Projecto Vercial A maior base de dados sobre literatura portuguesa
Secções
António Rebordão Navarro
Literatura Medieval
Literatura Clássica
Literatura Barroca
Literatura Neoclássica

Literatura Romântica
Literatura Pós-Romântica
Correntes do Século XX
Literatura Actual

Nota Introdutória
Índice de Autores
Outras Ligações

Letras & Letras
Fotos de Portugal



PARÁBOLA DO PASSEIO ALEGRE

(1995)

(págs. 244 a 249)

Lembro-a sentada. Com milhares de faces. Há milhares de espelhos para os mortos. Espelhos que por vezes ficam baços, (com o bafo, as lágrimas dos vivos?) se tornam côncavos, convexos, como os das barracas de feira. Por vezes, perdem o avesso, a mistura metálica, conduzindo as imagens para longe, devorando-as. Ou foi o nosso pranto que as dissolveu, a nossa sombra que as afastou?

Vejo, revejo Maria da Luz sentada. Como no dia de Fevereiro em que perdeu a ligação com o mundo. Não se interessava mais pelas nossas palavras. Começava a falar de outras coisas sem relação alguma. Com outra voz. Pelo menos, num tom de voz inusual. Contar-me-ia mais tarde Tiago que, havia anos, em Coimbra, acontecera caso semelhante, uma noite em que viera do Porto e confusamente divagara acerca de um companheiro de viagem, das férias na Alemanha e em Madrid, de recordações, de factos ocorridos antes dele nascer. Mas seria breve a turbação. Passaria da noite para o dia.. Ela esqueceria tudo na manhã seguinte, atribuindo ele o distúrbio à fadiga.

Desta vez, porém, o caos não se dissiparia. Antes distorceria o corpo. A boca apareceria arrepanhada, o braço esquerdo paralisado. A voz tornar-se-ia dissonante, as palavras inintelígiveis ou destituídas de sentido e os olhos, muito azuis, mas aureolados de um palor difuso, fitavam-nos em desespero, como se não nos fixando nos perdessem, deixassem de saber quem nós éramos ou quisessem dizer-nos o que os lábios não conseguiam transmitir. O médico referiria uma trombose, prescreveria repouso absoluto, dieta rigorosa, receitaria uns remédios, recomendaria uma ginástica diária com uma bola ou novelo na mão inerte.

Ao fim de quinze dias de ser sua enfermeira, a minha sogra já moveria os dedos e o braço, já os seus lábios tinham recuperado a posição normal, mas nunca mais seria a mesma. O médico anunciaria arterosclerose progressiva, mas talvez mais justo fosse chamar-lhe um progressivo desprendimento do mundo, uma gradual fuga da vida, um isolamento no tempo e no espaço cada vez mais feroz.

Desinteressar-se-ia do seu Camilo de quem fora leitora apaixonada e assídua, dizendo ao filho, considerando, em rapaz, muito fastidioso o escritor de S. Miguel de Seide, que, depois dos trinta anos, lhe daria o real valor e muito havia de agradar-lhe a sua prosa, o que, efectivamente, acontecera.

Olharia com olhos de quem não vê, trespassa ou não atinge o ecrã da televisão. Abandonaria os bordados, as rendas. Pintaria – mal – o cabelo, mais por hábito que por coquetaria e desinteressar-se-ia do jornal. Ela que, desde a morte do marido, fazia questão de ir ao cemitério no dia do aniversário e no da morte de Guilherme, esqueceria completamente aquelas datas, a peregrinação que determinavam.

A casa foi-me entregue e comecei a escutar a sua respiração, umas vezes opressa, outras dolente, outras esmagadora. Quando não a ouvi mais, compreendi que a casa respirava já pelos meus pulmões.

Assim, perdi a paisagem. As casas, a princípio como borbulhas, erupções cutâneas de pouca relevância, foram surgindo entre a verde pele da encosta da outra banda. Depois, construíram-se por todo o lado mastodontes de cimento e tijolos e vidros, até mesmo um hotel cujas letras enormes, de neon, se viam, em noites claras, de trás para a frente e do avesso, junto à "seca do bacalhau".

Quando a recuperei, talvez ao som ou com a música e a letra da "Pedra Filosofal" de António Gedeão, cantada por Manuel Freire, dentro da cabeça, já aquela ladeira era um corpo urbano a dilatar-se que os raros verdes condenados não mais podiam reconstituir, sequer rememorar. Era já tarde para a refazer, integrar-me nela. O tempo, deixando, por vezes, de ser constante, uma convenção, um dado adquirido, fingindo anular-se, desaparecer, não existir, iludir-me-ia. Aproveitando a minha distracção, as minhas dilações, a minha confiança na perenidade da beleza que é, por natureza, breve e triste, devorara o panorama inicial de um mundo velho, tido por imutável.

Salazar cairia da cadeira. Proclamar-se-ia uma mudança, por certo desejada, impossível, porém de salvar o sistema caduco, como as poucas árvores não poderiam ressuscitar a paisagem antiga. E, por uma madrugada de Abril, ao som de uma canção de José Afonso, os capitães, descontentes com a insolúvel, interminável guerra de África, a contínua, inglória sangueira banhando, havia quase quinze anos, os territórios em armas, derrubariam o regime.

