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TEATRO
O SER SEPULTO
1995
Esta peça foi transmitida pelo 2º canal da RTP em 1976, numa realização de Adriano Nazareth, tendo como intérpretes Eunice Muñoz (Dona da Pensão), Varela Silva (Criado), Laurida Ferreira (Menina Amélia), Augusto Morais (Professor) e Jorge Pinto (Homem dos jornais).
PERSONAGENS
O CRIADO
A DONA DA PENSÃO
RAPARIGA
VELHO
O HOMEM DOS JORNAIS
CENÁRIO Interior de uma pensão burguesa e antiquada. Uma porta ao fundo que se pressupõe ser a que dá para a rua. À direita, uma mesa com cadeiras e outros elementos de uma sala de jantar. Um relógio de parede. Um lance de escadas à esquerda. A dona da pensão e o criado devem vestir como no princípio do século. Os outros personagens vestem à época, havendo um contraste flagrante entre as duas primeiras figuras e as restantes. Aquelas devem vir caracterizadas de modo a parecerem bastante velhas. Quando falam do passado, porém, como que rejuvenescem, as suas vozes devem tornar-se vibrantes, quase raivosas, ao passo que, nas outras ocasiões, falarão nym tom cansado, sem que seja, é claro, extremamente monótono. O velho e a rapariga serão pessoas vulgares, bem como o homem dos jornais. Quando a dona da pensão e o criado falam do passado, a iluminação deve tornar-se muito intensa, quase cruel. De resto, a cena terá a claridade própria das horas indicadas no texto, isto é, início da manhã. As pausas e os silêncios são muito importantes.
DONA DA PENSÃO Já o chamou?
CRIADO A quem, minha senhora?
DONA DA PENSÃO Ao hóspede do quarto 10. Ele não pediu para o chamarem às oito da manhã?
CRIADO E que horas são, minha senhora?
DONA DA PENSÃO Oito e um quarto. (O relógio dá uma pancada.)
CRIADO Desculpe, mas parece que são só sete e um quarto.
DONA DA PENSÃO Já lhe disse que são oito e um quarto.
CRIADO Bem, não quero teimar. A senhora lá sabe. Vou chamá-lo... mas se a senhora pusesse os óculos...
DONA DA PENSÃO (autoritária) São oito e um quarto.
CRIADO Bom, bom, não vale a pena zangar-se. Talvez tenha razão, talvez tenha razão. Lá vou.
(Começa a subir as escadas devagar, como se esperasse contra-ordem. Nas suas costas, a dona da pensão põe os óculos. Olha o relógio de parede.)
DONA DA PENSÃO José.
CRIADO (sem se voltar) Minha senhora?
DONA DA PENSÃO Espere.
CRIADO (descendo as escadas) Sim, minha senhora.
DONA DA PENSÃO Porque será que ele quer que o chamem tão cedo?
CRIADO Às sete e um quarto é cedo ; ninguém de cá, a não sermos nós dois evidentemente, se levanta a essa hora, mas às oito é normal.
DONA DA PENSÃO Mas para um homem que vem de tão longe... De onde disse ele que vinha?...
CRIADO Não sei, minha senhora, não fui eu que o atendi.
DONA DA PENSÃO Ah, sim, é verdade, fui eu. Ele disse que vinha de... de Os... de Os..., não de Dos..., bem, não me lembro. Estava cheia de sono quando ele chegou. Dei-lhe a chave do quarto... Mas que ele me mandou chamá-lo às oito, tenho a certeza.
CRIADO Foi a mim que ele pediu para o chamar. Não me abriu a porta. Tocou a campainha. Ainda funcionava e tinha um som bonito. Há muito que se não ouvia por cá uma campainha. Até me assustei. Fui a corre, assarapantado. Pediu que o acordassem às oito. Tinha uma voz mais forte que um general. Passando através da porta ainda era um vozeirão... E a senhora sabe como as portas cá de casa são grossas.
DONA DA PENSÃO Então não o chegou a ver?
CRIADO Não, minha senhora.
DONA DA PENSÃO Com certeza dorme com a porta fechada.
