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O PARQUE DOS LAGARTOS
(1981)
(págs. 43 a 45)
Uma vez por outra, e isso verificava-se principalmente após a chegada de novos internados, quando, entre as cinco e as seis, se preparava para deixar as instalações do hospital e o seu gabinete, o médico da nossa ala dava uma volta pelas enfermarias.
Perguntava como íamos, se tudo estava a correr pelo melhor, procurando lembrar-se dos nomes para utilizar vocativos ou incidindo o olhar nos cartõezinhos que, encaixilhados sobre as mesas-de-cabeceira, nos designavam. Outras vezes, avisava que, no dia seguinte, haveria exame médico
os internados chamavam-lhe "passagem de modelos "
para dois ou três, no ginásio, às nove horas. Tinha de verificar os progressos de cada um e aguardava que os mesmos fossem consideráveis, acrescentava amavelmente com dentes fortes e brancos de não fumador.
Era um indivíduo solteiro, dos seus quarenta e cinco anos, de boa figura, aspecto saudável, braços fortes e mãos trigueiras com uma leve penugem loira de quem pratica desportos requintados: ténis, vela, hipismo. Vestia bem: impecáveis camisolas evidenciando boutiques de luxo e altíssimos preços, camisas de seda bege com monograma bordado, discretas gravatas regimentais, blasers bem talhados com botões de metal, sapatos afuselados em pele de crocodilo e à sua passagem deixava sempre um halo ténue e seco de verbena ou almíscar.
Sentava-se à vontade, as mãos atrás do corpo, aos pés das camas ou naquela tábua de madeira corrida por baixo das janelas
escrivaninha, estante, depósito de objectos de ocasião.
Enjoado com o fumo que os meus cigarros ou os do Sr. Herculano tinham deixado no ambiente, logo, porém, se levantava abrindo um pouco a janela e franzindo o nariz.
Ai, não sei como os senhores conseguem respirar aqui dentro. Isto faz muito mal, intoxica as pessoas. Dá cabo dos brônquios mesmo dos que não fumam. de resto, como podem verificar no regulamento, não é permitido fumar nas enfermarias. Mas não é por isso. Eu até fecho os olhos a essas coisas. É por ser de mais. Tudo o que é de mais é erro, pois não é, senhor Ferreira?
O Sr. Ferreira sorria, mas não chegava a responder-lhe. Ficava geralmente atarantado com a presença do médico, como um escolar subserviente na presença do mestre.
"Bom, meus senhores, então até amanhã", despedia-se o director clínico, alcançando em largas passadas a porta. "Não lhes tomo mais tempo." E desaparecia, deixando transparecer na sua pressa que, saindo dali no seu "dois cavalos" vermelho, iria imediatamente guardá-lo na garagem da sua moradia para de lá partir no seu Porsche metalizado para o clube de golfe, para o martini com gim do aperitivo, para o seis-meia-noite em qualquer embaixada, para o animado dînner en ville em mansão de industrial ou restaurante chique, em que brilharia, evocando a sua estada de cinco anos nos States, onde se especializara em medicina recuperatória.
Filho da puta do maricandeiro
rosnava o Aniceto quando ele nos deixava.
Ó senhor Herculano, dê cá um cigarro dos seus. Quero tirar daqui o fedor deste gajo.
E começava a fumar como um sapo, sugando vertiginosamente o fumo e expelindo-o imediatamente sem retirar o cigarro da boca.
Depois, voltava-se para o Sr. Ferreira e repreendia-o:
E você, senhor Ferreira, não soube dizer nada ao fulano? Ficou para aí calado que nem um rato.
Que queria você que eu lhe dissesse?
perguntou o Sr. Ferreira, brusco.
Sei lá. Qualquer coisa. Uma patacoada qualquer só para o chatear, para lhe abater as peneiras.
Dissesse-lhe você
retorquiu o Sr. Ferreira, maldisposto.
