José Leon Machado

Recensões

O Guerreiro Decapitado
José Leon Machado
Porto, Campo das Letras, 1999 (romance)


O Guerreiro Decapitado
de José Leon Machado

No romance O Guerreiro Decapitado, são as personagens que protagonizam o confronto de duas culturas, numa quase simetria: de um lado os Brácaros (Pentóvio e Âmia), do outro os Romanos (Lauro e Valéria). No centro, as personagens em movimento: Erbuto e Bórnio, atraídos pela civilização; Lívia e Aurélio, a segunda geração que se aproxima da cultura indígena. Movimento que é mais evidente em Bórnio e Lívia, pois Erbuto já se adaptou à organização romana e Aurélio já se converteu aos Brácaros. Bórnio e Lívia irão aproximar-se gradualmente da "outra cultura" e um do outro, mas não é dessa paixão que eu irei falar. Uma das personagens estáticas, Lauro, não acredita na aculturação e despreza os indígenas que considera selvagens: «Duzentos anos foram necessários para amansar as tribos de Hispânia. Quantos mais para os civilizar?»

A dominação de uma cultura por outra, a sua resistência, o reequilíbrio, sempre instável, sempre precário, que o "metal sonante" irá suavizar. «O ouro, meus caros, amansa corações e compra estabilidade.»

A organização romana, político-administrativa, os hábitos, desde as fatiotas à alimentação, as suas ideias, descritas de forma tão rigorosa e realista, quase os podemos transportar para o nosso tempo. O tempo aqui é elástico, os Romanos podiam aparecer aqui e agora, que não nos iríamos surpreender.

A máquina romana, cuja motivação é o metal sonante, modificará definitivamente a face da Hispânia. É uma espécie de grande fábrica, desde a casa – vila urbana – até à propriedade. E os deuses, tão arrogantemente humanos! De facto, a tentação de transportar estes Romanos directamente para a actual máquina administrativa europeia é demasiado grande. Rostos sorridentes com nuvens e azul celeste a prometer tomar conta de nós. A história repete-se. A dominação romana, toda essa máquina administrativa do poder, aqui permanece, por toda a Europa.

Bórnio é a personagem dominante. Protagoniza a curiosidade insaciável: «Quisera aventura, conhecer gentes e terras, tinha plenamente satisfeito tal desejo.» Aprenderá latim e grego, lerá poetas e filósofos, chegará a comandante militar. Regressará a casa e à jovem que ouvia as suas histórias. Pentóvio será honrado pelo filho, o poder voltará às mãos de um Brácaro.

É, pois, com Bórnio que entraremos na vila Rufina e conhecer os seus habitantes, especialmente os escravos de várias origens: Cantábria, Lusitânia, Germânia. E até mesmo um grego, Plutino, o favorito de Lauro: «Com ele tinha diatribes que normalmente ultrapassavam o senso comum, subindo às etéreas camadas da filosofia estóica e céptica.» Plutino é o professor de Lívia e Aurélio e, mais tarde, também de Bórnio.

É igualmente com ele que assistiremos a um banquete, com a descrição das ementas, os costumes alimentares, as conversas, as ideias. E os convidados, desde o prefeito Túlio Marculino, passando pelo comerciante próspero Quinto Vário Latro, pelo centurião Caio Fusco, pelo poeta lírico e decurião municipal nas horas vagas, Tito Sulpício Ânio.

É também com Bórnio que assistiremos a várias campanhas das legiões romanas: na Germânia, na Dácia e na Dalmácia. Parecem territórios do futuro, de um autêntico filme de ficção científica.

É interessante a distinção entre Lusitanos e Brácaros, a propósito da confusão que os companheiros de Bórnio faziam ao considerá-lo lusitano. «Os Lusitanos vivem ao sul do rio Durius e, se bem que a língua seja idêntica, os costumes e as origens são muito diferentes. (...) Os Galaicos viviam desde o Durius até ao outro lado do mar e dentro dessa longa extensão viviam várias etnias. Uma delas era a dos Brácaros.»

Quando Bórnio é promovido a tribuno, «o que mais o aborrece é a necessidade de ter de se deslocar a Roma para receber das mãos do imperador as insígnias correspondentes ao novo posto.» Roma impressiona-o: «os palácios do imperador, o senado, o forum aberto a um mar de gente, os templos rodeados de colunas, as estátuas de mármore quase reais», mas não o imperador que lhe parece «um homem vulgar, idêntico a todos os outros Romanos.» Bórnio não aceita a divinização de um homem vivo. Para os povos da Hispânia, «só aos guerreiros mortos, e apenas aos mais notáveis, lhes é concedida a divinização.»

Como nada é imutável, pessoas e lugares vão-se alterando, há a evolução e o declínio, como uma imensa maré.

Quando Bórnio regressa, descobre que «o castro estava quase deserto. Os novos haviam partido para o vale e para a cidade a oferecerem os braços aos Romanos.» Começará por se dirigir, «antes de anoitecer (...) à fonte do castro onde a deusa Eleana tinha a sua morada e aí celebrar um rito para acalmar o espírito do pai e libertá-lo das cadeias que ainda o prendiam à terra.»

A renovação de Eleanóbriga é por nós desejada. Até a estátua do guerreiro, símbolo da dominação romana, terá uma «nova cabeça». O mito do deus Somastoreico cumpre-se finalmente: «Somastoreico, deus da luz e da concórdia, zelava pela vida dos mortais com a sua amada, a pomba branca, poisada no ombro.»

Ana Gabriela Fernandes, Novembro de 1999

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