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O DISCURSO DA DESORDEM

(2ª Edição – 1995)

(págs. 21 a 24)

Os cabelos dela cheiram um pouco a limão, a champô, a sabonete. Cheiram também a Ofélia que, agora, aparece inopinadamente na minha memória, Ofélia que era um pouco mais alta, bastante mais nova e tinha um ar selvagem, o queixo firme, olhos de gata em Janeiro, ou de cadela em cio ao longo

de todos os meses do ano. Gabriela aperta-me a mão direita de segundo a segundo, dizendo estou aqui com um choque epidérmico. Não retribuo. Sou um corpo perdido sem saber em que tempo. Ofélia permanece. Ofélia de quem não me lembrava havia não sei quantos anos, quantos séculos. Ofélia que cheirava sempre a sabonete de limão, era muito branca, quase anémica, mais estanho que prata, mais aço que estanho, mais frio que chuva no inverno. Ofélia com quem tinha sonhado havia poucas noites e, nessa noite (ou madrugada), – que tempo cronológico, tempo lógico mede o espaço ilógico do sonho? – , me aparecera com um pescoço alto, talvez mais alto que a torre dos Clérigos, o que eu, todavia, não estranhei, estranhando, no entanto, o seu rosto seco, mais descarnado ainda que a caveira de M. René Descartes que havia dias (ou horas?) me surgira sobre uma peanha de madeira na capa de um livro, com o rosto frontal do seu cogitante e racionalista crânio riscado por dizeres indistintos. Toda essa manhã, uma manhã cinzenta de aguaceiros miúdos, nuvens prenhes e pardas, invocara Ofélia, dissera o seu nome para me lembrar do seu rosto, dos seus cabelos, da sua boca fina, do seu nariz de septos delgados, das suas sobrancelhas pouco firmes, dos seus olhos garços, (eram garços ou não? esparsos talvez), da entoação da sua voz, das suas mãos cujo tamanho, cor e gestos estavam, há muito já, delidos, sepultados num canto da memória, numa esquina do tempo, num espaço vazio, numa vida diferente.

Vogo-vago, vago-vogo, vogo-vogo, vago-vogo.

Gabriela é que tem a culpa. Sua. Um aroma ténue a sovaco perfumado que aspiro encontrando outra vez Ofélia à minha frente, baixando o tronco, expondo os seios a saltarem do bikiny preto. Ofélia que sabia rir, se ria muito dos outros e de si própria, gostava de se ter formado em Direito e defender prostitutas, ladrões e assassinos, ou de ser arquitecta e fazer casas octogonais e cemitérios em que os mortos seriam enterrados verticalmente, não só para aproveitar espaço, mas ainda para lhes dar na eternidade a posição erecta por que tanto através dos séculos haviam lutado, e fazia ciúmes ao marido quando cruzava as pernas, mostrando um vasto pedaço das coxas bem torneadas... disse torneadas? digo, carnudas, imponentes, que ele, em tentativas várias, cada vez menos discretas, acabava por cobrir, e ela, a seguir, voltava a pôr a nu. Ofélia gostava ainda de ter sido bailarina – de ballet, já se vê – e manequim e actriz, primeiro de cinema e, depois porque não havia cinema em Portugal, de teatro. E não sei que mais Ofélia gostaria de ter sido. Ah, jornalista, quando soube que eu era jornalista. Ah, e escritora quando lhe ofereci um livro de versos publicado muitos anos antes. Ah, e pintora, quando lhe apresentei o meu amigo Augusto. E empregada de livraria quando lhe apresentei o Vitorioso. O que não gostaria Ofélia de ter sido? É difícil dizê-lo. Hoje muito difícil.

Ofélia:
Ofélia,
Ofélia?
Ofélia!
Oh, felina Ofélia!
Oh, feliz Ofélia!
Off-side Ofélia!

Ofélia com quem nunca tinha havido nada. Quer dizer, tudo é sexo, nada é sexo, tudo e nada é o encontro de dois corpos, corpo dinâmica, nada e tudo é uma cama ou um pedaço de chão onde se juntam dois corpos com a digna temperatura adequada a tais contactos, e bocas que se mordem, e saltos, e acrobacias e os quatro cantos do tempo e os quatro tempos do canto e tristitia post coitum advenit, e um suave repouso de faquir sobre espadas, ou pregos, ou cacos de garrafa, ou brasas. Isto não tinha havido.

