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Maria Moisés de Camilo Castelo Branco: Enredos do Coração

A fábula novelesca de Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco configura uma típica novela sentimental, mas ao contrário do Amor de Perdição singulariza-se por dosear a mundividência romântica com uma atenção a elementos realistas. Digamos, portanto, que se trata de uma novela passional (sobretudo na 1ª Parte), equilibrada por um realismo temperado e tipicamente camiliano. Dividindo a novela em duas partes, Camilo salienta, de modo bem vincado, como veremos, dois percursos existenciais bem diferentes, mas nem por isso menos complementares: primeiro, o narrador camiliano apresenta-nos a história de Josefa da Lage; depois, com a trágica morte desta, narra-nos a vida de sua filha, Maria Moisés.

Vejamos, mais detidamente, os eventos que preenchem cada uma das partes.

História: duas vidas e um segredo

Assim, na 1ª Parte da narrativa, assistimos ao trágico desfecho dos amores contrariados dum jovem cadete de cavalaria (António de Queirós), filho dum orgulhoso fidalgo de Cimo de Vila, por uma simples "rapariga de baixa condição", da aldeia de Santo Aleixo. É uma paixão súbita, que começa a desenvolver-se num cenário campestre e idílico, a paisagem verde e arborizada da Ínsua, uma espécie de Ilha dos Amores. Amadurece em alguns poucos meses do Verão e Outono de 1812, levando os amantes a enfrentar os obstáculos que, entretanto, se interpõem à sua paixão, personificados no orgulho desdenhoso do pai de António, Cristóvão de Queirós e Meneses.

Recordemos, neste contexto de oposição ao amor dos dois jovens, a cena em que o austero pai procura contrariar os desígnios do coração, impondo outra escolha para um casamento mais conveniente com a condição social do jovem morgado. Repare-se na típica reacção de António, própria dos inflamados amantes camilianos – ousando enfrentar e desafiar a autoridade paterna, em nome da religião do Amor que abraçou de alma e coração. Influente, o pai não olha a meios para executar os seus desígnios.

Relembremos, então, uma das cenas mais típicas da ficção camiliana:

– Escolhi-te mulher – disse Cristóvão. – É ainda tua parenta por Meneses. Não é herdeira; mas o irmão morgado está héctico, e o segundogénito é aleijado e incapaz para o matrimónio. Virá ela portanto a herdar os vínculos. É preciso que a visites hoje comigo.

– Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade – pode V.ª S.ª dispor da minha vida; mas do meu coração já eu dispus. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi, ou não casarei nunca.

O velho pôs a mão convulsa nos copos do espadim, arquejou largo espaço, e disse:

– Duvido que você seja meu filho. Proíbo-lhe que se assine Queirós de Meneses. Adopte o apelido de algum dos meus lacaios.

António levantou o rosto e redarguiu:

– Não se ultraja assim a memória de minha mãe.

O velho nutava entre a cólera e a vergonha. Estendeu o braço, e apontou-lhe a porta, rugindo:

– Espere as minhas ordens no seu quarto.

Ao outro dia, um mandado da regência ao intendente-geral da Policia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro" (pp. 135-7).

Sintetizemos as quatro grandes sequências narrativas da 1ª Parte, deste modo:

1.

Morte de Josefa da Lage: ao entardecer do fatídico dia 27 de Agosto de 1813, o pequeno Zé da Mónica vai à procura duma cabra perdida de João da Lage. Pelo caminho, encontra a velha Brites do Eirô e Luís Moleiro. Com a ajuda deste, prossegue em busca da cabra, mas os berros da cabra perdida parecem confundir-se com os gemidos de uma mulher. Encontram-se com Francisco Bragadas, o pescador que lhes diz não haver peixe, porque é "má noite". Finalmente, sem achar a cabra, deparam-se com Josefa, desesperada e moribunda. Momentos depois, está morta nos braços de Luís, e é rodeada por várias pessoas da aldeia de Santo Aleixo, incluindo o pai (João da Lage), homem embrutecido pelo trabalho e pelo álcool, e a mãe (Maria da Lage), uma mulher completamente desvairada com o sucedido. Pode-se, assim, dizer que a novela abre com uma sequência de verdadeiro clímax dramático.

2.

