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O Lima e o Bucolismo de Diogo Bernardes

"(...) todo o Lima na grande extensão desde Ponte de Lima a Viana, é espraiado, com as margens atapetadas de verdura, matizado de lugarejos, cheio de vida, de sorrisos, de amor" (António Costa, No Minho, 1874).

"Os rios são poetas a cantar!.../ Ah! cantam, cantam sempre, são troveiros, / Que vão passando a vida a namorar/ As folhas predilectas dos salgueiros! (Teófilo Carneiro, Poesias, 1952).

1. No IV Centenário da Morte de um poeta bucólico

Duas coincidências se conjugaram para abordar conjuntamente um poeta renascentista português e um rio galaico-minhoto: a primeira é de natureza geográfica – nascendo humilde em terras de Sarreaus e de Xinzo de Límia (Ourense), atravessando depois as belas vilas minhotas de Ponte da Barca e Ponte de Lima, desagua finalmente na luminosa cidade de Viana do Castelo. O rio Lima é um dos grandes rios dos poetas, sobretudo dos poetas bucólicos, juntamente com o Minho (de Andrade Caminha), o modesto Neiva (de Sá de Miranda), o turvo Douro, o sussurante Leça (de Sá e Mene-ses), o humilde Lis (de Rodrigues Lobo), o saudoso Mondego, ou o majestoso Tejo (de Camões).

A segunda coincidência é de ordem cronológica – Diogo Bernardes, nascido provavelmente em Ponte da Barca e irmão de outro apreciável poeta (Frei Agostinho da Cruz), é o poeta do Lima, um grande poeta desmerecidamente apagado. Com efeito, o poeta Bernardes está vergonhosamente marginalizado e esquecido – pelos editores, que o não publicam como deveriam (1); pelos leitores que, por consequência, o não lêem; e até pelos investigadores, que o não estudam como merecia (2).O indiscutível mérito da obra camoneana parece ter eclipsado outros grandes poetas do Renascimento, afastando-os do cânone proposto ao nível da aprendizagem escolar e, indirectamente, dos trabalhos de pesquisa e investigação.

Ora, neste ano de 1996, além de celebrar o IV Centenário da Morte deste grande poeta bucólico, completam-se quatro séculos sobre a publicação de parte da sua obra, reunida em três volumes (3). Rimas Várias ao Bom Jesus foi o primeiro volume publicado da obra poética de Bernardes, em 1594, e constitui-se como o seu cancioneiro espiritual ou religioso; O Lima, reconhecidamente, a sua grande obra bucólica, e as Rimas Várias-Flores do Lima, que reúne o principal do seu lirismo amoroso – foram ambos editados em 1596, faz agora 400 anos (4).

Em face desta correlação de datas e de lugares, e sendo eu também natural da Ribeira Lima, ocorreu-me revisitar a obra poética de Bernardes e ver como o poeta do Lima pinta a beleza encatatória e lendária de um dos rios mais cantados de toda a Literatura Portuguesa. Evocar Bernardes e o rio Lima é, deste modo, falar de um traço de união que nos aproxima, para lá das fronteiras políticas. Apresentemos, portanto, com brevidade, as razões que justificam tão merecida antonomásia.

2. Diogo Bernardes e o pátrio Lima

2.1. Filiação bucólica: integrando-se, de pleno direito, na ilustre plêiade de líricos renascentistas, Diogo Bernardes (1530?–1596?) destaca-se claramente no capítulo da poesia de inspiração bucólica, sob a influência dos clássicos greco-latinos (Longo, Teócrito ou Virgílio), mas também de clássicos mais ou menos coevos (os italianos F.Petrarca e J.Sannazaro, ou os espanhóis Garcilaso de la Vega, Fernando Herrera ou Barahona de Soto) (5).

