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Abílio de Guerra Junqueiro (1850-1923) nasceu em Freixo de Espada à Cinta, formando-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi funcionário público e deputado, aderindo em 1891, com o Ultimatum inglês, aos ideais republicanos. Influenciado por Baudelaire, Proudhon, Victor Hugo e Michelet, iniciou uma intensa escrita poética com o fim último de, pela crítica, renovar a sociedade portuguesa. Retirou-se para uma quinta no Douro, regressando à política com a implantação da República, tendo sido nomeado Ministro de Portugal em Berna. Obras: A Morte de D. João (1874), A Musa em Férias (1879), A Velhice do Padre Eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Pátria (1896), Oração ao Pão (1903), Oração à Luz (1904), Poesias Dispersas (1920). Em colaboração com Guilherme de Azevedo, escreveu Viagem à Roda da Parvónia. Outras páginas sobre o autor: REGRESSO AO LAR
Ai, há quantos anos que eu parti chorando PORTUGAL
Maior do que nós, simples mortais, este gigante ADORAÇÃO Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão Em mim não é amor; filha, é adoração! Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora. Quando da minha noite eu te contemplo, aurora, E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante Eu sinto virgem linda, inefável, radiante, Envolta num clarão balsâmico da lua, A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua! Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa: Além de bela és santa; além de estrela és rosa. Bendito seja o deus, bendita a Providência Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência, O deus que te criou, anjo, para eu te amar, E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!... Poesias Dispersas CARTA A F. És tu quem me conduz, és tu quem me alumia, Para mim não desponta a aurora, não é dia, Se não vejo os dois sóis azuis do teu olhar. Deixei-te há pouco mais dum mês, mês secular E nessa noite imensa, ah, digo-te a verdade, Iluminou-me sempre o luar da saudade. E nesses montes nus por onde eu tenho andado, Trágicos vagalhões dum mar petrificado, Sempre adiante de mim dentre a aridez selvagem, Vi como um lírio branco erguer-se a tua imagem. Nunca te abandonei! Nunca me abandonaste! És o sol e eu a sombra. És a flor e eu a haste. Na hora em que parti meu coração deixei-o Na urna virginal desse divino seio, E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho Dentro em meu peito, como uma rola em seu ninho! Poesias Dispersas
EM VIAGEMDesde aquela dor tamanha Do momento em que parti Um só prazer me acompanha, Filha, o de pensar em ti: Por sobre a negra paisagem Do meu ermo coração O luar branco da tua imagem Veste um benigno clarão. A tarde, no azul celeste, Há uma estrela esmorecida, Que é o beijo que tu me deste Na hora da despedida. Beijo tão longo e dolente, Tão longo e cortado de ais, Que o meu coração pressente Que não te torno a ver mais. Conto no céu estrelado Lágrimas de oiro sem fim: É o pranto que tens chorado, De dia e noite, por mim... Quando me deito na cama E vou quase adormecido, Oiço a tua voz que me chama, Num suplicante gemido. Num gemido tão suave, Tão triste na noite escura, Que é como uma queixa d'ave Presa numa sepultura!... Em sonho, às vezes, meu Deus, Cuido que vou expirar, Sem levar nos olhos meus O teu derradeiro olhar. E sem extremo conforto Que eu ness'hora quero ter: Beijar a fronte do morto Aquela que o fez viver. E é esta ideia constante, É esta ideia sombria Que me eclipsa, a todo o instante O sol da alma, a alegria. Partir!... Partir-se a cadeia Da vida, Senhor, senhor! Quando o azul doirado arqueia Bênçãos ao meu sonho em flor!... Morrer amanhã talvez! Morrer!... Endoideço, quando Me lembra a tua viuvez, Entre dois berços chorando!.. Morrer, entregar à treva, Aos vermes e às podridões O meu coração, que leva Dentro mais três corações! É duro, é cruel... No entanto, Antes da hora final, Eu quero dizer-te o quanto Te amei, lírio virginal! Eu vinha de longe, exangue, A alma despedaçada, deixando um rastro de sangue Nas urzes da minha estrada. Brancas ilusões mimosas, Vastas quimeras febris, Abelhas doirando rosas, Águias c'roando alcantis. Oh, desse mundo risonho Havia apenas ficando A bruma vaga dum sonho Que a gente sonha acordado... ....................... ....................... Nessa tremenda ansiedade É que tu verteste, flor, A tua imensa piedade Na minha infinita dor!... Eu era a sombra funesta E tu o clarão doirado; Juntámo-nos, que é que resta? Um céu de Maio estrelado. Quando vais serena e calma, Linda, inefável, como és, Vou pondo sempre a minha alma No sítio onde pões os pés. Corre o mundo, (o mundo é estreito) Podes mil mundos correr, Que hás-de calcar o meu peito sempre por ti a bater. ...................... ...................... Meus sofrimentos partilhas E meus regozijos vãos: Minhas dores são tuas filhas; Meus cuidados teus irmãos. Não Há dif'rença nenhuma Em nossas almas, eu creio Que foram feitas só duma Que Deus dividiu ao meio. Por isso penso há dois meses, Desde a hora em que parti, Que morreria cem vezes Morrendo longe de ti: Mas ai! se assim fosse, quando Me sepultassem, então Estalariam chorando As tábuas do meu caixão. E do meu peito gelado, Na terra do cemitério, Brotaria ensanguentado Um lírio roxo, funéreo. Um lírio estranho, imprevisto, Feito pela minha dor Das cinco chagas de Cristo Reunidas numa só flor... E a estrela, d'alva inocente, Cheia de dó tombaria, Lagrimosissimamente Na urna da Flor sombria!... Poesias Dispersas Para o texto integral das várias obras, clique aqui |
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