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DANTE EXILADO EM RAVENA
(1989)
DANTE EXILADO EM RAVENA
(págs. 5 a 14)
...ele conhece a morte.
Conhece-a até ao tutano. Foi o próprio homem
que a criou e a mantem.
W.B.Yeats
O silêncio do meio-dia era, de vez em quando, quebrado pelos automóveis e eléctricos que passavam na rua; pelo rodar pesado dos camiões-cisternas que se dirigiam, cheios de carburante, aos depósitos a construir na vila, por rebocadores cor de tijolo arrastando vigas e caixões para a nova ponte, por navios que entravam ou saíam, apitando, da barra.
Além do muro do quintal, cresciam, irregulares (milagre esquisito de mestres de obras do século passado), casas, escadas, telhados, grades de ferro, varandas, canos, chaminés, cornijas. De lá chegavam vozes roucas, vv transformados em bb, gritos, vocativos humilhantes, protestos, insultos, pragas: "ainda hás-de ver os teus filhos cobertinhos de piolhos!"
Os riscos da parede do prédio vizinho escorregavam em yy invertidos; a cal, sob as chuvas contínuas de dois invernos excepcionalmente pluviosos, perdera o seu tom ocre, estava, agora, muito mais clara. A casa tinha forma de caixão. Diziam que era azarada. Acabavam mal todos os inquilinos. Dona Natércia enlouquecera. Lançara-se da janela do segundo andar durante um acesso. O capitão Meireles arruinara toda a sua fazenda ao jogo. Fora expulso do exército. Passara os últimod dias a pedir esmola. Não aqui, zona balnear e burguesa, mas nas mais soturnas ruas da cidade, onde os moços de então, que iam para os bordéis, o encontravam famélico, roto, cada ruga um marco de doença, um caminho torvo de angústia e de vergonha. Mas o aluguer (talvez pela má fama do prédio), não era elevado. Moreira do Rego a quem (segundo Dª Madalena), o antigo senhorio movera uma acção de despejo fundamentada na falta de pagamento das rendas, lá se aboloteou com a mulher
uma louraça de água oxigenada, redonda de cara, um traseiro só capaz de caber em duas cadeiras juntas
, e os três filhos: Fernando, Orlando e Helder Manuel Zacconi (por parte da mãe, brasileira descendente de italianos), Moreira do Rego, naturalmente. Diziam (Dª Madalena por exemplo), que Moreira do Rego fora, em tempos, morfinómano (Dª Madalena dizia "morfininco "), por isso estivera internado no Conde de Ferreira, onde se curara do vício, mas de onde viera atolambado. Isso, no entanto, muito antes de vir ali domiciliar-se. Casa maldita ou não, Moreira do Rego e família tinham lá vivido seis bons anos. ("Com malucos nem o diabo quer nada", exclamava Dª Madalena, levantando os olhos cansados do croché). Os cobradores batiam à porta e podiam bater e rebater que ninguém a abria, os filhos lançavam aviões miniatura no quintal e constava que, quando partiram para o Brasil, não havia sequer uma porta na casa, todas tinham ardido no fogão e um cheiro espesso a tinta queimada subia no ar nas azuis tardes primaveris sem brisa.
Olhei a parede e relacionei os traços que a cobriam com algumas linhas dos quadros de Miró. Senti que estava a artificializar aqueles riscos, a dar-lhes uma grandeza que não possuíam. Ou talvez a humanizá-los demais. Eram simples manchas de humidade, irregulares, imperfeitas, numa parede vulgar, esvaída de cal, de uma casa velha que apenas se distinguia das outras pela sua forma estranha. Não me lembrava quem tinha dito para aprender a olhar as paredes. Parece que era condição necessária para ser um bom pintor. Desviei o olhar. Não era um espectáculo digno de muito apreço. A não ser que me desse na veneta coleccionar paredes manchadas. Podia descobrir imensas na cidade. Com riscos, palavras, palavrões, lama e desenhos obscenos ou não. Havia quem coleccionasse selos, caixas de fósforos, relógios, punhais, ex-libris, lápis de propaganda, cintas de charutos, santos antigos, cerâmicas, borboletas, revolveres, emblemas, primeiros números de publicações periódicas, amuletos, cinzeiros, bonecas, postais.