Enterro de Josefa: no dia seguinte, a 28 de Agosto de 1813. Comentários do minorista da Póvoa (Bento Fernandes), que veio assistir aos responsos pela falecida, e do escrivão do juiz de paz (Maurício), que também viera dar os pêsames à família enlutada. Falam da hipótese de suicídio de Josefa, com uma diferença: o primeiro, mostra-se mais reservado e respeitoso, movido por um sentimento de caridade cristã; enquanto o segundo se revela mais irónico e malicioso. Reflexões do narrador-repórter, que intervém brevemente para justificar uma visão realista e "anatómica", como exigência da "época de escalpelo" em que se vive. Como vemos, comparada com a anterior sequência narrativa, estamos perante um momento de clara distensão dramática.

3.

Amores de Josefa: só então um narrador omnisciente preenche as lacunas das sequências narrativas precedentes, contando os eventos que precederam a misteriosa morte de Josefa – o "amor selvagem" de António e Josefa no bosque da Ínsua, pelos meses de Verão e Outono de 1812. Segue-se a promessa de casamento por parte do jovem Antoninho, que depara com a autoritária oposição do pai, Cristóvão de Queirós, cioso da sua posição social. Pela Páscoa de 1813, Josefa descobre que está grávida, esperando ansiosamente que o amante cumpra o prometido. Entretanto, Josefa encobre a sua gravidez com uma falsa doença, permanecendo na cama. O pai de António impõe-lhe uma noiva fidalga da sua escolha, mas António mostra-se determinado a só "casar com uma rapariga de baixa condição". Perante a teimosia do filho, proibi-o de assinar o nome de Queirós de Meneses, não hesitando em mandar prendê-lo no Limoeiro (Lisboa).

4.

Fuga e perdição de Josefa: por intermédio de um amigo e da sua astuta caseira (Rosária Tocha), António manda recado a Josefa, para fugir de casa dos seus pais e se encontrar com ele, quando viesse de Lisboa. Só quando Josefa se prepara ansiosamente para fugir, é que a mãe, a rigorosa Maria da Lage, se apercebe da sua gravidez, explodindo de raiva chamando-lhe "mulher perdida" e rogando-lhe pragas. Profundamente emocionada com a fuga, Josefa dá à luz prematuramente, quando contava apenas oito meses. Ao entardecer, sai alvoroçada em direcção ao rio Tâmega, conforme o indicado. Porém, surge um imprevisto: chorando com dores, torvada, desfalecida e com vertigens, tem dificuldade em atravessar as poldras do rio e, num dos lanços, eis que o berço de vime onde levava o filho recém-nascido lhe cai na forte corrente do rio. Tenta alcançá-lo, mas não consegue. Desesperadamente, lança-se ao rio, mas a luz das estrelas não lhe dá a claridade suficiente para avistar o berço. Dirige-se, então, para a margem, pensando avistar o berço, mas, agonizante, só consegue agarrar-se ao ramo de um salgueiro. É aqui que o moleiro a encontra, já quase sem vida.

"Sabem os sucessos posteriores", anota o narrador, pondo fim à longa analepse com que se preenche a informação ocultada pela alteração da ordem temporal dos eventos, retomando, assim, o fio narrativo da 1ª sequência. Apenas se adianta que, informado do (pretenso) suicídio de Josefa, António vai para o Brasil, tentar esquecer a trágica interrupção da sua felicidade.

A 2ª Parte da novela começa exactamente no ponto em que termina a história da 1ª Parte. É constituída pela história da filha enjeitada, a criança encontrada no rio pelo pescador Francisco Bragadas. Baptizada com o nome de Maria Moisés, é criada na quinta de Santa Eulália. Recorde-se, marginalmente, que o motivo temático do filho(a) enjeitado(a) é relativamente frequente na ficção camiliana, sendo origem das romanescas cenas do reencontro ou reconhecimento, como irá acontecer na derradeira cena de Maria Moisés.

Recolhida pelo caseiro da quinta de santa Eulália, a jovem Maria Moisés é adoptada pelos fidalgos de Santa Eulália e educada sob a orientação do bondoso Cónego João Correia Botelho, acabando por herdar a quinta de Santa Eulália. Aos 18 anos, manifesta a vocação da sua vida: "criar meninos enjeitados!", isto é, dedicar-se a uma vida de amor caridoso pelos mais pobres e abandonados, como ela o fora. Paulatinamente, lá vão chegando as crianças, que ela alimenta e educa com desvelos maternais e uma generosidade quase sem limites, "porque o prazer de dar é muito maior que o de receber". Parece que o seu nome, de inspiração bíblico-religiosa, se revelava um elemento predestinador deste "plano caritativo" (p. 181).

