantes ou militares, artistas ou ricaços, o que era um dos proventos melhores, além do prestígio notório, a decorrer das funções a que acedera, com indomável vontade de brilhar. E sabia ele escutar um queixume ou um desabafo, resguardando-se num silêncio prudente, enquanto compunha o jogo fisionómico, com perícia de actor, em moldes de se posicionar ora solidário com a outra parte, ora impenetrável a seus pensamentos, alternativas pelas quais optava, ao cabo de intrincadas lucubrações. Não ignorava, de resto, a relevância da histrionia e da surpresa, rompendo devagar o lacre de uma carta, em frente de um infeliz, lívido ou roxo, que dela tudo esperava, cancelando uma palestra importantíssima, só porque optara por acompanhar o viático, com demonstrativo recolhimento, até junto ao leito de morte de uma mãe esquelética. E, sempre que tal se lhe proporcionava, e porque compreendia, também, constituir isso única hipótese de se envolver numa ficção de poder e de mando, não perdia pretexto de insinuar que professava a convicção de ter sido seleccionado, pelo Senhor, a fim de que desse andamento, bem ou mal, àquilo que, como prior, lhe competia. Em casos de solenidade, não era, jamais, sem um laivo de desculpável proa, que presidia José Pinto, com a majestosa capa alvíssima, pelos ombros, o medalhão da Ordem, suspenso de uma fita preta, ao pescoço, desfiando as contas, ou esboçando o gesto de o fazer. E percebiam os que o discerniam, no topo da mesa completa, entre o padre comissário e o superior, o secretário e os oito definidores, o tesoureiro do dinheiro e o procurador-geral, que encarnava José Pinto de Meirelles os predicados que dele se reclamavam, na letra e no espirito dos Estatutos, sujeito «benigno, para tratar, com cortesia, os mais irmãos, e zeloso, para assistir aos actos da Ordem e prover ao seu andamento, e caritativo, para acudir aos pobres e aos enfermos, e abundante de bens, para que pudesse fazer à Ordem suas esmolas, como se usava».

Ao despedir-se desses dois anos, de indisputável gloríola profissional, julgava-se José Pinto na situação dos que, pelo sucesso dos frutos e a estabilidade da carreira, sentem assegurada a magnanimidade do próprio enteno. Começavam a aflorar, com efeito, os iniciais achaques de uma certa moléstia, inegavelmente fatal, sinalizada por inopinadas fraquezas vocais, ao entrar no gabinete de um burocrata, difusos e escamosos eczemas, que lhe apanhavam pulsos e tornozelos. Havia ele, durante o priorado da Ordem Terceira, grandemente alargado o círculo dos conhecimentos influentes, o que, com a fama duradoura, proveniente da competência de sua administração, lhe possibilitava um regresso afortunado à esfera comercial. Do tirocínio realizado, naquela missão do Carmo, derivara a postura presidencial, uma como que certeza de maneiras, que só a boa companhia permite se vá adquirindo e aperfeiçoando. Não era, por isso, o capitão José Pinto de Meirelles, agora, tão-somente, o fidalgo das Virtudes, qualidade que não emprestava lustro por aí além, mas o ex-prior da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, o qual marcara seu mandato, para as eras subsequentes, com o império do voluntarismo e a florescência do talento. Preso à ordem diária das velhas devoções, viam-no em casa, a partir da resignação, mais dilatadamente, a congeminar, face a sua varanda preferida, aberta para a mansuetude fluvial. Dir-se-ia que rememorava uma realeza, de