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A PRAÇA DE LIÈGE

(1996)

(págs. 117 a 124)

CINCO

Cândido Mollet Fagundes rebentaria contra um muro o seu carro, no rali em que Frederica estivera para participar. O seu acompanhante, um mecânico, sairia bastante combalido do acidente. O condutor fracturaria o pulso esquerdo e três costelas, sofrendo ainda algumas escoriações no rosto.

Diziam os repórteres que o acidente se revestira de certo ineditismo, dadas as boas condições do piso, a escrupulosa organização do certame, o facto de o veículo ser conduzido por desportista experiente e hábil, acumulando vitórias em trajectos e provas mais difíceis, sendo uma das mais risonhas esperanças do automobilismo nacional, pelo que o desafortunado revés apenas podia ter sido motivado por indisposição súbita, descontrolo inesperado, deficientes condições físicas ou psíquicas, fazendo votos para que o prestigiado volante e o seu parceiro de equipa, um jovem e eficiente técnico, com um braço, uma perna e um maxilar partidos e ainda profundo golpe na arcada supraciliar direita, se restaurassem rapidamente.

Rumorosamente constaria, sufragando as insinuações dos jornalistas, que Cândido se apaixonara pela mulher do seu irmão mais velho, que bebia sem conta nem medida, que se tornara implicativo, quezilento, capaz de desatar ao murro, ao pontapé, à bofetada, ao mínimo pretexto, capaz de causar perturbações, burburinho, nos casinos, nos bordéis de elite, nas salas de jogo dos clubes, no Bar Borges. Os amigos, receando-o, evitavam-no. Os conhecidos fingiam desconhecê-lo. Os porteiros e os gerentes de tavolagens e casas de prazer faziam os possíveis e os impossíveis, para lhe berrarem o acesso. Estavam a torná-lo um homem só, perigosíssimo.

Cândido participaria ainda em duas ou três provas, após o acidente que fizera perder ao mecânico a vista do olho direito, mas não chegaria ao meio de qualquer delas, queimadas as embraiagens, rebentadas as caixas de velocidades.

Uma noite, cairia (ou atirar-se-ia?), num carro para o Douro, no Cais das Pedras, após a cunhada ter morrido de parto, na Ordem da Trindade.

Acabaria por ser internado no Conde Ferreira, o que se tornaria tema de conversas, críticas, legendas, comentários de parentes próximos, remotos, vagos e renegantes, porque, nesse tempo, o parentesco, para certa classe, era possível de ser afirmado ou negado, conforme os interesses e as circunstâncias.

Também digno de acordo ou desacordo, podendo ser considerado infamemente como conluio sórdido para afastar um herdeiro, ou profiláctica medida, o internamento de Cândido Mollet Fagundes despertaria por longo tempo a atenção do povo, entre Sobreiras e a Rua da Agra, se, entretanto, para o distrair e desviar da angústia da guerra, dos seus horrores já captados pelas ondas curtas e da miséria das bichas, das carências, do mercado negro, do desgraçado dinheiro eventual, que, por maiores trabalhos, argúcias, artimanhas, não luzia, escapava das mãos, se tornava invisível (bem o poderia afiançar Dininha), ou, para vender mais, um jornal, inserindo com destaque mórbida notícia não tivesse feito olvidar para sempre o infausto destino do interdito sportsman.

Na antevéspera do feriado de Todos os Santos, um jovem aprendiz de alfaiate, morador na Ramada Alta, fora com alguns amigos a um baile popular (havia muitos na cidade, desde o "Abaixa-a-Tola" ao dos Bombeiros e até ao da Morgue, situado num casarão cinzento, defronte do cemitério da Foz, mas não se mencionava a qual fora o rapaz), e aí encontrara uma rapariga muito pálida, de olhos fulgurantes, mãos de dedos ossudos com unhas pontilhadas por várias manchas brancas, nariz ligeiramente arrebitado, um sinalzinho protuberante sob o olho esquerdo e dois outros como pontos finais na comissura direita dos seus lábios, conferindo ao seu sorriso muito encanto. Com ela dançando toda a noite, entraria o rapaz na madrugada.