Por fim, passados quase quarenta anos, e como uma manifestação da Providência divina (que aqui agracia, e não castiga), surge a cena do encontro entre pai e filha ou reconhecimento, cena que na tragédia grega se designava por anagnórisis. O amargurado emigrante brasileiro abraça a filha perdida, num sublime lance que a ficção romanesca de Camilo tradicionalmente explora:

"(...) E, tomando as mãos de Maria, prosseguiu: – Se eu morrer debaixo da luz dos teus olhos, Deus me chamará a si, não pelos meus merecimentos, mas pelas virtudes de minha filha. Pedirás então a Deus por teu pai, Maria?

– Eu! Jesus! Eu sua filha! – clamou ela, pondo as mãos convulsas, quando ele a beijava na fronte.

Maria caíu de joelhos, pendente dos braços do pai; e os velhos e as crianças ajoelharam também, trementes e extáticos, sob a faísca eléctrica daquele sublime lance" (p. 208).

Tal como fizemos antes, também as várias sequências narrativas desta 2ª Parte podem ser apresentadas, resumidamente, deste modo:


5.

Achamento e criação de Maria Moisés: o pescador Francisco Bragadas encontra uma criança abandona junto ao rio Tâmega, salva milagrosamente num berço de vime, e adopta-a como filha, a juntar aos onze que já tem. Dada a fama do aposentado dr. Teotónio de Valadares, as duas manas solteironas (D. Maria Tibúrcia e D. Maria Filipa) ainda colocam a hipótese de se tratar de mais um dos seus filhos ilegítimos. A criança é, depois, baptizada com o nome de Maria Moisés, a 28 de Agosto de 1813, precisamente o dia em que sua mãe Josefa também era enterrada em Santo Aleixo. O nome é escolhido pela família fidalga da quinta de Santa Eulália , que trata carinhosamente a pequena enjeitada. O cónego bracarense João Correia Botelho assume a orientação educativa da jovem Maria Moisés, enviando-a, aos 15 anos, para o Convento das Teresinhas, em Braga.

6.

Vida virtuosa da santa Moisés: regressada do Convento, três anos depois, a jovem Maria Moisés confessa ao Cónego Correia Botelho a sua opção de vida: a sua vocação era criar enjeitados como ela, isto é, exercer a caridade na figura das crianças pobres e desamparadas, consequência da "dissolução dos costumes". Recolhe-as, baptiza-as, alimenta-as, educa-as e prepara-as para a vida adulta. A sua vida virtuosa é sustentada pela herança legada pela sua madrinha, da quinta de Santa Eulália, bem como pelos generosos apoios do bondoso Cónego bracarense, falecido em 1836. Um dos mais elucidativos exemplos da vida caritativa de Maria Moisés, foi o modo discreto mas decidido como resolveu ocultar a gravidez da sua "irmã", a filha do próprio Francisco Bragadas, cujo noivo falece inesperadamente. Entretanto, a fama da santa Moisés estende-se rapidamente pelas terras em redor.

7.

Regresso de pai e reconhecimento: em 1850, ao fim de 37 anos de forçado e doloroso auto-exílio, o velho António de Queirós regressa do Brasil, reformado na patente de general. Passeando pela aldeia, conversa com duas pessoas que o ajudam a "reviver o passado", que ele magoadamente, nunca esquecera, mas sobretudo a encontrar a sua filha: o reitor de São Salvador, o Padre Bento Fernandes, o então minorista da Póvoa que assistira aos responsos por alma de Josefa; e Fernando Gonçalves Penha, amigo da juventude. Inteirado das dificuldades económicas por que passava Maria Moisés, dirige-se à quinta de Santa Eulália com o propósito de a comprar. Nesta altura, aparece-lhe Maria Moisés rodeada de 13 crianças desamparadas. Dá-se, então, a previsível e emocionada cena do reconhecimento entre pai e filha, classificada pelo narrador como um "sublime lance". O mesmo narrador encerra a história com uma invocação ao amigo e poeta romântico Tomás Ribeiro, e uma violenta invectiva satírica que tem como alvo a nova escola realista e a sua doentia predilecção pelas cores fortes e pela podridão social.