Como sabemos, uma das características fundamentais da literatura bucólica, ou do modo bucólico, actualizado nos seus vários géneros e subgéneros poéticos e à luz de uma variada tópica , é a comunhão com a Natureza, que na poesia de Bernardes assume tonalidades de constante confidencialidade, na senda, aliás, do lirismo galaico-português: "Inda agora outra vez, duros penedos/ Ouvireis o som triste dos meus ais,/ E vós, águas do Lima, que passais,/ A quem já descobri muitos segredos" (I, 27). Estilisticamente, o modo bucólico expressa-se através da utilização do genus humilis, na tripartição dos géneros elaborada pela teorização medieval (rota Virgilii).

Contudo, a metafórica, os motivos e os temas da poesia de Bernardes não se restringem a este bucolismo renascentista. Sem pretender simplificar demais a leitura interpretativa do lirismo de Bernardes, somos tentados a distinguir dois tipos de bucolismo, se assim se pode dizer, dois ritmos poéticos: 1º) um lirismo mais luminoso e brando, de mundividência renascentista, cantando o vale ameno e a fresca ribeira que emoldura o claro rio (bucolismo tranquilo); 2º) um lirismo mais sombrio e queixoso, de filiação maneirista, em que o poeta se lamenta no seu vale de lágrimas, chorando com o rio (bucolismo dorido). É como se fossem dois movimentos do coração (sístole e diástole). Aliás, esta perspectiva é legitimanete aplicável a outros poetas contemporâneos de Bernardes, como Camões. Ilustremos cada um destes andamentos emotivos do bucolismo ambivalente de Bernardes.

2.2. Mundividência bucólica e a "umbratilis vita":

A um primeiro contacto, o lirismo de Bernardes apresenta-se como um canto ou hino bucólico à beleza da Natureza e à felicidade do homem. A poesia celebra a amenidade florida das margens do Lima, as águas cristalinas do rio e a doçura do seu correr, a fresca verdura dos salgueiros e das faias, o pitoresco das aldeias sobranceiras (6). Enfim, o Minho encantador era, na pena bucólica de Bernardes, uma espécie de nova Arcádia, um espaço edénico e luminoso (exceptuando certos atractivos que a Capital também exerce sobre o poeta).

Ausente do seu ditoso vale, em Lisboa, ou cativo em África, suspira pela quietude das margens do Lima, como se fosse o abandonado regaço materno: "Meu pátrio Lima, saudoso e brando/ Como não sentirá quem Amor sente,/ Que partes deste vale descontente,/ Donde também me parto suspirando?"(I, 36). Temática do saudosismo aliada à apologia da vida simples e da áurea mediania: "Tornemos a cantar ao pé da faia,/ Junto do claro Lima, à sombra fria/ A Ninfa por quem inda noite e dia,/ Arde meu coração, treme e desmaia" (I, 33).

As formas poéticas mais usadas para transmitir esta forma de evasão no refúgio mítico e arcádico são a écloga e o idílio, para além das composições em medida velha. Os pastores arcádicos (sejam eles Sílvio, Serrano ou Limiano) dialogam sobre a beleza e a alegria campestre e paradisíaca. Bernardes revê-se, poeticamente, na figura do pastor, integrado no universo idealizado de uma nova Arcádia, isto é, um cenário campestre, composto de saltitantes ribeiras e fontes, de verdejantes serras e vales, de rios alegres e claros (materializando o tópico do locus amoenus): "Lima, que neste vale murmurando/ Em quanto o Sol s'esconde em Ocidente,/ A tua natural vizinha gente/ Fazes adormecer com seu som brando" (I, 28).

Esta poesia pastoril, com o seu virtuosismo e convencionalismo estilístico e temático, é bastante devedora da herança clássica e duma tópica bastante codificada, aproximando Bernardes de outros poetas do seu tempo. Um dos lugares-comuns é justamente o da celebração da vida contemplativa e ociosa , sob a ramagem do arvoredo – é a umbratilis vita que Virgílio imortalizou nas Bucólicas: "Mas veja em lugar disto a fresca parte,/ Que vai regando o Lima claro e puro/Saudoso da fonte, donde parte./Onde logra do bosque verde escuro/ A sombra fresca, a fria erva miúda,/ Onde dorme o pastor livre e seguro"(I, 138-9).