A avó deixara-me um contador de doze gavetas onde estavam guardados retratos amarelecidos pela técnica incipiente dos primeiros fotógrafos e pelo tempo. Mal retocados, pouco nítidos de pormenores, marcados pelos pontos negros das fezes das moscas, com sulcos que, após destruirem botões, camisas, prolongarem crânios e cortarem bocas no esmalte, se continuavam no cartão grosso; alguns cantos roídos pelos ratos, desbotada a tinta das dedicatórias, delidas as datas, desdoiradas as letras em relevo dos nomes e moradas dos artistas. Lá estavam também os postais que o meu tio mandava do estrangeiro e se destinavam a uma colecção que ele projectava fazer com a avó. Paisagens, edifícios, estátuas, "vistas parciais" de quase toda a Europa, com a indicação em baixo, numa letra excessivamente minúscula: Para a colecção. Mas a avó nunca levou o jogo a sério. Apenas conservava os pedaços rectangulares de cartão brilhante.
Noutras gavetas, sem qualquer ordem, havia uns blocos de papel pautado onde ela apontara a tinta verde, na sua letra alta e inclinada para a direita, datas de aniversários de parentes, moradas, telefones, algumas máximas: "Nem tudo se diz a todos, nem a todos se diz tudo", "Ver, ouvir e calar", fragmentos de canções banais: "Quando a gente passa, se um rapaz suspira:::" (Quem iria suspirar pela avó, macróbia de quem a beleza nunca fora credora?). Havia também pedaços de papel vegetal com cerejas, espigas de trigo, cachos de uvas, estrelas estilizadas, cravos simplificados, folhas de hera marcadas a papel químico para bordados em que a avó, aliás muito imperfeitamente, destruía as tardes. E postais coloridos: flores, imagens de santos, reproduções de quadros célebres com parabéns para a avó. E cartas de família, cartões de boas festas, bilhetes de visita, nomes de carpinteiros, recibos de electricistas, picheleiros, da Companhia das Águas, dos telefones, do Gás e Electricidade.
Rasguei tudo. As fotografias porque já não correspondiam a ninguém, os postais porque, na verdade, tinham morrido com os anos da avó, os recibos porque datavam de há muito, os papéis com desenhos, porque os achei demasiado pessoais e intransmissíveis, bem como os que continham canções e máximas prudentes. E os postais turísticos porque não estive para gastar franquia enviando-os ao meu tio, e porque não me dispunha a iniciar eu que nunca tive jeito para coleccionar nada,
nem selos "Vitória", embora, na infância neles gastasse todos os tostões
, uma colecção idiota e mortiça, amortalhando em duras folhas de álbum os padrões snobes das suas viagens.
Outrora, aquelas gavetas tinham-me maravilhado. Há muitos anos, os dos selos "Vitória", o seu conteúdo era outro. A avó chamava-lhe então, "o armário das pestes". Havia ali mundos, miríadas de objectos truncados, estragados, sobrados de outros, inúteis, coloridos, baços ou despintados aqui e acolá. Frascos de medicamentos vazios, invólucros em celulóide de aspirina, ferragens de espartilhos, pinças de molas gastas, limas sem cabos, molduras estropiadas de fotografias, bibelots quebrados, velhas correntes de relógio, capas de bloco sem papel ou apenas com uma ou duas folhas brancas, cartas de jogar avulsas, borlas de pó de arroz com pêlos ralos, caixas de tabaco "Craven A Virginia" em folha de flandres, pequenos sabonetes "Patti", brindes de drogarias, pratas de bombons, caixotinhos em madeira do queijo da "Quinta do Paço", tampas de vidro e lata de frascos de perfume, tigelinhas de louça esbotenadas, impressos publicitários de hotéis com fotografias e legendas: "Aspecto de sala de jantar", "Salão de festas", "Portaria" e ganchos, travessas de cabelo sem dentes, caixas vazias de pós dentífricos.