Do que até aqui se foi dizendo, sobressai o sentido edificante assumido pela novela Maria Moisés. A dupla história duma mãe que se perde, ao entregar-se à paixão, e duma filha enjeitada que redime o pecado dos pais, através duma virtuosa vocação para a caridade, constitui-se naturalmente como fábula narrativa com uma moralidade manifesta. Isso mesmo foi assinalado pela crítica desta novela:

"O mesmo sentido edificante, de timbre cristão, distingue a segunda parte de Maria Moisés. A heroína é um símbolo vivo da caridade (...); a enjeitada, dedica a vida a outros enjeitados, o que é um modo de saldar uma dívida pessoal de gratidão (...). António de Queirós, por seu turno, vem reparar o mal feito a Josefa proporcionando a Maria Moisés, sua filha, as condições para cumprir a sua missão e o seu sonho" (1).

Por tudo isto, creio que, diante da bipartição expressa pelo autor e sobretudo perante o significado das sequências narrativas que as compõem, sobressai a necessidade de aprofundar a ideia da distinção narrativa e temática entre a 1ª e a 2ª Partes da novela, de modo a visualizar melhor um dos temas mais englobantes da mundividência camiliana, o perene conflito entre o Mal e o Bem:

1ª PARTE:

HISTÓRIA PASSIONAL

(de PERDIÇÃO)

2ª PARTE:

HISTÓRIA "HAGIOGRÁFICA"

(de SALVAÇÃO)

Amor-paixão

de Josefa da Lage, a amante

apaixonada

Caridade cristã

de Maria Moisés, solteira e casta enjeitada

Vida atribulada de uma jovem mulher perdida. É a história exemplar de um verdadeiro amor de perdição.

Esta mulher que se deixa atrair pela paixão e pelo prazer, é qualificada pela mentalidade popular como: perdida, desonrada, manchada, amaldiçoada.

Vida virtuosa da santa Moisés e a sua caridade pelos pobres. É a história modelar de um amor de salvação.

Esta mulher que dedica a sua vida ao amor pelos desprotegidos merece os qualificativos de: anjo, mãe dos pobres, santa Moisés, mulher bendita...

Espaço: colorido minhoto

Como se depreende do título geral da colectânea (Novelas do Minho) que a novela Maria Moisés integra, estamos imersos em plena paisagem minhota embora geograficamente próximos da província de Trás-os-Montes. Sem cair em estéreis biografismos, não podemos esquecer que é uma região que o próprio escritor conhece bem, desde os tempos da infância e adolescência. Assim, a acção da novela Maria Moisés decorre num espaço geográfico relativamente limitado, uma vez que se centra numa pequena região, mais concretamente no pequeno concelho de Ribeira de Pena, junto ao rio Tâmega:

1ª Parte: freguesia de Santo Aleixo de além-Tâmega, com a particularização de vários lugares ou propriedades, como: Ínsua, Cangosta do Estêvão, Várzea das Poldras, Agra da Cruz, bravio do Pimenta, campo da Lagoa, quinta do Enxertado, Granja, Cimo de Vila, Cavês, encruzilhada do Mato, etc.

2ª Parte: freguesia de São Salvador de aquém-Tâmega (freguesia sede do conselho), mencionando também lugares como: Quinta de Santa Eulália, Quinta do Enxertado, casa da Temporã, etc. (além dos vários lugares referidos na 1ª Parte).


Convém ainda fazer duas observações quanto ao espaço geográfico. Primeiro, que a narração camiliana dá preferência aos espaços externos e abertos, e não tanto aos interiores. Segundo, que além do espaço rural mencionado, a acção de Maria Moisés comporta ainda referências, menos importantes, a outros espaços físicos. No entanto, é curioso fazer esse levantamento, até para termos uma ideia da geografia camiliana:

– Arco de Baúlhe (de onde eram naturais os senhores da quinta de S.ta Eulália)

– Barroso

– Braga (estadia de Maria Moisés no Convento das Teresinhas)

– Cavês (em cuja capela se celebrava o São Bartolomeu, a 24 de Agosto)

– Cerva

– Chaves (onde assentou praça o cadete António de Queirós)

