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MESOPOTÂMIA

(1984)

(págs. 19 a 23)

O reimigrado José Guilherme, indivíduo magro e muito alto, de vasta inteligência, não menor ambição nem mais baixa fortuna, chegado ao Porto e adquirindo perto à Feira das Caixas um palacete já construído por decadentes fidalgos de velha cepa, ao invés dos restantes "brasileiros "que por costume tinham mandar edificá-los, miúdas vezes com graves prejuízos da estética, em arrebicadas cópias dos solares franceses, fora pelo poder das suas libras logo feito visconde. Por via pecuniária ainda, seria conde mais tarde. Não satisfeito, porém, com os títulos recentes outorgados à espórtula de finíssimas libras em ouro mais refulgente que o dos paços, mandara ao seu brasão acrescentar uma quase despercebida minúcia que genealogicamente o fazia entroncar na bastardia de um dos primeiros reis de Portugal e casara as três filhas que tivera de sua segunda mulher, Ambrósia Rita, com fidalgos antigos. Um deles era gago e par do reino. José Guilherme, desejando uma vez comenda rara concedida tão-só a varões ilustríssimos, a qual considerava digna dos seus méritos – fundara já um hospital e um instituto escolar com aulas de Português, Francês, Inglês, Geografia, Comércio, Desenho, lavores, piano e canto; recebera em obras de escritores consagrados que, em geral, escarneciam os "brasileiros "o pomposo título de mecenas; odes e sonetos eram-lhe dedicados nas gazetas; a sua bolsa não se fechava a obras pias; hospedara em sua casa um príncipe real aparentado com os Braganças; no Brasil, de onde fizera trasladar os restos mortais da sua primeira mulher, Belmira Cândida, para o jazigo de família que mandara erigir em Agramonte, era conceituado e benquisto não apenas da colónia portuguesa, entregando-lhe vinte contos de réis em moeda forte, respondendo à subscrição que promovera a favor do instituto, mas ainda dos meios financeiros e até da Corte – forçara o genro a solicitar-lha. Após o discurso de petição ordenado de encomiásticos, posto que de repetidas sílabas, louvores ao ilustre fidalgo, um membro da oposição proferiria um comentário mordaz: "Ao insigne deputado parece que lhe tarda a fala", ao que o par do reino, tartamudo mas enérgico, retorquiria de chofre: "Ta... ta... tarda, mas chega", conforme, aliás, se confirmaria com a concessão da venera.

A avó Lucrécia não deveria deste modo tão ligeiro referir-se ao seu conceituado avô materno. A recordação é uma maneira de modificar o passado, diria Borges. A recordação seria também uma forma de o projectar altivamente em magníficos planos finalmente libertos dessa ganga mesquinha que o seu próprio tempo e as suas circunstâncias poluíam.

A avó Lucrécia amenizaria as tintas não aprofundando os tons, quedando amavelmente ao rés das aguarelas discretas a que um salzinho de contraste trágico conferia mais realce. Descreveria com cópia de pormenores as festas dadas no seu palácio, as suas incursões à Ribeira, onde, depois da missa dominical, o conde distribuía aos pobres dobrões e libras de ouro, referiria o luxo das suas caleches, evocaria, saudosa, o garbo espaventoso dos seus cavalos tratados pelo Bruno que, no incêndio do Teatro Baquet, naquela fatídica noite de Março de 1888, aquando da récita da Gran Via, em benefício do actor Firmino, conseguira escapar, mas se perdera da mulher que, por sua vez, fugira ao fogo por outra saída. Desesperado, o Bruno regressara, forçando, cego de obstinação, todas as barreiras que a guarda cívica e os populares lhe opunham, ao interior do edifício, e lá se finara entre as demais oitenta e sete vítimas sepultadas sob um montão de sucata de ferros retorcidos num coval comum no Cemitério de Agramonte, a pequena distância do jazigo do avô. Inventariaria as obras de arte, quadros, tremós, esculturas, serviços de porcelana bávara de Nümphenburg, camas de pau-santo, papeleiras Gonçalo Alves, gatos de porcelana da China Hang-Hi que um seu tio-avô, João Alfredo, irmão mais novo de José Guilherme, que este fizera educar nos mais prestigiosos centros europeus, Paris, Londres, Berlim, Bruxelas, Viena, cavalheiro de fino trato, gosto requintadíssimo e superior cultura, um belíssimo, gentilíssimo homem com barba ruiva, à Guize, botas à frederica, plaid escocês com quadrados verdes e castanhos, trazia de França, de Itália, do Oriente. Rememoraria também o porte donairoso do conde, um príncipe da Renascença reencarnado no século XIX os seus olhos de esmeralda, as suas mãos sem pêlos, a sua voz profunda mas cantante como um rio indomável, as suas tufadas suíças em que ela, a sua neta predilecta, nascida em sua casa de imensas portas com puxadores em maciça prata, afogava, terna, os dedos miudinhos.