que fora destituído, mas que possuía, a seu crédito, a clara anuência das instâncias divinas. Chegava a sorrir, mesmo, de dedos entrecruzados, sobre o ventre, numa pose abacial, que facilitava, ela própria, a serenidade afectiva e a segurança actuante. E evocava uma réplica, um episódio faceiro ou uma arrogância principesca, ao mirar, de longe, Francisca Clara, que se ia deslocando, com um açafate de cerejas. Ao sol de Abril, com o luzir das cãs da que lhe fora, sempre, fidelíssima e amorável, deduzia José Pinto que seu provado mérito contagiara a mulher, como que banhada, ali, em idêntica refulgência celeste. Cidadãos do burgo do Porto e nobres do Reino de Portugal, haviam ambos conseguido uma pérola invulgar, que nem a saúde confere, nem a riqueza ou o génio, de se descobrirem verídicos, em seu respectivo local. Da sorte dos filhos não curava ele, nesse remanso, em que era todo de gratidão o sentimento que o inundava, de prazer de coabitar com a própria alma, de afinidade com as paredes-mestras de sua Casa. Estendia o braço, para a secretária próxima onde, entre o papel e o tinteiro, o receptáculo da areia e o copo do purgante, se acumulavam alguns livros, de espiritualidade, quase todos. Tomava o mais pequeno, dentre eles, intitulado Caminho de Luz, descerrando-o onde o assinalara, com uma tarja de nastro vermelho. E, acavalando os quevedos recentes, de aros de ponta de boi, sobre a cana do nariz, ia lendo, em surdina, mui pacientemente, «Meu Deus, meu Pai, meu Criador, eu Vos adoro, de todo o meu coração, e dou-Vos infinitas graças, por me haverdes criado, feito cristão e conservado, neste dia, pois creio em Vós, porque sois a mesma verdade, e espero em Vós, porque sois infinitamente bom, e amo-Vos muito, porque sois soberanamente amável, e amo ao meu próximo e, ainda, aos meus inimigos, por amor de Vós, ó Divino Espírito Santo, luz eterna e brilhantíssima, apartai de mim toda a sombra, que esconde a fealdade e a malícia dos meus pecados, e dai-me graça, para que os conheça, e fazei-me conceber, contra eles, um horror tão grande que os aborreça, como Vós os aborreceis, e concedei-me o que Vos peço, pela Vossa infinita misericórdia». Mas, como ia ele caturrando, de sono, sobre o peito, nem sequer ouvia a breve exclamação de Francisca Clara, lá ao fundo, «Que bonitas as cerejas, este ano, e que cedo que vieram!»

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Nem os sintomas da doença, no entanto, que sobre ele se encarniçava, e que haveria de o devastar, lograriam arredar José Pinto de Meirelles de seus deveres de marchante. Com suma perícia, lá diligenciava o capitão por ir intercalando as cíclicas crises, que o debilitavam, com fases superlativas de desbordante actividade, patenteando a todos, quer no leito, a que o obrigavam a recolher, sem detença, os médicos que o assistiam, quer nos lugares de seu ofício, onde continuavam a vê-lo, redigindo o inventário de um fretamento ou vibrando a bengala de castão de oiro, a mesma suave e cativante cordura. Por quatro marés, logo no início do surto do mal, o tinham sangrado os especialistas, inclinando-se para o diagnóstico de se tratar de uma subida, inesperada e violenta, de flatos. Rira muito, da suposição, o paciente, ou fingira achar graça, no que se afigurava uma comédia amarga, dessas em que aparece a Ciência, de enorme e bicudo chapelete amarelo, tentando contradizer o que, visivelmente e por toda a