Em suma, talvez seja este o registo mais conhecido da poesia de Bernardes: o de um lirismo de fundo bucólico, onde a Ribeira Lima é a moldura idealizada para o poeta discorrer sobre o Amor e a sua natureza antinómica (incluindo as mágoas resultantes da incorrespondência amorosa); sobre a Mulher e a sua beleza petrarquista; sobre a constante saudade da sua terra natal ou dos tempos do passado. Neste registo, o poeta serve-se de uma imagética luminosa e ensolarada, de uma tópica e metafórica mais ou menos codificadas por uma rica tradição.

2.3. Tópica maneirista e o "taedium vitae":

Mas, Bernardes não se esgota no poeta renascentista. A sua singularidade maior advém-lhe de outro registo – o seu lirismo é também perpassado por um sentimento de desengano, que o impele para a confissão da angústia, mas também para a invocação religiosa. Vejamos.

Numa leitura mais atenta, e numa caracterização epocal mais rigorosa, uma boa parte do lirismo de Bernardes não cabe num conceito demasiado amplo de bucolismo renascentista ou nas características do italianizante dolce stil nuovo. Antes apresenta uma séria de preferências temáticas que o perfilham a uma tópica indiscutivelmente maneirista: "Águas do brando Lima deleitosas/ Tornem-se nossas ondas vagarosas,/ Lágrimas saudosas,/ Pois não podem meus olhos chorar tanto" (II, 14). Predomina, neste registo, uma tonalidade nostálgica, melancólica e dorida, numa visão maneirista, com realce para os seguintes temas: sentimento de precaridade perante os prazeres e riquezas terrenas (tema do desengano); o drama do tempo-que-passa (temas da fugacidade e mudança); a vida como um mar tempestuoso (motivo do naufrágio da vida); e ainda o recurso à invocação religiosa e ao desejo de uma vida para além da morte (tema desterro do "homo viator") (7).

Com efeito, ao lado do hino bucólico à vida e à felicidade, aparece-nos também o canto lamentoso. Para isso, terão concorrido não só certas circunstâncias históricas – como, por ex., a morte de determinadas figuras nobres (príncipe D.João, v.g.), de poetas queridos (como Sá de Miranda), e ainda as nefastas consequências da jornada infeliz de Alcácer-Quibir –, mas também determinada visão do mundo e até certos factos autobiográficos, com destaque para as repetidas oscilações entre Lisboa e o Minho, o mais das vezes por razões políticas.

A desventura destrona a felicidade que reinava no coração do poeta. Ao dia claro sucede a noite escura. As doces e calmas águas do Lima são suplantadas por águas caudalosas e mares tempestuosos. Depois de uma florida Primavera ou de um Verão suave, chega um duro e enlutado Inverno. Da reflexão elegíaca e inquieta sobre a existência, até ao sentimento de angústia e à invocação espiritual vai um passo.

O triste Lima é agora descrito "Derramando queixumes magoados/ Com voz rouca, com acentos graves"(III, 141). Na elegia com a rubrica "Estando cativo", o poeta chora com saudades do passado, em que cantava livremente "ao som das águas/ Do saudoso, brando e claro Lima". Agora, sobrevivendo a tempos de tristeza, chora cativo, restando-lhe apenas o olvido desses sentimentos "Nas turvas águas do esquecimento"(III, 146). As águas das fontes e dos rios são, desde tempos imemoriais, símbolos arquetípicos da inspiração dos poetas. Novamente, uma das funções primordiais da omnipresente Natureza é a de servir de personificada confidente das mágoas do poeta, como nos sonetos dedicados "Ao Rio Lima": "Não corre o Lima como de primeiro,/ Alegre e claro; antes triste chora,/ Em vez da branda frauta, ouvindo agora/ Do côncavo latão o som guerreiro"(I, 92); "Crescem as fontes que vem dar no Lima/ Com lágrimas de quem suas águas bebe:/ Ele também com lágrimas recebe/ O licor triste, que o mais lastima"(I, 93).