Três dias depois de ter vendido, para amortizar uma letra de dezoito contos, o armário das pestes a
"J. Lemos Antiguidades, Móveis e Decorações", apareceu, na gaveta de uma mesa de cozinha, cujo tampo era coberto de azulejos brancos, um pedaço de madeira que pertencera a uma das pernas do velho contador. Era um fragmento de mogno em meia lua, com a face rectilínea menos escura, mais áspera ao tacto. Separado do móvel, nada valia, era um mísero pedaço de pau, uma "peste" que já não cabia em armário algum nem maravilhava ninguém. Depois, "J. Lemos Antiguidades, Móveis e Decorações" comprara a peça apontando-lhe todos os defeitos possíveis
estava picada, não tinha as ferragens completas, o forro detrás abrira brechas, faltava-lhe um pedaço da perna da frente
, sem a valorizar por ter ou não ter guardado pestes ou postais da Europa. Facilmente mandaria tornear uma nova meia lua, poli-lo e encerá-lo e vendê-lo com pingue lucro.
Tentei partir, sem o olhar, o pedaço de pau com as mãos, mas não consegui. Meti-o num bolso do casaco e, nessa tarde, ao sair, atirei-o ao rio juntamente com uma dentadura postiça da avó que tinha há tempos embrulhada numa folha de papel almaço.
Antes de morrer, a avó tirara os enormes dentes falsos que há muito só segurava com cola adragante, pusera-os sobre a mesa de cabeceira e, depois, arremessara ao chão, numa fúria crispando-lhe a face rugosa, as medalhas que pendiam de um alfinete bebé preso numa alça da combinação. Mas não tirara o relógio. Atrasava-se já oito minutos por dia, mas era como se fizesse parte dela. Tornara-se-lhe imprescindível aquela pequena pressão sobre o pulso esquerdo. Sem ele, era como se tivesse cócegas. Ou frio. Uma impressão esquisita de leveza em todo o braço. A mão morta. Uma prisão a que se dava gratamente.
Nunca mais soube do relógio. Talvez a enfermeira, quando ele morreu o guardasse como última recordação. Ou a sua amiga e vizinha Dª Madalena que também lhe assistira ao último suspiro e lhe cerrara as pálpebras já com poucas pestanas.
Os mortos não precisam de relógio. Havia quem levasse anéis para a sepultura. Mas nunca relógios. Segredos. Capachinhos. Comendas. Condecorações. Às vezes até moedas para atravessarem o grande rio. Nalgumas aldeias, segundo dizem, o costume ainda se mantém. A fortuna de Caronte. Mas não relógios. Cronos não dominará além. Relógios não. Relógios de pulso Swiss made estudados para o calor e as pulsações humanas. Terríveis maquinazinhas do tempo. Instrumentozinhos banais, adaptáveis a quem os usava, passando neutralmente sobre o pavor e a alegria, o soluço e a humilhação, o arroto e o espasmo sexual, a ira e a nostalgia. Caronte não aceitaria um relógio parado.
A avó deixou-me também um quadro. Era, segundo me lembro, o único objecto de arte (ressalvo: mais ou menos artístico), que possuía. Uma gravura triste, negros e cinzentos que se combinavam facilmente com o verde alface do papel forrando a parede. Três mulheres no canto inferior direito, sentadas junto a uma fonte, com uma bilha recebendo água e outra no chão, olhavam a figura esguia de um homem cabisbaixo, de mãos atrás das costas, que se dirigia lentamente, alheio à curiosidade feminina, para o lado esquerdo. Duas crianças ajudavam a composição com um arzinho de anjos estupefactos. Ao fundo, uma árvore sem folhas e uma construção sumida
um castelo? uma torre? uma ruína?
