Projecto Vercial

Alberto Augusto Miranda


Alberto Augusto Miranda - foto de José Frade, 1997

Alberto Augusto Miranda nasceu no dia 21 de Fevereiro de 1956 em Vila Real. Foi professor do ensino secundário em Lisboa, dedicando-se actualmente à escrita, à tradução e à crítica literária. É colaborador permanente da RDP-Antena Um. Foi coordenador de Las Jornadas de Literatura Galega (Lisboa, 25 a 30 Maio 1998).

Até ao momento publicou dezasseis livros, dos quais se reconhece apenas em: Dá-me com a Noite (poesia); Portografias (narrativa); Nojo (teatro); Vento (histórias para a Inocência).

Como encenador pôs em cena: Alma Até Almada a partir da obra de Almada Negreiros (1989); Ninguém Ama Ema cruzamento de Húmus de Raul Brandão e Os Sítios Sitiados de Luiza Neto Jorge (2001/2002).

Como tradutor, traduziu Alejandra Pizarnik, Angelica Liddell, Anne Sexton, Antonin Artaud, Antonio Gamoneda, Carlos Edmundo de Ory, Claudio Rodriguez, Emily Dickinson, Eunice Odio, Fernanda Castell, Héctor Rosales, Ildefonso Rodríguez, Ilhan Berk, José Angel Valente, Laura C. Skerk, Maite Dono, Manuel Lourenzo, Paul Éluard, Sabine Sicaud, Sylvia Plath, Virgínia Woolf.

Criou e dirige as Edições do Destinatário, Edições Tema, Edições Fluviais, Edições do Buraco com propósitos vários: a) - atender ao dentro de cada um, se cada um é cada um; b) - mostrar o não mostrado pelos agentes - vários - da coisa literária; c) - criar percursos autónomos e livres para a criação e desaguação; d) - Atender ao específico e à diferença sem neles interferir; e) - particular atenção às línguas e culturas escondidas do mercado, com incidência forte na língua e cultura galegas e na criação poética latino-americana.

Estas Edições Tema, Edições Fluviais e Edições do Buraco são parte constitutiva do Departamento Literário da Sociedade Guilherme Cossoul (Av. D. Carlos I, 61-1º 1200-647 Lisboa - Portugal. Tm: 965817337; Correio electrónico: ahahmiranda@hotmail.com). Este Departamento não vende nem distribui comercialmente os livros que edita, confia noutra coisa.


Outras páginas sobre o autor:

  • Alberto Augusto Miranda e as Edições Tema
  • Recensão a Não É Que Eu Saiba o Que Sei
  • Recensão a Vento


    SEMÂNTICA DO OLHAR


    Semântica do olhar

    1

    Como se as mãos para melhor se darem fossem senda
    Abríamos nos olhos o lugar onde deixáramos a noite
    Procura da qualidade do silêncio, da semântica da safira
    Onde o sol era fissura e anomalia, uma mentira
    Estranho, muito estranho, era o barulho do dia
    E outras ignoradas estranhezas pendiam questionantes
    Da força do destino, último sinal da existência

    2

    Nenhuma bioquímica emergia agora do namoro
    Que houvesse, que há? assim se quer saber
    Em vinte outonos de assombro pelas paradas pernas
    À beira-abismo, doce tentação de continuar
    Como se chamam as ninfas duêndicas do trabalho?
    Um autocarro de lama nos estonteava a quietude
    E a garimpa do ponto de contacto era um nada
    Legítimo e acrescentado pela nossa presença em si

    3

    A realidade torna-se medonha, coruscante e estentórea
    Passam, sem pausas, as imagens de outra dimensão
    Mas logo a combustão dos contornos nos faz mistura
    Mais não somos que um texto privado da particular unidade
    Com que os amores encantados se fazem distintos
    E o virtuosismo dos animais seráficos é só lembrança
    Que um vinho confraternal recorda no imperfeito
    Volvendo os suspiros ao lugar dos gritos imperecíveis

    4

    De repente uma chuva pudica permitiu algumas claridades
    Em baile de livre fêmea em cima dos tijolos
    Sazonando as seivas, vento embarcando as sementes
    Sem rugidos, espelho nosso de feras cheirando
    Os aromas do habitat perdido no momento da visita
    No salto reconhecido derradeiro de quem já tudo deu.

