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A CONDIÇÃO REFLEXA
O MUNDO COMPLETO
RECORDAÇÃO À CHUVA
Soube da tua morte ao longe, Pedro.
Soube da tua morte miserável
em convulsões babosas sobre o pó.
Longe estou eu da terra que te cobre,
da cruz sombria que te esconde o corpo,
as pernas magras de palhaço inútil,
os olhos, o nariz, a tua boca
donde saía um cheiro enjoativo
do vinho mais barato
sempre que cantavas
velhas canções nas ruas da cidade.
Soube da tua morte
que os jornais não escreveram,
que os rádios não falaram, de que souberam poucos.
Soube da tua morte e fiquei triste.
Lembrei os dias em que os polícias
agarraram os teus ombros ossudos
e seguias, passivo, à frente deles.
Lembrei os dias em que os senhores decentes
te olhavam com desprezo.
Andavas sempre bêbado,
não sei porquê andavas sempre bêbado,
mas as tuas canções eram tão simples,
o teu riso tão manso
que nunca as amas precisaram
de levar os meninos para casa,
que nunca os namorados
levavam as noivas para longe de teus cantos,
quando surgias, no parque, ao fim da tarde.
A tua morte nessas ruas de longe,
em que me tiravas a bóina sebenta
num cumprimento alegre,
comoveu-me, Pedro.
Comoveu-me essa morte nojenta,
esperneando sobre o pó do passeio,
as unhas a rasgarem o chão,
o suor a prender-te os cabelos à testa.
Acabo esta lembrança longe dessas ruas
que assistiram aos teus momentos últimos
e, triste, volto a casa enquanto cai a chuva.
PENSÃO BARATA
Havia nas paredes os olhares de receio,
nas janelas as paisagens que vinham
nos ossos do estudante,
do funcionário público,
da prostituta que veio uma noite
com um filho nos braços.
Do estudante ficou meio frasco de tinta,
do funcionário um papel com contas,
da prostituta um pente já partido.
Sobre o chão sem cera ficaram os passos
do operário alto que tossia muito,
da mulher gorda que ia de viagem
e tinha dentes de oiro.
Houve um rapaz nervoso
que partiu sem pagar
e um velho de barbas que sofria de asma
e acordava aos gritos, altas horas.
A dona da pensão tinha dois dentes podres,
vestia-se de negro e dormia com a filha
que um dia fugiu e não voltou.
A mulher fechou o negócio
e ninguém mais quis alugar a casa
porque havia fantasmas de estudantes
enlouquecidos em tempo de exames,
porque havia almas de mulheres perdidas
arrastando os seus filhos pela noite
e gritos histéricos de funcionários públicos
exigindo aumento de salário
nas mais geladas madrugadas de Inverno.
OS ANIMAIS HUMILDES
O GRILO
Ali estava o grilo com suas vestes negras
trazido pelas palhas dos pequenos buracos.
Ali estava o grilo. Diziam que cantava
e ofereciam-lhe alface.
Se recordava os montes,
se recordava as flores,
se recordava as fêmeas,
não diziam seus lábios.
Suas pequenas asas batiam apressadas, chamavam-lhe cantor
e fechavam-no em estreitas prisões.
Chamavam-lha cantor
e sua boca que se não abria
não protestava, não mordia as grades,
fechava as asas e morria indiferente.
Não lhe importava já que gabassem seu canto.
A RÃ
Desde a infância das águas,
quando nasciam tristes minerais
e as serras começavam a morder as nuvens,
que a rã humedece todos os poentes.
A rã é um bicho simples que anuncia a noite
com verdes gemidos logo feitos colunas
num céu macio e leve.
É certo que os homens têm soluções trágicas,
que cantam o seu ódio,
que se vendem e matam.
É certo que a rã junto das águas salta,
cresce e vive em paz.
Verdes rebentam à sua volta sempre
e reduzem-na integrando-a nela.