Traçando, aos fins das longas tardes que da terra ao céu enrubesciam, com a ponta rombuda da sombrinha roxa incertos arabescos sobre o chão de saibro, a avó Lucrécia calava-se de súbito, como se uma lágrima engolida ou o esplendor remoto da infância lhe dilacerassem a garganta.

Alguns distintos cavalheiros, de fatos alvadios e lacinhos de seda, sapatos meio brancos meio pretos com simétricas rosáceas pontilhadas nas biqueiras, comprimiam merencoriamente entre o polegar e o indicador da fina mão direita cujo anular ostentava o brasão a cana do nariz e, suspirando fundo, solidários com a dor saudosa da avó, dobravam, redobravam, voltavam a dobrar as longas páginas de O Século ou de A Acção, que encaixavam num bolso do casaco, ou batiam morosamente as pontas dos cigarros nas faces reverberantes das cigarreiras de prata, enquanto as suas mulheres, ao toque da sineta anunciando o jantar, arrumavam, muito pesarosas, nas saquinhas de crochet, os trabalhos de renda ou marcavam, vincando-lhes um canto, a página interrompida de um romance de Stephan Zweig ou Guido da Verona.

Quando, com as demais damas, a avó entrava no sumptuosos elevador, talvez o fantasma do seu tio-avô João Alfredo a acompanhasse. Ela dizia sempre que ele morrera muito novo, vítima de tremendas hemorragias que o secavam, lhe puxavam as carnes e, dia a dia, as toldavam. Os médicos não chegariam a detectar a enfermidade, inclinando-se para rara maleita contraída no Oriente ou, muito vagamente, para um tumor maligno no estômago. Finando-se aos trinta e dois anos e sendo sepultado no alçapão do jazigo onde repousava já a sua cunhada Belmira Cândida – o conde reservara a parte superior para os túmulos em cantaria que guardariam as suas ossadas e as da segunda mulher– as más línguas troariam venenosíssimas, contra o "brasileiro", que, suspeitando um romance entre João Alfredo e Ambrósia Rita, envenenara o irmão. O sangue arrastava o sangue, o mistério repercutia-se em galeria de uivos. Havia até quem ousadamente proclamasse que os dois obstáculos à fortuna e à honra do conde se encontravam da mesma forma e pela mesma mão privados da vida sob as brancas lajes do jazigo de Agramonte.

Mas a avó Lucrécia não se deteria com estranhos em casos tenebrosos ou infamantes rumores, mais a mais em vilegiatura, mais a mais em tão elegante e tão amena estância.

Mudava de vestido (mudar de vestido era um cerimonial delicado de divisão do dia), espalhava o pó-de-arroz na cara, passava nos lábios finos um pouco de bâton, retirava do queixo com a pinça um pêlo enraivecido, com a pinça depilava as sobrancelhas, com o vaporizador derramava perfume sob as orelhas e pelo pescoço, enfiava escravas no pulso esquerdo, colocava e retirava, hesitante, os anéis no anular e no mínimo de uma das mãos e um só, muito discreto ou muito valioso no mindinho da outra. E acertava com as pontas dos dedos o vestido de seda – tinha de o mandar brunir, estava castigado da viagem na mala – face ao espelho do imponente, mastodôntico guarda-fato. Reconhecia ainda na imagem devolvida um corpo que sessenta anos não tinham degradado. E a consciência disso era-lhe naturalmente cara, com o vago aroma da essência que se espalhara pelo quarto. Ainda no Inverno anterior descendo a Rua de Santo António, um homem perseguira o seu rastro. E ela, para não quebrar o sortilégio, erguera até ao colossal nariz a gola forrada a astracã do seu casaco comprido. Às vezes, receosa de perigar em imaginação, parava em frente de vitrinas idiotas destituídas para uma senhora de qualquer interesse, máquinas de escrever, artigos desportivos, peças para automóveis, ou, com mais audácia, voltava a cabeça, constatando com gáudio tão adolescente como pecaminoso que o cavalheiro persistentemente pautava os seus passos pelos dela.