marcavam vagamente o horizonte. A luz era uniforme como a de uma longa tarde de trovoada diluindo as sombras. Na parte inferior havia uma inscrição em francês: "Le Dante exilé à Ravenne". Tinha a moldura em madeira castanha, furada em alguns sítios pelo caruncho. A tinta caíra aqui e ali, pondo à mostra pequenos espaços brancos. O pó acumulara-se nos cantos e sobre o vidro. Era sinistro na parede nua. A janela estava sempre fechada, obstruída por uma mesa coberta com retratos e o quadro mal recebia a luz do dia. De noite, a claridade apenas lhe chegava indirectamente do candeeiro da outra sala. Entregava-se-lhe sem deixar de ser o que era, tão indiferentemente como recebia o pó. Gastara já toda a sua luz. Prendera-se à poeira. Dei por isso quando a avó mo deixou. Disse que havia de ser para o meu escritório, numa noite em que o olhei mais demoradamente. Limparam-lhe a moldura e lavaram-lhe o vidro. Nem por isso adquiriu mais brilho. Parecia ter perdido algum do pouco relevo que sobre o desmaiado papel verde, ostentava.
O quadro nunca foi para o meu escritório. Era grande demais. Por demais sombrio. Esteve muito tempo na sala de jantar, em frente à minha cadeira. Era enorme, naquela superfície pouco maior que ele, pintada com tinta plástica amarela. O pó ia outra vez, lentamente, enchendo as juntas separadas da moldura, embaciando o vidro, penetrando, aos poucos, nos orifícios carunchosos. A luz dava-lhe agora em cheio e, quando o fogão de sala se acendia, as figuras pareciam encolher-se levemente.
Às vezes, custava chegar a um copo, como se um copo a dois palmos do tronco, estivesse a uma distância de anos, separado de tudo no tempo e no espaço. O vidro frio repelia a mão, enquanto o quadro recebia francamente as moscas. Era penoso suster o talher de alpaca. Cerrar entre os dedos, até formarem um mecanismo estranho, a faca e o garfo, dirigi-los, fazê-los funcionar.
Tocavam à campainha. Tocam à campainha. São sempre as mesmas crianças. Os mesmos garotos do tempo da avó. Já ninguém se preocupa com o som. O botão eléctrico está colocado a pouca altura. Os garotos tocaram. Fogem. Fugirão. Fugiram. Não era necessário ir ver. Só quem vinha de novo reparava. Explicava-se-lhe. Alguém, por brincadeira dissera, ser o Ninguém que batia. A avó não achara graça. Dava azar. Um grito prolongado: "Mariiiiiiiiiiiiiiia, oh Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia." vindo do tempo da avó, do labirinto intrincado de telhas, ferros, pedra, cimento, todos os dias à mesma hora, nem hoje nem ontem, o som das Trindades do sino da igreja atiravam-me para ali de supetão. Afinal estava sentado, diante de uma mesa, com um prato na frente, um guardanapo nos joelhos, os pés sobre o soalho. Tudo extremamente simples e menos doloroso que aquela mumificação de caracol na concha.
Pouca coisa a ordem natural das coisas. Navios que apitavam. Eléctricos parando com um ganir de freios. Um cão ladrou aos gatos. Ladra à lua. Flores nascendo numa dada época do ano, há milhares de anos. Flores morrendo em certa estação. Frutos do mês. Festas móveis e fixas. Horas de comer e dormir, trabalhar, construir, destruir, esquecer e lembrar. Perdidos e felizes, solitários e entre a enredada e formidável floresta da vida.
Havia convites à participação, deixas que se perdiam, perguntas que ficavam sem resposta por largo tempo. Palavras que se lançavam para o pélago desconhecido numa desesperada tentativa de salvação.
Custava abrir a boca, separar os lábios presos há séculos como os de uma estátua, fazer mover o maxilar inferior, os dentes, a língua, circular a saliva.
Partia-se a corrente que ligava as pessoas ao redor da mesa. Quebrava-se em mim como numa síncope. Não havia possibilidade de voltar atrás. Reatar o diálogo. Encher o meu espaço vazio. Completar o rito antiquíssimo.
"Le Dante exilé à Ravenne" sob os meus olhos distraídos, excessivamente conhecedores dos mínimos detalhes do quadro.
