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UM INFINITO SILÊNCIO
(1970)
(págs. 44 a 48)
Que vem aqui fazer um César?
perguntareis, bons viamontenses.
Que vem fazer com as suas sandálias, a toga, a túnica, as pústulas, os vícios, a administração da justiça, o maquiavelismo ante litteram, as suas frases feitas há milhares de anos e dois novos meses em Novembro e Dezembro, um César em Viamonte?
Atolar-se na lama que enche as ruas, sofrer os ásperos frios que penetram nas almas, cansar os mediterrânicos olhos no bloqueio verdenegro dos montes, caçar aí perdizes e coelhos, pescar, no rio, bogas, tencas, escalos e as últimas trutas (chondrostoma polylepis, tinca tinca, rutilus arcasi, salmo trutta), sentar-se num dos quatro marmóreos bancos que se espalham pelo largo da Câmara, visitar as obras do futuro parque, ir até ao café?
Onde instalar um César? Na pensão dos muros salitrosos, janelas de caixilhos semipodres e cortinas picadas pelos dejectos de várias gerações de gordas moscas de gado, cozinha enegrecida pelo fumo, sala de jantar desconfortável onde, à mesa redonda, com os pés na braseira, se alapardam caixeiros-viajantes, terceiros-escriturários, guarda-fios? No edifício da edilidade em cujo rés-do-chão funciona a Repartição de Finanças com os sobrados de madeira carunchosos e rotos e os de tacos desnivelados? No Tribunal ou na Conservatória do Registo Civil? Na cadeia sem presos, mas com as camas de ferro desconjuntadas e as enxergas manchadas de urina cobertas de esburacados e finos cobertores? No Hospital? Sim, o Hospital é um edifício moderno, arejado, amplo, limpo. "Só que esta gente não vem aqui tratar-se senão em última instância", dirão ambos os médicos, e um hospital, enfim, por muito funcional que seja, não é, na verdade, o lugar mais apropriado para receber um César mesmo um tanto epiléptico. Talvez em casa do juiz, não fora o facto de o casal ter quatro filhos e estar presentemente sem criada; ou na do delegado, não fora este estar preocupado com os concursos, não ter também criada, nem lenha, nem mobília tão conservada e sólida.
Porque não levá-lo, em triunfal cortejo de carros de bois, mulheres de luto, homens muito velhos, pobres comerciantes, funcionários públicos e garotos ranhosos, para casa do visconde de Viamonte, notável que celebrizara o nome da povoação pelos seus amores por uma cantadeira, tocados em lá menor e maior, ré, sol, fá, dó sustenido, em todas as guitarras do princípio do século? Porque, ao certo, ao certo, não se sabia onde ficava o seu solar. Diziam uns que ele se situava nos confins da vila
um casarão em ruínas onde, entre mal tratado gado, se albergavam, hoje, duas ou três famílias de pobres jornaleiros e pastores. Outros afirmavam que a nobre casa se erguera junto ao tanque para onde se voltava, exasperada, a gárgula da igreja matriz a que chamavam sede. Pouco se sabia também do visconde. Havia quem dissesse que jamais estivera ele em Viamonte, havia os que contavam que trouxera à vila a cantadeira, acordando, surpreendendo os íncolas com prolongadas noitadas de fado, escandalizando a escumalha com a sua abissal paixão de nobre-fim-de-raça. Se não fora uma rua com o seu nome
a rua do café que ia do pelourinho ao largo da Câmara
, porque não dizer até que o fidalgo jamais existira? E mesmo assim, porque não poderia uma rua, uma ruela, um beco, um boqueirão, em confronto com as vias das urbes, ter o nome de um mito?
Havia pois um grande problema: hospedar César.
E, além desta dificuldade de não pequena monta, uma outra, não menor, se apresentava: que havia, em Viamonte, digno de se mostrar ao augusto romano?
O estafado e gasto pelourinho?
As minas de alabastro e mármore que há muito já estavam paralisadas por desinteresse da companhia inglesa sua concessionária, que, a braços com a falta de mão-de-obra e de infra-estruturas, se vira obrigada a encerrar a exploração?
A igreja matriz, barroca e triste, onde,os homens de um lado, as mulheres do outro, adoravam um deus desconhecido?
Uma capela particular com um alto-relevo policromado em que uma Nossa Senhora, sentada e de perna cruzada, dava o regaço azul a um Menino Jesus adormecido?