Ao chegar à Praça que a avó dizia ainda Nova, em vez de lhe chamar da Liberdade, menos pelo frio picante de Janeiro ou Fevereiro a penetrar-lhe os poros que pela sublime excitação, sentira mesmo febre e um zumbido contínuo de abelhas furiosas nos ouvidos.

(págs. 135 a 139)

Não, não quero gin, bom barman de não pior memória. Prefiro uma cerveja. Fresca, evidentemente. Com um pouco de espuma, sim, se faz favor. A cerveja sem espuma não me sabe a cerveja mas a vinho verde. De uma maneira geral, não gosto de vinho verde. Talvez por ter tomado gosto ao maduro tinto (meio copo) já na quarta classe, aos almoços da avó. Um copo inteiro, quando, frequentando o liceu, no intervalo das aulas até à hora do estudo no colégio (das cinco às sete e meia) ia merendar a casa dela: ovos mexidos muito húmidos, pão com manteiga ("mais manteiga que pão", comentava Engrácia, em dentes podres rindo), no fim, uma chávena de café com leite.

Vinho maduro tinto, Alvaralhão, em garrafões comprados por Engrácia na mercearia próxima. Servido à avó na copa, secretamente, quando o filho mais velho, coarctando-lhe comedorias, bebedorias, vigiando-lhe inquisitorialmente as dietas, se instalava à mesa, beliscando-lhe moles cortinas de pele caindo-lhe dos braços e recontando-lhe as pulseiras e os cachuchos que o pai de Tiago resgatara.

Talvez com o sono do velho Alvaralhão, Engrácia não despertasse ultimamente tão depressa ao bruto choque das pancadas de Molière soltas pela tranca no tecto que a cobria e a avó Lucrécia se sentisse mais desprotegida, receando mesmo, em queixas reiteradas ao seu filho Guilherme em que referia a criada como estupor e bêbeda, morrer ali sozinha, sem ninguém, como um rato, uma rata, uma ratazana. Como um gato, o Gold, como um longo suspiro, um grito sem eco.

Muitas manhãs, Engrácia nem sequer se levantava a horas para chamar o filho, que desistira da escola industrial e a quem o padrinho conseguira emprego no escritório de um armazenista de produtos químicos. A patroa tivera de comprar um despertador para o rapaz não perder o eléctrico.

A avó Lucrécia não podia conceber que Engrácia adoecesse ou estivesse doente, tivesse sono, cansaço, gripe ou crises hepáticas, não conseguisse adormecer ao ritmo das ratas, frequentasse as tascas quando ia às compras, ingurgitasse alguns decilitros de Alvaralhão, após ter limpo o tampo do fogão a lenha, ou engolisse mesmo um copo de aguardente em que intumesciam e perdiam rubor gordas cerejas de saco.

Mas Engrácia chorava muitas vexes e, ao entrar, Guilherme suportava-lhe as queixas e amansava-a, pois a pobre criatura ameaçava ir-se embora, não poder mais com aquela vida, não aguentar mais tempo um tão frio desprezo.

Ambas as mulheres iam alimentando um ódio que crescia, numa cumplicidade vesga que as mantinha presas uma à outra por fatais laços de subordinação que, às vezes, brevemente afrouxavam, como aconteceu, por exemplo, quando Paulo Guilherme trouxe para casa, no bolso da gabardina, um cachorrinho de poucas semanas, amarelado (verificar-se-ia mais tarde que era uma cadela), a que ambas se afeiçoaram e a quem a avó dera o nome de Sweet.

Quando a avó Lucrécia, a um mês de cumprir os seus oitenta e cinco anos (no galinheiro, para o jantar de festa, engordava a olhos vistos um peru), começou, de facto, a morrer, embora o seu filho

Guilherme não pudesse aceitá-lo, mesmo quando de Lisboa o irmão lhe escrevia cartas sucessivas, a fim de se inteirar pormenorizadamente da situação financeira da mãe, ameaçando interditá-la se ela tivesse feito testamento beneficiando o afilhado, Engrácia não teve um minuto de descanso. Foi ela, comovida e perplexa, que, algumas horas revezada por D. Madalena e pela mãe de Tiago, se manteve dia e noite à sua cabeceira, com a firme determinação de um valido que tudo vai perder, atendendo-lhe os mínimos desejos, cobrindo-a e descobrindo-a, colocando-lhe a aparadeira, ministrando-lhe os medicamentos dos opacos frascos e das caixas de cartolina branca com listas variegadas e exóticos dizeres que enchiam a mesinha de cabeceira, consolando-a, tentando iludi-la, recebendo-lhe até sem azedume os últimos rompantes.