Existira sempre um riso comunicante, as palavras que se misturam como o fumo saído dos cigarros, as mãos apertando-se mais um pouco, os olhos cobertos nas despedidas de uma ternura que se velava, se disfarçava, era e talvez não fosse, uma outra máscara. Havia também um certo louco apetite de comidas loucas: lampreia, bacalhau, sardinhas assadas com pimentos, sável de escabeche, tripas à moda do Porto, bifes tártaros. E uma simpática adesão ao vinho maduro tinto.

Ofélia agora. Um acto brutal de pirataria, o bombardeamento duma cidade aberta. Ofélia na penumbra molhada da tarde, na chuva batendo nos vidros, no fogo ardendo na lareira, sacralmente vigiado por Eurico, o inígneo.

Ofélia com os seus ódios, a sua boca entreaberta de dentes quadrados, o seu sinal no peito verificado mensalmente pelos médicos do Instituto de Oncologia. Ofélia propensa ao cancro.

Nefasta Ofélia, porque surgiste agora, nesta casa de outros, entre desconhecida gente? Com um corpo de cinza e chuva, uma mão esquerda que te não pertence? Não, não danço. Não, não gozo. Não, não me encosto.Não, não tenho temperatura alguma. Não, não ouço nada. Nem a música que vem do gravador, nem as palavras, nem o bater da chuva na janela, nem o estralejar das aturdidas asas das pombas brancas, nem o rumor surdo das ondas, lá em baixo, só espuma, cheias de sal e inverno.

Maligna Ofélia! deve estar na tarde de domingo num café de domingo, com famílias passadas a papel químico, filhas iguais aos pais, filhos iguais às mães, criados baralhados nas contas, queixando– -se dos joanetes e um cego que se senta numa cadeira vazia e toca duas músicas antigas num acordeão ainda mais antigo, enquanto o seu acólito, um tipo de oleosa, doentia gordura explodindo no intervalo das rugas, passa de mesa em mesa uma caixa-mealheiro onde os cavalheiros depositam o seu pequeno óbulo. Deves estar na tarde de domingo com as coxas abertas, sonolenta, abrindo o sexo ao teu marido. Deves estar a arrumar a louça do almoço, ou a afagar um gato, ou a ver a televisão, ou a ler um romance idiota, ou a lavar a roupa da semana, ou a coçares-te, ou a. Nefanda Ofélia, deves estar agora amamentando ao seio uma criança, ou a fumar um cigarro que te sabe a lodo. Agora que te tornaste definitivamente longínqua, é possível seres múltipla e nada mais que um nome – O fé lea – Hofélia – fOi ela – ela fOi – O pó fé pé li a pa. – Maldita Ofélia!
A música acabou.
A música acabou.
A música acabou.

Gabriela dá uma gargalhada. Os outros riem. Pelos vistos, estávamos a dançar sem música, observados e desfrutados pelos restantes. Alguém bate palmas, grita: "muito bem, muito bem "– , aplaudindo os passos marcados no silêncio. Gabriela tem os olhos brilhantes de felicidade. Apetece– – me mandá-la bardamerda. Largo-a. Aperto na boca um sorriso baço. Procuro o meu copo de wisky, mas o meu copo de wisky, um copo comum com uma rodela de laranja estampada no vidro, encontra-se, extremamente real, miseravelmente distante, na boca da mulher do professor sentada no escabelo medieval. Perder, neste momento, um copo de wisky era muito mais perturbante do que ter perdido havia muito tempo e há pouco Ofélia, significava dramaticamente não saber o que fazer das mãos.