As mulheres sem homens
os homens que haviam partido para a França, para a Alemanha, para as Astúrias; que tinham ido combater em Moçambique, na Guiné, em Angola?
Os poucos homens válidos e os estropiados?
Os vários presidentes da Câmara que, após os mandatos, passeavam sorumbáticas reformas de outros cargos ou se alinhavam, catatónicos, nas mesas dos cafés, sumariando, lamuriosamente, as realizações efectuadas sob as suas gerências?
Não, um César não é aqui preciso.
Seria mais útil um barbeiro, uma parteira, um electricista, um odontólogo, um carpinteiro consciencioso, um oculista, um engraxador ou até um posto de gasolina super, talvez um quiosque onde se vendessem todos os Corin Tellado, Guidas e Sonho que a mocidade devoraria para não deixar de pensar apenas em face dos aparelhos de televisão ou um cinema que exibisse os filmes estreados há um ano no Porto (a 325 quilómetros de Viamonte) e há cerca de quinze meses em Lisboa (a 573 quilómetros de Viamonte).
Não, os Césares não fazem falta.
Caius Julius, o primeiro, pede imensa desculpa da sua breve intromissão em terras viamontesas e recolhe-se às cinquenta e duas páginas que na tradução portuguesa (Editorial Presença, 1963) lhe consagrou o seu biógrafo Caius Silentius Tranquillus Suetonius.
(pág. 72 a 74)
levanto-me e encontro-me multiplicado nas paredes. estou no meio da sala.
estes espelhos são apenas capazes de reflectir terceiros. para isso foram adquiridos e dispostos. eu sabia disso, percebi isso na primeira noite passada no Colégio, e, no entanto e no devido tempo, não lhes concedi senão desprezo. ignorei-os. parece agora que os vidros estanhados... mas não, não parece nada. são absolutamente indiferentes. asquerosos. é difícil encontrarmo-nos neles. como se tivéssemos morrido há muito tempo já e, hoje, só vampiros, nos alimentássemos do sangue da memória, sem imagem reflectida nos espelhos, que assumiram proficientemente a função a que os destinaram. não servem para mais nada. desafio-os. encaro um deles penetrantemente, embora me sinta ridículo no outro.
Como se destrói um espelho?
mas eis que o maldito vidro me diz que não estou só.
como um bacilo, um triste espermatozóide entre duas lamelas, surge em atemorizante rumor de soalho que range o vulto constrangido de Olímpia. ela está ali, de pé, entre dois espelhos, ante os meus olhos espantados, com o seu xaile e todo o seu desgosto, a sua responsabilidade de objecto do drama. oiço-me respirar. ensaio uma palavra qualquer que, incólume, passa sem estremecer, a úvula, se desfaz na palatina abóbada, se estilhaça nos fiordes pegajosos dos dentes, se afoga em saliva. não tenho sequer um livro que me salve. não tenho nada senão uma imagem, firme, escura, e, no entanto, reparo agora, terrivelmente bela, à minha frente, quer dizer, num segundo plano sobre o
Como se destrói um espelho?
há várias fórmulas. com paciência e esforço, poder-se-á esmigalhá-lo aos poucos, transformá-lo, outra vez, em tenebrosa sílica e, engolindo-a em doses diminutas, sorver todas as mortes e os inúmeros fachos luminosos que a sua polidíssima face sucessivamente foi reflectindo. com as unhas é fácil reduzi-lo a um cristal apenas e, ao pisá-lo depois com os pés descalços, cobrir-lhe a transparência com
o sangue. com raiva é possível desfazê-lo a murro e sujá-lo de baba, de suor e cabelos, embora, assim, ele se reproduza em infames, repugnantes cacos, brilhantemente cínicos, prontos a reflectir outros tantos pavores. com astúcia se destroem espelhos. com a louca, obsidiante memória, se destroem. e com a dor também. Olímpia não dá por eles. tem em si o peso de dez noites de choro, mas são uns olhos secos que me fixam.
Como se destrói um espelho?
com as rugas que crescem, os cabelos que caem ou embranquecem, os olhos que se turvam? com as bocas dos mortos que já nada embaciam?
