Encontraram-se no meio do centro comercial.
– Marília, como vais?
– Olá, Bruno. Há quanto tempo!
Trocaram beijos, riram e sentaram-se numa esplanada
próxima a beber uma água mineral. Não se viam desde que ela foi colocada numa
escola do Alentejo. A Marília contou que tinha casado com um alentejano. Era
professor na escola, entraram à confiança, daí a meses estavam casados. O Bruno
quis saber que tal era o marido.
– O João é um rapaz pacato. É filho único e tirarem-no
de Beja é porem-no indisposto. Eu não gosto de Beja. Tenho cá os meus pais, os meus amigos. Aquilo é demasiado pequeno, não há para onde ir. O João, quando me
acompanha, vem contrariado. É carinhoso, trata-me bem, disso não me posso queixar. Mas é muito fechado. Dificilmente conseguimos ter uma conversa
decente. Ao serão, sentamo-nos à frente do televisor calados, ele a corrigir testes dos alunos, eu a folhear uma revista. Damo-nos bem.
– Ele veio contigo?
– Não, desta vez não pôde vir. Tinha de ficar a ajudar
os pais a fazer não sei o quê. Ele não queria que eu viesse, mas eu tinha já
saudades da minha família e dos amigos. Que bom encontrar-te! Estás um pouco
mais magro.
– Achas? E eu que tinha a impressão de me andar a
crescer a barriga!
– Sempre o mesmo brincalhão. E a tua esposa, como vai?
Já tendes algum filhote?
– Nenhum.
– Mas não quereis?
– Andamos a pensar nisso. E tu?
– Oh! O João diz que ainda é cedo para termos filhos.
Eu preferia tê-los já. Ele diz que é melhor quando estivermos efectivos numa
escola e quando tivermos casa própria.
– Gostas do teu marido?
A Marília hesitou. Afinal porque é que casara com ele?
Nem o achara giro quando o conhecera, nem inteligente. Não foi pelo dinheiro,
que o não tinha, nem pelo carro, que era de um modelo vulgar. Casara com ele
como poderia ter casado com outro. Casara com ele porque viu os anos a passarem
ligeiros.
– Sim, gosto muito dele – respondeu. – E tu, que tal a
vida?
O Bruno falou-lhe da esposa, do trabalho na escola, do
quotidiano. Até que olhou o relógio e disse:
– É tarde. Tenho ainda umas voltas a dar.
A Marília olhou também o relógio.
– Nem demos pelo tempo. Foi bom ter-te encontrado.
Mesmo bom. É pena não podermos conversar mais vezes. Estamos tão longe um do
outro...
Ele então lembrou-se:
– Tens algum compromisso para hoje à noite?
– Não. Ia ficar em casa com os meus pais.
– Então eu passo em tua casa às vinte. Poderemos
jantar e ir ao cinema, se desejares.
– Mas e a tua esposa?
– Ela não está cá. Desta vez vim sozinho passar dois
dias. Precisava de resolver uns assuntos relacionados com partilhas.
– Estarei à tua espera às vinte.
Pagaram a conta, trocaram beijos e cada um foi à vida.
Ambos se conheceram quando estudantes na universidade.
O Bruno gostava de conversar com ela e foi por pouco que não se tornaram
namorados. Tivera sempre receio que a Marília o achasse um tipo esquisito e não
quisesse arriscar um futuro na sua companhia. Pareciam aliás incompatíveis quer
no temperamento, quer nas vivências. Quando arranjou a primeira namorada,
pedira-lhe conselho. Ela dera-lho muito solícita, nada fazendo prever que
tivesse ficado ressentida com isso. Pareceu até alegrar-se muito com a escolha
dele.
A Marília não era uma beldade. Demasiado magra e de
cabelo muito curto – o Bruno gostava de cabelo comprido –, dificilmente lhe
poderia despertar algum desejo de conquista. Ele admirava-lhe sobretudo a boa
disposição, o à vontade para falar de tudo, o desprendimento, o desprezo pelo
comezinho da vida.
Terminaram o curso, foi trabalhar cada um para uma
ponta do país e iam tendo vagas notícias veiculadas pelos conhecidos que uma
vez por outra encontravam.
O Bruno apanhou-a dois minutos após a hora combinada.
Foram a um restaurante chinês, pediram sopa de ninho de andorinha e pato com
ananás. Não beberam vinho. O Bruno pediu uma cerveja sem álcool e a Marília um
refrigerante de laranja com gás. Falaram de alunos, de colegas, de professores.
Interromperam a conversa com as imprecações entre um
cliente sentado três mesas atrás e um empregado chinês. Parece que o cliente
não tinha dinheiro para pagar a conta. O chinês não o queria deixar sair. O
outro, um brutamontes de bigode à transmontano, teimava com ele. O chinês
ameaçou-o com a polícia. Ele riu-se e o empregado teve de o deixar ir embora
com uma vaga promessa de ali passar noutra altura para pagar.
– Por que não chamou a polícia? – perguntou o Bruno
quando o empregado foi levantar os pratos sujos do pato com ananás.
– Eu não quero complicações com a polícia.
– Teria a cozinheira ilegal? – perguntou o Bruno a
meia voz à Marília.
Pediram para sobremesa uma bola de gelado com rum
aquecida ao fogo. O Bruno por fim pagou a conta e saíram a comentar o desplante
do cliente que comeu o que quis e não pagou porque não quis ou não pôde.
Entraram no carro estacionado ali perto.
– E agora? – perguntou o Bruno. – Vamos ao cinema?
– Tens mesmo vontade? A mim apetecia-me conversar e no
cinema é difícil. Vamos para um sítio sossegado. Olha, estaciona o carro junto
ao rio. Sempre estaremos mais tranquilos e a paisagem nocturna é bonita, com as
luzes a reflectir na água.
O Bruno concordou. Percorreu várias ruas, atravessou a
ponte e estacionou a dois passos do paredão da margem. Daquele lado tinham a
cidade à frente, o espelho de água de permeio e milhares de luzes reflectidas
na água como um segundo céu.
Sentados no carro, olharam o rio, a ponte, as luzes
dos automóveis em cima num frenesim ininterrupto. Olharam-se depois, sorriram.
Então o Bruno pegou na mão da Marília. Ela aproximou os lábios e beijaram-se.
– Este beijo deveria ter acontecido há cinco anos
atrás – disse um deles.
(extracto)