José Leon Machado

Recensões

Fluviais
José Leon Machado
Porto, Campo das Letras, 2001 (contos)

Fluviais
Uma felicidade portuguesa

Portugal é um país a várias velocidades. Todos o são. Mas nós refinamos. A distância mental, de comportamentos, de ambições, entre um habitante da Lapa, em Lisboa, e um de aldeias saloias vizinhas da capital é incomensurável. Outros países são mais homogéneos, para o melhor e para o pior. Nós, com tanto tempo, oito séculos, para nos homogeneizarmos, e tendo-o conseguido espantosamente em domínios como o idioma e a etnia, andamos perdidos uns dos outros nas coisas íntimas. A escassas dezenas de quilómetros, vive gente sem quase nada para dizer-se. Nem no assunto, nem no modo de ver.

Se algum livro recente nos alerta para esse abismo nacional, é Fluviais, de José Leon Machado (Campo das Letras, 2002). O Portugal que ele retrata, que ele pressupõe, dir-se-ia revoluto, histórico, superado. Um leitor deste livro, o mais provável leitor deste livro, o urbano, terá de vencer esse momento em que a estranheza o assalta. Para seu sossego, para sua orientação no mundo, ele tinha eliminado da realidade um Portugal assim: reino de instintos, sublimemente inocente nos entusiasmos e nos sonhos, mas tingido de sangue, não dos acidentes da estrada ou dos assaltos urbanos, sim do desvaire e da vingança mais primários, mais autênticos. É isso: a tranquilidade, a compreensão do mundo, pediam que esse Portugal fosse «já» literatura. Nada a fazer. Esse Portugal é «ainda» literatura.

Os trinta e nove contos que Leon Machado reuniu em Fluviais são outros tantos quadros dum país rural, todos distintos, por isso entre si contrastantes, por isso mutuamente convincentes. É dessa funda diversidade que emerge a força do documento. Não, nem tudo é igualmente soturno, ou sistematicamente infeliz, ou monotonamente vil. Estamos aqui longe do tom de fundo que fez a celebridade dos contos de Torga. Se a sua expressão era feiticeira, já os ambientes e os episódios levavam infalivelmente à descrença em qualquer projecto humano. A sorte de José Leon Machado, e nossa, é nenhuma tese desconsolada lhe conduzir a mão. Por isso pode até narrar amores felizes, ou reencontrados. Não são muitos, eles, são mesmo uma raridade, mas permitem uma pausa, trazem pelo menos um freio, à geral e ofegante marcha para o aniquilamento. Mesmo esta marcha é só uma abstracção, produto da mente citadina que lê. Os heróis e heroínas, esses, são, no prazer e no desgosto, primos da ceifeira de Pessoa.

Mundo invejável, portanto? Mais calma aí. Sem insistir em que os animais também sofrem, lembraremos que há direitos ao progresso. E o progresso, se alguma coisa cria, é meios de fugir ao destino. De tentar trocar-lhe as voltas, o que já é alguma coisa. Certo: nada disto tem a ver com a consecução da felicidade, que nunca saberemos exactamente por onde andaria. Assim, um rural que acede ao progresso (passe a melíflua expressão) pode não beijar as mãos de quem lho possibilitou. E o que certamente não sabemos é se as dezenas de mulheres e homens que se movimentam no livro de Leon Machado se sentem sequer precisados de mudança. Só eles o sabem. Ou, exactamente, não sabem. E assim é que está bem.

Fernando Venâncio, Fevereiro de 2002

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