– Cimo de Vila (lugar de S. Salvador, naturalidade dos Queiroses e Meneses)

– Coimbra (estudos de António de Queirós)

– Friúme (lugar de S. Salvador, naturalidade do boticário que tratou de Josefa)

– Lisboa (prisão do Limoeiro, onde esteve António, por ordem do pai)

– Póvoa (de onde era natural o minorista Bento Fernandes)

– Santa Maria de Covas (onde viveu e morreu Maria da Lage depois da tragédia)

– Santa Marinha (cujo pároco revelou a Cristóvão de Queirós a gravidez de Josefa)

– Trofa (lugar de S. Salvador)

– Vendas Novas (naturalidade do barbeiro que viria "sangrar" Josefa)

– Vila Pouca de Aguiar (cujo correio foi subornado pelo pai de António)

Esta aparente dispersão espacial não contradita a manifesta unidade de espaço em torno das duas aldeias referidas (Santo Aleixo e São Salvador). Além disso, há que sublinhar a capacidade de Camilo para nos dar a cor local, isto é, para nos descrever a paisagem física e humana em toda a sua riqueza e variedade. Sobre o espaço social, vejam-se adiante as considerações sobre os tipos sociais [ver Cap. 2].

Aos aspectos referidos sobre o espaço geográfico, temos de acrescentar um outro: o da inspiração histórica de Camilo. Com efeito, é curioso anotar, até para que conste no "haver" do realismo camiliano, que a grande maioria destes lugares existiram (ou existem ainda), bem como várias personagens que os habitaram. O escritor conhecera a região nos tempos da juventude e, passados bastantes anos, já instalado em S. Miguel de Ceide (Famalicão), consegue recriar, a partir da sua activa memória, uma parcela da vida aldeã da região de Ribeira de Pena. Assim se percebe melhor uma conhecida afirmação de Camilo, quando dizia: "Eu não tenho imaginação, tenho memória". Por isso, sem cair no perigo do biografismo, ao discorrer sobre este assunto, o consagrado ensaísta camiliano Jacinto do Prado Coelho fala acertadamente em realismo do vivido (2).

Isso mesmo foi comprovado por alguns curiosos camilianistas, que se deram ao trabalho de confirmar a referencialidade de lugares e personagens das Novelas do Minho, dando assim um fundo histórico ao realismo rústico de Camilo. Como exemplo, fiquemos com um excerto do camiliano Alberto Pimentel:

"É que, na Maria Moisés, toda a nomenclatura topográfica corresponde à realidade, se exceptuarmos talvez a localização da quinta de Santa Eulália na margem direita e mais duas referências: Agra da Cruz, que poderá ser a quinta dos Agras, e Vendas Novas, que é Venda Nova. / Tudo mais está certo: o bravio do Pimenta, que foi cultivado e passou a denominar-se Conquesturas; o Campo da Lagoa; a Encruzilhada do Mato, onde há, realmente, uma caixa das Almas; a Temporâ, onde existe uma capela vinculada que pertenceu ao conde de Basto; as poldras, a azenha... tudo, tudo, enfim, recordado saudosamente, doloridamente, tenazmente, como se não houvessem já decorrido muitos e trabalhosos anos" (3).

Com as mesmas preocupações se deve ler as reflexões de António Canavarro Valladares, num texto crítico intitulado "Camilo e Ribeira de Pena: a génese de Maria Moisés" (4). Descendente de figuras históricas que terão inspirado algumas personagens desta novela camiliana, o autor apresenta uma série de documentos para comprovar a historicidade de algumas personagens e de diversas casas ou lugares. Se serve para alguma coisa, este tipo de reflexão crítica, de natureza genética e historicista, é para demonstrar cabalmente as capacidades criativas e transfiguradoras da ficção camiliana, a partir de um reduzido fundo histórico, como aliás o próprio autor reconhece na conclusão, embora dum modo algo mitigado:

"Por tudo isto parece-nos lícito afirmar que o genial autor de Maria Moisés aproveitou daqui e dali muitos elementos e personagens verdadeiros, misturou-os e plasmou-os com a sua extraordinária capacidade de efabulação e a grandiosa veia lírica do seu estro, produzindo deste modo uma das mais formosas, admiráveis e perfeitas novelas portuguesas. Tal foi, quanto a nós, a génese de Maria Moisés" (5).