(págs. 49 / 50)

Fiz uma pausa e prossegui:

"Eu sou o fantasma de teu pai e tu não és herói, porque jamais venceste a minha autoridade. Como hás nome? NINGUÉM, (disse NINGUÉM num tom profundo e baixo, como creio Garrett exigiria que assim dissesse o Romeiro). Arreda, vil farsante! Belzebu, Lúcifer, demónio íncubo ou súcubo, brucolaque, vampiro, Belfegor, Eurinómio, Caym. Vade retro, Satana! Não tentes ludibriar-me. Tu és, bem o sei, sem tirar nem pôr, a Cantora Careca.

Mas que importa um nome? Acaso a rosa deixa de exalar o seu doce perfume, se não se chamar rosa? Duma a um cento ou a um milhão cameliará, ó dama, o teu nome de guerra. Camaleão de paz!"

Tirei o braço direito da posição em que estava e já se tornara cansativa e, descendo-o ao longo do corpo, pronunciei monocordicamente:

"Amanhã enforcamo-nos, se não for sexta-feira de lua cheia a transformar-nos em lobos esfaimados que só podem morrer com uma bala feita de boa prata. Além de que é de mau agoiro e de mau gosto suicidar-se alguém à sexta-feira."

Estendi os braços para o auditório agora completo, pois os que se encontravam na cozinha tinham vindo também para me ver e ouvir. Mudei de tom:

"E vós, amigos, chorai a infausta dama do Mondego. E vós, Mondego, chorai a infausta dama dos amigos. Choram os choupos. Chora Schopenhauer. Chora, chuva. Chopin chora. Schunt lacrima rerum. Este montão de cadáveres, (bom coveiro esse velho Guilherme), clama por vingança. Cansa ser virgem durante tantos anos, suspirou a condessa, sucumbindo à centésima sétima síncope seguida. E os bárbaros que poderiam ser uma solução não chegaram a entrar pela fronteira que lhes era franca. Francamente, Frankenstein, você não era para aqui chamado. Ah, mas trouxe os seus filhos. (Acaricio alguns fenomenais craniozinhos monstruosos. Ouço alguns risos.) Como estão crescidos, poderosas forças do mal! E a avozinha, Lady Mary, como vai? Há muito que a não vejo. Se não erro, desde a última gala do Conde d’Alucard, em honra do divino marquês, bruscamente no verão passado. aí ouvi a voz de Zaratrustra e me encontrei a curto passo da platónica morte. Toda a tristeza é portugaliana como um dia de Abril de águas coadas mil a que sucede Maio com a velhinha para o borralho cuspindo ensalivados caroços de cerejas e Junho com um punho de manguito invadindo as searas. Aí crescerei miticamente tal e qual a mandrágora. Assumirei a forma de um astro radiante colado nas paredes, girassol em tijolo, rosa e amarelo e, mal o haja perdido, pedirei à mamã: o sol... o sol... (Curvo-me). Sou o espectro de um clima passado. Sou o espectro do passado. Sou o passado-estectro. (Vergo-me ainda mais). O sol... o sol... (Solidarizo-me comigo próprio, expludo de joelhos no chão, como um mendigo que nenhuma esmola poderá salvar). Imploro numa voz sumida: o sol... o sol... "A cabeça cai-me, o queixo encostado ao peito.

Os primeiros aplausos vêm de Camila, "mas tu és um actor!". Aproxima-se, ajuda-me a levantar. "Um actor completo. Dá-me um beijo. Representas cada vez melhor. O trocadilho da Dama das Camélias e o Schunt lacrima rerum foram divinais". O Rodrigo acende a luz eléctrica. "O Shunt parolinho, à moda de Bixeu, reparaste, Rodrigo?, Uma maravilha.", Camila, rindo enquanto ele sorri também, acenando afirmativamente.

Eurico berra: "Vamos mas é comer que estou com uma larica desgraçada". O Manuel pergunta– – me que título dou à minha representação. "Não pensei nisso, respondo, mas posso propor-te alguns: "ovo-povo", um palíndromo genético-social ou, se preferires, "Porto-gala", snob e quase porno. Todavia, como os mini-monólogos que interpreto são sempre improvisados e nada racionalistas qualquer deles se poderá à vontade chamar "O discurso da desordem".