E o seu pequeno mundo é de verão e papoilas,
ela o construiu nas esquinas da noite,
amorosa parteira das folhas e dos musgos,
nele vive em sossego
e é na voz imperfeita mas puta
que os charcos se redimem.
O PARDAL
Leva um pouco de nuvem sobre as asas,
com as papoilas ri-se dos espanta-pássaros
e engorda sem suspeitar do visgo
da armadilha, do chumbo.
Irmão de S. Francisco como os outros
baloiça-se nos trigos, nos arames
e, de manhã, penteia-se nos espelhos da chuva.
POEMA PARA ANNE FRANK
Onde uma flor cresce,
onde uma palavra se faz carne,
onde um raio de luz se continua,
onde umas mãos se dão,
onde o beijo é bandeira,
onde um hino se canta,
onde o Amor é Pátria,
onde os céus e as árvores,
os pássaros e os homens
se transformam,aí está viva e pura
Anne Frank,
aí estaremos nós. (Outubro, 1957.)
O DIA DENTRO DA NOITE
A nossa história não cabe numa lágrima.
Oh coração, oh coração alegre
onde sempre se encontra a Primavera,
Oh longa terra e mar de nosso amor
onde em verdade cabe a nossa vida!
Que pode fazer um homem que só tem
alguns cigarros, um lápis e uma pena
face a face com a noite,
a meio do silêncio?
Que poderá fazer com suas mãos,
seus lábios, beijos da namorada,
palavras que aprendeu pelos caminhos,
lágrimas e risos que transporta,
que guarda, troca, entrega
no ofício diário de viver?
Que pode um homem só
em frente ao mundo,
em frente a um mundo para tudo preparado?
Que pode um homem com seus medos,
suas canções, seus vómitos?
Que pode um homem só que só possui
um lápis, um papel, um coração
outra coisa fazer além de um mundo novo?
AQUI E AGORA
A VIDA SEM PALAVRAS
ESTACIONAMENTO PROIBIDO
Circulem, senhores, circulem.
Não parem juntos aos mortos,
não estacionem no silêncio,
não se detenham ante o sangue.
Circulem, senhores, circulem.
Não interrompam o tráfico,
não deixem de cumprir ordens,
não deixem de ser neutros
e desapiedados.
Circulem, senhores, circulem.
Há muita gente que tem horas,
há muita gente que tem pressa,
há muita gente que deve esquecer.
Circulem, senhores, circulem.
Façam de conta,
fechem os olhos,
tapem os ouvidos.
Circulem, senhores, circulem.
Deviam já estar habituados,
deviam não ter lágrimas,
nem espanto, nem irmãos.
Circulem, senhores, circulem.
OS AMANTES
CARTA DO TEMPO TRISTE PARA A MARIA VIRGÍNIA
Eu bem queria não te dizer apenas
que, na cidade, são sete horas precisas
e os eléctricos conduzem gente
circunspecta e cansada.
Eu gostaria de dizer-te
que coisas sublimes tinham acontecido
ou, pelo menos, falar-te
de pequenos mas raros sucessos.
Se tudo fosse tão simples e sereno
como a descuidada juventude dos pássaros,
a todos os momentos eu poderia
enviar palavras naturais e frescas
ao teu coração aberto e vasto.
Difícil, então, só seria o silêncio
e dizendo teu nome estabeleceria
o rompimento absoluto com as estreitas,
agrestes e de sempre palavras sem futuro.
Poderia depois dizer-te coisas brandas
na universal linguagem
que tornasse concordes pássaros e estrelas
com a circulação ritmada do teu sangue.
Poderia falar-te de coisas que não estas,
de outra gente, não esta que ora segue
sonolenta e resignada pelas ruas.
Esta gente que não tem um sonho a embalar,
mas filhos, muitos filhos,
esta gente sem gritos nem revoltas,
mas sorrisos humildes e postiços,
esta pobre gente para quem são sete horas
irremediavelmente.