Também aí estava.
Foi consigo que ele falou. Que se fosse comigo, eu cantava-lhas. Ai que não cantava. Mas a mim não se dirige o gajo, não senhor, que já deve saber muito bem da marca que eu sou. Doutorzinhos destes a cheirar a puta não me metem medo. Como-os todos os dias ao pequeno-almoço.
Pois que lhe faça muito bom proveito
ripostou o Sr. Ferreira com mau modo, pondo a funcionar a sua cadeira de rodas para se dirigir ao refeitório.
(págs. 53 a 58)
O átrio era um rectângulo espaçoso com os lados maiores de vidro e os menores de tijolos vidrados. Em frente à porta principal por onde, segundo estipulava o regulamento, as visitas deviam entrar e sair, havia um jardinzinho com uma estátua de bronze representando um homem libertando-se dos laços que o tolhiam, à beira de um lago quadrado rodeado de vasos com plantas e relva bem aparada. Era apenas um jardim decorativo. Os internados desfrutavam de outro, com árvores e parques relvados, que se estendia em redor do edifício, uma ampla e bem lançada, em três corpos, construção hospitalar, feita, segundo diziam, sob a supervisão dos americanos, que ali tinham sido também chamados para instruir os técnicos na fabricação e na adaptação às próteses de que, em pleno período da guerra colonial (um pequeno padrão de granito erguido à entrada, com algumas letras de metal recentemente destruídas, evocava ainda a inauguração do estabelecimento pelo presidente da República, almirante Américo Deus Rodrigues Tomás), os soldados com os membros mutilados careciam, para não terem de ser enviados para a Alemanha, o que se tornava muitíssimo mais dispendioso.
No átrio espalhavam-se junto às paredes de vidro alguns sofás de napa preta à beira de vasos com ficus, begónias e outras plantas.
Quando fazia sol, os lagartos surgiam, gordos, de palmo, sobre a erva do jardim interior. Então, o Sr. Herculano dizia, apontando com dois dedos nodosos, queimados de nicotina, que seguravam o cigarro: "Olhe ali um lagarto. Está a vê-lo? "Mal eu dava pelo animal, ele voltava a dirigir os dedos noutra direcção e exclamava, excitado: "E outro além. " E continuava, com um deslumbramento infantil. Chegavam a divisar-se seis ou oito, extremamente estáticos, com os largos pescoços erectos, os olhitos atentos, lembrando miniaturas de solenes dragões ou plácidos bichos antediluvianos, catando entre as ervas insectos ou perseguindo-se (jogos de amor?), velozes.
O Sr. Herculano contava casos de cobras e lagartos. Na sua terra, um tipo qualquer, há uns anos, convidara uns amigos para uma caldeirada de enguias, petisco muito apreciado na região (nanja por ele, Sr. Herculano, que não gostava de peixes sem escamas, nem enguias nem lampreias iam à sua boca, não senhor), e, depois de todos comerem como brutos, o homem, parece que tinha dedo para a cozinha, o diacho!, declarara-lhes terem comido cobras apanhadas por ele. Os outros não queriam crer. Era uma pinga a mais a fazê-lo dizer aquelas maluquices. Mas o sacana do tipo, para o provar, tivera a distinta lata de lhes mostrar, triunfante, as peles dos sáurios. Houve quem ali vomitasse de um jacto tudo o que comera. Um queria matar o engraçadinho. Outro passou a sofrer continuamente do estômago e ainda jura vingar-se do sujeito. O homem que oferecera o almoço tivera mesmo de abandonar a povoação, receando o furor dos convidados.