eternidade, se mostra contado, pesado e medido, já, como no banquete de Belchazar. Não era José Pinto um homem único, porém, mas eis que, jamais, se reconciliara com o arreganho dos doutos, os quais nem erguem a cabeça, numa noite estrelada, a contemplar, em silêncio e respeito, a insondável e assustadora máquina da Criação. Se a eles se submetia, seria por não desejar que o acusasse a consciência de uma soberba maior, a de crer demasiado na humildade natural de sua fé ou na rebuscada santidade de suas especulações. Transpirava e vagia, naquele desconfortável cadeirão, donde ia descortinando o rio, pressentindo que estabelecera, afinal, com a enfermidade que, a espaços, o ia consumindo, um pacto de nobre capitulação. Aqueles que o visitavam, e que propunham, por vezes, sugestões de terapêutica e de cura, as quais incluíam emplastros de tabaco e clisteres de borragem, mercúrio ou grão-debico ou laranjas-da-baía, agradecia José Pinto o conselho e, dias depois, ao cruzar-se com eles, aparentemente restabelecido e em absoluto entregue à sua lufa-lufa, gabava-lhes muito a miraculosa mezinha, que garantia haver acabado por aplicar. Mas troçava, de todos e de si mesmo, no íntimo, porque entendia demonstrar-se, na extrema precariedade das coisas deste planeta, algo como um grandioso vector de humor excelente, que o Altíssimo encerraria, e que era fenómeno que se afigurava, para quem estivesse habilitado a apreciá-lo, motivo de particular e irresistível diversão. De forma estranha, boiavam-lhe restos de uma lenda, na lembrança, que ouvira, muito em menino, da boca da ama de um seu irmão, assim, «Era uma vez um rei que tinha três filhos, pelos quais sentia profunda afeição e com quem gostaria de dividir os seus domínios e, estando muito doente o monarca, e tendo-lhe receitado o físico que tomasse uma canja de certa cobra, que só nos montados se dá, pediu aos três rapazes que partissem, à caça do animal, e abalou o primogénito mas, havendo conhecido uma princesa, na viagem, nunca mais se lembrou de sua missão, e o do meio, que encontrara uma trupe de ciganos, juntou-se a eles, e foi, por esse mundo de Cristo fora, exibindo mágicas e cabriolas, e só o benjamim caçou a cobra, e a esfolou, e a cortou, às postas, que levou, numa folha de couve, para o palácio, para que confeccionassem os cozinheiros a dita canja, a qual salvaria o rei, seu pai». A toda a hora, pois, ainda quando lhe trazia um rapaz amanuense, ao cair da tarde, as longas páginas do deve-e-haver, a fim de que as conferisse, saltavam as frases daquele velho contarelo, na memória de José Pinto, das entrelinhas do rol das especiarias, das quantidades e dos preços. Por seis ocasiões, ao longo do lapso de seus padecimentos, alteraria ele os termos do testamento, requerendo um tabelião diverso, de cada feita, como se disso dependesse a melhor configuração dos ditames que concebia. E não havia intervalo, antes de adormecer, em que não mastigasse, no meio de ladainhas e de jaculatórias, macabras e gratuitas fórmulas jurídicas convencionais, «valente e de pé, com todo o seu perfeito juízo, que Deus Nosso Senhor lhe deu», «reconhecendo ser mortal e ignorando a hora de sua morte», «respondendo a todas as perguntas, em direito permitidas". E seguiam-se-lhe, no ânimo, disposições de ordem espiritual, e outras variadas, quanto às jóias, e às pratas, e às roupas, e às terras, e aos empréstimos, com e sem juros, e ao dinheiro que possuía.