Neste registo, a forma poética recorrente é a elegia. A poesia tende a ser menos codificada, mais permeável à subjectividade confessional. O estado de alma oscila entre a melancolia e a lamentação mais ou menos angustiada. A Ribeira Lima muda de cor, o cenário comunga do estado de alma do poeta: a natureza, em geral, veste-se de tonalidades mais sombrias, torna-se mais triste, escura e orvalhada; o próprio rio se apresenta mais caudaloso; os arvoredos adensam-se, mais lôbregos e pesados.

O poeta, entediado ou amargurado, chora os seus males. São, afinal de contas, as lacrimae rerum vergilianas, popularizadas por Petrarca: "Lima, de tu clara fuente/ Tristes y eternas lagrimas derrama:/ No dexes de sentir el mal que siente/ Quien dessea a tu nombre imortal fama"(III, 172); "Tanto fui os meus olhos costumando/ A chorar desses vossos a crueza,/ Que lhe ficaram já por natureza/ Lágrimas em lugar de sono brando" (I, 9). No jogo hiperbólico da escrita poética, o caudal das águas do rio aumenta com as lágrimas do poeta: "Junto do rio Lima Delio estava/ Lágrimas saudosas derramando,/ A morte d'outro Lima ali chorando,/ As águas com seu choro acrescentava"(III, 185). Sentindo dramaticamente a transitoriedade do tempo que tudo devora, à luz de uma mundividência maneirista, Bernardes desabafa: "Águas do claro Lima, que corria/ Para mim, noutro tempo, claro e puro,/ Que correr vejo agora turvo, escuro,/ Quem afogou em vós minh'alegria?"(I, 111); "Passou aquele tempo em que soía/ Cantar versos alegres e suaves/ Junto do pátrio Lima à sombra fria"(II, 277). Mudaram-se os tempos, mudaram-se os sentimentos e o poeta já dificilmente se revê no espelho das águas do seu Lima natal.

O Lima é também para Bernadres, o rio da saudade e do esquecimento: "Junto do Lima, claro e fresco rio,/ Que Lethes se chamou antigamente"(II, 49). O Lete (Lqh) ou Letes é, desde a antiga mitologia clássica, o nome de um dos rios (ou fontes) do Inferno, o rio do esquecimento. Bernardes não ficou indiferente ao poder poético da lenda. Aproveitando-a, fala repetidamente nas "águas frias" do Lethes; nas leteas águas; no Lima que se metamorfosea em Letheo, nas turvas águas do esquecimento (8). Letes é, assim, sinónimo dum indesejado apagamento de belas lembranças e ternos sentimentos, uma metáfora alegórica do inexorável fluir do tempo destrói e mata.

3. Conclusão: a herança do poeta do Lima

Os grandes poetas perduram pelos rastos e influências do seu legado literário. A celebridade que alcançam fica a ecoar na literatura e cultura de um povo. A Bernardes ninguém contesta o justíssimo epíteto de poeta do Lima. A serenidade bucólica do rio ganhou celebridade na sentida escrita poética de Bernardes. Falar de Bernardes é, assim, falar do Lima. Não pode falar do rio, sem mencionar o poeta que o imortalizou. Essa aura de mágica beleza que o poeta do Lima imprimiu ao rio, ao mesmo tempo luminosa e melancólica, terna e dorida, causou viva impressão desde logo nos poetas contemporâneos de Bernardes, mas também nos vindouros. Tomemos alguns breves exemplos, apenas, dos ecos intertextuais que têm como ponto de união um rio, cuja beleza enfeitiça e deleita.

A recepção literária de Bernardes inicia-se logo no séc.XVI. O grande e italianizante Sá de Miranda reconhecia a qualidade da obra poética do cantor do Lima. Andrade de Caminha elogiou repetidamente o estro poético de Bernardes.Também o culto e patriótico António Ferreira não ficou indiferente bucolismo de Bernardes. Por isso, refere-se ao cantor do "claro Lima", salientando o seu "doce verso" ou "doce rima" (I, 71, 72).