Ah! Maria Virgínia, pudesse eu
dizer-te francamente: "Não há perigo,
nada importam as horas,
vamos calmos e felizes pela cidade,
e o tempo não marca porque não é perfeito. "
Sim, eu quereria dizer-te só palavras
harmónicas e novas.
Sim, eu queria que o tempo fosse
o mesmo dos insectos e dos peixes,
dos simples mas donos dos seus dias.
Exactamente o propício tempo
para te enviar as mais belas notícias
que tu guardarias juntamente
com a mais pura alegria.
Ah! pudesse eu dizer-te
o que dirão os homens
livres para sempre destas amargas horas.
AMANHÃ
VÍCIO DE FUMAR
«Enquanto o Destino mo conceder,
continuarei fumando.»
ÁLVARO DE CAMPOS
Dentro de um milhão de anos,
ou talvez pouco menos compreendas
que fumando assisti ao trânsito dos dias
e em círculos de fumo percebi palavras de ternura.
Então descobrirás que havia coisas simples,
rostos, pedras e pernas
quebrando a frialdade das manhãs
e um mundo que era de homens, bichos, crianças.
Então talvez entendas
porque passei fumando as curvas dolorosas,
porque fumando escrevi poemas
e a fumar testemunhei a crueldade.
Mesmo que nada digas
e mais vale o silêncio
mesmo que nada faças, mesmo que te comovas,
na distância de fumo a separar-nos
sentirás
onde era o coração, um peso ou uma lágrima?
Onde eram os lábios uma dor ou um fumo
que deixei nos cafés, que entreguei nos beijos,
que guardei, inútil património, nas gavetas com contas.
Então calcularás quantas foram as vezes
em que falei com Deus, em que estive sozinho,
quantos crimes inúteis pratiquei,
quando fui anjo sem o perceber.
Na tua solidão, procurarás nos bolsos um cigarro
e não o fumarás.
DA GUERRA
DOIS POEMAS
POEMA DE AIKICHI KUBOYAMA
Ainda podeis ouvir-me, eu sei, amigos,
ainda podeis ouvir a minha voz de terra,
a mesma voz que fala à namorada,
a voz que diz poemas
e pede o bilhete nos eléctricos.
Não vos fala de pássaros a minha voz dorida,
não vos fala de rosas,
fala-vos só de um homem : Aikichi Kuboyama
com sua morte bárbara
entre as grandes notícias dos jornais.
Fala-vos de um homem nem santo, nem sábio, nem poeta,
que se chamava simplesmente Aikichi Kuboyama
e algures, entre magnólias, tinha a mãe que o esperava,
tinha mulher e filhos
ou o retrato da noiva.
É minha voz bravia
a querer dar-vos o nome do homem devastado
Kuboyama foi literalmente atravessado por partículas
radioactivas que emitiram raios fatais produtores de
cancro em todo o seu corpo.
Quero que todos saibam da morte que durou duzentos dias,
quero que a lembrem com o coração e os músculos,
quero que no seio guardem o seu nome,
Aikichi Kuboyama.
O INVERNO
Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.
Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.
Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.
Sabíamos do mar em signos, símbolos,
tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar.
MAPA MUNDO
LIÇÃO DAS COISAS
O braço triste das coisas que não mudam,
o seu silvo na noite ou seu suspiro,
a boca dessas coisas é sinistra,
suave todavia a sua sombra.
Essas coisas são nossas e superam-nos,
passam além de nós por declives,
calendários, horários, pensamentos,
limites, filhos, netos, passatempos.
Essas coisas são doces ou simulam
presenças pouco atrozes. Substituem-se
mas nem por isso fogem. São supérfluas
Ou asquerosamente serviçais.
Sucedem-se essas coisas em esconsos
espaços e soturnos sítios habitados.
Movem-nos por imutáveis.