A avó Lucrécia sabia que ia morrer, tinha a certeza da vida a abandoná-la e isso tornava ainda mais penosas as longas horas ao seu lado.

Quando, esfalfada, já de madrugada, sentada numa senhorinha aos pés da cama, Engrácia cabeceava, a patroa gemia debilmente: "Engrácia, vou morrer." Com pouca fé a criada ripostava que não, pedia-lhe para não pensar mais nisso e, a espalhar o sono, compunha o cabelo, com uma travessa presa invariavelmente sobre o puxo. Mas a avó Lucrécia não aceitava paliativos. Apropriara-se plenamente do seu fim, agarrava-se a ele com os derradeiros alentos, entrincheirando-se na morte como num reduto exclusivo, parecendo mesmo querer morrer, ela que sempre se apegara ardentemente à vida. Mas não. Assumia antes uma atitude semelhante e dominadora: a condução da sua própria morte. Não podia admitir que ela lhe fizesse negaças, indo e vindo, abrindo-se e fechando-se como corola rara. A morte era tão séria como a vida. Não podia tornar-se um jogo de escondidas, uma pantomina, uma meia-tinta.

Ciente do seu estado, declarava, convicta: "Vou, vou morrer", suspirando com um certo desfrute:

"Mas ainda gozei um bocadito", como se essa compensação defraudasse um tanto a tenebrosa parca.

Mais tarde, já vestido de luto, acentuando-lhe ainda mais a espectral magreza ("Homem magro que não é de fome, não é homem é o diabo!", dizia fraquentemente), o pai de Tiago comentaria melancolicamente: "Gozar? Coitada dela! Quando? Como? Onde? Com quem? Nessa viagem ocasional com o meu pai a Itália, num navio da marinha mercante? A educar-me e a criar os filhos do tio Clemente? A passar até fome, a espezinhar o orgulho, a vexar-se ao pai, à irmã, ao cunhado, a engolir mares de lágrimas? "

Tentando por consolo acrescentar um momento omitido de vaga felicidade, Maria da Luz lembraria os quinze dias que a sogra passara em Paris com os dois filhos, havia muitos, muitos anos.

Então, a avó Lucrécia, vítima de um peixe pouco fresco ou do abuso de molhos e mostardas, fora, em plena rua, acometida por súbito transtorno intestinal e, aflita, correra ao hotel em que se aboletavam, enfiando, lívida de suores frios, pelo ascensor dirigido por um jovem groom e, em transe de não deter a diarreia, exasperada com a lentidão bovina do caixote metálico, ordenaria, desesperada, ao rapazinho estupefacto: "Vite! Vite! Vite! "

Mas dariam as viagens, as mudanças, prazer algum à avó Lucrécia? Da última vez que o filho primogénito a convidara para passar alguns dias com ele e a fora esperar a Santa Apolónia, logo ao apear-se ela lhe perguntara em que dia regressaria ao Porto, o que profundamente havia de irritar Paulo Jacinto, retorquindo-lhe com um gelo sibilino nas palavras: "Se quiseres, minha mãe, podes aproveitar o mesmo comboio que te trouxe. "

Que gozos, pois, os da avó Lucrécia?

Subitamente, na noite do velório, passada na capela mortuária da Igreja da Ordem, que o bisavô ajudara a fundar, o tio insinuaria, levantando para sempre a suspeita e o crime, que a culpa maior da separação dos pais só cabia à defunta.

Agarrada à morte, com a determinação pragmática e fatal de que ela chegava no momento exacto, de que o seu destino estva irremediavelmente cumprido, de que nada mais desejava, hora ou lugar, a avó Lucrécia arrumara conscienciosamente uns restinhos de vida. Havia ainda umas contas (se as facturas vinham pelo correio, a avó não abria os sobrescritos), quando morresse, deviam ser entregues ao seu filho Guilherme.

Engrácia pedira-lhe tréguas, calma, ainda havia de viver muito tempo para as pagar.

