












|
ROMAGEM A CRETA
(1964)
(págs.113 a 116)
Estou sentado na areia. As mãos, seguindo o tronco, deixam que os dedos se enterrem no chão, que as unhas se encham de grãos e de uma ligeira humidade. Os olhos
que tinham já vasculhado toda a praia entregando-me o mastro com a bandeira vermelha, o caixote do lixo pintado de castanho, o barco salva-vidas de quilha para cima como um grande gomo verde abandonado, jovens corpos queimados pelo Sol, toldos garridos de barracas, homens, meninos e mulheres, alguns paus, seixos, uma ou duas rochas perto já da água (maré-baixa)
perdem-se agora longe, para lá mesmo daquele casco de navio (mal se distinguem os mastros) e não me oferecem nada. Nem os ouvidos participam no jogo, funcionando, nem o nariz que há pouco me trouxera o cheiro do sal e das algas, de alguns pedaços de melão de merenda quase putrefactos, actua agora.
Lembro o casaco vermelho da rapariga e penso no suicídio.
Mas não, não me suicido.
Decididamente, já não sei se as mãos ainda se afundam na areia ou se mudaram de posição, se as pernas ainda se dobram nos joelhos ou se acompanham o solo.
Não, não me suicido.
Isso seria ainda qualquer coisa, principalmente agora em que se não a serenidade, pelo menos uma grande inércia se apoderou de mim.
Seria eu a ocupar o primeiro lugar inopinadamente.
Uma vez e a última, eu a notícia, o facto, o acontecimento, o inesperado, o encontro de um universo.
Discretamente, um seco relato nos jornais.
Uma lágrima de Helena, talvez só um choque a percorrer-lhe a espinha dorsal, quando o soubesse.
Um "coitado! " de alguns conhecidos.
Carlos gritaria: "C’os diabos!", atiraria o lápis sobre a prancheta de arquitecto, chamaria Eduarda, ficaria nervoso. Nesse dia, voltaria a pensar intensamente em mim, a relembrar todos os momentos que passara comigo, a não ter cabeça para o trabalho.
O Director da Companhia morderia o charuto. Pesaria a sua responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos, nos terríveis acontecimentos deste chato mundo. Faria um brevíssimo exame de consciência, depois de pensar em confessar-se e em dar uma grande esmola à Igreja. Mas chegaria à conclusão de que não tivera culpa nenhuma, que o único culpado fora eu. Que estúpida ideia a minha! Se há tanto já ele me esquecera, porque viera eu insinuar-me com a minha morte? Estava provado que o meu jeito nunca fora por aí além.
E meu tio? meu tio já não teria a mínima importância. Nem o Dr. Dinis Mota. Nada nem ninguém teria importância.
A notícia, em breve, seria esquecida. Mas, entretanto, agitara um pequeno mundo. Desviara-o da sua rotina, impusera-lhe um súbito desarranjo. Como uma mola solta de uma engrenagem complicadíssima, penetrara aqui, além, onde muita gente que nunca me vira, jamais ouvira falar de mim, comentaria o caso, aventaria hipóteses, reclamaria contra isto e aquilo. Contra o tempo, a vida, a organização social, as estruturas religiosas, o acto sexual, o clima, os impostos, as facas afiadas, as cordas, as janelas de quinto andar, o gás, os combóios desarvorados, os cais desprotegidos, os venenos à venda, as lâminas de barba.
Há quanto tempo estou nesta praia, pensando no suicídio e em não me suicidar?
Há uma, há vinte e quatro horas?
Desde que tirei a prova dos nove a uns números sem interesse escritos numa tábua de pinho onde se apoiava um telefone?
Desde que nasci?
Estou assim desde o início do mundo? Desde que o Senhor no seu cantinho de Céu ("No princípio, Deus criou o Céu e a Terra. ") separou o elemento árido das águas e encheu estas de peixes, batráquios, crustáceos e grandes répteis animados e viventes, e cobriu aquele de ervas e árvores de fruto e sementes e fetos e cotiledónias, araucárias, aloés, cereais e bichos como gafanhotos, minhocas, mosquitos e serpentes, mamutes e bois?
Esqueceu-se de mim, aqui me deixando eternamente, o Senhor que me fez à sua imagem e semelhança para eu presidir aos peixes do Mar e às aves do Céu e aos animais selváticos e a toda a Terra e a todos os répteis que se movem sobre a terra?
Desde que fui concebido
de pai e de mãe ou de um pouco de barro
estou a sentir a frescura da areia, a serenidade azulínea das águas a esta hora do crepúsculo, a ouvir palavras, a dizer coisas, a pensar no suicídio e todos os dias a suicidar me e todos os dias a renascer, como aquele planeta
Vénus
os pescadores chamam-lha Aurora, os poetas Estrela da Manhã.
Voltar à página de António Rebordão Navarro
|