José Leon Machado


Capa do livro 'Incompatíveis'

Capa do livro 'Incompatíveis'


Os Incompatíveis

de José Leon Machado

(Pré-publicação)


Velha amizade

Encontraram-se no meio do centro comercial.

– Marília, como vais?

– Olá, Bruno. Há quanto tempo!

Trocaram beijos, riram e sentaram-se numa esplanada próxima a beber uma água mineral. Não se viam desde que ela foi colocada numa escola do Alentejo. A Marília contou que tinha casado com um alentejano. Era professor na escola, entraram à confiança, daí a meses estavam casados. O Bruno quis saber que tal era o marido.

– O João é um rapaz pacato. É filho único e tirarem-no de Beja é porem-no indisposto. Eu não gosto de Beja. Tenho cá os meus pais, os meus amigos. Aquilo é demasiado pequeno, não há para onde ir. O João, quando me acompanha, vem contrariado. É carinhoso, trata-me bem, disso não me posso queixar. Mas é muito fechado. Dificilmente conseguimos ter uma conversa decente. Ao serão, sentamo-nos à frente do televisor calados, ele a corrigir testes dos alunos, eu a folhear uma revista. Damo-nos bem.

– Ele veio contigo?

– Não, desta vez não pôde vir. Tinha de ficar a ajudar os pais a fazer não sei o quê. Ele não queria que eu viesse, mas eu tinha já saudades da minha família e dos amigos. Que bom encontrar-te! Estás um pouco mais magro.

– Achas? E eu que tinha a impressão de me andar a crescer a barriga!

– Sempre o mesmo brincalhão. E a tua esposa, como vai? Já tendes algum filhote?

– Nenhum.

– Mas não quereis?

– Andamos a pensar nisso. E tu?

– Oh! O João diz que ainda é cedo para termos filhos. Eu preferia tê-los já. Ele diz que é melhor quando estivermos efectivos numa escola e quando tivermos casa própria.

– Gostas do teu marido?

A Marília hesitou. Afinal porque é que casara com ele? Nem o achara giro quando o conhecera, nem inteligente. Não foi pelo dinheiro, que o não tinha, nem pelo carro, que era de um modelo vulgar. Casara com ele como poderia ter casado com outro. Casara com ele porque viu os anos a passarem ligeiros.

– Sim, gosto muito dele – respondeu. – E tu, que tal a vida?

O Bruno falou-lhe da esposa, do trabalho na escola, do quotidiano. Até que olhou o relógio e disse:

– É tarde. Tenho ainda umas voltas a dar.

A Marília olhou também o relógio.

– Nem demos pelo tempo. Foi bom ter-te encontrado. Mesmo bom. É pena não podermos conversar mais vezes. Estamos tão longe um do outro...

Ele então lembrou-se:

– Tens algum compromisso para hoje à noite?

– Não. Ia ficar em casa com os meus pais.

– Então eu passo em tua casa às vinte. Poderemos jantar e ir ao cinema, se desejares.

– Mas e a tua esposa?

– Ela não está cá. Desta vez vim sozinho passar dois dias. Precisava de resolver uns assuntos relacionados com partilhas.

– Estarei à tua espera às vinte.

Pagaram a conta, trocaram beijos e cada um foi à vida.

 

Ambos se conheceram quando estudantes na universidade. O Bruno gostava de conversar com ela e foi por pouco que não se tornaram namorados. Tivera sempre receio que a Marília o achasse um tipo esquisito e não quisesse arriscar um futuro na sua companhia. Pareciam aliás incompatíveis quer no temperamento, quer nas vivências. Quando arranjou a primeira namorada, pedira-lhe conselho. Ela dera-lho muito solícita, nada fazendo prever que tivesse ficado ressentida com isso. Pareceu até alegrar-se muito com a escolha dele.

A Marília não era uma beldade. Demasiado magra e de cabelo muito curto – o Bruno gostava de cabelo comprido –, dificilmente lhe poderia despertar algum desejo de conquista. Ele admirava-lhe sobretudo a boa disposição, o à vontade para falar de tudo, o desprendimento, o desprezo pelo comezinho da vida.

Terminaram o curso, foi trabalhar cada um para uma ponta do país e iam tendo vagas notícias veiculadas pelos conhecidos que uma vez por outra encontravam.

 

O Bruno apanhou-a dois minutos após a hora combinada. Foram a um restaurante chinês, pediram sopa de ninho de andorinha e pato com ananás. Não beberam vinho. O Bruno pediu uma cerveja sem álcool e a Marília um refrigerante de laranja com gás. Falaram de alunos, de colegas, de professores.

Interromperam a conversa com as imprecações entre um cliente sentado três mesas atrás e um empregado chinês. Parece que o cliente não tinha dinheiro para pagar a conta. O chinês não o queria deixar sair. O outro, um brutamontes de bigode à transmontano, teimava com ele. O chinês ameaçou-o com a polícia. Ele riu-se e o empregado teve de o deixar ir embora com uma vaga promessa de ali passar noutra altura para pagar.

– Por que não chamou a polícia? – perguntou o Bruno quando o empregado foi levantar os pratos sujos do pato com ananás.

– Eu não quero complicações com a polícia.

– Teria a cozinheira ilegal? – perguntou o Bruno a meia voz à Marília.

Pediram para sobremesa uma bola de gelado com rum aquecida ao fogo. O Bruno por fim pagou a conta e saíram a comentar o desplante do cliente que comeu o que quis e não pagou porque não quis ou não pôde.

Entraram no carro estacionado ali perto.

– E agora? – perguntou o Bruno. – Vamos ao cinema?

– Tens mesmo vontade? A mim apetecia-me conversar e no cinema é difícil. Vamos para um sítio sossegado. Olha, estaciona o carro junto ao rio. Sempre estaremos mais tranquilos e a paisagem nocturna é bonita, com as luzes a reflectir na água.

O Bruno concordou. Percorreu várias ruas, atravessou a ponte e estacionou a dois passos do paredão da margem. Daquele lado tinham a cidade à frente, o espelho de água de permeio e milhares de luzes reflectidas na água como um segundo céu.

Sentados no carro, olharam o rio, a ponte, as luzes dos automóveis em cima num frenesim ininterrupto. Olharam-se depois, sorriram. Então o Bruno pegou na mão da Marília. Ela aproximou os lábios e beijaram-se.

– Este beijo deveria ter acontecido há cinco anos atrás – disse um deles.

(extracto)


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