O Sr. Ferreira, por sua vez, narrou o facto de há alguns anos terem comido numa herdade alentejana, propriedade de um seu amigo caçador, uma excelente sopa de cobra feita pelo caseiro. Uma autêntica delícia, que suplantava de longe a canja de galinha e não lhe fizera mal nenhum, antes pelo contrário, lhe soubera divinalmente, continuava, piscando-me o olho e desfrutando a cara enjoada do pescador. "E não dizem os entendidos que não há nada que se compare às coxinhas de rã, às sopas de tartaruga e mesmo aos caracóis que eu, por acaso, adoro?"
Numa careta, o Sr. Herculano cuspinhou para um vaso e resmungou: "Catixa!"
Eu não disse nada. Estava totalmente obcecado por aquela palavra tilintante que me ocupava a garganta e todo o pensamento, tão ligada aos lagartos como a oponibilidade dos dedos dos membros superiores aos homens. Por outro lado, o facto de existirem ali lagartos era um contraponto irónico ou cínico? Não, não passava de um fenómeno sem qualquer nexo de causalidade. Cresciam ali porque havia erva, humidade, condições propícias, sem qualquer outro propósito. Sem contraste nenhum. Comiam, assumiam atitudes heráldicas, eram decorativos, serviam de pretexto às conversas dos doentes e quando, por azar, perdiam a cauda, desenvolviam-se por cissiparidade. Cissiparidade era uma palavra rítmica, com um certo poder encantatório como allegro, vivace, adagio, pizicatto, mas um tanto atroz, não tinha ali espaço adequado e coibi-me de a pronunciar.
Passavam ali internados nas suas cadeiras. Um rapazinho com ar raquítico e triste, sem braços, o pé esquerdo chegando apenas ao outro joelho, uma rapariga gorda, de lábios grossos e seios grandes, rapazes novos, de barbas, imprimindo velocidade às rodas ou inclinando-se para trás, equilibrando-se arriscadamente nos assentos, atingido que fora o único ponto de apoio possível, um tipo magro, de cabelos grisalhos azulados por qualquer produto, empertigado. Esse era-me indicado por uma piscadela de olho do Sr. Herculano. "Este gajo já esteve na nossa enfermaria. Antes do preto era ele quem lá estava. É retornado, parece, um fistor do caraças, o filho da mãe. Todo cheio de prosápias, sabe? Muito senhor do seu nariz, com umas filosofias muito esquisitas." Sorria. "Uma noite o Aniceto veio de casa assim um bocado bem-disposto. Satisfeito por ter estado com a família, a mulher e as miúdas, e talvez com uma pingoleta a mais do vinho da terra dele, que me garante ser uma especialidade. Este cavalheiro começou a chateá-lo, a mandar vir com ele, a azedar-lhe a digestão e, vai daí, o Aniceto não esteve com meias medidas. Atirou-lhe ao focinho a chávena de chá da ceia." Dava uma gargalhadinha, como se revisse, regalado, a cena relatada, e baixava a cabeça coberta com um boné azul, contemplando a ponta do cigarro. "Chamaram o médico para acalmar o Aniceto. Veio o doutor, que queria dar-lhe logo uma injecção par o pôr a dormir, mas o maroto do Aniceto começou aos gritos e a dar murros no ar como um danado, a dizer que partia os cornos ao médico, que já era um homem perdido e não tinha medo do que lhe pudesse acontecer e não levou injecção nem nada. Mandaram o retornado para outra enfermaria e depois é que foi para lá o Zeferino, o preto."
Por seu turno, o Aniceto relatar-me-ia, dias depois, o incidente. "O tipo é um convencido de merda. Olhe, um infeliz que não tem onde cair morto. Deve massa a toda a gente. Uma miséria! Mas isso é lá com ele, como diz o outro. O que é certo é que lá na sala estava sempre a chatear a malta. Nada estava bem para sua excelência. Dizia mal de tudo e de toda a gente, o raio do fulano. Que o hospital não prestava para nada, os médicos eram uns paneleiros incompetentes, as enfermeiras eram umas putas descaradas e volta e vira. Mal chegava ao quarto e via qualquer coisa em cima da sua cama, deitava-a logo para o chão, o desalmado.