A sete de Agosto de mil setecentos e sessenta e nove, numa dessas manhãs de ingente calor, em que, logo que o sol desponta, estalam as pedras de todas as calçadas, deixou a cama José Pinto de Meirelles, apesar de muito febril, para assumir seu posto, numa invulgar cerimónia. Transferia-se o Santíssimo, da Capela das Taipas, onde estivera exposto, para a Igreja de São Bento da Vitória, finalmente terminada, e haveria tríduo e outros actos piedosos, além de variegadas atracções. Figurava José Pinto, imediatamente depois da cruz paroquial da Vitória, suportada por Bento Correia de Melo, e de três personagens alegóricas, representativas da Vitória, da Confissão e do Sacramento, integrado na comissão promotora das festas, composta pelos quatro mordomos da Companhia do Santíssimo, quer dizer, atém dele, António José da Fonseca, Isidoro Carvalho dos Santos e Francisco Gonçalves da Fonseca. Ao muito som da música estrondosa, dos clarins e dos boazes e dos timbales e das trompas, com que se marcava a opulentíssima cadência da progressão, era como se se agravassem aqueles males, tão difusos, praticamente indetectáveis, de que vinha sofrendo o capitão. Julgavam-no os que bem o conheciam, um que outro burguês, com sua fanu1ia, entre o poviléu, boquiaberto ou bisbilhoteiro, emaciado do rosto e, de facto, com muito pobre parecer. Dir-se-ia ir tremendo, desconjuntado dos ossos e dos objectivos, ao abrigo da alva capa imaculada de Cavaleiro de Cristo, rolando as contas, entre as polpas digitais, numa prece que era, notava-se bem, final comprazimento na quietude beatífica. Ninguém depreenderia dele, todavia, esse rictus de nojo ou de pavor, que assombra, tanta vez, como um castigo incompreensível, a face dos que, em breve, vão comparecer perante Deus. Trôpego e oscilante, não se queria abandonado à madorna que o tentava, em termos tais que se não endireitasse, muito mesmo, de quando em quando, a timbrar uma presença, que adivinhava competir à vertebração da própria cidade onde havia engendrado, e feito crescer, suas operações mercantis e sua descendência. «Sabe o fidalgo o que declarou o Senhor Diderot, in articulo mortis?», perguntar-lhe-ia, a destempo, talvez, um cauto clérigo ilustrado que, provocatória e inesperadamente, tinha por hábito visitar José Pinto, com o fito de, como sumariava, «praticarem os dois de ideias e opiniões». «Declarou ele, sem tirar nem pôr», concluiria o canónico, «não creio em Deus Pai, nem em Deus Filho, nem em Deus Espírito Santo, e admire-se disto o fidalgo, vá lá». Nem comentou o enfermo, em continente, o que acabava de lhe expor o clérigo sobredito. Ajeitando-se ele, nos almofadões que o amparavam, depois de reflectir, só pôde ripostar, «Que cobre siso essa multidão de infames, e se recorde daquela linda parábola, da galinha e dos pintainhos, que vem nos fólios de um douto religioso português de que me não lembro!». «Não será ele, diga lá, o nosso Frei Luís de Sousa?», inquiriu o eclesiástico. «Não estou bem certo, meu padre, mas é possível que o seja», replicou José Pinto, para dissertar, «Representa a galinha a nossa Santa Madre Igreja, que amorosamente nos acolhe, debaixo da quentura de suas asas, e os pintos, está visto, somos todos nós, tão fracos e implumes que nem aprendemos a alimentar-nos, como deveríamos, do manjar salvador que Jesus Cristo instituiu, por atenção aos homens, na Ceia última, do corpo e do sangue que nos resgatou». E, com alguma cólera, intimou José Pinto, «Eles que cobrem juízo, portanto, que se arrependam, que se penitenciem!». Foi esta, porventura, a derradeira injunção, sobre toda uma vida, surpreendida nos lábios do senhor das Virtudes. A oito do referido mês de Agosto de mil setecentos e sessenta e nove, na jornada posterior à passagem da tal procissão, ainda reuniria ele energias, buscadas não se percebe como, nem onde, a fim de assistir ao tríduo. No dia seguinte, voltando para sua Casa, porém, sem que se determinasse de que paragens, à canícula do meio-dia, tombou o velho, desamparado e de borco, na soleira, sendo prontamente socorrido, pela matulagem desocupada, que por aí se espalhava, em palração. Vomitou uma aguadilha amarelenta, a qual lhe empapou os folhos da camisa e, fixando as pupilas nas pupilas do estribeiro, que bravamente o aguentava, murmurou ele, de forma quase inaudível, «Que bem, que bem que me sinto, meu filho!». Faleceria José Pinto de Meirelles, deste modo, às treze horas e vinte e cinco minutos do dia nove de Agosto de mil setecentos e sessenta e nove, uma terça-feira, festiva de Santo Osvaldo da Nortúmbria, mártir e soberano.