(págs. 67 a 70)

Bem bistas as coisas, eu acho que ninguém no prédio tinha nada cãotra a sujeita, a berdade é só uma. Num quer dezer qu’ela fuasse fichinha de todo. Lá isso num debia ser, num senhora. Mas taumbém nunca se saube qu’ela fizesse disparates ou encomodasse os bezinhos ou fuasse quem fuasse. era uma criatura metida cãosigo, assim a modos qu’aluada mas sem dar nas bistas. Cando foi morar p’ró prédio, a minha cumadre, a Inlisa, começau a espalhar qu’a belhota era biúba dum coronel de Braga ou de Bragança e tinha sido raubada por uns parentes do defunto. A minha cunhada Inlisa num é má pessaua, num desfazendo, mas é preciso dar-lhe sempre um descuanto, porqu’é faladeira demais. E já uma vez fuai o bão e o bonito por causa da língua dela que num lhe cabe na buaca. Foi uma bez qu’eu cheguei a casa e binha inté munto bem dispuasto, porqu’a bida num me correra mal nesse dia e bai daí eu inté tinha ido cão uns amigalhaços beber uns néguinhos na Trabessa de Passos Manuel pr’a festejar. Por esse tempo eu inté andaba um bocado à rasca, lá isso é berdade. Engraxaba na rua e num café foleirote, bendia lotaria e só de bez em cando fazia um negóciozito mais jeitoso, ganhaundo umas crauitas num trãosistor ou num Cauny de cãotrabando. Já num’alembra o qu’é tinha bendido nesse dia. Inté podia ter sido uma cautela premiada, qu’a gente nestas ocasiões recebe às bezes umas gorgetas. Isso já num’alembra.O qu’eu sei é qu’ia munto bem dispuasto para casa. Estaba até a brincar cão o Quim qu’era o meu catraio mais nobo, agora já num é, num senhor, agora o mais nobo é o Beto que nasceu há seis meses, e bai daí, a Rosa bota o caldo na mesa e diz-m’assim: "Ó Aufredo, eu num te quero avurrecer e inté nem aquerdito, mas hoje oubi assim a modos qu’uns zunzuns e q’ria que tu me dessesses a berdade". E bai daí, eu disse-l’e: "Desembucha, mulhere". E bai daí, diz-m’ela: "É qu’a bezinha... "e num acabau de dezer lá disso alembra-m’eu. "Diz lá, c’um raio!" berrei puando o catraio no chom e log’ali ele desatou numa berraria dos diabos. Ela pegau nele ao colo e cãotou-me. "Nun t’exalteres, home, que num é preciso, eu taumbém estibe p’ra m’exalterar mas num balia a pena. Qu’ria só que tu me dessesses s’era berdade ou não o que desseram a nosso respeito: que tu inda num pagastes ao merceeiro, ao Avílio, a nossa cuanta e que cando eu estaba p’ra ter o Quim andabas todo dengoso p’ra parteira, p’ra dona Maria do Carmo e taumbém aundabas aí atrás das bezinhas, qu’era uma pauca bergonha "Aí eu afinei, palabra qu’afinei. "Mas quem foi o filho da puta que te disse isso? " A Rosa puaz o catraio no berço e disse-me: "Foi hoje, no rio, cando estaba a labar a raupa. Oubi umas risotas e tirei a coisa a limpo cão a Amélia, a do Jerónimo. E bai daí ela cãotou– me o que deziam a teu respeito. E parece que quem avuzinava qu’era a Inlisa".

"Qu’Inlisa?" – perguntei eu, porqu’habia duas Inlisas no prédio, a sinhora Inlisa, qu’era a mulher do macánico, e a Inlisa qu’era minha cumadre, madrinha da minha filha Duares e mulher do Felismino trolha. E ela respaundeu-me que quem tinha alebantado tais coisas era a nuossa cumadre Inlisa. Eu perdi logo tuada a baua disposiçom e já num quis saber do caldo qu’a Rosa botara e disse-l’assim:

"Num é tarde nem é cedo. Bou já tirar tudo a limpo. E é já! " A minha mulhere inda me quis segurar, choramingaundo, "deixa lá, home. A palabras laucas, oreilhas maucas." E pegaba-me no braço, pr’a eu num ir armar. Seija lá o que fuar. Já m’ia lixando cão isso, iss’é berdade. Uma vez aundaba cão a caixa à beira da praia e um rapazote qu’estaba num grupo cão mais autros e autras, bira-se pr’a mim e atira-me cão esta: "eh, graixa, limp’aqui! " E eu que num gostei dos muodos dele, só l’e disse: "bai chamar graixa à puta que ta pariu "e tuodos e tuadas se riram, mas o gaijo é que num gostou da resposta e boltou a chamar-me "ó graixa de merda, se num engraixas indo te meto no aljube". E bai daí eu sinto o sangue a ferber cá por dentro e bou p’ra l’e dar cão a caixa nos cuornos, mas um dos amigalhaços dá-m’um encontrom e eu estendo-me ao cãoprido e eles tuados começam a incher-me de pãotapés, inté que chega um bófia e eu estaba com’um cristo.E depois o grande cabrom inda foi queixar-se de mim.

(págs. 137 / 138)

As luzes brancas acendem-se de novo. O guitarrista e o viola tornaram, pela décima sétima, vigésima quinta, ou trigésima segunda vez, nesta noite de monótona, chatíssima morrinha, a limpar e a rependurar os seus instrumentos macerados. São, neste momento, os tocadores convidados a beberem qualquer coisa, (o da guitarra aceita um wisky, o da viola pede uma cerveja), por um sujeito atarracado de cara escura e ossuda de embarcadiço, bastas suissas descendo até ao maxilar inferior, sentado na mesa onde se encontram e pagarão a despesa dois casais ingleses, duas rotundas, gastas, loiras, alvas mistresses e dois esgalgados, rosados, cachimbantes, sorridentes em uniformes próteses dentárias misters que o de suissas trouxe ao "Solar do Fado".

O das suissas conversa animado com os músicos e o perspicaz leitor perguntará a si mesmo porque está ele ali, porque pode acompanhar os estrangeiros, pois, para um cidadão os conduzir a lugares públicos, necessário se torna autorização especial da que outrora se chamava P.I.D.E. e passou a intitular-se D.G.S. por certo, o homem escuro e em mangas de camisa pertence àquela instituição ou tem algum documento a credenciá-lo como intérprete. Interpa, dirá ele, se não disser interpreta ou intrepreta. Ri-se em fortes gargalhadas com o guitarrista, traduzindo, num inglês das docas, o que o fez rir aos dois casais.

Então o leitor chama o empregado cantador do fado em que exprimia o ardente desejo de se tornar adusto calhau repisadíssimo por tacões de puta e pede a conta. Ele toma nota do consumo, vai até ao balcão, somando ali um caldo verde e um copo de maduro branco com um maço de cigarros, um café, um brande e a percentagem de dez por cento sobre a totalidade. Quando o leitor já está de pé, sobem para o estrado o guitarrista, o viola e o homem de suissas. Este dedica o fado que vai cantar aos seus companheiros de mesa e "a toda a gajada fadista que se encontra hoje no Solar do Fado".

O leitor está no vestiário, à beira da porta. veste a sua gabardina e sai. Talvez pense ou comente "que foda!", outro possível anagrama do fado.

(págs. 172 a 176)

Três horas da tarde e uma moeda de cinco escudos. Uma reles, miserável moedinha de cinco escudos. Nem mais um chavo. Um folheto distribuído na rua, anunciando uma revista teatral, ainda

não utilizado como papel higiénico, uma chave da porta, uma chave do andar, uma chave do quarto, um pente sem alguns dentes, com caspa, repugnante, um lenço sujo durante alguns dias, uma gasta carteira de pelica com papéis e cartões, e cartões e papéis sem importância, entre eles, o bilhete de identidade; uma esferográfica Bic-Cristal roída na extremidade e na carapuça, uma agenda-brinde, capa mole, três cigarros, uma caixa de fósforos, (para deitar fogo ao mundo? para me incinerar? para me aquecer?). Ó meus pobres bolsos só servindo para guardar esta pobre moeda, estas pobres pobrezas e as minhas mãos geladas. Mas estas mãos não são tudo, antes fossem, porque eu inteiro, embora muito magro, não me abrigo num bolso. Ando para aquecer. Mas o pior é a fome. A fome mais sabida do que toda a vaga sabedoria dos homens, não se deixa iludir sem mais nem menos. São três horas da tarde e circulo arrastando comigo o meu vazio estômago, pesando brutalmente. E doendo. E queimando. E furando. E subindo à boca, catedral da saliva. Por ironia atroz e mais que contundente, contumboca, a vitrina deste restaurante a entrar-me nos olhos. Ameijoas – Lagostins-