Camilo Castelo Branco, além de consagrado ficcionista, também foi poeta e atento estudioso da nossa literatura. Ora, no início de uma das suas novelas, intitulada Estrelas Propícias, vem a propósito a evocação do cenário minhoto da Ribeira Lima, e o narrador camiliano, interventivo e culto como sempre, relaciona assim a beleza daquele cenário bucólico com as páginas do cantor d'O Lima: "Folheai o livrinho, todo mimo e deleite, do poeta Bernardes, sentido e escrito ali naquelas margens; cuidareis ver nele as harmonias que vos soam ao coração em descompassadas notas" (9).

Quem melhor que outro poeta para falar de Bernandes. Assim acontece com o finissecular António Feijó (1859-1917), que, evocando o cativeiro de Bernardes depois da tragédia africana de 1578, o visiona flutuando, bucolica e ofelicamente, à flor das águas do Lima: "Julgando-se embalado, à lua cheia,/ Num tristíssimo canto de sereia/ Entre as nereides a boiar no Lima..." (10). Bernardes e o Lima, num casamento perfeito, para a vida e para a morte. Como se na despedida, o poeta sentisse: "Lima, não torno a ver-te!", pedindo então ao rio que o embalasse pela última vez.

Outro escritor que confessadamente admirou Bernardes, Delfim Guimarães (1872-1933), num dos sonetos dedicados aos "Poetas Limianos", do livro Alma Portuguesa, centrando-se na figura do poeta do Lima, escreve: "O pátrio Lima celebraste/ Em versos repassados de ternura,/ E deste-lhe uma fama, que perdura,/ À qual teu próprio nome cimentaste..." (11). Ajustada imagem esta, da fusão do nome de Bernardes com o do rio Lima.

Teófilo Carneiro (1891-1949) foi outro autor limiano, em cujas Poesias não poderia deixar de aparecer o Lima feiticeiro e, concomitantemente, a figura e obra de Bernardes. Assim, por exemplo, falando do rio, o poeta exclama em tom de lamento: "Bernardes, ó Poeta que cantaste/ Ao som dos ecos mágicos do Lima,/ nas suas águas doces engataste/ Teu estro de oiro huma eterna rima!" (12).

Terminando, ocorre-me sublinhar que o bucolismo de Bernardes, ora na sua idealização mais luminosa e renascentista, ora na sua temática mais sombria e maneirista, nos lega pelo menos duas grandes lições poético-culturais: a primeira, e talvez a mais cativante, é uma lição de beleza, estética e literária – ninguém até hoje conseguiu falar do rio Lima com mais delicadeza e melancolia; a segunda lição, não menos importante, podíamos-lhe chamar lição ecológica – com efeito, poucos poetas na literatura portuguesa alcançaram como Bernardes materializar, em verso bucólico, a harmonia fraternal e mística (quase franciscana) entre o Homem e a Natureza. Quatro séculos depois da sua publicação, aproveitando ou não o pretexto da efeméride relembrada, é tempo de fruirmos da enriquecedora mensagem que enforma o bucolismo do poeta que cantou o rio que nos une a todos nós, galegos e portugueses.

* Comunicação apresentada no VI Colóquio Galaico-Minhoto, em Ourense (Espanha), de 26-28 de Set. de 1996; publicada depois na revista Brotéria, 144 (1997), pp. 102-109.

NOTAS:

(1) Depois da edição da obra poética de Bernardes, organizada pela Sá da Costa, mais recentemente, o Prof. Aníbal Pinto de CASTRO apresentou uma interessante edição fac-similada da edição de 1597 das Rimas Várias–Flores do Lima, Lisboa, IN-CM, 1985, salientando as dificuldades que vão protelando uma desejada edição crítica da obra poética de Diogo Bernardes.

Entretanto, a poesia de Bernardes vai sobrevivendo em raras antologias que lhe são dedicadas, como a de Joaquim FERREIRA, Líricas de Diogo Bernardes, Porto, Ed. Domingos Barreira, s.d.. Resiste ainda em antologias temáticas, onde competentes organizadores seleccionam poesias de Bernardes – v. g., em Tesouros da Poesia Portuguesa (selec., pref. e notas de António Manuel Couto VIANA), 2ª ed., Lisboa, Verbo, 1984, pp. 51-53; mas também na colectânea Na Mão de Deus (Antologia da Poesia Religiosa Portuguesa, org. por José RÉGIO e Alberto SERPA), Lisboa, Portugália Ed., 1958, pp. 113-121. Muito mais raramente vemos o poeta do Lima nos mais recentes manuais escolares.