Uma noite estava lá uma almofada minha. Pedi-lhe, com toda a educação, que ma desse, e o safado, bumba!, atira-a para o diabo mais velho. Ei carago! Deu-me cá uma fúria que me fez subir o sangue à mioleira. Vi tudo vermelho, como um touro na praça. Peguei na primeira coisa que tinha à mão e amandei-lha às ventas. Ficou o gajo a pingar chá pela fachada abaixo. E valeu-lhe eu estar assim, no estado em que estou, senão desfazia-o. Matava-o. Ai, se eu estivesse bom, fazia-o em migalhas. Ai fazia, fazia! Foi uma fita das antigas", dizia, rindo por entre os poucos dentes estragados, que lhe davam à boca um aspecto de ruína, a torná-lo mais velho. "Vieram por aí, de roldão, as enfermeiras, os enfermeiros, os ajudantes de enfermagem, todo o pessoal. Depois veio o doutor de turno, para me dar uma injecção, mas não deu nada que eu ainda estava cego de raiva e avisei-o logo: "Se você se chega a mim, parto-lhe a seringa nos cornos, ouviu? "E é que partia. Da maneira como estava..."
Da maneira como estava... da maneira como estava... Partia nada era o que partia. Lá garganta tem você e muita, mas eu já o conheço. Para mim vem você de carrinho
comentava o Sr. Herculano, a provocá-lo.
Partia, digo-lho eu
volvia o Aniceto, assanhado por reflexo.
Você estava aí e bem viu o que se passou.
O Sr. Herculano concordava com a cabeça e piscava-me, manhosamente, um olho. O Aniceto atirava-lhe uma travesseira, que o atingia no peito, toda a gente ria e o Sr. Herculano simulava uma fúria:
Ah, velhaco dum raio! Seu bandido! Fazer-me uma destas! Segurem-me que o estrampalho todo! Ah, se não me seguram, estrampalho-o todinho, palavra de honra! Nem a alma se lhe aproveita!
(págs.167 a 170)
Na véspera de partir, uma sexta-feira, Isabel Maria, que já se despedira de todos os doentes da ala, viera, depois do jantar, ao nosso quarto. À beira da cama do Aniceto, desejou-nos felicidades e rápidas melhoras. Ele disse-lhe que também ia ter saudades dela, e como era muito seu amigo, estava pronto a satisfazer-lhe os íntimos desejos.
Ora cale-se, senhor Aniceto, o senhor coitado, não pode fazer nada.
Posso sim, rapariga
respondia, sério, o Aniceto, dobrando as pernas magras com os braços.
Vais ver que posso. Esta noite vou ter ao teu quarto e meto-te isso dentro.
Oh, senhor Aniceto, não diga tolices
pedia a Isabel Maria.
Digo e faço
tornava ele, enquanto eu, o Zeferino e o Sr. Herculano sorríamos, o Sr. Ferreira, puxando para cima da cabeça com a mão direita o braço tolhido, reflectia na placa dentária um risinho discreto e o Sr. Joaquim casquinava em roncos umas gargalhadinhas sincopadas.
Tu estás sozinha no teu quarto, não estás? A velha que lá estava foi-se embora, não foi?
Ela respondia que a outra senhora tivera alta há dois dias.
Então é muito simples
continuava o Aniceto.
À meia-noite, vou lá ter contigo. Salto para a cadeira de rodas só com o roupão em cima do corpo, vou muito devagarinho pelo corredor fora, tu deixas a porta encostada e eu entro. Deitas-te só com as calcinhas debaixo da roupa, eu pulo para a tua cama, dou-te uns beijinhos na boca, uns beijinhos nos biquinhos das mamas, tiro-te as calcinhas e depois é que é bom. Gozamos toda a noite como gente grande.
Ai, senhor Aniceto
exclamou a rapariga, erguendo uma das suas mãos aleijadas até diante dos olhos e fechando-os com força.