Na quinzena de silêncio, que sucedera à morte de José Pinto de Meirelles, com as quadras impregnadas, ainda, daquele fedor de tochas ardentes e de bouquets decaídos, que a tal vaga de calor tornava inveterado, descia Francisca Clara, muito amiudadamente, ao jardim. Contava os incertos degrauzinhos, que separavam os socalcos, pejados estes de jarros e de agapantos, com uma expressão enternecida e quase deliciada, pelo que se não iludiria quem aventasse que andaria ela, finalmente, tomando posse de si mesma. Ia nos trinta e sete anos aquela mulher, amadurecida na consciência e no culto de uma ideia de propriedade e, se não temia o porvir, fosse o que fosse o que ele lhe reservasse, no presente é que desejava ancorar sua firmeza de mãe viúva, dona de terras, no Porto e em Penha Longa, e do pequeno palácio, que começava sendo reputadíssimo. Vigiava as brincadeiras do demente António, que a garotada dos arredores afligia, disparando-lhe fisgadas, contra a barriga das pernas, ou aferroando-o, com o estribilho obstinado, «Ó toleirão, come menos doces e mais sopas de pão», e as escapadelas, também, de Joãozinho, o qual, apesar de muito infantil, se deixava encantar desse relento, morno e embalante, que exala, com frequência, a alcova das criaditas. Perfunctoriamente isentados, na Alfândega, do exame das epidemias de bordo, afugentados da fama, que tinham os bordéis da cidade, de serem viveiros do terribilíssimo mal gálico, vinham forasteiros de diversas nações admirar, pelo exterior, a célebre Quinta, referida como uma das obras-primas da arquitectura civil do umbroso burgo, a que tinham atracado. Realizavam o périplo dos muros, estimando o preço que lhes equivaleria, em seu país de origem, e que fora, na palavra dos guias, de vinte mil cruzados, no Reino de Portugal. E punham-se, então, a imaginar que as barcaças, além, trasfegueiros ou matrizes, que vislumbravam a fazer a travessia do Douro, não poderiam senão proceder a tráfico de riquezas e mais riquezas, que operavam a prosperidade dos habitantes da Casa. Alargava-se o prestígio desta, por isso, até no conceito de Francisca Clara, que resolvera não a fechar às galas da sociedade, espevitando as qualidades, ao cabo e ao resto, do que viesse a constituir característica emblemática ou carimbo de sua identidade. Despediu e contratou pessoal, refundindo o esquema que, até aí, vinha sendo perseguido, no que concerne à distribuição e ao desempenho das múltiplas funções, estabeleceu com parentes e conhecidos, alguns destes nem sequer de longa data, uma intrincada rede de correspondência quotidiana, que representava a constante ocupação de um punhado de recoveiros. As segundas e às sextas, franqueava-se a porta aos convidados daqui e dali, os quais efectuavam, naquele espaço de saletas de damascos e de jarrões, por entre o desalinho das crianças soltas, que passeavam lagartixas por uma trela ou se treinavam em incessantes cambalhotas, um como que acampamento de nómadas faladores. Transformava-se a Quinta, por consequência, e não faltava, dentre os próprios convivas, quem o verberasse, numa espécie de entreposto de convénios e de permutas, significados na aceitação de um presente de perdizes, de lenços bordados ao bastidor ou de colarzinhos de missanga. Tachavam os estranhos tais usanças de superfluidade e desrespeito, quando não acusavam Francisca Clara de prodigalidade quer pelas ceias abundantes, que organizava, onde sempre um militar aparecia pontificando, como que por mandato do defunto consorte, quer pela elegância desmesurada, que punha no seu vestir, rigorosamente de luto, mas de senhora que reconhece os preciosos ornatos, com que o Divino a abençoara. Sinal de que crescia sua estatura, porém, no parecer, inclusivamente, dos mais austeros e responsáveis, residia no facto, que os inimigos da Casa dificilmente digeriam, de a honrar E1-Rei, pelo seu aniversário, com uma missiva, do próprio punho, de amáveis e respeitosas felicitações.