    5

    A ronda diurna de perfumes apertados em cimento
    Expôs as frágeis mãos ao domínio racional: ninguém
    Assim como nós éramos, pôde sequer pela húmida dança
    Ser tecido de andorinha, era o tempo das máscaras
    E todo o desenho era vago no seu rigor, na sua voz
    Chamante das cores e da surpresa, mas presa
    Era a humana condição de desafios mortos
    Algemas de um idioma de comunicação falho

    6

    Dissemos perdidas as guerreiras túnicas
    Quando o após nos estranhou de estarmos juntos
    Mesmo depois de destruirmos a eternidade
    Em nossos endiabramentos de omissão e ausência
    Agora nos bolsos nossas mãos apagaram a luz
    Não há lume neste escuro que da noite não é
    Chama-se a violeta para tocar a viagem para dois lados

    Semântica do Olhar
    , Lisboa, 1997


    Organon das profecias


    1

    Do século em seus espaços e tempos eu via
    Para lá do eixo funcional dos limites
    Animal de quinta dimensão mantido
    Ao choro unido sem quebra, cabra
    Indomável palavra em figura perpassando
    Sua digna continuada emoção.
    Subia a hortícola saia para me garantir
    Fazedora do esquecido vento em cada pulo

    2

    Passeava a cegueira pelo meu sorriso de fé
    Eu hostiava as sombras para as contentar de luz
    E tinha tanta verdade em meus olhos esplendida
    Que já nada temia do ameaçador espelho
    Afinal meu consolo, meu feito ser.
    Assim o levo nos meus bolsos e peitilhos
    Como documento de firmeza sempre preparado
    A saltar às conversas desditosas e às dúvidas
    A mim própria saltando. Mais do que a prece
    O espelho, o construído espelho, inquebrável
    Salvação, a minha alegria do divino.

    3

    Procurava os perdidos de nome e uma traviata
    Reconhecidos de mim nas águas dos extremos
    Arca de Noé, eu seria aparição no desespero
    Até no esquecido desespero de uma apática entrega
    Ao tridentino dono, industrial da lavoura dos nervos.
    Mais e melhor entrega eu lhes era dizer na boca
    O amor que nenhum lupanário conhece à vontade
    De Deus corpo no corpo do corpo sou e aos homens
    De membro em riste apenas os cerco de imagens
    As coxas, os seios, o sexo, deitados em mãos de nuvem
    E chuva do futuro em cada abandonante do presente
    O ósculo sagrado, o beijo da comunhão.

    4

    Não há verbo nacarado que consiga
    O aroma dos meus braços voantes e abertos
    À recolha da solidão e do desastre, os meninos
    Todos para mim, explosão de afecto em minha ara.
    Não há verbo, precisamos do silêncio para dizer
    Precisamos de sentir para falar em cada dedo
    Sulcando o meu ventre pelo escuro da origem
    Viajando até ao luar dos olhos compreendidos
    Sinais de todos os músculos e de outras forças
    De que me faço e me fazem embarcação
    Dos nautas que não desistiram do infinito.

    5

    Não faço todas estas coisas por Ele ou para Ele
    Em soma vos quero dizer: Ele não é meu
    Chulo! É por mim que tudo faço até na renúncia
    De omitir à cidade e a mim mesma omitir
    A minha sensualidade que julgo ser muita mas não quero
    Saber, tenho medo, tenho medo, tenho muito medo
    Da sua Revelação, não aguentaria a dupla fatalidade:
    Ser agnóstica sensual ou vulgar ninfeta
    Incapaz de ser única, tal a Vida seria.
    Tenho medo, tenho medo, tenho muito medo
    De a mim própria me nomear pássaro e não voar.
    Ó mãe, ó meu resíduo: é a parte do pai que fala.

    6

    Por inteiro, sem parábolas me prontifico
    A lavar-me de manchas para nos outros as lavar.
    Um primeiro quente me acaricia o rosto
    Na missão de ligar as almas ao Supremo
    Ao inacreditável, ao impossível, a todos os signos
    Prefixados de negação: sou-vos afirmativa,
    De mim corre e escorre tudo o que é meu
    Fonte vossa, nosso resultado, espiral
    Penteando os cabelos dos acessos difíceis
    Meu máximo gosto, minha máxima razão é
    Minha máxima culpa, meu máximo ser
    Clareando em perigo uma pequenina célula
    Locatária do escuro e meu máximo triunfo.

    7

    Algures, em retiro, sentava-me no areal
    E soprava na flauta de bisel edulcorantes sons
    Como virtuosa hameline seduzindo
    Pequenas multidões prontas de brancura atrás
    De mim, oásis em regaço sem miragem
    Hamsters abandonando o jogo da caça
    Alegres do Sol, primevas claridades
    Agora recuperadas na água baptismal
    Todo o passado apagando por esta tigela de alumínio
    Com que os faço nascer, lhes confiro um nome
    E pelo livre arbítrio os torno diferentes
    Em seus corpos inscrevendo
    Uma oração comum no discurso da semelhança.