Seráficas e cínicas, vigiam-nos.
Somos nós, muitas vezes, essas coisas.
BABILÓNIA
A CHUVA
Chove. Há três dias que ininterruptamente chove.
Chove.
E nascem cogumelos nos teus dedos,
a tua face é azul, o teu sorriso
e a sua tristeza a uma hora certa
são azuis.
Há três dias que chove.
Há trinta anos.
Há mais: trinta e dois anos,
trinta e dois anos certos sob a chuva.
E antes disso mesmo, muito antes, antes ainda de meus pais se encontrarem e encontrarem um gato, uma casa, uma mesa de pinho, um cortinado, um pouco de alfazema sob a chuva corroendo a santidade das alegorias de tule e de granito, desbotando as bandeiras e o luar, acompanhando a morte ao cemitério, acampando nos vastos campos, digamos florestas, bosques, digamos o que era outrora, embora sob a chuva.
O que ainda hoje lhe pertence. Essa torrente que arrasta as nossas vidas entre cinzas e cansaço, um café, um cigarro, uma anedota, o que pesa e que passa ou não passa e que pesa porque, estáticos, nos assimila a chuva.
E, lacustres, construímos nossa alegria muito acima das caldeiras roxas que vingativamente nos vigiam e escolhem.
Claro que falamos com húmidas palavras, claro que corremos, claro que choramos, claro que chovemos, claro que calamos muscineosamente. Claro que calamos.
Devagar, devagar, como os dias que passam, devagar como amar entre as vagas, devagar como a água escorrendo sobre os vidros que dividem, enfáticos, as faces e as mãos.
Devagar se coloca uma luz, se despede um amigo, se transmite a catástrofe. E a catástrofe figura nas insígnias matinais que sustentam os muros podríssimos e tristes, nos relatos que antecedem o rigor dos horários, nas bocas colectivamente transportadas iludindo o dilúvio com três-vintes molhados.
A catástrofe sobe, transformando-se em sombra, em dromedário, em raio até chegar a tarde, a tarde cheia de plenos poderes, majestática entre ócios e esperas, a tarde como um longo canal de coisas sombras, de excrescências hidrófilas, açucenas e chagas e um cesto cheio de violetas excessivamente subaquáticas.
A tarde até aos ossos com seus longos punhais e as suas por demais maciças formas deslizando apressadas, evadindo-se em provisórias grutas estalagmíticas, escorrendo açúcar, miosótis, lágrimas, fugazes lantejoulas, sanguessugas. Reconciliando. Reunindo. Repondo as catedrais e as folhas das árvores sobre os ombros muitíssimo mais vergados que vergados. Reconstituindo
Janeiro a Abril e Dezembro a Maio como um colar de gotas sobre o exausto corpo que repete o ritual aquoso ao fim do dia, que reproduz os passos no molhado, que reduz seu perfil aos lábios líquidos.
Antes já de te saber eu percorria
contigo as mesmas ruas
onde há trinta e dois anos
terrivelmente chove,
onde ainda agora chove,
onde sempre choveu.
APOSTÍLIA
AO CANTO III DE OS LUSÍADAS
«O mosteiro foi vandalizado em 1811 pelos francêses e em 1833 pelos soldados da revolução liberal. Desde que sacrílegas mãos mutilaram e profanaram os tumulos, n’aquellas datas, falta o nariz ao rosto de D. Inês e parte da cabeça do rafeiro deitado aos pés de D. Pedro. Lich - nowsky incrimina destas brutalidades a fúria dos francêses Tais mutilações são bárbaras, mas abominável todavia é a impiedade dos devastadores liberais que arrombaram a picão e violaram o monumento, impellidos pela cubiça, arran - cando os despojos mortais de D. Inês e de D. Pedro ao sossego do tumulo, e estirando-os, envoltos nas suas roupagans roçagantes, nas lousas da grande nave de egreja. Os bellos cabelos louros acinzentados da misera e mesquinha, que a morte respeitára durante cinco séculos,foram repartidos e vendidos por entre vários amadores.»