Indignada, a avó Lucrécia afastara com desperdício de gestos as roupas do seu leito. Não podia aceitar, desaforo máximo, o império da vida a impor-lhe obrigações. Não era justo.

E negara-se a rezar por Pio XII, conforme o piedoso convite de D.Madalena.

Inquirira, um tanto absorta, um tanto sonsa: "Rezar por quem, D. Madalena?"

Responderia a vizinha que era pelo papa, que estava muito doentinho.

Mas a senhora D. Lucrécia, católica por tradição e convicção, zeladora do altar de Nossa Senhora das Dores, com cadeirão cativo junto ao altar-mor da igreja paroquial, com a morte a ocupá-la toda, enchendo-lhe as células e o hálito, não alcançava fé num homem doente como ela, fosse ou não fosse o sumo pontífice. "Pelo papa?... Não sei. Não conheço. Não rezo. Não me puxa. "

E morria. As lampadazinhas foscas dos seus olhos explodiriam em duas lágrimas pesadas que não deslizariam pelas feces. Suspender-se-iam brevemente ao rés das pupilas, escorregariam, lentas, até alcançarem os leitos dos imensos rios confluentes dos pés de galinha, desaguariam na floresta dos cabelos desgrenhados, havia muito não domados pela hastes do ferro de frisar, havia muito cor de chumbo. E morria. Às quatro menos vinte da manhã, uns instantes depois, dizia a Engrácia, de o peru ter soltado pela primeira vez, na noite clara, com estrelas de quilates imensos, uma Estrada de Santiago muito nítida e a Lua a esmorecer a luz da lamparina de azeite, um lúgubre pio prolongado, e de a Sweet, toda a gente sabia agora que se tratava de uma cadela rafeira, semi-rateira, de pêlo açafroado e em cio, ter longamente uivado e, em danação completa, se escapulir, encolhendo prodigiosamente o dorso, pelas grades estreitas do portão, para nunca mais ser vista. E morria. Levando consigo para todo o sempre a alma da Engrácia.

Porque Engrácia nunca mais seria a mesma.

(págs. 185 a 189)

Estava pronto, pensou, a engolir a tragédia, quando, lúbricos, os gestos do recepcionista do cachimbo, para lá do balcão, o chamaram com ânsia.

Em letras de outro tipo, com outra redacção, sob um retrato de sinais delidos, fotogravura por certo do bilhete de identidade que não servia a ninguém, sequer à morta, Tiago releu devagarinho, mastigando as palavras e simulando um total desinteresse, como se o caso se tivesse passado não já nos antípodas (tão perto), mas no mais remoto planeta da galáxia solar, a notícia de uma dama esganada por um jovem (vários indícios levavam a supor ou supunha a desenfreada imaginação do jornalista) marujo que, para a roubar, a assassinara, chegando, post mortem, a quebrar-lhe os dedos para se apoderar dos seus anéis (retirando da máquina fotográfica, abrindo-o à luz e atirando-o fora, ou queimando-o, um filme em que por algum tempo a sua imagem irrevelada, como em ventre materno, permanecera obscuramente?)

Os olhos imediatamente agitados, desbordantes, do recepcionista, condenando-lhe o claudicante soletrar, a enervante demora, a ausência de surpresa ou emoção. O seu antebraço estremecendo ritmadamente sobre o cabeçalho do jornal, como atacado pelo mal de Parkinson de que padecia a última nora de D. Madalena e terceira mulher do Patacão a quem Paulo Jacinto chamava a Bole-Bole.

Sílaba a sílaba, quase letra a letra, Tiago iria despojando de sentido as palavras que lia até elas lhe parecerem estrangeiras, provenientes de uma língua exótica.

Subia-lhe à cabeça solitária, como a rodeada pelo turbante branco do Sigamó da feira, a determinação obcecada com que Maria Adelaide que nunca sustentara preconceitos de estirpe, ironizava títulos e genealogias a ponto de desprezar sobrenomes de família e do primeiro marido para conservar, depois de viúva de Silvestre Maganinho, que encontrara morto na latrina, o seu apelido diminutivo, se encarniçara em dissipar suspeitas acerca de um tenebroso parentesco.

Num desses caprichosos dias primaveris que rompem sem sentido nenhum as crostas dos invernos, a cidade fora alvoroçada por inquietas vozes transmitindo um crime repelente cometido às primeiras horas da manhã nas pessoas de três pacíficos velhinhos que mantinham por hábito e dedicação a não menos idosos clientes uma pequena agência de contribuintes.