São uns olhos mais ferozes que um ou dois espelhos? Mais indestrutíveis?
eles, os olhos de Olímpia, poisam agora sobre as folhas dispersas, indecifráveis, a esferográfica azul, o copo embaciado, marcado de suor, a garrafa de conhaque espanhol com um brasão em relevo no vidro, sobressaindo no lado esquerdo do rótulo (no lado direito para quem tem o rótulo à sua frente), e uma rolha vermelha, nas pontas dos cigarros quebrados ao meio
vermezinhos amarelados, brancos, castanhos e negros, entre tufos de cinza
no maço amachucado, na caixa de fósforos, nas moscas indiferentes e ensonadas,
e põem fogo à mesa.
tenho vergonha de. mas não tenho palavras.
elas gastaram-se, consumiram-se irremediavelmente nas folhas de vinte e cinco linhas espalhadas na mesa, tornaram-se convencionais combinações de letras: tt cortados ao meio, loucos pontinhos de ii, oo rechonchudos, dançantes dd, sinais estrambóticos, esborratados caracteres arcaicos, símbolos azulados e grotescos sem som nem percepção favorável e participante. crucificaram-me.
não tenho palavras. a boca seca de tabaco, de conhaque e silêncio, um silêncio maciço, inóspito, de planeta despovoado, desde que de um rádio próximo, de um gira-discos ou de um aparelho de televisão se deixou de ouvir, a todo o volume, a voz ressoante de um ex-mineiro, que tinha ou adoptara o mesmo nome do livro, e de uma personagem de Henri Fielding cantando Dalilah.
(pág. 78 a 80)
(o Daniel era um pobre homem que vivia em Casteldouro, mas vinha uns dias por semana a Viamonte vender lotaria. deslocava-se num velho triciclo motorizado, pois não tinha pernas. o tronco forte terminava nuns canos de borracha, negros e baloiçantes, como um par de horríveis barbatanas inúteis que prolongavam os tocos dos membros decepados na infância. na véspera, como a estrada estivesse escorregadia, esmaltada de uma geada traiçoeira, o triciclo não lhe obedecera e resvalara por um barranco. o Daniel desmaiara e, ao voltar a si, sentira-se perdido. doíam-lhe as costas, o peito, a cara rasgada pelas silvas. o triciclo, tombado sobre uma roda, fora parar a uns três metros de distância do seu corpo aleijado, mas ainda que estivesse direito, e não estava, ainda que pudesse arrastar-se até ele, e não podia, não conseguiria subir até ao assento estofado de pergamóide preto
quando descia de lá para entrar no café, rastejando pelo chão como uma aranha enorme ou um sorridente golfinho, alguém tinha de o ajudar a sair do veículo, erguendo-o pelos ombros, alguém tinha de o voltar a sentar ali, atirando-o de qualquer maneira, muitas vezes a cabeça para baixo, até ele, com a ajuda dos braços curtos e musculosos, se endireitar no banco e poder, enfim, seguir viagem,
não conseguiria decerto fazer funcionar a geringonça, conduzi-la, de novo, até à estrada.
anoitecera e começara a nevar.
o homem, cheio de dores, sentira-se liquidado, talvez mesmo cuidasse ouvir muito perto de si os lobos uivando, suor de dores fundíssimas e lágrimas misturadas com sangue, medo e terra enchiam-lhe o rosto. lama, sal e dor engrossavam-lhe os beiços, cobriam-lha a língua espessa e fria. então, descobriu, como sóis entre o fogo das lágrimas, dois faróis avançando ainda ao longe, lá em cima, e, em ânsia, procurou a caixa de fósforos, fez um rolo das listas da Santa Casa e das cautelas que não chegara a vender e chegou-lhe o fogo, erguendo-o o mais alto possível acima de si, da dor, do desespero. mas o papel estava comprimido de mais e, em breve, a chama se consumiu em fumo áspero. o cauteleiro tinha dores enormes e receava desmaiar outra vez, pois as últimas forças se haviam gasto na manobra falhada. passaram-se cem anos de angústia, antes de vislumbrar, vagarosas e ténues, duas pequenas luzes desfocadas. queimou todos os fósforos e manteve o facho improvisado até o fogo lhe lamber já o pulso. não sabia se estava vivo ou morto quando acordou numa cama do
Hospital. a menina Judite, a única enfermeira auxiliar de Viamonte, disse lhe que um caixeiro-viajante avistara o seu S.O.S. desesperado e o trouxera para ali, suando como um boi para o arrastar até ao carro, o atirar para o banco de trás.
meses mais tarde, perguntar-lhe-iam, rindo no café "ó Daniel, e se o jogo estava premiado?", ao que ele, réptil risonho, arrastando-se no chão sujo, retorquia: "queimava tudo, todo o dinheiro do mundo! ")
O presidente saiu e a mulher veio buscar o filho. Passou-lhe, meigamente, um braço sobre os ombros ossudos, olhou-me com desprezo, deixou a sala sem me cumprimentar. Esperei dez minutos em vão. Depois, encontrei sozinho a porta da casa.