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Sobre o conde de Oeiras que, nesse ano da morte de José Pinto de Meirelles, recebera o título de marquês de Pompal, entretinha Francisca Clara, à revelia do que fora a estudada reticência de seu marido, concepções muito próprias, porventura originais. Sem o mínimo rebuço, diante de quem quer que sugerisse uma inadequação ou uma violência, na política do Primeiro-Ministro, aplaudia ela a forma como lidara com a aristocracia, tacitamente se autoclassificando, assim, de vergôntea da fidalguia menor. Gabando-lhe a determinação e a oportunidade, com que fomentara ele as indústrias e estimulara a lavoura, surgia a viúva da Quinta das Virtudes, quase, naquelas reuniões hebdomadárias, como titular de um salão pensante, propugnando uma ideia de cultura inseparável da mais robusta e eficaz razão pragmática. Nunca haveria ela de ver o grande Marquês, excepto nas efígies que circulavam, o que lhe permitiria uma maior e mais persistente efabulação, acrescentando ao retrato, ou retirando dele, o que calhasse de melhor condizer com a catadura do momento. Destemida e arrogante, em sua qualidade de proprietária respeitada e de mátria que emitia opiniões, atingira o extremo de, em princípios de mil setecentos e setenta, pouco depois do atentado ao Rei, se manifestar indiferente ao acontecimento que, a todos, publica e espectacularmente, muito consternara. «E, se morresse o Senhor Dom José, não me dirão, achariam os senhores que enorme falta faria ele?» perguntara Francisca Clara, desdobrando o leque de lantejoulas, num fingimento de ocultação da face. «Não lhes parece que foi Deus servido oferecer-nos quem de nós cuidaria perfeitamente, ainda mesmo que se desse, o que não permitiu o Senhor, alguma tremenda desgraça?», terminaria por inquirir. E deixaria emudecidos, deste modo, os companheiros daquela partida, hesitantes entre conferir-lhe e não lhe conferir inteira justificação, interditos em face do que se lhes afigurava conversa jacobina, mas que temiam fosse notório testemunho de fidelidade a Sebastião José. «Por mim», adiantaria uma das presentes, Dona Teresa Angélica Tomásia Ritte, viúva do capitão-de-mar-e-guerra João Ritte, «entendo e entenderei que Rei de Portugal só haverá um, sempre filho do coroado, ele mesmo, como foi de todos os tempos da história». «Não contestarei princípio tão salutar, minha boa amiga» replicaria Francisca Clara, para explicar, de imediato, «Só que falava eu dos actos de governo, bem diferentes daquilo a que se chama reinar". Fungou-se bastante, por toda a câmara, até que alguém se adiantou, num intento de armistício, através daquela minúscula sociedade de sábias mulheres, a servir-se de mais trouxas-de-ovos. Quedar-se-ia Francisca Clara em suas convicções as quais enriqueceria com outras conquistas do intelecto, e quando, a quatro de Março de mil setecentos e setenta e sete, veio alume o decreto de exoneração do ditador, ninguém ouviu, de sua boca, o mais passageiro lamento ou a mais breve ironia. Remeteu-se a um culto intenso, a partir daí, o qual ultrapassaria, até, o da memória de seu falecido, num desvanecimento tenaz, por quem julgava acabado carácter de homem e de português. E acontecera-lhe, finalmente, certa noite, sonhar que se evadira seu ídolo, do solar da Beira Litoral, onde se exilara, e que subira ao Porto, e que entrara na Casa, perguntando aos criados onde encontraria a fidalga, sua patroa. Depois, inclinando-se ele, com muito esforço, já que horrendamente lhe doíam as hemorróides, de que se afirmava padecer, tomou na sua a mão de Dona Francisca Clara de Azevedo Pinto Aranha e Fonseca, e nela depôs um beijo, de muita homenagem, enquanto a cabeleira frouxa, de tão antiga que era, lhe ia grotescamente descaindo, sobre a testa enrugada.