"Eu exilado", "eu ex+ilio". Numa terra de ninguém nem minha. Num sítio sem onde e onde me encontrava despojado. Latitude sem grau. Flutuação. Perigo de cair. O risco era o mesmo. A sombra igual da grande tarde de trovoada próxima. Lá estavam os espaços deixados entre as manchas da parede que se precipitavam, ramificavam, serpenteavam, repeliam e terminavam abruptamente. Nítidas, mais definidas, importantíssimas. Veias túrgidas das mãos ancilosadas da avó. Discretíssimo estremecer de folhagem projectado pelo sol de outono. Caminho labiríntico das colunas de jornal do ano de 1959.
O guardanapo subia à boca que não guardava nenhum sabor, era de novo colocado nos joelhos, uma das pernas estendia-se, os tornozelos cruzavam-se sob a cadeira.
Era difícil construir uma frase: princípio, meio e fim. Uma frase com sujeito
mesmo subentendido
,
predicado, complemento directo, de modo, de lugar, circunstancial, de tempo. ("Tempo he a tardança do movimento da Equinocial ou, conforme o Filósofo, he a tardança do movimento do primeiro movel, do qual nasce também a medida das idades, assim do mundo como do homem, e de todas as mais partes maiores e menores do tempo e alteração de todas as cousas a elle sujeitas", segundo "O non plus ultra do Lunario e pronostico perpetuo geral e particular para todos os reinos, e províncias", Lisboa; 1850 na Typ. de Mathias José Marques da Silva, Rua do Ouro, nº 5).
Quando, finalmente soltas, as palavras nem sempre eram facilmente compreendidas. Como se alguma coisa obstruísse a profunda cisterna onde, entre magma e sangue, pensamentos, conhecimentos, encadeamentos, sentimentos, lava e cinza e sons, eles subtilmente se estivessem gerando. Ficavam, muitas vezes, a boiar no espaço, livres e infantis, até tombarem, exaustas, no meio do silêncio que as cercava. Era preciso repeti-las, torná-las mais audíveis, mesmo quando não adiantavam nada, tinham em si o sinal do seu trânsito efémero, não chegavam a parte alguma, formavam frases sem consistência, lisíssimas.
O quadro estava um pouco tombado para a direita porque o fio que o sustinha escorregava sempre do aço da escápula e nunca se pôde colocar numa posição perfeita. Caiu numa madrugada de inverno sobre a mesa da sala de jantar, fazendo-nos acordar estremunhados e correr a casa toda em busca do motivo ruidoso até o encontrarmos. O vidro estilhaçara-se e, quando retirei a gravura, ela desfez-se entre os dedos, espuma sépia e suja, cheia de anos e anos, bolor e humidade.
Muitas vezes, nos momentos de esforço, de não comparticipação, de silêncios inexplicados, senti-me à sua frente como um dos seus meninos. Lábios burbónicos, nariz arredondado, mãos inúteis. Servindo simplesmente a composição. Completando o intervalo e assumindo-o. Estando ali porque tinha diante de mim um talher, um pão partido, um copo cheio de um líquido amarelo, um prato com pedaços de comida já fria, um pano sobre as pernas, um montículo de migalhas pacientemente construído na solidão.
Então, como se a mão da avó viesse invisível, a legenda "Le Dante exilé à Ravenne" desaparecia. DESAPARECIA deveras. Mas a mão da avó não ia escrever "Contado, pesado, dividido." MANE, THECEL, PHARES.
A mão da avó não escreveria nada. A legenda desaparecia por si, ou por mim, farta de ser olhada. E nesses breves instantes, não era substituída por nenhuma outra.
A mão da avó estava há muitos anos morta, como aquelas estrelas separadas de nós por muitos séculos-luz, que, todavia, continuam a brilhar nos céus de verão, ou talvez como o próprio sol a projectar-nos ainda a sombra e a desenhar à noite luas em fases várias, como aqueles objectos desirmanados e inúteis que se encontram inesperadamente e já não significam nada, ou como o passado de que vamos herdando a nossa própria morte.
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