(pág. 185 a 190)
Volto ao Colégio deserto. Telefono a Adriana. Digo-lhe até amanhã.
É hoje esse amanhã.
um hoje longo, pois o dia que vai nascer traz atrás dele uma longa noite de vigília em que reconstituí, na sala de jantar do Colégio, entre moscas e vultos sem memória, o tempo de Viamonte. Aqui estão
reúno as folhas com as mãos cansadas
alguns vivos e mortos (a tia Veva, o Marquinha, Miguel João), cujo sangue não deixou nenhum rasto. reparo agora que nestas páginas só há sangue de um aleijado, de uma galinha, de um adolescente obcecado. assim era também Viamonte, uma vila que morria sem drama. o seu sangue partia para outras regiões e o seu coração pulsava cada vez mais lentamente. quem sabe se não estaria prestes a parar? constava que, brevemente, deixaria de ser comarca judicial, baixaria a julgado municipal. além disso, deixara de ter táxi. o motorista e proprietário do único Mercedes preto e verde fora ultimamente preso por política, era a terceira vez que tal acontecia. por certo, o condenariam a pesada pena, e o carro, objecto do crime, seria apreendido. quanto ao Colégio, encerrava hoje as suas portas, definitivamente.
era uma vez um colégio em Viamonte.
mas que interessava um colégio em Viamonte, vila perdida a nordeste, de onde todos os homens, mesmo muitas mulheres, mais cedo ou mais tarde, emigrariam? era um luxo desmedido, uma perene fonte de despesas, um problema de estruturas, infra-estruturas, mobilização e manutenção de pessoal docente, de pessoal menor, de administração e de conservação.
aliás, os descendentes dos seus directores e proprietários, mais dia menos dia, teriam de deixar Viamonte. matricular-se-iam nas universidades ou arranjariam empregos muito longe dali. em breve, eles teriam de dar os sinais e de fazer a tropa e elas conseguiriam bons partidos noutras terras mais ricas.
e quem teria mais herdeiros para internar no Colégio?
os filhos dos pobres frequentavam a escola oficial, faziam as primeiras letras sobre os cachaços secos das mãos curtas, ágeis no gatilho, do mestre-escola, distribuíam rebuçados de fruta que compravam nos cafés e nos comércios, e iam levar as reses para o pasto, apropriavam-se dos ovos das perdizes, invadiam lameiros que não lhes pertenciam, roubavam as cerejas e as castanhas e, um dia, ou melhor, uma noite, partiam clandestinamente para as Astúrias, para a França, para a Alemanha.
que fazia um colégio em Viamonte?
era uma instituição periclitante, cujo equilíbrio fora, em grande parte, alterado pela fuga do meu antecessor, Dr. Mariano Raimundo Soares, afilhado duma dama rica e assustada, marido duma francesa, pai de um menino loiro chamado João Paulo. era um prédio de tijolo, granito e cimento de onde as pessoas tinham debandado. os alunos haviam voltado às casas paternas retirados à pressa de um lugar de escândalo. o tesoureiro das Finanças, professor de Matemática, fora transferido. acompanhá-lo-ia sua mulher, professora de Inglês. Miguel João morrera. quer dizer, enforcara-se, e isso também não fora boa publicidade para o Colégio. Bolotinha, o último dos últimos, o mais pobre, apagado membro do estabelecimento de ensino, o que, afinal, o derrubara, estava na cadeia. Adriana ia embora comigo. eu arrumara contas, encerrara os livros.