– Pescada – Postas – de – Boa – Carne – Frangos – de – Amarela – Pele – Arrepiada – Alheiras. Mudo de passeio. Quem não vê, não peca. As orelhas ardem de frio, as unhas enchem-se de cotão, o estômago é só cinza. Salsichas, paios chouriços, noutra montra. Não pareis, meus olhos. Não vos aglutineis. Não vos devoreis. Máquinas de costura. A vitrina dum oculista. A língua saboreando o palato, os dentes carregados de pedra. A boca cheia de nada. Uma tabacaria. Jornais, revistas, mulheres semi-nuas, nas capas coloridas. Uma sapataria. Um bazar. À beira do passeio, a carrocinha com o seu fumo azul, ela também azul nas suas tábuas velhas por onde o fumo se espalha. Paro. O homem tem barba de três dias, os beiços tumefactos, as mãos sujas de carvão de choça, uma boina puída na cabeça. "a como são? " pergunto. "cinco à coroa " responde, piscando os olhos por causa do fumo, sacudindo o assador de lata. Um chocalhar surdo, "três escudos delas, mas bem quentes". "estão boas, freguês". com um dedo de unha negra aponta o tabuleiro. Apalpo-as. "estão frias". "vai ter de esperar um bocadinho. " No carro, há uma manivela que põe em movimento. grita "quentes e boas!", mas ninguém pára a comprar castanhas. O homem deita uma mão de sal no assador e volta a agitá-lo. Depois, despeja-o no tabuleiro. "ora aqui estão bem quentinhas". "tão pequenas", protesto.