CRIADO Com certeza.
DONA DA PENSÃO Disse-me que tinha hoje muito que fazer.
CRIADO Como se lembra disso?
DONA DA PENSÃO Não sei, não sei... Parece que é a idade. Lembro-me de coisas que não têm importância, esqueço-me de outras que interessam.
CRIADO (irónico) É um fenómeno engraçado.
DONA DA PENSÃO Mas, às vezes, triste. Há tantas coisas que não têm importância e a gente devia esquecer e outras...
CRIADO (muito interessado) Importantes?
DONA DA PENSÃO Não sei.
CRIADO (como para si mesmo) Importantes para quem? Porquê?
DONA DA PENSÃO Não sei.
CRIADO Vou chamá-lo.
DONA DA PENSÃO Ainda não.
CRIADO Não?!
DONA DA PENSÃO Talvez seja ainda muito cedo.
CRIADO (como se apenas pensasse) Deve ser um homenzarrão.
DONA DA PENSÃO Quem?
CRIADO O hóspede.
DONA DA PENSÃO Não sei, não consigo lembrar-me.
CRIADO Também não tem importância.
DONA DA PENSÃO Parece que sim. Parece-me ter mais importância do que lhe atribuímos. Só me recordo que me deu ideia de alguém de há muitos anos... Da minha meninice. Mas não sei de quem se trata, com quem era a semelhança... Com meu pai...não, não era possível, mal o conheci. Morreu quando eu tinha quatro anos. Nesse dia, trazia dois laços nas tranças. Fora a mãe que os comprara na Loja Nova. Eram cor-de-rosa e tinham pequenas folhas azuis estampadas. Mas de meu pai não me lembro, não posso lembrar-me.
CRIADO E se o fosse chamar?
DONA DA PENSÃO Que horas são?
CRIADO Ainda não deram as oito.
DONA DA PENSÃO Então não.
CRIADO Porque não vai a senhora chamá-lo?
DONA DA PENSÃO (assustada) Não, eu não. Não sei porquê, mas tenho medo. Aliás, não fica bem, não fica bem.
CRIADO Então, quando quiser diga que eu vou.
DONA DA PENSÃO Não me esquecerei.
CRIADO (entre dentes) Duvido.
DONA DA PENSÃO O quê?
CRIADO Nada, não disse nada.
DONA DA PENSÃO Pareceu-me.
CRIADO Devem ser os ratos.
DONA DA PENSÃO Já trouxeste o veneno?
CRIADO Para quê?
DONA DA PENSÃO Para os ratos, naturalmente.
CRIADO Ah sim. Não, ainda não trouxe.
DONA DA PENSÃO É bom não esquecer. São perigosos. Uma vez, lembro-me perfeitamente, morreu um filho de uma vizinha. Tinham-no deixado sozinho no berço, vieram os ratos...
CRIADO (angustiado) Cale-se.
DONA DA PENSÃO Não, não, foi há muitos anos, mas lembro-me perfeitamente. Vejo-o. Não tinha nariz nem olhos. São as partes de que os ratos gostam mais. A mãe...
CRIADO (suplicante) Por favor, não diga. Já sei, já me contou, não...
DONA DA PENSÃO A mãe mandou comprar veneno para os ratos, e em vez de o espalhar pela casa, ela mesma o utilizou. Morreu no dia seguinte a espernear, a espernear como uma ratazana assada.
CRIADO (abatido) Vou chamá-lo.
DONA DA PENSÃO Espera. Quando anos tens?
CRIADO Não está já farta de saber?
DONA DA PENSÃO Não me lembro.
CRIADO Trinta e cinco.
DONA DA PENSÃO (sonhadora) Trinta e cinco anos! Tenho pensado muitas vezes no que fiz aos trinta e cinco anos. Mas não me lembro. Não consigo lembrar-me.
CRIADO Uma vez, disse-me que aos trinta e cinco anos fez esta estalagem.
DONA DA PENSÃO O quê?
CRIADO (mais alto) Aos trinta e cinco anos veio para aqui. O seu marido tinha morrido.
DONA DA PENSÃO (não entendendo) Como?