A moça, referia o articulista, mudando de vocábulo, era delgada, de cabelo enriçado, ruço (seriam tão minuciosos os detalhes da descrição física que quase se poderia dizer que o redactor conhecera de perto a cachopa ou o aprendiz, fornecendo-lha os dados, possuía invejável memória fotográfica), estava só e, ao saírem do baile, muito tarde, o rapaz sentira-a tão gelada que lhe cedera a sua gabardina. Passava das duas da manhã e ela, dando-lhe o endereço (era da Foz do Douro), tomaria o "vadio", o derradeiro eléctrico percorrendo a cidade.

Iria o mancebo dormir, sonhar por certo com a delicadíssima menina (relataria, lírico, o jornalista). Mas, ao despertar, com a chuva miudinha, de molha-tolos, toldando-lhe os vidros da janela do quarto, lembrara-se que a gabardina nova, comprada havia pouco, gentilmente emprestada, lhe fazia grande falta.

Custar-lhe-ia descobrir a ruazinha perdida no dédalo intrincado da Foz Velha. E aí, o jornalista carregaria nas tintas mais sombrias, descrevendo lugares lúgubres, coalhados de névoa, paisagens pesadas de pesadelos. Seria atendido, ao cabo de indagações várias e caminhos perdidos, por senhora idosa, de luto, pronta a sair de casa com um ramo de margaridas. Uma dessas casas pequeninas, de fadas ou gnomos, prosseguiria o articulista, porta e duas janelas entre cantaria, dois degraus de granito gasto na soleira.

A mulher ouvi-lo-ia, a princípio indignada, crendo-se vítima de cruel zombaria. Posta, porém, ante o fiel retrato da rapariga, a obstinação inabalável do visitante, informá-lo-ia, entre pequenas lágrimas, que tivera uma filha correspondente à sinalética, morrendo, tuberculosa, havia um ano, ia, quando ele chegara, ao cemitério levar-lhe o raminho das flores.

O rapaz sentir-se-ia logrado, enredado em mesquinha trapaça. Para lhe ficarem com uma gabardina impermeável, quase a estrear, mãe e filha, se o eram, porventura, teriam organizado aquela fábula. Mas a fraude não ficaria por ali., sem mais nem menos. Tratava-se de uma peça de roupa muito cara, não cuidassem que ele era algum tolo, um pacóvio, um anjolas. E ameaçara ir queixar-se à Polícia. A velhota ofendera-se, insistira em que ele a acompanhasse ao cemitério. Havia sobre a campa um esmalte da menina. O aprendiz devia estar equivocado, seria muito fácil desfazer as suspeitas, alguém por certo o despistara com endereço errado.

A contragosto, o jovem concordaria. Queria ver o fim daquilo tudo. Até que ponto estava a ser desfrutado, feito parvo, espoliado de uma capa que muito lhe custara, não poderia sem canseira, juros usurários, adquirir proximamente.

Ao chegarem ao talhão oriental do cemiteriozinho da paróquia, sob a fotografia da rapariga com quem na véspera, dançara, de quem sentira as formas muito cerca e os dedos em febre – os olhos, o nariz, os particularíssimos sinais não admitiriam discrepância – incrustada na lápide da campa rasa, com o nome, as datas do nascimento e morte, a eterna saudade da mãe, viúva há muitos anos, estaria, bem presa à terra húmida, a gabardina que ele lhe entregara, que ainda ali deveria permanecer, pois nem o aprendiz de alfaiate, nem a mãe da morta, teriam coragem de tocar-lhe.

Tendo calhado em sábado o dia dos Fiéis Defuntos, forçoso seria que no feriado da véspera, nessa tarde e por todo o domingo uma multidão ávida de mistério, da Foz, de Nevogilde, de Aldoar, de Ramalde e Lordelo; enchendo os eléctricos, vinda de Matosinhos, de Massarelos, de Miragaia, da Sé, de Gaia, da Afurada, rumasse, pejando as plataformas, acotovelando-se, discutindo, nos estreitos corredores, por entre os bancos de palhinha, percorrendo em magotes as ruas pardacentas, não rumasse à pequena necrópole rectangular, frente à qual se aglomeraria uma chusma pregoeira de vendedeiras de flores, de velas e tigelinhas de cera, de castanhas assadas, biscoito da Teixeira, regueifas, línguas-da-sogra, pirolitos e uma horda hirsuta, resmoneante de mendigos, coxos, tuberculosos, pustulentos, apegando-se aos romeiros enxotando-os com pressa de penetrar no campo-santo, de pequeno portão para tanta gente, forçando passagem, desentendendo-se, insultando-se, invadindo as ruelazinhas saibrosas, numa ânsia esfaimada de fixar o prodígio fantástico.