Com efeito, além de apresentarem um interesse bastante reduzido para a compreensão de uma obra ficcional, como a novela Maria Moisés, este tipo de estudos críticos devem-nos perecer naturais precauções. Como sabemos, a compreensão e fruição estética do texto literário prescinde deste tipo de informações – da correspondência histórica de lugares e pessoas do mundo da ficção –, mas também não as deve ocultar, nem que seja por razões sociológico-culturais. E, em alguns casos, como o da ficção camiliana, podem-se inferir algumas interessantes conclusões acerca do processo criativo ou do tipo de realismo do escritor.

Tempo: dissolução dos costumes

Antes de mais, no que respeita ao contexto histórico em que se situam os factos narrados, pode-se dizer que, por comparação ao sub-género da novela ou romance históricos, a acção de Maria Moisés é actual, decorrendo no primeiro quartel do séc. XIX, mais precisamente pelos anos de 1812-13, na 1ª Parte; e no segundo quartel, até meados do século, na 2ª Parte. Nos eventos constitutivos da narrativa e nas falas das personagens, ainda estão presentes dois acontecimentos ou momentos políticos que marcaram a sociedade portuguesa dessas épocas:


A Revolução francesa e as invasões da tropas napoleónicas:

Uma das primeiras personagens com que o leitor de confronta é Luís Moleiro, participante na campanha militar do Rossilhão (1792), já no final do reinado de D. Maria II. Nessa altura, vários países europeus, unidos por uma convenção, tentavam travar os ventos revolucionários do poder de Napoleão. Escusado será recordar que este Luís Moleiro era considerados um "homem de maus costumes", sem prática católica e, para cúmulo do anti-patriotismo, dizia-se que nem sequer matara um francês... Também Maurício, o jovem escrivão do juiz de paz, se referia entusiasmadamente à "carniceira da Revolução Francesa" como "a grande operação da catarata social".

Já na 2ª parte, numa conversa entre o erudito Desembargador Dr. Teotónio Valadares e o Cónego Correia Botelho, faz-se referência ao perigo das ideias oriundas de França, mencionando Voltaire, entre outros autores, apontando-se o dedo aos princípios democráticos e igualitários, ou seja, ao "advento monstruoso das ideias jacobinas" (6).

O clima de crise e efervescência política :

Do período conturbado, que remonta ao período revolucionário da implantação do sistema monárquico-constitucional, de matriz liberal, são apresentados ao leitor três partidos que lutavam pelo poder no Portugal pré-Regeneração: os cabralistas (Setembristas e alguns partidários da Carta Constitucional); os saldanhistas (quase todos os cartistas); e os patuleias (fiéis do partido miguelista).

Como acontece noutras narrativas camilianas, a ideologia política é um dos processos de caracterização do perfil de determinadas personagens. Assim, por exemplo, ficamos a saber que o ilustrado Cónego bracarense Correia Botelho mostra-se simpatizante da facção liberalista; enquanto o modesto P.e Bento Fernandes é partidário de D. Miguel e dos absolutistas. São do velho Reitor de aquém-Tâmega estas considerações a propósito das dificuldades financeiras por que passava Maria Moisés:


"É uma bonita propriedade; mas ninguém lhe dá o que ela vale, porque não há dinheiro, e quem o tem fecha-se com ele, por medo das revoluções que são umas atrás das outras. Os Cabralistas querem dinheiro, os Patuleias querem dinheiro; agora dizem que os Saldanhistas vão sair com a procissão porque querem dinheiro, e quem não for uma das três cousas há-de pagar para todos os três partidos. Eu não sei com quem tenho a honra de falar, mas sou franco; o que eu digo é que Deus traga o Sr. D. Miguel I a ver se Portugal se endireita de vez" (pp. 197-8).

Já no que respeita ao tempo narrativo e à importante articulação, de inspiração estruturalista, do tempo da história (ou da diegese) com o tempo do discurso, podemos dizer que a novela é marcada por dois andamentos distintos, um mais lento, seguido de outro mais rápido. Sistematizando:

Na 1ª Parte, presenciamos um tempo mais concentrado (cerca de um ano apenas), em que o tempo do discurso recorre a manifesta anacronia, alterando assim a ordem cronológica dos acontecimentos: inicia-se a narrativa pela fuga e morte de Josefa da Lage (noite de 24 de Agosto de 1813), para só depois o leitor ser inteirado dos factos que conduziram a essa morte misteriosa – por outras palavras, presente, passado, presente.