Ao escutar Francisca Clara, porém, alguém ler o auto descritivo do levantamento e juramento de Dona Maria I, não resistia a entressorrir, algum tanto, de compadecida diversão, em seu íntimo foro. Imaginava que aparência assumiria aquela matrona, que tinha na conta de insignificante e de pouco graciosa, nos fartos panejamentos de lhama de oiro, de canotilho e de palheta. De seu real marido, feíssimo mastodonte, de quem se propalavam pilhérias comprovativas da notória ausência de siso, não menos infeliz era o retrato que guardava, criatura que atingira o ridículo de eleger, para a mesma e sumptuosa cerimónia, uma túnica de terciopelo, às riscas da cor do fogo. Via-os a fidalga das Virtudes, destarte, mediante esse engenho de visualizar, aguçado pelos vapores que iam subindo do Douro, tropeçando ambos em suas vestimentas, por entre uma corte de validos coxos e piolhosos, quase tanto de ópera-bufa como as majestades a que obedeciam. Dera em ter, da política, agora, que seu muito admirado modelo agonizava, uma noção vexatória da raça e deprimente do dia-a-dia, coisa a que conferia o rótulo, em suas reflexões, de «tristeza de Portugal». A vacilante orientação que, depois disso, imprimiria a rainha, aos negócios de Estado, abstendo-se de, por exemplo, promover a reabilitação dos jesuítas, a quem continuava a prestar, em privado, inconfundíveis provas de vassalagem, era tudo quanto de mais repulsivo se poderia conceber, à mentalidade e ao carácter da viúva de José Pinto. Não andaria alheio ao cerne da verdade, todavia, quem nisto tudo detectasse a frustração da fêmea, assistida pela incalável e exaltante vocação do mando, a presenciar a unção, como Senhora de Portugal e dos Algarves, de Aquém e de Além-Mar em África, etc., etc., de personagem que reconhecia destituída, pela natureza, das bases para encargo de excelência tal. «A nossa Dona Maria», admitiria ela, numa soirée de verve muito picante, «deve ser, bem por certo, uma das santas mulheres». E pusera-se a reinar, assim, «Trata das chagas da Pátria, com a maior das doçuras, como a Verónica, que enxugou o rosto de Cristo Jesus», para se carpir, numa paródia, «Que pena que lhe não caiba a alegria, que foi concedida a Maria Madalena, de se certificar da gloria de nossa ressurreição!». Não houve quem a aplaudisse, nem quem lhe ripostasse, pois que começavam os chistes de Francisca Clara a irritar, sobretudo, o pundonor dos homens, incapazes de lhe responder, à letra, os quais, na intimidade, admoestavam as esposas, contra qualquer laivo de associação, ainda que fugaz, com essa que receavam estar-se convertendo numa hetaira consumada. A oito de Maio de mil setecentos e oitenta e dois, data em que Pombal entregaria a alma ao Criador, notificou a senhora da Quinta das Virtudes, de improviso, a sua roda de fiéis, para uma verbena, nos jardins. Contratou uma parelha de músicos de cordas, ordenou se assasse uma dúzia de bons cabritos, deliciou a assembleia com um número de lumes-de-bengala. E argumentaria, entretanto, que não quisera destituir «seus amigos dilectos do júbilo de festejar, ao termo de tanta espera, mas definitivamente, o radioso futuro que se anunciava». Ao entrar Cató, a camareira preta, contudo, para a pentear, antes do recolher, com ela depararia ajoelhada, no vestíbulo de acesso ao quarto de cama, procurando esconder o rosto molhado de lágrimas. Dormiria muito mal, no resto da madrugada, e nenhum ministro antigo viria, então, render-lhe homenagem, em seus sonhos. Estava Francisca Clara com cinquenta e um anos, idade em que quase tudo se nos antolha maravilhosamente perdido. Lamentava-se de si, do marido que falecera, do filho demente, dos jacintos que havia semeado, há meses, e que tanto tardavam a florir. Não quis o destino, contudo, reservar-lhe a suprema meditação, essa que teceria, por certo, na manhã de dois de Fevereiro de mil setecentos e noventa e dois, ao tomar conhecimento do delírio alucinatório que, na véspera, acometera Dona Maria quando, envolta numa negra mantilha, assistia à representação de uma obra de Metastasio no Teatro do Paço de Salvaterra. E que, por então, já, estava Dona Francisca Clara de Azevedo Pinto Aranha e Fonseca, há um ano exacto, morta e sepultada, e o corpo, em que morara, rapidamente se decompunha.

