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Barão de Roussado: Meu caro Manuel, quando tu já tinhas dentro de ti o bailo, e eu tinha dentro de mim a ténia, ceámos pescada cozida com batatas no Penim, e bebemos um torres amargo como o ciúme. Saímos da taberna que A. Herculano elevara à grandeza de «Agulheiro dos sábios» e parámos no cunhal da esquina, aureolados com o resplandor suspeito do gás, como dois magos do Oriente que parassem onde aquela estrela moderna e civilizada até ao lampião nos mandou parar. P que ia ali nascer de nós o que quer que fosse. Encostou-se a gente ao cunhal numa atitude de digestão difícil disfarçada em medição profunda. Nenhum de nós, batendo na fronte, repetiu o j’avais pourtant de Chenier, porque a ideia já estava tão estafada que nem mesmo a convivas do já agora extinto Penim era lícito fazer com ela um alarde de génio inflamado pelo fósforo da pescada e pelo ácido acético do torres. Perguntei-te o que sentias, porque te vi arfarem as bossas frontais, como se estivessem em ânsias parturientes duma epopeia ou dum almanaque. Fitaste-me os teus olhos fulgurantes; e, como quer que visses nos meus gestos um jeito de inspirado, perguntaste-me se não seria mau tomarmos genebra. Entrámos no Martinho, à hora alta da noite em que dois majores reformados e um homem de letras, que encontrara no alfabeto a sua desgraçada inutilidade, acentuavam a murros no mármore as suas convicções da necessidade da república. Procurámos a mesa mais afastada dos três celerados, que bebiam capilés para acalmar a sede de sangue e expectoravam as suas iras nas cadeiras em projécteis de catarro. Foi ali, na mesa do canto, que se realizou o advento da ideia que amadureceste com compota de genebra. A tua mão vibrante do ecce Deus de Ovídio, e do pur so muove de Galileu, pesou-me na espádua como um dos bons murros que tu tens visto levar em New-Castle. Depois, com umas rutilações de pupilas que tanto podiam ser um projecto de regicídio como indigestão de peixe, disseste: «Vou parodiar o D. Jaime de Tomás Ribeiro.»

E, no dia seguinte, recitaste-me as passagens da paródia mais risonha, mais delicada e menos ofensiva que ainda se viu neste pais em que a paródia é quase uma cobarde mordacidade. Estes fragmentos que tão de molde se casam num Cancioneiro Alegre são os que eu recordo com saudade, com tristeza, com a desesperação de nunca mais te encontrar no Penim, nem te ver o festivo rir da tua inalterável alegria. Ah! barão, barão! Os possidónios, quando se confederaram para te despontar as farpas, levaram até ao trono as suas súplicas insidiosas e cingiram-te na fronte a coroa de ferro do velho feudalismo que te exilou da feliz boémia da imprensa como se ta soldassem no tornozelo à guisa de grilheta.

Adeus, meu caro poeta!

Camilo Castelo Branco



ROBERTO


DOZE ANOS DE AGONIA

Bem custa o pesadelo de uma noite
sofrido em contorções de ânsias terríveis,
nos fumos de carneiro tormentoso,
sobre má digestão!
quando as vagas do sangue proceloso
batendo como açoite,
coas rápidas marés do coração,
o põe em mil corcovos desiguais!
Quando os roncos de tripas turbulentas
lembram mula manhosa entre os varais!
Bem custa o pesadelo de uma noite,
levada a ver da cama
longas cenas de horrível melodrama,
que representa uma indigesta ceia,
e a fantasia a produzir comparsas,
e o vinho a referver de veia em veia!

O silêncio do quarto abre-se em vozes,
roucas, profundas, engrolando requiens,
para extrair de um morto os maus pecados.
A solidão povoa-se de gente,
morto, prior e sacristão, na frente!
seguem atrás os gatarrões pingados,

E o mísero mortal ardendo em sede,
da cama se esqueceu, e o solho mede.

Acorda no sobrado o agonizante,
olha, escuta, espantado,
os moços do Lagóia!

Estende a mão ... encontra a lamparina.
Pergunta quem morreu, fala ao finado,
responde-lhe uma voz, ao longe, e fina,
do gato esperto a remiar distante,
único som, na casa entregue ao sono.
Suor quente lhe escorre da camisa,
alagando-lhe o peito chamejante,
e pelo chão desliza.

Ao morto quer fugir, não pode vê-lo;
sob a roupa se furta, os olhos cerra,
mas não se furta a novo pesadelo;
carneiro com batatas não dá tréguas,
se conserva connosco!

Transfigura-se o quadro. Os vultos negros
transformam-se em credores,
severos, ásp‘ros, brutos, furibundos;
são dez, e vinte, e cento, e mais, e inúmeros,
compridos, curtos, magros e rotundos;
e juntam-se, recrescem, multiplicam-se,
juros, penhoras, querelas e sentenças;
e o carneiro tenaz, que tudo cria,
sobe, desce, ressalta e se mistura
coas sombras da torvada fantasia.

E o mísero mortal ardendo em sede,
da cama se esqueceu, e o solho mede.

Passada a noite longa da agonia,
doutor com toda a luz da medicina
vem achar os sinais dessa tormenta
nas olheiras da face macilenta,
e curar os estragos do carneiro
coa mistura salina.

E que serão doze anos de agonia?
doze anos de sonho tormentoso,
doze anos coa bolsa erma de pintos,
doze! doze! sem ter da fama o gozo?
sem cavaco no Grémio Literário,
sem um sorvete à noite no Martinho,
Sem um copo do termo no Penim,
sem bailar em nenhum noticiário,
sem ouvir da Canária agudo grito,
sem nome no Almanaque de Lembranças,
sem ter à perna um dia o Brás Tisana,
sem ocupar o estro do Agapito,
sem coisas estudar transcendentais,
sem hábito da ordem – Sant’Iago,
sem nas Cortes ouvir Zê de Morais?!

(Canto IV.)

 
 
«HOC OPUS HIC LABOR EST»

Eu conheço Lisboa, e tenho pena;
éden dos charlatães do todo o mundo;
lago formoso de mentiras lindas,
tem nas margens o amor, traição no fundo.

Rainha do Ocidente envolta em pó,
vaidosa de seus mil comendadores;
dos seus guanos e dos seus trapiches,
rica de realejos e credores.

Hospitaleira mãe do passeante,
Cícero do Marrare, audaz talento;
lanterna maga que alumia a estrada
que vai do botequim ao Parlamento.

Árvore a cuja sombra o pretendente,
em torno do ministro em vão suspira;
onde o memorial constante entoa
hinos sonoros que a barriga inspira.

Onde o talento se protrai de rastos,
e o charlatão pomposo se irradia
por entre os beleguins eleitorais,
potências do presente, heróis do dia.

Em ti o amor, Lisboa, é como o fósforo,
na juvenil endiabrada mão,
que morre, qual se acende, em breve instante,
sem faísca deixar do seu clarão.

San Bento palrador, contai os feitos
dos mil Catões da minha pátria bela;
quanto sangue leal nos teus combates
verte o senso comum e só por ela!

Oh! falem Coruscantes e Ravisius,
ala dos faladores tão secante!
conta, Zé de Morais, as sanguessugas,
que aliviam a Pátria agonizante.

De Lisboa os cataventos,
quem vos poderá pintar!
os políticos portentos,
que vem a Pátria salvar,
ricos de cores aos centos
de mil diversas bandeiras!
nobres peitos-prateleiras
dos antigos democratas,
a pedante mocidade,
e a cómica majestade
desses gordos pataratas!

(Canto V.)


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