O coveiro teria mesmo de requerer aos dois polícias, impotentes para deterem as massas desaustinadas, derrubando velas, jarras, espezinhando flores e sepulturas, que chamassem reforços, pois o povo estava ensandecido, não tardaria a haver sarrafusca lá dentro, porque a desilusão incendiava os ânimos.

Fora necessário que um destacamento constituído por mais quatro guardas e um subchefe viesse para ali, impondo a ordem, organizando a empurrões ferozes, ameaças de bastões no ar, bichas longas, muito tempo aguardando o regresso de outros curiosos vociferando, soltando palavrões ou gargalhadas alvares, sob as quais dissimulariam enigmática compenetração de quem não tinha efectuado em vão a caminhada. Porque havia os que não queriam dar parte de tansos, de inocentes.

Havia os que declaravam ter conhecido a rapariga, nomeavam-na, davam-lhe rua, casa, profissão, carácter, garantindo ser a mãe fulana ou sicrana, prima deste ou viúva daquele, cunhada de beltrano, tia de beltraninho. Havia os que inventariavam as mulheres da freguesia perdendo filhas no ano anterior. Havia os que não tinham visto a gabardina, mas garantiam ter reconhecido a campa, situada ao lado direito de quem entrava, quase ao fim, a penúltima da série, antes da capelinha do Santo Padre Moura, entre a cova de um piloto da barra e a da irmã de um professor da escola régia, com a fotografia da rapariga num esmalte oval, acastanhado. Havia os discordantes. Não se tratava desse coval, mas de outro mais ao centro, o último do lado esquerdo, junto à campa do homem da Ilda peixeira, "a Húmida", que emprestava dinheiro a juro alto. E o esmalte não seria oval, mas rectangular, não castanho mas verde resguardado por mica ainda não empolada pela chuva. Esse sim, mostrava bem rapariguinha loira, de narizinho alçado, olhos fundos, palminho de cara; o outro, pelo contrário, revelava mulher de cabeleira escura, nariz de espeto, olhos contra o Governo, salvo seja.

Tais discrepâncias ocasionariam zaragatas, bulhas, discussões.

Havia quem dissesse que o aprendiz de alfaiate, por mais impressionável que fosse ou ficasse, não quisera perder o impermeável, o erguera e logo o braço lhe ficara inerte. Outros desconfiavam do coveiro, um corcunda, de olhos injectados por raminhos de sangue, de algum vagabundo passando, logo se apoderando da farpela, dos pobres que pediam esmola, atibuindo-lhes o sacrílego furto, pois para alguém teriam de transferir a sua decepção, havendo ainda quem, excessivamente sugestionável, jurasse pela luz, pela vida, pelas almas mais próximas, ter visto fragmentos de capote sobre uma campa rasa.

As vendedeiras de flores, de castanhas, de velas, de rebuçados peitorais da Régua, de tremoços, de letras mal impressas em grandes folhas cor de palha, glosando em versos de marteladas rimas o episódio sobrenatural, os mendigos cada vez em maior número, gerando-se uns aos outros, fariam bons proventos em três dias e, a meio da tarde de domingo, quando a neve tivesse subido ao ar sob a luz indecisa dos candeeiros públicos, o asfalto de alcatrão reluzisse, vasta escama, de pétalas espezinhadas de crisântemos, cascas queimadas de castanhas, vómitos de vinho tinto, o tasco denominado "O Buraco "encerraria antes da hora costumada as suas portas, esgotadas as iscas, os bolinhos de bacalhau, os paios, os queijos, os presuntos, as sardinhas fritas, os carapaus de escabeche, as azeitonas, os pães, os refrigerantes.

Por semanas, meses (mesmo anos depois, no dia de Todos os Santos ou dos Fiéis Defuntos), o relato fantástico posto em letra de forma seria causa de reflexões, hipóteses, controvérsias, ironias, chalaças – quando aparecia alguém de gabardina nova não raro era alvo de motetes, dichotes alusivos – , ocupando os fregueses de forma bastante a varrer da memória o desditoso caso de um distinto e jovem cavalheiro internado num manicómio da cidade.


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