O assassino, um rapazote que em tempos fora seu empregado, matara-os um a um, com uma ferocidade controlada, desferindo com um cabo de ferro pancadas sucessivas sobre os seus crânios pelados como pecos limões. A seguir, viera buscar a gabardina que deixara guardada num café do rés-do-chão. Ela próprio alertara o gerente do estabelecimento, um sujeito de farta cabeleira ondulada, óculos e enormes dioptrias, farfalhudos bigodes que seria entrevistado, teria fotografia nos jornais, entre o balcão metálico e sucessivas prateleiras de alinhadas garrafas, para algo de anormal, qualquer coisa de esquisito, num inusitado silêncio, no escritoriozinho onde trabalhara. Permanecia absolutamente sereno, não demonstrando quaisquer sinais de inquietação ou de remorso, e isto era o que mais enervava, indignava as pessoas. Não se dera tão-pouco ao cuidado de eliminar pistas, antes parecendo abundantemente concedê-las, não se precipitando em fuga, não tentando ocultar-se, muito pelo contrário, fazendo-se declaramente notado, cumprindo descaradamente os seus costumes. Assim, teria sido facilmente capturado a meio da tarde desse dia. Só lhe faltara entregar-se à polícia de giro ou plantão no soturno edifício da Rua de S. Bento da Vitória. Confessaria de imediato, não alegando mobiles. Ao darem a notícia, os jornais denominavam-no Rui Antunes M. Fagundes.

Maria Adelaide, morta dois anos antes, ao princípio de um Setembro intermitente de fogosos calores e nevoeiros baixos, alastrando nos vidros das janelas, moendo os ossos, reduzindo corpos e coisas a silhuetas húmidas, seria terminante. Não, o monstrozinho, o malandrim, o malvado, não lhes era nada. Não podia ser filho do Adolfinho, que só tivera filhas, três meninas loiras, de olhos azuis como os do avô, que ela conhecia muito bem, eram encantadoras. Tão-pouco um bastardo do tio Clemente, que era lascivo como um bode mas muito cauto com respeito ao seu nome, que, sobretudo, respeitava. Fazia os filhos às sopeiras e às jornaleiras, dava-lhes uma casita, um campinho, às vezes uma boa mesada, punha os moços no seminário e as cachopas na costura e até no magistério, não se lhe dava ser tratado de pai pela infantil colónia, estendia, magnânimo, aos beicinhos gretados q mão direita em benção, até deixava por todos osporos transparecer uma certa satisfação de patriarca ao ser abordado por garotos ranhosos, cheirando a sardinha e a pão de milho, nas ruas da vila da quinta do Douro, mas o seu apelido não o transmitia nunca aos descendentes ilegítimos. Fagundes era um nome como tantos. Havia Fagundes a rodos, bastava consultar a lista telefónica. M. Fafundes? insistia, inconvicto, Tiago. M. podia ser Marques, ou Martins, ou Moreira, ou Mendes, ou Matos, ou Magalhães, ou Miranda, ou Mendonça. Ou Mollet, tornava Tiago. Mollet não, não podia ser, retorquia, firme, Maria Adelaide.

Julgavas que se os jornalistas tivessem um Mollet Fagundes nas unhas o deixavam assim, sem mais nem menos? Desilude-te. Não pretendas fazer romances onde eles não existem. A propósito, tu não te lembras, não te deves lembrar... eras muito pequeno, como a Maria Ifigénia gozava à custa desse nome. Dizia-o proveniente de um soldadito francês, muito poltrão, que ficara por cá depois das invasões e se estabelecera com uma padaria junto à ponte das Barcas. A leve consistência dos seus pães que ele denominava mollets, ganharia fama, sendo pelo povo chamados moletes. Não queiras saber como o tio Clemente ficava fulo com esta história. Afinava ao rubro, desatando a bufar

como locomotiva à saída de um túnel.

Também lhe competia dissuadir o recepcionista, despedaçando a sua justificada boa fé, a fria evidência de que estava possesso. Não para preservar nomes ou castas ou prestígios, mas para salvaguardar uma pessoa do restrito espaço em que a confinava uma notícia.