Pouco depois, começaram a aparecer nos jornais anúncios em que impolutos cidadãos declaravam, por sua honra e pelo que pudesse existir de mais sagrado (que, nessa altura não seria a tríade Deus, Pátria, Família, mas, porventura Liberdade, Democracia, Socialismo, termos contudo ainda bastante nebulosos, raramente com sentido e compreensão idêntica para todos, quantas vezes demasiadamente dilatados), nunca terem pertencido à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, à Polícia de Investigação e Defesa do Estado que lhe sucedera, à Direcção-Geral de Segurança que se lhe seguira, à Legião Portuguesa ou a qualquer outra das, até então, designadas patrióticas organizações.

Algumas vezes, estas confissões eram autênticas, os confitentes eram pacatos, evidentemente, ingénuos cidadãos, cuidando deste modo ilibarem-se de calúnias, perseguições, intrigas. Outras, eram sangrias em saúde, tentativas de iludir os demais, de escapar ao castigo e à vingança. O que nem sempre resultava. Muitas vezes, tornavam-se contraprocedentes, afirmando mais e mais lembrando, que outorgando crédito às declarações, impunidade aos declarantes. Como aconteceria com Raul Joaquim Barreira Ervedosa que, durante largos anos, denunciara, espancara muita gente, que, cego de raiva e turbação quando a mulher tentara suicidar-se, chegara a prender, a torturar desgraçada demente, vestindo sempre balandraus cor-de-rosa, sem descanso percorrendo os tribunais, tendendo acompanhar pendência inexistente. Conhecido pelas suas vítimas pelo apodo de "O Cão", não lhe valeria o anúncio do jornal. Desconhecidos nunca descobertos deixá-lo-iam quase às portas da morte, lançando-o numa noite, de um carro em andamento, frente à piscina do Fluvial.

Os fins das tardes lançariam para as ruas homens e mulheres que se esfalfavam a correr, fugindo à obesidade, ao colesterol, à depressão, aos ambientes saturados, às suas sombras, aos seus pesadelos, às suas carências.

Pelos meses de Verão, cobria-se o Cabedelo de tendas e luzes vacilantes como estrelinhas pobres, de ínfima grandeza, a que, no fim de Agosto, uma grande fogueira punha termo.

Continuava a outra margem explodindo em vidros, paredes, telhados, em viveiros e em colossais antenas onde só a amarelada mansão e os derradeiros baluartes de uma indústria extinta, ao rés do rio, conservavam, na sua confrangedora e precária dignidade, os últimos vestígios de um diverso tempo a tornar-se distante.

A minha sogra devia sentir profundamente a multiplicação das suas pedras,o seu crescente declínio. Julgando poder vencer as suas crises, os achaques cada vez mais frequentes, agarrava-se, aflita, à salvação pelos medicamentos. Constantemente uma obcecação tão enervante como comovedora, onde quer que estivesse, rogava ao filho que não se esquecesse, o que nunca acontecera, jamais aconteceria, de lhe dar o remédio que era obrigado a ministrar-lhe na devida dose, evitando que a mãe, considerando-o quantitativamente eficaz, se intoxicasse. E, ao fim das refeições em que participava envolta em tristíssimo silêncio, chorava lágrimas amargas cuja causa não sabia ou não queria explicar, mas devia ser intensa e dolorosa autocomiseração. O poderoso parceiro que é a vida, a que, muitas vezes, por comodidade chamamos destino, sem outra perspectiva que não fosse a morte, deixara de jogar com Maria da Luz.

Todavia, pouco antes do fim, ela lhe lançaria último desafio, alguns dias deixando de pedir, porventura esquecendo, o remédio, perguntando por Pagui que morrera havia vários anos, quando, na estrada de Barcelos, o seu carro, patinando em óleo derramado, chocara de frente com a camioneta de passageiros; querendo saber de Libório que vivera muitos anos em Angola, de lá viera depois da independência, tomando de trespasse uma taberna perto de um cemitério, aonde, após os enterros, os seus participantes iam afogar dores. Por isso era denominada "Enterra-Paixões". Libório dar-lhe-ia mais digno aspecto e outro nome, "Daròdente", não logrando, porém, impor – se ao anterior.

O restaurante tirava-lhe e aos familiares (a mulher, um cunhado e duas filhas, a mais velha das quais chamada Maria da Luz) tempo e descanso, mas fá-lo-ia enriquecer rapidamente. Pedia notícias do Patacão que, após melindrosa intervenção cirúrgica, ficara cego de um olho e tetraplégico, em cadeira de rodas, indagando o que era feito da Engrácia que, não se entendendo com a nora viúva, regressara a casa do Laré, inquirindo onde parava, que nunca mais tinha aparecido, Maurício Palmeira, agora trabalhando na Rádio Comercial.

Maria da Luz morreria numa noite de Março. Abriria a porta do seu quarto, já sem voz para proferir o nome do Tiago em cujos braços deixaria de respirar.

Fez-me muita pena, quando o armador, transformando o seu quarto em câmara– ardente, a trouxe, no caixão, para o soalho do corredor. Era digna de dó, ali deposta, sem possibilidade de revolta, sem nenhuma defesa.

A casa cresceu um pouco. A sua respiração passou a alterar-se, quando as tardes declinam, quando as noites começam, quando se sucedem esses períodos propícios a saudades, a lembranças, quando os tempos se misturam, as paredes se dilatam, os pavimentos estremecem, habitam os aposentos outros seres, belos, invisíveis e mudos.

7 de Setembro de 1994


Voltar à página de António Rebordão Navarro




Pórtico | Nota Introdutória | Índice de Autores | Outras Ligações

© 1996-2012, Projecto Vercial.