Não me diga isso que me mete medo.
Não meto nada, filha, o que eu te meto é outra coisa na passarinha.
O Sr. Joaquim soltava um ronco mais forte, fazendo estremecer a sua cama, e nós todos não contínhamos uma gargalhada. A Isabel Maria protestava que se o Sr. Aniceto continuava com aquela conversa se ia embora.
Vais nada, Isabelinha, vais nada. Temos é de combinar isso muito bem combinadinho para nada correr à discrepância. Olha lá, que horas são no teu relógio? Ah, tu não tens relógio, já me tinha esquecido. O Henrique levou-o mas não te regulou os ponteiros aí de baixo, pois não? Vê lá bem, não me enganes. Eu não aprecio fruta já tocada.
A Isabel Maria abanava lentamente a cabeça, numa crítica muda.
Mas não faz mal
continuava ele, consultando o relógio de pulso
o meu está certo. São agora nove e meia em ponto. Daqui a duas horas e meia estou lá, podes ter a certeza. Arranja-te como eu te disse e garanto-te que vais conhecer a felicidade.
Oh, senhor Aniceto
contestava ela, zangada
, acabe lá com isso, senão não me deixa dormir. Fico cheia de medo e não durmo, e amanhã tenho de me levantar cedo.
Ah, não dormes não, isso é verdade. Vai ser uma noite em cheio. Um pagode, uma farra, um forrobodó
volvia o Aniceto.
Muca na catota!
explodia o Zeferino, excitado, como soltando feroz grito de guerra.
Sabe que mais, senhor Aniceto?
disse Isabel Maria.
Vou-me embora.
Mas não chegou a esboçar qualquer gesto para pôr em movimento as rodas da sua cadeira.
Espera aí, Isabelinha, ainda faltam duas horas e meia... Ainda é muito cedo
tornou, maliciosamente, o Aniceto.
Não me fale dessas coisas, já lhe disse
exclamou a rapariga, pretendendo dar à voz um registo de agressividade.
Olhe que a minha mãe contou-me que sangrou três dias e três noites consecutivas quando o meu pai a desflorou.
O Sr. Ferreira suspendeu as suas levitações e riu convulsionadamente durante uns instantes até o riso se confundir num ataque de tosse. Todos nós rimos. Mas o Aniceto, deixando de rir, continuou:
Podes crer que vou ser muito meiguinho. Quando te começar a magoar, tu escusas de dizer Aniceto. Dizes só Ani e eu tiro logo. E dou-te mais beijocas na boca e nas maminhas. Quando te apetecer, tu dizes: Ceto, e eu volto a meter com o máximo cuidado. Para não haver escândalo ou ditinhos, eu levo um desses plásticos que põem nas cadeiras debaixo dos urinóis para tu meteres debaixo do rabo e ninguém dar por nada. E, se der, dizes que andas com a menstruação e está tudo arrumado. Mas nem tens que dar satisfações a ninguém. Como te vais amanhã embora, fica tudo entre nós e acabou-se.
A Isabel Maria finalmente afastou-se, sorrindo e comentando:
O senhor Aniceto tem cada uma. É maluquinho de todo! Para o que lhe havia de dar!
Mas, no dia seguinte, constava que ela não dormira toda a noite à espera dele e que, quando foram tirar a roupa da sua cama, encontraram, entre os lençóis, uma toalha de rosto.
