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27 POEMAS

(1988)

(págs. 24 a 28)

AS CASAS (EXTERIORES)

As casas na distância dos transportes perdidos
abandonam-nos, guardam o pão, os talheres, os lençóis de renda,
a luz, a água, o número de polícia,
da matriz, as confrontações que as limitam
e levam para longe.

As casas como são,
de que essências se formam,
que vozes e ruídos
as circundam,
desde que as perdemos
no percurso do inverno,
nos confins da fala,
à flor das tardes tristes,
numa ferida que abrimos e fechamos,
nos metais nobres, cintilantes, dos corpos?

As casas, coisas com janelas e portas,
paredes e telhados, contornando estas ruas,
apartando-se delas, vivendo as suas vidas,
respirando, morrendo, soluçando nas vigas,
pelo cimento armado.

As casas esquecendo-nos,
deixando-nos de fora,
tombando sobre nós as suas sombras,
seus patamares no ar
e quartos ocupando
os espaços dos pássaros.

As casas onde eram? Onde estavam?
De que nos serviriam? Libertámo-nos delas?
Voltaremos a achá-las? A enchê-las?
Não pertencemos a este lugar? Pertencemos?

Fizemo-nos as pedras do edifício.



AS CASAS (INTERIORES)

Acendam-se outras luzes,
sejam elas, embora, de pequena miséria.
A renda, o condomínio,
a conta do telefone, a desesperada
nudez do espaço esperando
a cama, a colcha, a mesa onde se come,
o chão a resguardar, o frigorífico,
a televisão, a telefonia,
a estante, a louça e as toalhas,
electrodomésticos demais,
mesmo devagar adquiridos em transversais Andorras
ou em saldos de mudança de ramo.

Ainda a peça que salta, que se esgota,
a lâmpada fundida, a torneira pingando,
ampliando a noite.
O leito, o pão, a roupa,
os lugares húmidos da casa,
as portas e as janelas emperradas,
os pertinazes dentes do caruncho
devorando os soalhos,
a contribuição, o seguro de incêndio,
de outros danos latentes,
outras vicissitudes dentro dela.

A inflação, os transportes precários,
esses dias "où Coupidon s’en fout" (1)
em que o pranto talvez fosse um consolo,
quando se instala sob a pele aquele gosto a cinza,
esse frio e feroz sabor a papel velho, todos os aromas se perderam,
se gastaram as ânsias na distância,
nos infinitos dias do week-end infeliz,
se esqueceram as perguntas ardentes,
as estivais angústias
consumindo Euridice, Antígona e Electra.

Acrescerá, desvanecido, o rastro dos vinte anos,
esse modo de vida difícil de cumprir,
certa falta de jeito para as reciclagens,
a coragem esperando no instante
em que, agressivas, as correntes de ar
abalam a morada.


(1) Georges Brassens.




AS CASAS (SINAIS GRÁFICOS)

Dispostas, cruciformes, sobre o linho,
desbotadas nos peitos e nas costas,
nos pratos,
vírgulas a esmo na paisagem,
urbanas reticências.

Feitas fotografia e problema,
circunspectas, circunflexas, as casas
com persianas, portadas e cortinas,
paroxítonas, reflexas.

Entre flores e aspas,
beliscaduras,
vícios e virtudes
e parêntesis.
Ponto final. Parágrafo.

Seus perfumes,
dois pontos: –

a rio e mar, por certo os teus
cabelos
as tuas mãos também
por onde passam, pousam estas letras.


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