Estamos perante um caso paradigmático de ordenação in medias res, em que o narrador começa a contar eventos que pertencem a uma fase adiantada da história, completando, posteriormente, os factos ocultados com uma longa e detalhada analepse. Por outras palavras, a 1ª Parte (história de Josefa da Lage) observa a típica arquitectura da narrativa policial: primeiro, a morte misteriosa; depois, a indagação dos antecedentes que explicam o intrigante desfecho.

Na 2ª Parte, ao contrário, temos um fluir temporal mais rápido, até porque o tempo da história abarcado pelos eventos narrados é bem mais longo (desde 1813 até 1850) (7). Por isso, sem alterar radicalmente a ordem temporal e a sua lógica linear, o narrador manipula a velocidade imprimida ao relato, através dos típicos processos de cortes temporais (elipse) ou de resumos (sumário):

"Foi por aí que deslizaram três meses do Estio e outono de 1812 (...)" (p. 131).

"Passados os cinco meses aprazados (...)" (p. 133)

"Na primavera seguinte, Maria e Joaquina voltaram à quinta" (p. 181).

"Em 1850, trinta e oito anos depois que saíra de Portugal, chegou à sua casa de Cimo de Vila, em Ribeira de Pena, António de Queirós e Meneses (...). Tinha sessenta anos" (p. 184)

A relativa linearidade do tempo narrativo é apenas entrecortada pelas reminiscências analépticas de algumas personagens, que, passados vários anos, recordam alguns pormenores do trágico Agosto de 1813.

Como vemos, a técnica narrativa adoptada permite ao narrador camiliano gerir, a seu belo prazer, aquilo a que podemos chamar de estratégia retórica do segredo e do equívoco: primeiro, o leitor é confrontado com uma morte de que desconhece os antecedentes; depois, por intermédio de algumas personagens, sustenta-se a tese equívoca do suicídio de Josefa (8).

Em síntese, estamos diante duma narrativa sentimental, situada num passado relativamente recente, balizada por acontecimentos políticos relevantes, ao contrário do romance histórico tão cultivado pelo gosto romântico. As duas partes em que se divide, correspondem a duas histórias, cada qual com sua protagonista, ou, se assim o entendermos, a dois ritmos ou "andamentos" distintos da mesma história. Como pano de fundo duma história de amores infelizes (amor de perdição) e dum caso exemplar de solidariedade cristã (amor de salvação), o leitor depara-se com uma visão pouco pitoresca e até algo amarga do Minho, das suas gentes e dos seus valores, como teremos oportunidade de assinalar no capítulo seguinte.

___________________________

(1) Jacinto P. COELHO, op. cit., 1971, pp. V-VI.

(2) Cf. Jacinto do Prado COELHO, Introdução ao Estudo da Novelística Camiliana, vol. II, Lisboa, IN-CM, 1983, pp. 14 e 339.

(3) Idem, Nota Preliminar a Maria Moisés, Novelas do Minho, vol. II, 1971, pp. XIII-XIV.

(4) In Boletim de Trabalhos Históricos, vol. XXXI (1981), Guimarães, pp. 7-30.

(5) Id. ib., p. 30.

(6) Curiosamente, em Dezembro de 1826, desenrolou-se uma batalha no lugar de Cavês, junto ao rio Tâmega, onde se confrontaram os defensores do governo liberal e os partidários absolutistas de D. Miguel — o Portugal tradicional, aristocrático e católico combatia o Portugal novo, liberal revolucionário... Ver Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, vol. I, 7ª ed., Lisboa, Guimarães Ed., 1953, p. 66.

(7) De passagem, anote-se o pequeno lapso cometido pelo narrador camiliano, ao dizer que António de Queirós regressou do Brasil 38 anos depois de se ter ausentado. Tendo partido em 1813 e regressado em 1850, a ausência soma 37 anos. Aliás, na conversa entre o general e o Padre Bento, o narrador camiliano corrige a pequena incongruência temporal (ver p. 196).

(8) Sobre este aspecto, ver as considerações de Abel Barros Baptista, em Novelas do Minho, Lisboa, Ed. Comunicação, 1994, pp. 42-48.

J. Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa – Braga)

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