    8

    Talvez seja assustador o meu extra-vento
    O tranquilo golpe da minha mirada
    O desafio de desafiar sem combate expresso
    Porque todos têm medo, muito medo
    De abandonar o refúgio do seu caos
    E saberem nas narinas o que lhes era sabido:
    O lado mordente da natureza de cada um,
    O lugar de árvore e fruto que era o seu
    O céu que queriam e a que nunca chegaram
    Por muito exercício e conquista em jejum
    Seus metaquímicos transes pudessem ser
    A palavra iniciática do profeta.

    9

    Eu de vento-rindo meu desmusculado segredo
    Pura e transparente mão do milagre ou
    Outro membro vos unte esses alimentos
    Onde cozinhais em transmitida receita
    Vosso mito por salgar
    Que hoje aprendi no organon das profecias
    Ser do profeta irredutível dever
    Falar ao ouvido das setas
    Em olhos reviravoltados.

    Semântica do Olhar
    , Lisboa, 1997



    Saída


    mulher a fazer vento espantada
    da falta do mesmo
    assim não se pranteando
    em ligeiros indícios com a mão lenta
    e um pé semovente um pouco à frente
    do que antes
    ter uma fé em suave detérmino
    devagar abandonando abandonos
    finíssima brisa nascendo em si
    sobrecalando rugidos, pancadas em rumor, gritos
    por detrás de onde a vemos sair agora
    em todos os lados o luar se faz divino
    sopro.

    Semântica do Olhar
    , Lisboa, 1997

    LINHA DE LINHO


    Contingente geral, ala progresso


    Contingente geral, ala progresso
    designo-te vencedor: será feita a tua vontade.
    contudo sem binómio: apenas tu farás a tua
    vontade.
    Quanto baste!
    Escorrer a montanha, sonhar o purismo,
    incensar de marginalidade a flauta de Pan
    no descanso do cão, os cordeirinhos desobrigados.
    Quanto paste!

    Linha de Linho
    , Vila Real, 1983


    O que eu desejava, realmente, era ir, esta noite, morrer à tua porta. Mas mora lá tanta gente que tu podias pensar que eu não tinha morrido à tua porta. Se ao menos o teu quarto tivesse uma varanda. Ou se praticasse a técnica da transferência e vivesse as imagens da substituição ou se sinceramente amasse a minha analista. Não sublimo os desejos por incapacidade. E recalco mais este. Não posso, como desejava realmente, ir morrer à tua porta. Fico a gemer. Se, ao menos, tu morresses!


    Linha de Linho, Vila Real, 1983

    A POESIA DE YVONNE M.



    fenícios


    o que de repente nos espanta a sensibilidade
    é a ausência do longe, a maneira fácil
    como inventamos e apagamos a distância.
    De tal modo aquela mancha branca
    aproximando-se como bando de fenícios
    devolvidos ao seu retalho de vidro
    onde as nossas imagens se cruzam
    perante a perplexidade do mito
    sem recurso para novo espaço
    exilado dos cristais onde os humanos
    brincam e se bastam.

    A Poesia de Yvonne M.
    , Alentejo, 1988



    mas

    o que se me implora é o vento mas
    que esqueci; não por ser meu mas
    por eu o poder fazer chegar mas
    aos cabelos de quem o conheceu mas
    por mediunidade de corpos, embaraços, expulsões, mas
    de mim ninguém necessita mas
    apenas do eolismo que me sai das extremidades ou da boca mas
    pudessem calar-me e ficarem com o vento mas
    sem saberem que eu próprio queria o vento mas
    sem mim.

    A Poesia de Yvonne M.
    , Alentejo, 1988


    vozes


    oiço tantas vozes e nenhuma oiço
    já que cada uma se multiplica e eu não sei
    de cada voz senão a soma que é a minha
    voz conter tantas vozes e minha voz não ser
    a não ser quando disto fala por refreio
    ao que se escuta hoje dos movimentos de ontem
    e parecer ser justo diferenciar um quem
    que voz é mas torna a ser desconhecida
    sempre que a voz procurada denuncia
    à voz que procura a sua
    propriedade.


    A Poesia de Yvonne M.
    , Alentejo, 1988 (reprodução autorizada pelo autor)


    Voltar à página inicial

  • Site apoiado pelo Alfarrábio da Universidade do Minho | © 1996-2015 Projecto Vercial