CRIADO Sei lá como ele morreu. Nunca o vi sequer. A senhora é que devia saber.
DONA DA PENSÃO Não me lembro.
CRIADO Vou chamá-lo.
(O criado sai pelas escadas.)
DONA DA PENSÃO (sozinha) Tinha trinta e cinco anos. Mas como era? Se ao menos tivesse um retrato daquele tempo, qualquer coisa que me fizesse lembrar... Vim para aqui... Foi então que vim para aqui?... Ele diz que sim, mas pode estar a mentir ou pode ser que eu lhe tenha mentido. Com efeito, para que havia ele de saber a verdade? Se eu a não sei porque havia ele de saber? Não é mais do que eu e isso só a mim devia interessar. No entanto, se ele soubesse, podia ajudar-me. Assim, não haveria tantos vazios, tantas falhas, tantos abismos.
Aos trinta anos, casei. Sim, parece-me que sim. Parece que tinha trinta anos quando casei... Ou menos?... Porque me casei tão tarde? Porque trinta anos para uma mulher...
CRIADO (descendo as escadas) Não dá sinais de vida.
DONA DA PENSÃO (como se o não sentisse) Depois, morreu a mamã. Porque será que me lembro tão bem? Morreu um mês depois, mas tão longe, tão longe que não me posso recordar do seu aspecto morto...
CRIADO (mais alto) O hóspede não acordou.
RAPARIGA (descendo as escadas) Bom dia!
CRIADO Bom dia, menina Adélia.
DONA DA PENSÃO Quantos anos tem, menina Adélia?
CRIADO (em tom de censura) Oh, minha senhora!
DONA DA PENSÃO Desculpe, desculpe. Não sei porque disse isto.
RAPARIGA (irritada) Oh, não tem importância. A senhora viu o meu cartão de identidade.
DONA DA PENSÃO Desculpe, desculpe. (Baixo) Não interessa.
CRIADO (para a rapariga) Quer que lhe sirva já o pequeno-almoço?
RAPARIGA Se já estiver pronto.
CRIADO Com certeza. (Sai pela porta da direita).
VELHO (descendo as escadas) Que raio de barulho fazem nesta casa que já não podemos dormir descansados!
DONA DA PENSÃO Barulho?
VELHO Um chinfrim danado, na porta do quarto junto do meu. Não ouviu, menina Adélia?
RAPARIGA Ouvi sim, senhor professor. Também acordei mais cedo do que o costume.
VELHO Mas porque carpinteiraram a estas horas?
RAPARIGA Queriam abrir a porta, Dona Rita? Algum novo conserto, Dona Rita?
DONA DA PENSÃO Não, menina. Devia ser a chamar o hóspede.
VELHO Que hóspede?
DONA DA PENSÃO O do quarto 10.
RAPARIGA -Como?
VELHO O que está a dizer, Dona Rita?!
DONA DA PENSÃO Que devia ser a chamar o hóspede do quarto 10.
RAPARIGA (rindo) Ah, ah, ah...
VELHO (censurando) Menina Adélia!
DONA DA PENSÃO Porque se ri, menina Adélia?
RAPARIGA (hesitante) Porque...
VELHO (repreensivo) Menina Adélia!
CRIADO (trazendo o almoço da rapariga) Bom dia, senhor professor. Também toma já o almocinho?
VELHO Sim, José, é melhor trazer-mo já.
(O criado volta a sair pela porta da direita)
DONA DA PENSÃO Porque se estava a rir, menina Adélia?
VELHO Minha senhora, não tem importância. Coisas da mocidade... O jornal já veio?
DONA DA PENSÃO Não, ainda não. E precisava comprar um para o novo hóspede.
RAPARIGA Novo hóspede?
DONA DA PENSÃO Sim, o do quarto 10, já lhe disse.
RAPARIGA Mas, Dona Rita...
VELHO No quarto 10 não está ninguém, Dona Rita.
DONA DA PENSÃO Como não está ninguém?! Ontem...
VELHO Esse quarto está fechado, desde...
DONA DA PENSÃO Desde quando?