"pequenas, freguês? Ora essa!". Começa a escolher trinta castanhas azuladas que embrulha à toa num pedaço de jornal velho. Recebo dois escudos de troco e meto o pacote no bolso direito do casaco. Rodeio a praça pejada, no centro, de automóveis. Uma ourivesaria, uma garagem, um café, um restaurante, uma confeitaria, uma casa de modas, uma mercearia. Entro no jardim. Sento-me num dos bancos, à beira do lago. Tiro o embrulho do bolso, aqueço as mãos com ele. Poiso-o sobre as coxas, abro-o, extraio uma castanha, descasco-a, levo-a à boca. Está quente, um pouco crua, sabe ligeiramente a madeira, é boa. Uma mulher gorda, de xaile azul faz malha no outro extremo do banco. Olha-me sem interesse e volta a concentrar a atenção nas agulhas e na lã que vem, verde, de um novelo metido num saco de plástico e colocado a seu lado. Descasco outra. Tem bicho. Deito-a fora. Uma pomba azul-cinza, mais cinza que azul, da cor do fumo, da cor que o fogo pôs, em parte, nas cascas das castanhas, da cor da tarde, esta tarde de frio, cor de aço, a cobrir este melancólico jardim, aproxima-se, marcando no saibro os desenhos das suas patinhas, da castanha podre. Bica– a, saltando de uma pata para a outra, agitando, nervosa, o craniozinho penugento. Bica-a outra vez. depois, assustada com os passos duma prostituta dirigindo-se à cervejaria onde é camareira, levanta voo. Um velho de bengala e gabardina escura, lustrosa, apertada até ao pescoço, pede licença e senta-se entre mim e a mulher que faz malha. Outros velhos conversam noutros bancos. Reformados, doentes, pobres diabos para quem a vida se devia ter fechado há muito tempo. A pomba regressa em busca da castanha. Mas agora a castanha é uma massa esmigalhada, misturada com saibro, desde que sobre ela passou a roda dum triciclo de um dos miúdos que brincam no jardim, vigiados pelas mães ou pelas criadas que, às vezes, começam os namoros nestes bancos. Há sempre dois ou três rapazes a fumarem, a engraxarem os sapatos, a lerem jornais ou livros de cow-boys. E não é raro haver magalas nas suas fardas, cor de azeitona de Elvas. Além deles, é frequente sentarem-se nos bancos alguns provincianos de chapéus e samarras, com cestos e garrafões de vime, fazendo horas para a camioneta, ou para o comboio, ou sei lá para quê. Um triste, muito triste jardim que, no entanto, traz à memória, até pelo nome – S.Lázaro – os jardins de Paris vistos no cinema. (Há quanto tempo não vou ao cinema? Há mais de três meses... Há mais... há mais tempo..) Existiriam ainda os jardins de Paris? Dantes existiam. Até demais. Eu tinha decorado os seus nomes. Como quem se masturba, levava-os para a cama. Pronunciava-os antes de adormecer, muito devagarinho, amolecendo as sílabas na boca, tentando agarrá-los no sonho, encontrar-me lá, neles, mesmo dentro do sono. Agora até esses nomes esqueci. Tulherias, Parc Monceau... não me recordo de mais nenhum. Os outros velhos riem-se. Este faz, lentamente, com os dedos nodosos, roxos e trémulos, um cigarro. Distribui com extremo cuidado o tabaco que retira duma caixa amolgada de metal branco. A mulher enrola o pedaço de malha nas agulhas, mete tudo no saco de plástico, ajeita o xaile, levanta-se. Cinco ou seis castanhas eram podres, mas a pomba não voltou. Regressou com certeza ao seu ninho situado talvez junto dum dos pilares de pedra do claustro da Biblioteca Municipal, ali em frente. Sei lá se este pobre velho não andou a apanhar pontas no chão para conseguir o seu tabaco. É o mais certo. Agora lambe devagar a extremidade da mortalha. As castanhas são boas para aquecer o estômago, mas provocam uma sede dos diabos. Algumas aderiram a dois queixais furados, fizeram-nos doer. Foi com um esforço danado que consegui, com a unha e a carapuça da Bic, tirá-las dos buracos. Sacudo o pedaço de papel de jornal com várias cascas. Aliso-o. O velho acende o cigarro. Um cão vadio, preto e branco, pára um momento diante das castanhas podres, rejeita-as reinicia a sua marcha, de focinho pendente.Roma está a ser corroída pela poluição. APODRECIMENTO – SEM SAÍDA – MONETÁRIA DE CONTOS – EO DO SINAI – lorar o deserto egípcio. Viro o papel nos dedos. No cimo, duas fotografias rasgadas. Dois queixos, um ossudo, de homem. Colarinho, gravata, casaco. Outro, sem dúvida, de mulher, mais cheio. Blusa a apertar com um laço no pescoço. Dois nomes por baixo: Francisco de Oliveira, Lucília Fernandes de Oliveira. NUM DESASTRE DE VIAÇÃO EM ESPANHA – FALECEU UM CASAL DESTA CIDADE. Amarfanho o papel. Atiro fora a bola que fiz dele. Levanto-me. Passo pelo homem da balança. Ele olha-me e agita, sem entusiasmo, a campainha. Quanto ganhará por dia o desgraçado? Está sentado, de ombros vergados, num banquinho ao lado do aparelho do qual pende um letreiro impresso garantindo a exactidão e anunciando o preço da pesagem. Aqui não há fotógrafo. Eu podia vir para cá com a máquina, tirar fotografias aos namorados, aos provincianos "uma lembrançazinha do Porto para mostrar à família". Também podia empenhar a máquina...e que iria fazer? E que estou a fazer? Tenho os pés gelados. Arrependo-me de ter gasto o dinheiro em castanhas. Podia ter ido a um tasco. Uma sopa e um copo, um ou dois bolos de bacalhau e um copo, uma isca de fígado, uma sande de queijo, qualquer coisa mais substancial, menos indigesta e que não fizesse tanta sede. Dois paus. Dão para um café. É isso. E um copo de água. Ou dois. Por enquanto, a água ainda não custa dinheiro.


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