CAROLINA MICHAËLIS DE VASCONCELLOS
(Anotação de Vida e Obra de Luís de Camões, de Wilhelm Storck, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1980, p. 261.)
Estava a bela Inês enamorada
da sua morte de quinhentos anos,
esperando aquela data que marcada
fora pelo senhor dos seus enganos.
Estava a formosa Inês tão repousada,
num convívio tão calmo com gusanos
e outros bichos da morte, que já nada
podia perceber de sons humanos.
Quando, súbito, o claustro é acordado
por bárbaro fragor ecoando fundo
no silêncio de novo violado
e tão áspero e rouco e furibundo
que chegado se crê o dia asado
daquele encontro a haver na fim do mundo,
pois Pedro a guarda já no chão pousado,
interrompido o sono tão profundo.
A vil cobiça e só acrescentando
os males da triste Inês não acabados
à indefesa morta vai roubando
seus cabelos cinzentos e doirados,
além do que lhe tira não tirando
a sua fé em dias mais feriados,
por mais voltas que a terra for rodando
e se sucedam, negros os seus fados.
AS POBRES SOLTEIRAS
Elas andam de eléctrico, às vezes de autocarro
e vestem gabardinas mais velhas do que elas.
Cheiram um pouco a chuva, a escuro, a barro,
a naftalina, a piano e à cera das velas.
Elas andam nas ruas mas ninguém dá por elas,
pelos seus grandes dentes, suas magras orelhas,
seus óculos de massa, suas mãos amarelas,
suas blusas velhas, suas saias tão velhas.
E lêem os jornais de manhã à tardinha,
de manhã a manhã como quem ganha o dia,
têm rugas, verrugas e pés de galinha
lançaram-lhes nos olhos uma rede sombria.
Cultivam com ternura plantas e memórias
e os filhos das outras que elas viram nascer,
ou manipulam contas, ou usam palmatórias
para secar as lágrimas que não podem reter.
Têm fome de tudo, têm de tudo sede, têm falhas
de dinheiro, de amigos, de carinho.
aos pares, nas feias meias, caem malhas
e é só nos largos bolsos que as mãos encontram ninho.
Elas sabem que a vida lhes roubou os parentes
e que entre os que estão vivos há animais ferozes
e sentem longe o amor em homens sorridentes
e vêem-no escapar em círculos velozes.
Elas andam de eléctrico, mas também podem ir
de autocarro ou a pé, depressa ou devagar.
E encostam-se aos caixilhos para melhor dormir,
as faces junto aos vidros para poder sonhar.
AS MULHERES DA CANTAREIRA
Naturalmente, antes de as manhãs
pegarem fogo a todas as palmeiras,
gastaram elas os perfumes nas rochas,
levaram os seus seios para as ondas,
lavaram os seus sexos no rio,
lavraram os limos com os lábios.
Anteriores às gaivotas,
desenharam o seu voo nas águas,
descrevendo na areia
o coleante deambular dos vermes,
vendidos no termo das semanas
aos amantes da pesca.
Virtualmente, antes de o Inverno
lhes mudar o semblante,
comer à sua mesa e violá-las,
elas eram só música,
trazendo, levando, conduzindo
todos os barcos pelo mar do seu corpo.
Mais antigas que os ventos e a paisagem,
muitas vezes fizeram de sereias,
de estrelas breves consumidas
em vinho ou em cerveja,
outras de frio aço e aguardente,
alguns momentos de tabaco loiro.
(São putas? São fidalgas? São senhoras?
Netas bastardas de Raul Brandão?)
Meigas, transparentes, adejantes,
antes de os elementos
cismarem em criá-las,
já elas eram feitas
como deusas cumpridas
em fumo, mito e névoa.
Como estátuas fenícias?
Como estátuas.
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