CRIADO (entrando com o almoço do velho) Aqui está o almocinho. (Para a dona da pensão) Quando a senhora puder, preciso falar-lhe.
DONA DA PENSÃO Com licença. (Afasta-se da mesa onde se sentaram o velho e a rapariga)
CRIADO E esta? O homem não há maneira de acordar.
DONA DA PENSÃO Que homem?
CRIADO O do quarto 10, quem havia de ser? Chamo, chamo e nada. Não se ouve nada lá dentro. Até estive para espreitar pela fechadura. Mas não espreitei. Bati à porta como um desalmado, desesperadamente. Nada, nem o mais leve ruído.
DONA DA PENSÃO Que horas são?
CRIADO Quase oito e meia. Começo a ficar nervoso. Foi às oito horas que ele disse, não foi? Deve ser importante... Deve ser muito importante...
(Adélia levanta-se. Enquanto almoçou esteve a conversar baixo com o velho.)
RAPARIGA Até logo, Dona Rita. Adeus, senhor José.
DONA DA PENSÃO Até logo menina.
CRIADO Até logo.
(Adélia sai pela porta do fundo.)
DONA DA PENSÃO (para o criado) Bem, não sei, mas ele recomendou. Disse que tinha muito que fazer. Que hoje era um dia terrível.
CRIADO Insisto?
DONA DA PENSÃO Creio que é melhor.
CRIADO Vou.
DONA DA PENSÃO Há quantos anos estás nesta casa?
CRIADO Há cinquenta, feitos no mês passado.
DONA DA PENSÃO Ah!
CRIADO Vou?
DONA DA PENSÃO Podes ir.
(O criado sai pelas escadas)
VELHO (levantando-se) Quando o jornal chegar, mande-mo ao quarto, Dona Rita.
DONA DA PENSÃO Sim, senhor professor.
(O velho sai pelas escadas)
DONA DA PENSÃO (pensando) Cinquenta anos mais trinta e cinco, oitenta e cinco... Não cinquenta anos menos trinta e cinco dá quinze. Também não, não pode ser. Trinta e cinco anos menos cinquenta vem a dar, vem a dar... O hóspede deve andar pelos seus trinta e cinco anos... Talvez mais... Já tem alguns cabelos brancos, algumas rugas, o ar de quem viveu muito ou vem de muito longe.(Sonhadora) Trinta e cinco anos! Se eu me lembrasse dos meus trinta e cinco anos! O que aconteceu quando eu tinha trinta e cinco anos, o que não aconteceu quando eu tinha trinta e cinco anos...
HOMEM DOS JORNAIS (entrando pela porta do fundo) Bom dia, Dona Rita. O jornalzinho do senhor professor.
DONA DA PENSÃO (alheia) Bom dia, deixe ficar.
HOMEM DOS JORNAIS (entregando-lho) Aqui está. Até amanhã.
DONA DA PENSÃO Até amanhã.
Ah, é verdade. Quero outro.
HOMEM DOS JORNAIS Não levo mais, Dona Rita. Vêm contados. São só para os assinantes certos.
DONA DA PENSÃO Então...
HOMEM DOS JORNAIS Se quiser para amanhã, eu tomo nota. Encomendo mais um.
CRIADO (vindo pelas escadas. Para a Dona da Pensão) Não acorda.
DONA DA PENSÃO (para o Homem dos Jornais) Não vale a pena.
(O homem dos jornais sai.)
DONA DA PENSÃO Foi aos trinta ou aos vinte anos que me casei? Parece-me que foi aos vinte. A Mamã chorou tanto. Lembro-me que a verruga do seu nariz tremia muito e ficava mais vermelha, parecia que ia rebentar. Uma brasa que ia rebentar. E depois nunca mais a vi. (Com força) Sim, sim, tenho a certeza de que nunca mais a vi.
CRIADO (entrando) O que está a dizer?
DONA DA PENSÃO Tento lembrar-me.
CRIADO De quê?
DONA DA PENSÃO De tudo.
CRIADO (desinteressado) Ah.
DONA DA PENSÃO Tu lembras-te de tudo?