(2) Entre as excepções, citem-se alguns estudos de incidência genealógico-biografista e de valor desigual, como os conhecidos trabalhos de: João Gomes de Abreu, Álvaro Pimenta da Gama, Delfim Guimarães, Teófilo Braga, Carolina Michaelis de Vasconcelos ou Avelino de Jesus Costa.

(3) Para estas sucintas considerações, servimo-nos da edição das Obras Completas de Diogo Bernardes, organizada por Marques Braga (Lisboa, Sá da Costa): vol. I, Rimas Várias–Flores do Lima (1945); vol. II, O Lima (1946); vol. III, Várias Rimas ao Bom Jesus (1946). [Para maior economia nas citações da poesia de Bernardes, referiremos daqui para diante o número do volume, seguido da indicação de página].

(4) Bernardes alimentou ainda o projecto de organizar uma antologia de poetas portugueses (ver carta XXX d'O Lima), embora não o tenha chegado a concretizar: "De juntar os bons versos vos prometo/ Dos Poetas insignes Lusitanos/ Aprovados por Febo, em seu decreto" (II, 323).

(5) Procedimento de mimésis legitimado pelos códigos poético-literários do tempo, como nos é recordado por uma grande estudiosa da literatura renascentista, Carolina Michaelis de VASCONCELOS, quando nos recorda que os cultores da medida nova e do soneto "eram discípulos dos italianos; quanto à forma, e quanto ao espírito. Quanto aos assuntos, derivavam de preferência dos clássicos gregos e latinos. Todos se adestravam na arte pela imitação mais ou menos livre de Petrarca e de seus sucessores: quer estrangeiros como Ariosto, Tasso, Bembo, Sannazaro, Marino; quer nacionais como Garcilaso, Boscán, Camões. Na era do Renascimento, ninguém se pejava de copiar, ou pelo menos tratar um tema já versado por outrem. Muito pelo contrário" (Investigações sobre Sonetos e Sonetistas Portugueses e Castelhanos, Paris, 1910, pp. 7-8).

(6) Na "Carta Dedicatória" d'O Lima, Bernardes justifica assim a opção pelo título: "(...) tal nome me pareceu que lhe não quadrava mal, pois tudo que nele vai escrito, compus na sua ribeira" (II, 1).

(7) Esta distinção entre lirismo renascentista e maneirista ficou cabalmente demonstrada com o estudo do Prof. Vítor Aguiar e SILVA, Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa, Coimbra, Centro de Estudos Românicos, 1971. Para além de contribuir para a complexa questão do estabelecimento do cânone poético de Camões e Bernardes, Aguiar e Silva apresenta o poeta do Lima como autor de textos líricos indiscutivelmente maneiristas. Persistir em classificar o lirismo de Camões e Bernades apenas como renascentista é um erro de caracterização epocal hoje indesculpável.

(8) Exemplos das recorrentes referências à alegoria mitológica do Letes: I, 41, 70, 129; II, 49, 155, 182, 199, 259, 278, 302, 320, 325, 352; III, 180, 195.

(9) Camilo Castelo BRANCO, Obras Completas, vol. IV, Porto, Lello & Irmão-Ed., 1985, p. 184.

(10) António FEIJÓ, Líricas e Bucólicas (1884), in Poesias Completas, Lisboa, Bertrand, s.d., p. 81.

(11) Delfim GUIMARÃES, Alma Portuguesa, 2ª ed., Lisboa, Liv.Editora Guimarães, 1927, p. 22. Na mesma obra, leia-se ainda a terna e bernardeana "Carta ao Rio Lima" (pp. 29-32).

(12) Teófilo CARNEIRO, Poesias, Ponte de Lima, Tip. Avelino Guimarães, 1952, p. 24.

J. Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa – Braga)

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