(págs. 241 a 243)
O mah-jong é uma espécie de dominó mais complicado, mais sugestivo, mais poético. Em vez de as pedras terem pontos, têm símbolos: bambus, ventos, flores, dragões, estações. Tiram-se as pedras e faz-se uma trincheira. E o que é afinal a vida senão um jogo incontável de símbolos; tatuagens, bandeiras, hinos, fardas, os emblemas, as siglas, os códigos, o esperanto, essa falhada linguagem universal, a linguagem manual dos mudos, essa comunicação táctil e acústica dos cegos, esses lugares-comuns tornados expressivos: a expressão corporal, a expressão poética, a teatral, a plástica, a cinematográfica. Não são símbolos também os títulos, até as profissões, as estrelas dos hotéis e dos restaurantes, o uso da gravata ou da camisola, as batas dos médicos, as togas dos juízes, os sinais de trânsito, o sistema morse? Para não falar ainda das matemáticas e dos seus números, das fórmulas das superfícies e dos volumes geométricos, das da física e da química, dos alfabetos e dos termos formados com as letras."
O Sr. Ferreira sorriu debilmente em lábios tristes, fatigado do uso excessivo das palavras, do peso irreversível dos anos, de quotidianas lutas em que fora vencido, que vencera, que julgara vencer, que perdera, dignamente ou não, que, quase podia garantir, ultrapassara definitivamente. Sofrera já dois ataques, resistira maravilhosamente a este último que o trouxera ao hospital "de bombordo tolhido", como ele aludia à paralisação da perna e braço esquerdos, mas que mais vida lhe estava destinada senão a que coubesse numa cadeira de rodas, se a mesma pudesse deslizar entre os corredores acanhados do andar que habitava; senão a que lhe fizesse lugar num maple ou numa cadeira, aguardando que dali o tirassem os braços da mulher e os da filha mais nova, os do genro e os da filha mais velha, quando, aos sábados, fossem jantar a sua casa; senão a que o deixasse dias inteiros, depois de se cansar de ler e de olhar para o tecto, a ressonar de borco na cama de casal? Senhor magno das suas carências, dono, por último, das suas limitações, vergou os lábios moles, agradado com as imagens que, naquele momento, lhe tinham ocorrido.
"Com as peças que tem, as que tira do monte e as que recupera e foram rejeitadas pelos outros, tenta fazer mah-jong, o que pode conseguir de diversas maneiras, efectuando combinações variadas."
Voltaria alguma vez o Sr. Ferreira a jogar o mah-jong? A tentar concentradamente ardilosos conjuntos, com as gastas pedras de marfim ou plástico? Interessar-se-iam ainda os seus familiares, exceptuando a sua filha mais nova, por tal divertimento? Não teria já a sua mulher vendido, dado ou deitado ao lixo as caixas que ele, em tempos, comprara num leilão e a um marujo?
Os dentes da tarde, porque não dizer do tempo, da marcha progressiva das horas indiferentes ao presente e ao passado, desenvolvendo. triunfantes, o futuro, tinham já devorado as cores das florinhas crescendo, lá em baixo, nos canteiros, misturavam os verdes num só, sombrio, eliminavam os contornos das casas e dos grandes edifícios que se erguiam ao longe, faziam com que a terra entrasse pelo mar, se é que o mar existira alguma vez. Também as nossas sombras se tinham esbatido no chão com as das cadeiras e as das camas, monstrozinhos pacatos para não lhes chamar sepulcros episódicos, cofres passageiros dos nossos suores, sonhos, excrementos, esperma, esperança, sonos largos, insónias.
"Uma sequência de sete pedras de uma família mais sete de outra com igual numeração chama-se "dois feitiços". Podem fazer-se várias sequências e outras figuras chamadas "mão vermelha", "verdinho", "cabeças", "vendaval", "tesouro escondido", "fulminante", "lua perdida no fundo do mar ou do poço."
A face do Sr. Ferreira já não se divisava. Era mole, incaracterística, como a de um peixe, de um verme, de um lagarto. Talvez também o Sr. Ferreira tivesse deixado de existir. Fosse uma voz sem corpo, na treva, no fundo do poço.
Um ajudante veio acender a luz. Quase se assustou com a nossa presença ali, entornada na sombra.
Deu as boas-noites e fechou com força as persianas.
Junho, 1976
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