José Leon Machado

Recensões

Os Incompatíveis
José Leon Machado
Porto, Campo das Letras, 2002 (contos)

Texto de apresentação no Funchal
aquando da entrega do Prémio Edmund Bettencourt

Sobrepondo-se a um mundo aborrecido, certo, monótono, submerso em poeirenta rotina, no qual a relações entre o homem e a mulher parecem reger-se pelo anátema da incompatibilidade, surgem-nos, nos contos de Os Incompatíveis, de José Leon Machado, os traços que delineiam o mundo de aparente compatibilidade das transgressões emocionais e eróticas que rondam a vida humana e nela, por vezes, se imiscuem.

Ao longo dos dezanove contos que constituem o livro, o gume da transgressão abala a rede estável da economia doméstica, dos grupos de amigos, dos locais de trabalho, das aldeias e cidades povoados por homens e mulheres, maridos, esposas, pais, filhos, adultos, adolescentes e crianças. O modelo triangular ou quadrangular da traição risca o sossego do quotidiano com um traço rápido de intromissão sem contemplações. Um rasto de erotismo ou um aceno de sensualidade fazem perigar a quietude monótona do dia-a-dia das personagens, apontando a evidência da incompatibilidade caseira subjacente e despertando sensações até aí quietas e adormecidas.

Por vezes, um simples pormenor é suficiente para despoletar a dialogia inicial do conto ou para surpreender o leitor com o seu desenlace: umas botas de cano alto, um telemóvel, uma pulseira ou um vestido de seda preto, podem ser pontos de partida ou de chegada, podem funcionar na narrativa como ponto de equilíbrio ou de desequilíbrio entre a compatibilidade e a incompatibilidade.

José Leon Machado domina com hábil mestria a tradicional técnica do final-surpresa (à boa maneira de um Maupassant, por exemplo) apresentando-nos em todos os contos um desfecho inesperado, moderno pelo inusitado das situação, actualizado pela leveza clara da linguagem e pela pena certeira de quem é, sem dúvida, um genuíno contador de histórias ou, como sintetizou Vargas Llosa no título de um dos seus livros, de quem domina a arte de Como se cuenta um cuento.

A «comédia humana» d´Os incompatíveis disseca com subtil e aparente superficialidade uma realidade muito mais séria e profunda porque nos seus contos as dicotomias opositivas do bem e do mal, do bom e do mau, do certo e do errado, do grotesco e do belo, da sensualidade e da sexualidade, do empenho e da indiferença, da artimanha e do sonho, se anulam e se desfazem na ausência de julgamento de um sorriso. É por isso que o leitor que acaba de ler um qualquer dos contos de Os Incompatíveis não pode deixar de sorrir: sorrir quase num riso aberto; sorrir na continuidade do pensar; sorrir com leve comoção, sorrir com emoção; ou, muito simplesmente, apenas deixar-se sorrir e repetir para si próprio uma das frases do conto «Música para o alto», que bem poderia ter servido de epígrafe ao livro:

«Acontece, porém, que, escrevendo Deus direito por linhas tortas, ainda hoje se não compreende como foi Ele por linhas direitas escrever torto» (p.138).

Ana Margarida Falcão, Funchal, 9 de Maio de 2002.

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