CRIADO De tudo o quê?
DONA DA PENSÃO Da tua vida.
CRIADO Não. Já estou muito velho. Também não me lembro de tudo.
DONA DA PENSÃO Então não sou só eu.
CRIADO Parece-me que não.
DONA DA PENSÃO Seremos todos?
CRIADO Não sei, sei lá. Que todos?
DONA DA PENSÃO Toda a gente. Eu, tu, o professor, a menina Adélia, o homem dos jornais...
CRIADO Não sei... Alguns talvez se lembrem de tudo. Outros não. Outros, assim assim. Aliás não me interessa. Palavra que não me interessa. Estou cansado.
DONA DA PENSÃO Levantaste-te muito cedo.
CRIADO Não é por isso.
DONA DA PENSÃO (ansiosa) Então?... Então?...
CRIADO Parece-me que também vou tendo grandes poços na memória. Há coisas que não se ligam, outras que surgem de repente e depois desaparecem também, subitamente... Há muitas coisas... Não me lembro de tudo.
DONA DA PENSÃO Como eu.
CRIADO Talvez.
DONA DA PENSÃO Somos tão pobres de tempo!
CRIADO (muito triste) Somos tão pobres de tudo!
DONA DA PENSÃO (reagindo) Mas eu ainda me lembro de muitas coisas pequenas.
CRIADO Também acontece o mesmo comigo.
DONA DA PENSÃO De que te lembras?
CRIADO Da voz do hóspede, por exemplo. Era um vozeirão, mas vinha de longe, de muito longe, como se não houvesse corpo, fosse uma só voz.
DONA DA PENSÃO O hóspede?!
CRIADO Sim, o do quarto 10.
DONA DA PENSÃO (autoritária) Cala-te!
CRIADO (como num sonho) O hóspede do quarto 10 tinha um vozeirão...
DONA DA PENSÃO Cala-te!
CRIADO (como se a não ouvisse) E não há meio de acordar. Também não insisto mais, deixá-lo...
DONA DA PENSÃO Cala-te!
CRIADO Porquê? Também me lembro de outras coisas... De muitas coisas... Uma vez, o meu pai encontrou-me a fumar e deu-me tantos cachaços que vomitei... O meu pai não tinha o olho esquerdo, em vez da íris só um globo esbranquiçado, nojento. Tinha mais medo desse olho sem vida do que da mão grossa e cabeluda que me batia... Outra vez, era um afogado. Estava verde, muito verde, como a folha de uma árvore na primavera. Tinha-se suicidado, parece. Houve gente que disse que o tinham assassinado... Mas não importa.
DONA DA PENSÃO (com a voz estrangulada) Cala-te... cala-te...
CRIADO Às vezes, é como um sonho. Sou eu e não sou. Um tipo que se arrasta durante muito tempo sem qualquer possibilidade de se erguer. Às vezes chega a doer fisicamente, e eu vejo. Sou eu e assisto. Também me lembro. Também me lembro de muitas coisas: de um rapaz novo, muito novo, sozinho, morto, como a dormir...
DONA DA PENSÃO (suplicante) Cala-te, por amor de deus.
CRIADO (como se a não ouvisse) E um velho bêbado a dançar na rua, quase nu... NU...
DONA DA PENSÃO (num fio de voz) Cala-te.
CRIADO (como antes) E um outro a vomitar sangue que os cães lambiam...
E uma mulher... uma mulher...
DONA DA PENSÃO (num grito) Cala-te!
CRIADO (mudando de tom) Quantos anos tem, minha senhora?
DONA DA PENSÃO (muito abatida) Não sei... Não sei... Trinta e cinco... Oitenta e cinco... Não posso lembrar-me... Não posso lembrar-me...
CRIADO Não vale a pena. (Tomando a postura de Criado) Vou chamar o hóspede.
DONA DA PENSÃO Não, não é preciso. (Pausa) Não o chames. (Longa pausa) Deixa-o dormir.
Ele agora é só nosso.
(O relógio dá as 9 horas. As duas personagens ficam estáticas, enquanto o pano começa a descer lentamente.)
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