O Colégio não era mais que um triste casarão, construção de arquitectura rústico-funcional destinada ao insucesso. correu que alguém a alugaria para a transformar em pousada ou pensão. mas foi só um boato, de que servia uma pousada, uma pensão, em Viamonte? quem viria ali passar as férias, ao menos uma noite? os caixeiros-viajantes preferiam Casteldouro ou, para um almoço ou jantar, comido
à pressa, contentavam-se com a mesa redonda posta na sala da pobre hospedaria, à entrada da vila, uma noite em qualquer parte se passava (e César estava morto há quase dois mil anos); falou-se ainda num asilo para velhos, mas que velhos de Viamonte deixariam as paredes sujas, enfumaradas dos seus pobres casebres, trocariam os seus mochos de pau, as suas enxergas, a sua promiscuidade com porcos, galinhas, vacas, cães, burros, pelas salas arejadas, os soalhos de tacos, as camas funcionais dos internos e do quarto que fora da francesa, de seu marido e meu? aliás, a Misericórdia não podia arcar com tão grande despesa e os provedores abanavam a cabeça, sorrindo ironicamente, quando lhes diziam que constava destinar-se o edifício a uma creche, que mães deixariam ali os seus filhos, perguntavam.e o Hospital não era já um enorme encargo superior àquele que podiam suportar? houve quem, ainda mais utópico, proclamasse que a casa se tornaria biblioteca ou salão de convívio, mas quem lia em Viamonte? quem conviveria além das paredes dos dois cafés da vila? e não faltavam também os que diziam ir ser aproveitado o prédio para armazém de cereais ou cooperativa de consumo, mas, mais certa, positiva e lógica seria a sua derrocada. fácil seria colocar noutras salas
arrogantes e apavorados retratos, aproveitar as molduras império, alguns espelhos, camas, cadeiras, relógios de parede. fácil seria vender quadros pretos, mapas anatómicos e geográficos, carteiras, mesas, cestos dos papéis, caixas de giz, estantes, alguns livros a que arrancaria a folha com a palavra OFERTA carimbada a vermelho. fácil seria obter compradores de telha, pedra, madeira e vidros.
era a hora de me perguntar: que viera eu fazer a Viamonte?
tenho algumas respostas: Adriana acompanhar-me-á. resolvemos casar. isto pode parecer muito simples. talvez o seja na verdade. ela virá comigo e eu sinto-me mais rico. deixaremos Viamonte esta manhã, na manhã grande deste enorme dia em cujo chão vai nascer o futuro. (... "uma gralha empoleirada no Capitólio dissera ‘ tudo irá bem ’, prodígio que levou alguém a escrever logo os versos seguintes:
A gralha que outrora se empoleirou no alto do monte Tarpeio,
não disse tudo vai bem, mas tudo irá bem."
(Suetónio)
gostei de estar aqui, nesta vila paupérrima, gostei de conhecer o Sr. Felício, Miguel João, Luís Lourenço, Isabel, Maria do Rosário. gostei desta gente áspera, seca, calculista e ingénua, e da luz dos poentes que os burros recebiam calmamente no dorso mordendo a erva nas colinas. gostei de ouvir rir o Liberdade, de ver perder a giba ao Bolotinha. talvez não me custasse assistir à queda do, há muito condenado, Colégio. dele levo, entre a roupa, Os 12 Césares, um volume rebentado, amarrotado, sujo, onde, com muitos podres e algumas qualidades, se enterravam para sempre os augustos imperadores Caio Júlio César, Octávio Augusto, Tibério Nero, Caio Calígula, Tibério Cláudio Cruso, Nero Cláudio César, Sérvio Sulpício Galba, Marco Sálvio Otão, Áulio Vitélio, Tito Flávio Vespasiano Augusto, Tito Flávio Domiciano.
um dia, recordarei Viamonte sem exaltação, sem repugnância, sem saudade. lerei talvez estes apontamentos sem me aperceber de que esta primeira pessoa do singular fui eu num dado tempo, numa vila a nordeste que, aos poucos, se despovoava, o som perderá o seu significado ou ganhará um outro. todos os sons evoluirão assim. significarão diferentemente palavras que são nomes de pessoas: Miguel João, Tomazinho, Olímpia. perguntar-me-ei se existem, se existiram, se existirão ali ou noutro qualquer lugar, perguntarei se existe Viamonte com a sua igreja, o pelourinho, o Tribunal, as ruas enlameadas ou poeirentas, os cafés, a estação dos Correios, o Hospital, o casarão amarelo dos Bombeiros Voluntários.
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