Conclua-se pelo registo, na fixação do retrato do fundador da Casa, dessa larvar alternância de máscaras, factor que conduziria Francisca Clara, pelo crepúsculo de sua existência, a identificar-se com o amante fantasiado, a que nunca se arrogara. Afobava-se o intendente Pina Manique, entrementes, na Capital, por impor a norma daquilo que considerava o eixo da portugalidade, proibindo os relógios portáteis e as luvas francesas, os sapatos de fivela e as cabeleiras não polvilhadas. Ecos de quejandas esquisitices perpassavam, nas conversas portuenses, e eram mais, na cidade, os que aprovavam tais ditames que os que ousavam, contra eles, discretamente rosnar. Fixara-se a senhora das Virtudes, por então, num simulacro de tolerância de tudo, intrigando e sabotando, nas profundas de sua alma, de molde a ter-se, por regra, acima dos acontecimentos. Conhecedora da proliferação das lojas maçónicas, encarava-as como progresso, no marasmo de um cenário, que a voz dos castratti, tão-só, animava e revolvia, lutando por introduzir alguma efervescência, na mornidão do viver. Em torno das informações que lhe traziam, respeitantes a mestres e a eleitos e a segredos temíveis, a ritos de neófitos e a inauditas bravuras, fiava Francisca Clara uma fábula labiríntica, em que chegava a vislumbrar-se, despida dos atributos de seu sexo, erguendo um estandarte de problemática libertação. E corresponderia este, não há dúvida, ao período mais fecundo, nos precisos sessenta anos de hermética biografia, curiosamente coincidente com o advento de indícios, que representavam sucessivas vitórias do cavaleiro da morte. Ao fechar as pálpebras, com um jeito que diríamos racionalíssimo, na estância onde uma lamparina bruxuleava, e em cuja parede de cabeceira do leito mandara, pouco antes, suspender uma péssima oleografia da Ester bíblica, tartamudeava uma frase augusta, antes de expirar, sobre Deus e o Universo. De muito longe, vogavam-lhe latadas e urzes, no cérebro, que não eram dissemelhantes das de seu sitio de Campos, na aldeia de Penha Longa de Benviver, adormecida e deitada, à hora do passamento, numa espécie de cúmulo de seres humanos e não humanos, de toda a quantidade e de toda a descrição. Fora um Inverno sem chuvas, quase, o que ia decorrendo, com a tentação perene da Primavera inquieta, da família daquelas que subvertem, até mesmo, o mais sorumbático dos caracteres. E, ao sair o longo esquife, da Quinta das Virtudes, onde o haviam velado, eis que rompiam, afinal, compactos e azulíssimos, os jacintos que Francisca Clara lançara à terra, e pelos quais, em suas tardes de tédio, tanto ela havia, sem consolo, avidamente esperado.


© Mário Cláudio, A Quinta das Virtudes, Lisboa, Quetzal Editores, 1991, pp. 43-79.


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