Encarou puramente o funcionário e os seus olhos sôfregos, coruscantes, de criança ougada, esforçando-se por varrer do próprio rosto os mínimos sintomas de compreensão, paixão, compaixão, conhecimento. Foi preciso o outro, a custo dominando os nervos, rilhando até ranger a boquilha do cachimbo apagado, citar nomes, encadear referências, mencionar convívios, esperas no átrio, saídas, entradas, desaparições. Finalmente Tiago, como um aluno um tanto retardado, pareceu compreender o raciocínio extremamente lógico do interlocutor.

Mas que lógica podia haver num crime, que lógica podia ir buscar-se à morte?

Não, não, de forma alguma. Estava muito enganado. Aquela senhora com quem bebera gim, que aguardara na manhã seguinte. com quem fora almoçar, chamava-se efectivamente Guiomar e não Miquelina, de apelido (hesitando Tiago acenderia um cigarro), Fagundes e não Galveias. declinara aquela identidade que por imprevista casualidade pertencia já a uma aquista costumeira, vagamente correspondendo a alguns dos seus sinais, que seria, essa sim, assassinada num comboio, por presunção ingénua. Imaginando, a pobre, que o seu verdadeiro nome seria conhecido dos demais hóspedes e estes a assaltariam, devorando-lhe o tempo destinado à conclusão da sua tese. Como se os anosos aquistas, com os seus dentes falsos, o seu presbitismo, a sua ciática, as suas artroses, a sua esclerosada memória literária, confundindo Dekobra com Claude Farrere, metendo O Negro Que Tinha a Alma Branca nas páginas de Mimi Bluette, Flor do Meu Jardim, quando não amalgamando Hall Caine e Palacio Valdez, pudessem, coitadinhos, saber quem ela era.

Ou, ao contrário, por extrema timidez. Não estava ainda certa de ter ou não a coragem necessária para participar num congresso, ler uma tese sobre que tinha dúvidas, sustentar um diálogo sobre pontos não totalmente defensáveis. Por timidez, era isso, ou desconforto, um certo calafrio, mal-estar, uma exigentíssima autocrítica, pavor talvez fosse o termo mais adequado de, no meio dos outros, exibir a própria solidão, declarava Tiago, acumulando canceriginosamente palavras e palavras, perante a estupefacção (cínica, heróica, consternada?) do recepcionista, mantendo em inveterado vício o cachimbo apagado que lhe formara uma mossa sobre o lábio inferior, Guiomar Fagundes (optando por aquele apelido, Tiago considerava tê-la tornado mais familiar, quase póstuma irmã da sua prima-tia Ifigénia) desistiria do congresso. E se na véspera liquidara a conta e no dia em que partira tinha arrumado já as suas malas, fizera-o tão-somente em crise aguda de enorme hesitação.

Tudo se explicava. A maior parte das vezes, quase sempre, os acontecimentos eram muito mais simples do que as aparências, nada tinham de insólito, de incomum, de macabro, concluiria, afastando-se da absorta expressão estampada na face do outro, que não devia crê-lo, sequer fazer fé nos seus ouvidos.

Antes de fechar a mala e abandonar o hotel, que, por dois ou três anos, iria sofrer obras profundas de remodelação, sacrificando naturalmente a vitrina com os seus bonequinhos, toda a cave com os seus encerrados aposentos, o deslumbrante ascensor, Tiago, sentando-se à mesinha oval de tampo circundado por botões e folhas de roseira talhados a intervalos regulares, escreveria:

"O soldado começa por calçar absurdas, obscuras grevas anacrónicas. Nelas as calças enfolam levemente, como se fossem de golfe. O blusão, apesar de abotoado até ao pescoço, conserva um ar negligente de quem, sem esmero, cumpre o ofício castrense atafulhando o peito de camisolas e os bolsos todos do entulho civil. Depois, sob o bivaque posto a cair na orelha e ocupando só um terço do crânio, há aquele rosto bonifrate de narinas erectas, olhinhos brilhando da malícia de quem conseguiu deitar, não só pelo prestígio ou o gosto da farda, mas também pelo uso e abuso de mansíssimas falas, três das melhores sopeiras das vizinhanças do quartel nas camas muito fofas dos patrões ausentes, boca de beiços quase riscos vermelhos acompanhando a vitória dos olhos matreiros num sorriso pulha interrompido entre as gretas do cieiro pela brasa de um cigarro feito à mão."

Passeio Alegre, Agosto 1981 – Agosto 1982


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